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dez17

Saindo do armário da neurodiversidade: sim, eu sou Aspie, ou um autista leve
Eu sou um aspie

Olá! Eu sou um aspie, pessoa com Síndrome de Asperger

Aviso: Comentários preconceituosos/capacitistas serão apagados sem aviso prévio, e seus autores banidos. Dependendo da severidade do discurso, o comentário poderá ser printado e encaminhado às autoridades.

Tenho a satisfação de anunciar ao mundo que eu sou aspie. Ou seja, tenho a Síndrome de Asperger (SA), que é o trecho mais leve do Espectro Autista. Portanto, sou um autista leve.

Decidi que chegou a hora de mostrar ao mundo quem eu descobri que realmente sou e, subsequentemente, enfrentar todo o preconceito e a discriminação capacitista que vier eventualmente se abater sobre mim.

Nesta saída do armário da neurodiversidade, quero mostrar a você introdutoriamente o que é a SA e que características muitas vezes fazem de alguém um aspie, ou autista leve.

Definição e características da Síndrome de Asperger

Sinais da Síndrome de Asperger

Algumas caracerísticas que pessoas aspies podem ter

Posso definir a Síndrome de Asperger basicamente como um autismo leve. É uma configuração de autismo que geralmente não proporciona atraso ou deficiência intelectual, mas traz algumas limitações e dificuldades em se tratando de o indivíduo lidar e se comunicar com os neurotípicos (pessoas que não tem condições neurodiversas nem deficiências intelectuais).

Há diversas características que são comumente atribuídas a quem é aspie – mas que não é o caso de 100% dessas pessoas terem 100% destas:

  • Sensibilidade a estímulos sensoriais intensos e situações estressantes – no meu caso, me sinto sobrecarregado e exausto, por exemplo, quando pessoas brigam ou discutem em tom exaltado perto de mim e quando estou numa roda de conversa em que duas pessoas ou mais falam em voz alta ao mesmo tempo;
  • Hipersensibilidade a estímulos dolorosos: para mim, uma pontada dolorosa moderada na mão ou a ardência numa ferida do dedo pode me fazer dar um grito alto de dor;
  • Possibilidade de sofrer crises nervosas (meltdown) e/ou isolar-se temporariamente numa espécie de concha invisível (shutdown) diante de estímulos e estresses muito fortes;
  • Hiperfoco, que é o interesse muito focado em uma atividade ou área do conhecimento ou um conjunto restrito de áreas de conhecimento ou atividades, havendo dificuldade de o aspie se interessar em outras áreas se não for um interesse totalmente espontâneo;
  • Intolerância a certos estímulos (no meu caso, eu tenho horror a usar roupas com etiqueta e camisetas estampadas por cima dos peitorais);
  • Dificuldade de trabalhar sob pressão – já que cobranças muito rigorosas e broncas de supervisores ou patrões causam sobrecarga e podem até desencadear um quadro de meltdown;
  • Sinceridade muitas vezes excessiva e imprudente;
  • Jeito diferente, que pode soar “engraçado”, de caminhar e correr;
  • Maneira mais ou menos excêntrica de se vestir em público;
  • Hábito de fazer stims, que são movimentos repetitivos que buscam regular o estado psicológico da pessoa, servindo, por exemplo, para aliviar estresse e ansiedade;
  • Desinteresse por eventos sociais, como reuniões de família, festas de aniversário e baladas;
  • Tom de voz monotônico, que pouco ou nada muda de acordo com a situação social;
  • entre muitas outras.

Falando em dificuldades, trago aqui algumas limitações que aspies como eu podem ter ao lidar com o mundo neurotípico – e que, dependendo do indivíduo, podem ocorrer de maneira mais branda quando o aspie está interagindo com outros aspies:

  • Dificuldades de socialização e de fazer (e manter) amizades;
  • Amadurecimento social e comportamental mais lento, difícil, psicologicamente doloroso e marcado por hostilizações e repreensões;
  • Dificuldade de notar e obedecer regras sociais que não costumam ser reveladas verbal e explícitamente;
  • Capacidade limitada de manter contato visual;
  • Pouca elasticidade das expressões faciais;
  • Dificuldades imensas de se encaixar em empregos em que neurotípicos costumam se dar bem, por motivos como não aguentar a pressão de supervisores e patrões, a intolerância a ambientes barulhentos e/ou muito luminosos, a dificuldade de se socializar com outros colegas e perceber normas não verbalizadas, a eventual dificuldade de executar planejamentos etc.;
  • entre outras.

Não é à toa, assim, que aspies costumam sofrer bullying na escola e em ambientes virtuais, quando se comportam de uma maneira que os neurotípicos preconceituosamente consideram “estúpida”, “idiota” ou “retardada”. Eu pessoalmente o sofri em escolas na infância e em um fórum de internet na adolescência.

