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“Não vote, lute”: por que esse mandamento, no contexto atual, é um gol contra das esquerdas

"Não vote, lute", um gol contra político

“Não vote, lute.”

Essa frase vem à tona a cada eleição no Brasil, de dois em dois anos, pintada em muros por grupos marxistas estudantis.

Segundo ela deixa a entender, votar não vai mudar nada no país, vai apenas manter a tradição política pouco democrática e cheia de vícios que temos.

Portanto, a melhor opção seria lutar por uma revolução armada, e conquistar e conceder para o povo o comando político de si mesmo e os meios de produção.

Mas será que esse pensamento faz sentido e tem efeitos positivos no contexto atual em que estamos vivendo, de ascensão da direita e declínio da esquerda partidária?

Ou ela está tendo consequências nada favoráveis às esquerdas como um todo?

 

Há condições de organizar uma revolução no Brasil de hoje?

A revolução é mesmo viável hoje?

A revolução é mesmo viável hoje?

Antes de pensarmos nas consequências desse mandamento, pensemos: realmente é possível substituir, no Brasil desta segunda metade da década de 2010, o voto pelo fuzil e os candidatos progressistas pelas guerrilhas revolucionárias?

É preciso, para responder a essa pergunta, refletirmos se o povo brasileiro, as camadas populares, os trabalhadores estão realmente sendo receptivos a ideologias de revolução. Ou melhor, se a palavra insurrecional está ao menos chegando nas comunidades pobres do país.

A partir do que eu pessoalmente tenho observado no ambiente universitário, nas redes sociais e nas ruas, a resposta, nesse caso, infelizmente não é nada favorável.

Pelo que se pode perceber atualmente, a revolução socialista é tema frequente de conversas apenas dentro dos grupos marxistas estudantis que pintam o “Não vote, lute” em muros e, de maneira hostil, entre as conversas dos conservadores mais paranoicos e radicais que acham que o PT é um partido comunista.

Não se vê os trabalhadores dos bares e padarias da periferia falando de se armar para enfrentar as forças armadas e tomar o poder. Acredito, aliás, que é o contrário que está acontecendo: um número maior de pessoas, mesmo nos bairros pobres, defende a criminosa “intervenção militar” do que o das que pregam ou apoiam uma insurreição armada popular.

Outro motivo que me leva a pensar que estamos astronomicamente longe de uma situação de preparação para uma insurreição popular e trabalhadora é que quem está falando para as massas não são as UJCs, UJRs, MEPRs e outros grupos revolucionários marxistas ou anarquistas.

Aliás como percebi, esses perderam o jeito de falar a língua do povo, comunicam-se em seus panfletos e postagens com muitos jargões demasiadamente ideológicos e linguajar muito carregado, alienígena até, para quem não entende muito de política e foi acostumado pela imprensa e pela internet a ver as “ideologias vermelhas” como “criações do mal”.

Quem está tocando os corações e mentes da população, ao invés, é a mídia conservadora. É ela que está convencendo as pessoas de crenças equivocadas como a de que o PT é o partido “mais corrupto da história brasileira”, que as “reformas” de Michel Temer são “necessárias”, que os pastores das igrejas-corporações pentecostais são portadores da “verdade absoluta” sobre Deus e o universo, que basta se esforçar por meio do empreendedorismo para prosperar, enriquecer e ser feliz etc.

Não é à toa que as periferias estão sendo conquistadas pelas ideologias neoliberal e conservadora, rejeitando prefeitos e candidatos petistas e psolistas e colocando gente de partidos como o PMDB, o PSDB, o DEM, o PSC e o PRB nas prefeituras e câmaras de vereadores de todo o país.

Isso me faz concluir que, ao contrário do que muitos sonhadores acreditam, não estamos nem um pouco perto das condições de a população trabalhadora aderir a uma revolução organizada que derrube a direita e os partidos reformistas e institua uma ordem política radicalmente democrática e totalmente nova.

Isso nos faz pensar: se não dá para lutar por uma insurreição popular revolucionária hoje, aonde o pensamento do “Não vote, lute” está levando as esquerdas apartidárias brasileiras?

 

O gol contra do boicote às urnas

João Doria eleito em 2016

João Doria, prefeito de São Paulo, um dos grandes beneficiários do boicote da esquerda às urnas em 2016. Foto: Daniel Teixeira/Estadão Conteúdo

Penso que o “Não vote, lute” é o posicionamento oficial apenas de alguns grupos relativamente pequenos de esquerda, mas infelizmente reflete em parte a desilusão de uma parcela muito maior das esquerdas brasileiras sobre o pouco potencial do voto de mudar o país.

