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“Pátria grande”, seres humanos pequenos: como o nacionalismo apequena os cidadãos do país “engrandecido”
Donald Trump e o nacionalismo

Trump em discurso que promove um nacionalismo cheio de ódios e extremamente excludente. Foto: Christopher Gregory/Getty Images

O que o slogan Make America Great Again (“Faça a América Grande de Novo”) de Donald Trump e o antigo projeto “Brasil Potência” (ou “Brasil Grande”) têm em comum?

Ambos são projetos políticos de teor nacionalista de direita, que visam o “engrandecimento da pátria” e a construção ou restauração da glória nacional perante o mundo e os habitantes do país.

Mas será mesmo que esse tipo de política, que chamo aqui de “pátria grande”, realmente resulta num país, digamos, melhor de se viver e que realmente dá orgulho aos seus cidadãos? Ou a consequência é bem diferente disso?

 

O que os projetos de “pátria grande” propõem, e por que eles ainda são relevantes na época da hegemonia neoliberal

Propaganda nacionalista da ditadura civil-militar

Antes de sabermos a verdadeira essência e consequência da “pátria grande” nacionalista, precisamos lembrar o que ela defende.

Geralmente seu projeto é econômico, o de tornar o país uma potência mundial em riqueza, comércio e produção industrial, o que é buscado por meio de investimentos público-privados em infraestrutura, no desenvolvimento de grandes empresas estatais e no financiamento público de corporações privadas.

A contrapartida social desse tipo de política é arrebanhar os cidadãos em torno de uma ideologia nacionalista, que inclui, entre outras características, veneração quase religiosa à “pátria”, ódio à esquerda – da socialdemocrata à assumidamente comunista ou anarquista – e, muitas vezes, aversão a imigrantes pobres e sensação de “superioridade” em relação aos habitantes de outros países.

Foi o que moveu e move o projeto político da ditadura militar brasileira, o programa de governo de Donald Trump nos Estados Unidos e, de certa forma, os partidos nacionalistas de direita na Europa.

Esse movimento permanece importante hoje como uma reação de extrema-direita ao neoliberalismo, que tem alegadamente ameaçado os empregos dos compatriotas por meio da circulação de pessoas e da transferência das indústrias para países como a China.

Muitos conservadores têm se cansado das promessas não cumpridas do neoliberalismo, de trazer prosperidade ao país, e têm recorrido a alternativas ainda mais à direita do que os candidatos representantes do mercado financeiro. Foi isso que elegeu Trump nos EUA e tem ameaçado eleger outros candidatos direitistas radicais na Europa.

Só que as promessas desses radicais também tendem a ter um efeito muito diferente do que prometem. No sentido negativo mesmo.

 

O nacionalismo de direita que apequena, arruína e envergonha a nação e seus habitantes

Repressão na ditadura civil-militar

Repressão na ditadura civil-militar

Para muitos conservadores, as propostas dos nacionalistas de direita são “lindas” e “promissoras”. Mas uma análise com senso crítico mostra que essa “lindeza” esconde propostas e consequências assustadoramente feias.

Como primeiro exemplo, a reafirmação e fechamento parcial da nação perante o restante do mundo desenterra a mais terrível xenofobia e “legitima” outros ódios, como o racismo e a intolerância religiosa.

Nesse caso, muitos cidadãos do próprio país acabam completamente excluídos, marginalizados e mesmo violentamente perseguidos pelo projeto da “pátria grande”, como negros, indígenas, muçulmanos e imigrantes e descendentes da África, da América Latina, do Oriente Médio e da Ásia.

O segundo aspecto destrutivo é a doutrinação dos cidadãos para o ódio. A “harmonia” da “nação grandiosa” é baseada em intolerância e repressão contra movimentos sociais, partidos de esquerda e centro-esquerda, pessoas que se identificam com essas posições políticas, indivíduos de minorias políticas os quais se recusam a baixar a cabeça etc.

Isso sem falar da disseminação impune de outros ódios, como machismo, heterossexismo, transfobia, elitismo, capacitismo e gordofobia. Configura-se uma situação de uma a “pátria grande” que maltrata ou exclui a maioria de seus cidadãos – considerando que as minorias políticas somadas e combinadas compõem a grande maioria da população em países como o Brasil – e privilegia uns poucos.