Também é muito comum que, dada a dificuldade de se socializar e fazer amizades firmes com neurotípicos e tamanho o maltrato que sofre por não conseguir entender e se encaixar em normas sociais que não costumam ser verbalmente reveladas, o aspie acabe vivendo em isolamento social na sua infância, adolescência e, em muitos casos, também na idade adulta.

Conheça mais sobre a Síndrome de Asperger nesses sites:

 

Aspie/autista com orgulho

Orgulho de ser aspie

Eu sou um aspie e tenho orgulho disso!

Sou aspie/autista com orgulho. Já tive vergonha de meu passado – e em muitos momentos quase senti vergonha de mim mesmo no então presente por fracassar tanto nas muitas tentativas de socialização e mudança de personalidade.

Nessas épocas passadas, sem saber da minha SA, eu tentava insistentemente mudar na marra meu jeito de ser, meus comportamentos. Tentava ser extrovertido, mais sociável e adepto de conversas em grupo, mais fazedor de amizades, ampliar de maneira não espontânea meus gostos, me adequar às expectativas sociais dos neurotípicos, aprender a olhar “normalmente” nos olhos das pessoas…

Mas essas tentativas nunca davam certo, o que sempre me trazia uma melancólica frustração. E também travava uma verdadeira guerra contra o meu passado, sentindo profunda vergonha e remorso de ter sido um adolescente e um jovem adulto tão imaturo para a idade.

Mas hoje essa vergonha foi enterrada e deu lugar ao pleno orgulho, já que me redescobri.

Enfim encontrei a razão, tão misteriosa até pouco tempo atrás, de ser desde sempre alguém tão diferente e fora da caixinha da “normalidade” neurotípica. Agora que eu a conheço, posso fazer as pazes com o passado e viver com cabeça mais erguida e peito mais aberto.

Tenho orgulho de mim mesmo por tudo que eu sou – minha superdotação, minha vantagem intelectual e linguística que me permite escrever bem blogs, colunas e livros e palestrar sem medo, minha elevada empatia, meu senso de humor excêntrico, até mesmo minhas dificuldades e limitações.

Sei que me falta ainda obter um diagnóstico clínico definitivo – que possivelmente demorará ainda, já que hoje é bastante difícil encontrar especialistas em Espectro Autista que não cobrem o olho da cara – e o laudo que me permitirá usufruir de meus direitos de pessoa neurodiversa – equivalentes aos da pessoa com deficiência. Isso poderá abrir muitas portas no mercado de trabalho, por meio de trabalhos que sejam inclusivos o suficiente para aspies.

Mas pelo menos tenho a segurança de que, por tudo que eu estudei em sites e blogs de outros aspies e de psiquiatria do autismo, posso me assumir aspie mesmo sem um diagnóstico formal e, assim, aderir com força à luta da neurodiversidade contra o preconceito capacitista e pelo asseguramento e respeito dos direitos dos neurodiversos.

Nesse contexto, deixo claro: todo aquele indivíduo “de esquerda” que expressar preconceito e desprezo contra autistas e aspies, que achar “bacana” comparar pessoas de direita mal-intencionadas ou ignorantes com autistas, que vier “receitar” medicamentos psiquiátricos para pessoas cuja “doença mental” é pensar diferente, será tratado por mim da mesma maneira que trato um reacionário de direita fanático. Ou seja, como um preconceituoso violador de Direitos Humanos, adepto de discursos de ódio, que merece ser responsabilizado por pregar intolerância e discriminação.

 

Considerações finais

Orgulho autista!

Orgulho autista!

Agora que me descobri autista leve, ou aspie, assumo desde já o compromisso de defender os direitos das pessoas neurodiversas – até por eu ser uma delas -, a libertação desta minoria política da ordem socioeconômica capitalista que nos marginaliza e inferioriza e o combate ao preconceito contra neurodiversos e pessoas com deficiência intelectual ou transtornos psiquiátricos dentro das esquerdas.

Sonho com um mundo em que pessoas como eu serão respeitadas plenamente do jeito que são, livres de todo o perigo de serem discriminadas e sofrerem bullying. Tenho esse sonho da mesma maneira que vislumbro um futuro de igualdade social, solidariedade, ética, sustentabilidade e também de libertação dos animais não humanos.

E farei questão de lutar com afinco, mais ainda do que já lutava, para que esse futuro chegue logo. Nenhum capacitista violador de Direitos Humanos irá parar esta luta.

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4 comentário(s). Venha deixar o seu também.