Aliás, faço esta crítica num contexto em que, ao mesmo tempo que se defende o não voto, nenhum projeto alternativo realista e em estágio avançado de elaboração está concorrendo com o sistema político baseado em representatividade, partidos e eleições.

Alguns acreditam que a revolução socialista ou a derrubada do Estado pelos anarquistas seria a tal alternativa. Mas infelizmente, como eu já falei, no contexto de hoje não são.

Então, ficamos simplesmente sem alternativas que desafiem simultaneamente o capitalismo e a semidemocracia representativa. E aqui o “Não vote, lute” acaba sendo não um esforço para subverter e superar a lógica de fazer política só pelo voto, mas sim um generoso presente para a direita brasileira. Um belo de um gol contra de esquerda.

Se a esquerda não vota nem traz alternativas maduras e realistas ao ato de votar, então os candidatos identificados como de esquerda ou centro-esquerda ficam com bem menos votos do que se desejaria. Então, retirando-se os votos nulos e brancos e as abstenções, os conservadores, neoliberais e teocratas ganham de lavada as eleições, como foi o caso de João Doria em São Paulo, Crivella no Rio de Janeiro e muitos tucanos, peemedebistas e demais apoiadores do impeachment de Dilma Rousseff que desbancaram candidaturas petistas em todo o restante do Brasil.

Então, a esquerda fica sem alternativas políticas e sem votos, e praticamente confinada no underground da política. E a direita reina vitoriosa no país.

Não que o “Não vote, lute” tenha toda essa importância, até porque o clamor pelo boicote ativo às urnas, como eu disse, vem de grupos minoritários na esquerda. Mas acaba ajudando as esquerdas a negligenciar a importância de construírem e serem alternativas válidas para já, pelo voto, pela força da revolução ou por outro meio.

 

O que fazer então?

Vote e também lute

Eu penso que, nessa situação, cabe às esquerdas brasileiras se reerguer e, ao mesmo tempo, criar e oficializar partidos afinados com os tempos atuais, lançar e incentivar candidatos progressistas competitivos, com histórico notório de lutas sociais e carreira política, e construir, junto ao povo, por meio dos trabalhos de base, a alternativa que nos encaminhará para uma democracia participativa ao invés de meramente representativa.

Lembremo-nos que, em diversas ocasiões, as esquerdas tiveram que usar os instrumentos da ordem – e até hoje o fazem, por meio do uso de produtos industrializados de empresas privadas, dinheiro guardado em bancos, redes sociais de grandes corporações etc. – para construir novas ordens pós-capitalistas. Rejeitar essa estratégia, pelo menos em se tratando de lançar e defender candidaturas de esquerda, está sendo extremamente prejudicial e desmobilizante.

Ter pés no chão e desencanar do mandamento “Não vote, lute” é muito necessário hoje. Essa atitude poderá salvar as esquerdas do atual estado decadente, dar-lhes um importante gás e renovar as esperanças por novos projetos políticos que expandam a democracia e os direitos no Brasil e superem o capitalismo e o tão falho representativismo que tanto beneficia os homens brancos ricos.

Então, ao invés de “Não vote, lute”, comecemos a defender o “Vote e também lute”.

 

Este artigo está fazendo você refletir sobre o “Não vote, lute” e sua influência real na ordem política atual? Compartilhe-o e comente logo abaixo.

Alternativamente, discorda do texto? Acredita que se deve sim incentivar o boicote às urnas? Comente abaixo, falando sobre como o “Não vote, lute” poderia de fato nos levar a uma democracia real.

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7 comentário(s). Venha deixar o seu também.

Marcio

julho 13 2017 Responder

1- a família e destruída pela sociedade através do alcoolismo, do desemprego, do subemprego.
2-Empreendedorismo e caminho para o fracasso.A maioria das pequenas empresas abertas no país vão a falência. O país está cheio de micro empresários falidos.
3- não se pode estudar por causa do sucateamento das escolas e dos preços das mensalidades.
4-o indivíduo é massacrado pela sociedade como mostram os altos índices de depressão, drogadicao etc.
5-Ascencao social so existe dentro da própria classe: pobres menos pobres e ricos mais ricos.
6- O vício e cuidadosamente instigado na sociedade, como a cabeça, a inveja e o consumismo, sem os quais o capitalismo não funciona.
7-Tanto o estado como a iniciativa privada oferecem o pior para quem não tem dinheiro. Os dois desprezam o pobre.
8-nos ainda votamos porque a inconsequência dos políticos ainda não nos trouxe tragédias como guerras.O dia que isto acontecer nos vamos nos desiludir do voto
8- A esquerda e pior que a direita, porque trai os trabalhadores

José lara garcia

junho 21 2017 Responder

E…poderia sugerir algum nome que não quer a manutenção desse estado?
Algum nome que não deseja a manutenção do status quo?
O que vocês querem é continuar administrando o Estado burguês, e como bons administradores, recebendo as benesses.O Prêmio de operário padrão subserviente.
Declaramos guerra a burguesia, ao capital e seus fiéis cães de guarda.
Vocês que com o discurso de votar para não eleger a direita, tentam enganar a juventude,pois sabem,muito bem, o perigo que essa juventude representa para suas pretensões.
Libertem-se!
Não vote!
Lute!

