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abr17

Se você assistiu ao documentário “Não há amanhã”, calma. Provavelmente teremos sim um amanhã

Documentário There's No Tomorrow

Você já assistiu ao documentário Não há amanhã (There’s No Tomorrow, 2012)?

Ele divulga uma mensagem bastante apocalíptica e, de certo modo, desesperançosa, sobre o futuro da humanidade.

Mas será que esse material realmente tem uma análise acurada do que está por vir? Ou ele tem falhas que acabam invalidando, ainda que em parte, a falta de fé no futuro transmitida?

Dou uma dica: você pode se tranquilizar, porque provavelmente haverá sim um amanhã. Saiba neste artigo por quê.

 

As omissões e limitações do documentário

Queimada causada pela pecuária

A pecuária, a atividade de maior impacto ambiental no mundo, foi totalmente deixada de fora do documentário. Foto: autoria desconhecida

Assistindo ao documentário e confrontando com a complexidade da realidade, percebemos que ele incorre em muitas limitações, que inclusive dizem respeito à orientação político-ideológica e diversas crenças morais dos seus autores.

Eu encontrei as seguintes falhas no Não há amanhã:

  • Ignora completamente a pecuária e a fabricação de produtos de origem animal com matérias-primas oriundas dessa atividade. Exibe a situação da agricultura como se a criação animal não existisse e a humanidade não consumisse nada originado dela;
  • Não fala absolutamente nada sobre a substituição de alimentos de alto impacto ambiental, ou seja, a opção de eliminar do nosso consumo os produtos animais em favor de alimentos vegetarianos;
  • Não aborda os métodos considerados sustentáveis e ecoamigáveis de agricultura: orgânica, permacultura, agroecologia, agricultura familiar etc. Ficamos sem saber se há objeções, em termos de sustentabilidade produtiva, a esses métodos de produção alimentícia;
  • O agronegócio é tratado como se fosse um sistema de produção alimentícia insubstituível e desprovido de alternativas;
  • Trata a agricultura orgânica como se tivesse deixado de existir na “Revolução Verde” do século 20. Omite a resistência desse tipo de cultivo nesta época de agronegócio, transgenia e uso intensivo de agrotóxicos;
  • Omite também que papel e limites pode ter a valorização do transporte público (ônibus e transporte sobre trilhos) e do uso de transportes individuais limpos (bicicleta e deslocamento a pé) em detrimento do carro individual. Argumenta como se o uso deste último fosse uma necessidades fundamental intrínseca aos seres humanos;
  • Sequer toca no consumismo, uma característica central do paradigma do crescimento ilimitado. Ao lado da omissão da pecuária, essa é uma das mais graves limitações do documentário;
  • Também omite a obsolescência programada como fator que aumenta enormemente o consumo de recursos naturais;
  • Não faz uma abordagem sociopolítica de problemas como o paradigma do crescimento eterno e a insustentabilidade do sistema financeiro baseado em empréstimos e dívidas;
  • Nenhuma solução política é dada para os problemas listados. Tudo é descrito de um ponto de vista tecnocrático e individualista;
  • Os interesses políticos e econômicos por trás do paradigma do crescimento infinito, da produção insustentável de recursos e do sistema financeiro são ignorados e mantidos intocados, o que nos diz muito sobre as crenças políticas, tendentes ao liberalismo, de quem fez o documentário;
  • A possibilidade de se lutar pela derrubada do capitalismo é ignorada. No documentário, não existe outro sistema socioeconômico possível além do capitalismo (neo)liberal;
  • Em relação às “soluções”, restringe-se a ditar medidas individuais. Trata o problema descrito como algo apolítico e pensa a mudança social como a mera soma de atitudes individuais localizadas;
  • É profundamente fatalista. Desconhece a possibilidade de uma sociedade futura não capitalista, não consumista e livre da dependência intensiva de recursos naturais. Afirma que o modelo econômico-civilizacional vai para o buraco e tragar a humanidade junto, sem a possibilidade de mudança de sistema, como se fosse impossível para a espécie humana mudar sua ordem social e econômica;
  • Sequer cogita um reformismo que fosse substituir, no seio do capitalismo, o paradigma do crescimento infinito por outro que, por exemplo, focasse no crescimento de “bens” imateriais, como a felicidade e a educação. Com isso, ficamos sem saber até que ponto correntes como o liberalismo social, a socialdemocracia, o ecocapitalismo e a “Terceira Via” adiarão o predito colapso das sociedades modernas.

 

Em outras palavras…

Fé de que amanhã será melhor

Se assistirmos ao documentário com um bom conhecimento sobre alternativas ao capitalismo, ao consumismo e ao individualismo imoderado, concluiremos duas coisas.

Primeiro, o documentário fracassa ao tentar provar que “não haverá amanhã” e que estamos condenados a uma dolorosa extinção.

E segundo, provavelmente haverá sim um esperançoso amanhã para nós seres humanos e para a biosfera na qual habitamos, o que dependerá de mudarmos de sistema econômico e de ordem social e moral.

Desconfiemos de todo aquele que nos tenta convencer de que a humanidade é capitalista “por natureza”, que “não existem alternativas”, de que o triunfo do capitalismo de livre mercado foi o “fim da História”.

É esse raciocínio que, se for levado ao pé da letra, irá nos levar realmente para o abismo do colapso ambiental e econômico. Portanto, mostremos que temos alternativas e capacidade de construir um futuro ambientalmente sustentável, socialmente justo e economicamente ético.

Portanto, tenho a alegria de lhe dizer: tenha calma, porque há uma boa chances de que teremos um amanhã – que, com fé, será melhor do que hoje.

 

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