É nesse aspecto de privilégio que vem a terceira característica em que a “pátria grande” é ridiculamente pequena. Nela, os únicos indivíduos realmente engrandecidos são os mais ricos, os grandes beneficiários do crescimento econômico e industrial do país, e os políticos, que vivem repletos de privilégios que o povo não pode questionar e contestar sob pena de ser brutalmente reprimido.

Nessa realidade, os trabalhadores não podem reclamar de estarem privados de direitos humanos, civis, trabalhistas, políticos, sociais, culturais e ambientais. Afinal, a “pátria grande” é uma grande ditadura em que o Estado mantém a ordem com mão de ferro e os políticos e empresários são liberados para lucrar e enriquecer com o dinheiro das classes da média para baixo.

Nesse enriquecimento econômico, o meio ambiente também sofre horrores, com o desmatamento, a poluição, o desperdício de recursos como água e terras, o extermínio em massa de animais e outros desastres ambientais. A reboque, vem o genocídio de povos indígenas, quilombolas e outras populações tradicionais.

Em resumo, por mais que ostente taxas elevadas de crescimento econômico, a “grande nação” mantém condições extremamente pequenas e cruéis para a grande maioria dos compatriotas. Uma “grandeza” que apequena os cidadãos – a ponto de torná-los insignificantes como indivíduos – e lhes é motivo de vergonha, ruína e vida precária.

Além disso, considerando todos esses aspectos do “país grande”, ele tende a não se sustentar por muito tempo. Em muitos casos, a insurreição popular é inevitável por causa da crueldade do Estado e do Mercado, a própria direita nacionalista não consegue se sustentar no poder com estabilidade e, além disso, o colapso ambiental a que o regime condena o país irá destruir completamente a “gloriosa” economia, ou pelo menos torná-la inviável de se manter sem os altos custos da importação de matérias-primas.

 

Considerações finais

Miséria na ditadura civil-militar

Miséria no Brasil dos anos 70, auge da ditadura

Os projetos de “nação grande” são todos ciladas, para o povo, os trabalhadores, as minorias políticas e o meio ambiente. E tendem a serem insustentáveis a longo prazo, ameaçando jogar o povo no abismo do colapso.

Sua máscara de grandiosidade esconde uma pequenez e uma crueldade que custará caro a todos, inclusive aos próprios defensores apaixonados do projeto nacionalista conservador. E entre esse custo, estarão milhares ou, nos piores casos, milhões de vidas humanas e bilhões ou trilhões de vidas de outros animais que serão violentamente perdidas.

Tendo em vista essas tenebrosas possibilidades, tenhamos ciência do quanto projetos político-econômicos desse tipo são perigosos. E lutemos e resistamos contra eles, antes que ceifem vidas e condenem o país e a maioria de seus habitantes a uma penosa vida de servidão ao Estado e ao Mercado. Ou seja, uma vida pequena numa “pátria” falsamente “grandiosa”.

 

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3 comentário(s). Venha deixar o seu também.

Rodrigo Esteves

Abril 4 2017 Responder

Rapper denuncia a máfia farmacêutica
A brincar se dizem as verdades. Músico utiliza a arte para explicar ao mundo a teia onde estamos presos. Vale a pena perder dois minutos, depois disso mudarás o prisma:

https://www.youtube.com/watch?v=YMQXv-QA_0Y

Newton

Março 30 2017 Responder

O projeto economico citado é mais próximo de uma social-democracia do que de um governo de direita. O que caracteriza a esquerda é justamente o desenvolvimento de grandes empresas estatais.
Estatistas em geral dizem que, quando o governo é dono de uma empresa — ou de alguma jazida mineral ou petrolífera —, isso automaticamente faz com que “o povo” seja o proprietário dos recursos em questão. Isso significa que cada brasileiro é igualmente dono de uma fatia daquela empresa, e isso supostamente irá beneficiá-lo. Sendo assim, como existem 190 milhões de brasileiros, então cada brasileiro é “dono” de aproximadamente 1/190 milionésimo dos Correios.
E daí? Ser “dono” de uma ínfima fatia de um estatal não traz benefício algum ao cidadão médio. Ademais, a prerrogativa básica para que alguém se considere dono de algo é poder vender ou se desfazer desse bem quando quiser. Os brasileiros têm essa liberdade?

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