Milena

Maio 4 2017 Responder

Concordo com o que foi dito a respeito da negligência quanto as mudanças realmente necessárias em nosso modelo político atual, assim como – e principalmente – no modo de pensar das pessoas.Acredito que é necessário sim incentivar o boicote às urnas. O poder corrompe, é um fato. Não tenho esperança de que seremos um dia, de fato representados por políticos. É sempre bom lembrar que a lei é feita por eles e para eles, logo, a grande maioria – trabalhadora – sempre pagará o pato. De fato apenas com uma revolução no pensamento do povo brasileiro e costumes – e nesta etapa acho importante sim o incentivo a inclusão candidatos competentes, com histórico notório de lutas sociais e carreira política – as pessoas estarão preparadas para as consequências de uma luta armada, de uma verdadeira revolução.

Esther

Abril 11 2017 Responder

Tanto os extremismos da Esquerda quanto os da Direita são ruins. Os países famosos por serem os melhores do mundo para se viver (Noruega, Dinamarca, Suécia, Finlândia, Islândia, Alemanha, Grã Bretanha, Canadá, Austrália, etc) são, todos eles, países que rejeitam os extremismos, tanto da Esquerda quanto da Direita.

Precisamos parar de dar murro em ponta de faca e de investir em modelos políticos e econômicos que fracassaram em todos os países onde foram postos em prática. Se não podemos criar um modelo a partir do zero, então devemos COPIAR o dos países que costumam aparecer na lista dos “melhores do mundo para se viver”, como estes que citei acima. Assim, podemos construir um ambiente de sucesso, sem pessoas passando necessidade e onde todos tenham seus Direitos Humanos respeitados.

Eric Pereira

Abril 10 2017 Responder

Creio que a pesquisa efetuada pela Fundação Perseu Abramo reflete a mentalidade da população paulistana, não da população brasileira. Acho que aqui no Nordeste a realidade é outra. O Brasil não é São Paulo. Acredito que a função do Estado é ser social. Os países que atingiram o maior IDH são os que consiguiram equilibrar o capitalismo com o Estado de bem estar social, taxando os mais ricos para redistribuir a renda por meio de serviços públicos, o que é muito justo, já que os ricos enriquecem acumulando a mais valia. Acho que idéia de fazer uma revolução socialista é estapafúrdia, a História já mostrou que o preço a pagar é altissimo.

Newton

Abril 9 2017 Responder

Eis as 13 principais constatações da pesquisa:

1) Não há luta de classes entre ricos e pobres — ao contrário, há empatia com empresários e patrões.

2) O inimigo é o estado: ineficaz, incompetente, cobra impostos excessivos, impõe entraves burocráticos, gerencia mal o crescimento econômico e acaba por limitar ou sufocar a atividade das empresas. O mercado é mais confiável.

3) Há um “liberalismo popular”, com demanda por menos estado — “se pago impostos, tenho o direito de cobrar”.

4) Há identificação não com quem pertence ao mesmo grupo, mas com o grupo a que se almeja chegar — essa é a negação completa da “ideologia de classe” inventada por Karl Marx.

5) A ascensão social está associada à coragem, ousadia, disciplina, mas acima de tudo ao mérito.

6) Estudar é fundamental para subir na vida.

7) O empreendedorismo é a aspiração de quem quer vencer pelas próprias forças.

8) Há mais individualismo que solidariedade.

9) Religião e família são o centro da vida.

10) A igreja é vista como instituição de apoio para evitar o caminho do desemprego e do crime.

11) A política é suja, gera desconforto e influencia a vida — dos serviços públicos aos impostos altos.

12) Não há lógica no uso de termos como “esquerda” ou “direita”, nem polarização — todos os partidos são iguais.

13) A crise ética da sociedade não é resultado de vícios estruturais, e sim de mau comportamento individual, que deve ser resolvido, antes de mais nada, pela família.

Newton

Abril 9 2017 Responder

Já viu esta recente pesquisa, conduzida pela Fundação Perseu Abramo – criada pelo PT?

http://novo.fpabramo.org.br/sites/default/files/Pesquisa-Periferia-FPA-04042017.pdf

Interessante.

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