Marina

Janeiro 2 2018 Responder

Parabéns pela sua postagem.
Eu já tinha lido a respeito do assunto e cheguei a me identificar com algumas características, mas sempre ficamos na dúvida, achamos que estamos exagerando, sei lá. Ontem conversando com uma amiga da família que é psicopedagoga, a indaguei sobre eu ficar paralisada quando não tenho uma resposta para dar as pessoas ( isso acontece com frequência e está me incomodando), ela desconversou, mas insisti dizendo que só achei sobre isso quando se fala de autismo, (O olhar vazio, rosto sem expressão) então ela me confirmou. Minha mãe trancou a faculdade de Psicologia já no 7º período, então também entende do assunto, nesse momento minha irmã gêmea estava conosco conversando e disse: “todo mundo já sabe que você tem síndrome de Asperger”, na hora só consegui ir pro meu quarto chorar e elas 3 ficaram lá conversando sobre isto. Na hora foi duro de ouvir e de aceitar, mas foi um alivio entender o porque de tanta diferença.
Até minha 8ª série estudei com minha irmã, ela queria fazer amizades e eu só queria a dela, nunca gostava das amigas dela e nem de ninguém.
No 2º grau cada uma foi pra uma escola fazer cursos diferentes, foi o começo do meu filme de terror, ter que conhecer e me socializar com pessoas que eu nunca tinha visto antes, sem minha irmã do meu lado. Me lembro que fiquei quieta na sala e na hora do intervalo avistei um grupinho dos menos populares e fui falar com eles, cheguei e falei: “oi tudo bem, sou da sala de vocês. Posso andar com vocês?” achei que tinha mandado bem, mas pela cara deles fui patética. Mas mesmo eles me achando estranha, me acolheram super bem, falo com eles até hoje.
Eles me disseram que andava engraçado, eu nunca tinha percebido.
Por muito tempo achei que eu fosse apenas tímida, mas com o tempo percebi que era bem mais que isso.
Desde que eu nasci não gosto de abraçar nem minha família, eles sofrem com isso e isso me faz sofrer também, mas é muito difícil pra mim demonstrar qualquer tipo de afeto.
Com a graça de Deus consegui terminar minha faculdade de engenharia civil, acho que o mais difícil foi ter que conhecer pessoas novas durante 6 anos. Os professores costumavam falar que eu era muito quieta. Eu só queria entrar, falar com meus poucos colegas, prestar atenção na aula (mas preferia estudar em casa porque aprendo melhor sozinha – Não consigo estudar em grupo) e ir embora pra casa. Odiava quando o prof chamava meu nome e todos olhavam pra mim, não por timidez, mas por não saber me expressa bem ou não saber o que responder, sei lá.
Há 3 meses atrás consegui um emprego na minha área, fiquei muito feliz, mas a alegria durou pouco, não passei do período de experiência. Eu falei muitas verdades que soaram como reclamações, não conseguia me conter.
Percebi num certo dia que eu fico muito nervosa e agitada quando muito gente começa a falar ao mesmo tempo e a discutir, pedi para os meus colegas ficarem quietos por que estavam me deixando perturbada, pra eles parecia normal aquilo.
Um outro dia, eu algumas meninas fomos ao shopping almoçar e eu corri pra atravessar a rua, eu ouvi uma delas falando: “pra que ela correu e desse jeito?” fiquei sem graça, mas respirei fundo e fingi que não era comigo.
Já tenho 25 anos, mas sempre acho que ninguém quer me fazer mal, até que o fazem e isso me frusta grandemente. Eu sou muito sincera (as vezes até demais rs’), eu só queria que os outros fossem assim comigo também.
Nunca gostei de festa de aniversário, preferia sair com poucos colegas.
Consigo passar o meu dia todo no meu quarto aprendendo algo novo no notebook sobre informática. Aprendo tudo que eu quero, mas quando não gosto do assunto ai não tem jeito.
Sobre namorados, quando algum menino tentava se aproximar eu era grosseira por não saber como reagir. Até hoje fico muito em dúvida se o cara está afim ou não. O único que foi direto ao ponto me conquistou, mas ele dizia que eu não era romântica.
Enfim este é meu desabafo.

    Robson Fernando de Souza

    Janeiro 2 2018 Responder

    Obrigado pelo depoimento, Marina =) Sempre é bom ouvirmos as histórias das pessoas, e mais ainda ver mais pessoas saindo do armário aspie.
    Abs!

Thiago Lima de Souza

dezembro 5 2017 Responder

Robson,

Bem vindo ao clube!!!!!
Sinta-se em casa. Você É um de nós.

Abcs!!!!!!!!

    Robson Fernando de Souza

    dezembro 5 2017 Responder

    Valeu, Thiago =D Abção!

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