Tráfico de animais silvestres: a cultura da propriedade animal só podia dar nisso mesmo (Parte 7)
Papagaios vendidos livremente nas feiras
Enquanto o Ibama sai numa caçada desproporcional aos papagaios mantidos em residências (cativeiro), o comércio ilegal de aves é praticado livremente nas feiras do estado. O roteiro apontado pela própria instituição mostra que grande parte dos animais vem de Caruaru, no Agreste, para alimentar os pontos de venda no Recife, Rio de Janeiro e exterior. Na capital pernambucana, moradores indicam com facilidade locais tradicionais de venda.
Ontem pela manhã, em uma visita ao Mercado da Madalena, a equipe do Diario encontrou um comerciante que estava com um papagaio para vender. De forma discreta, ele contou que já foi condenado cinco vezes por venda ilegal, pagou penas alternativas e continuou a frequentar as feiras para achar compradores. É o retrato de uma cultura de "posse" atrasada. Um ciclo que vai do vendedor primário ao traficante e tem no criador o elo mais visível. E também expõe as falhas na fiscalização do Ibama que sabe, muito mais do que um simples cidadão, onde encontrar esses intemediários. No entanto ontem, aplicou multa de R$ 5 mil à aposentada Mercês Maciel que publicou anúncio para localizar o seu pagagaio que havia fugido há cinco meses.
O comércio ilegal de animais movimenta, a cada ano, aproximadamente R$ 2,5 bilhões e retira cerca de 38 milhões de animais da natureza em todo o Brasil de acordo com relatório da Renctas (ONG de combate ao tráfico de animais). No Grande Recife, pesquisadores da ONG Observadores de Aves de Pernambuco (OAP), criada em 1986, já fizeram uma pesquisa em 10 feiras livres e constataram que 20,8% das espécies registradas no estado eram comercializadas com preços variando de R$ 1 a R$ 100. "O comércio continua. Todo mundo sabe onde pode conseguir. Os vendedores só passaram a esconder por causa da imprensa", disse o integrante da ONG Manoel Toscano.
Ambientalismo e Direitos Animais: uma simbiose fraternal
Artigo escrito em junho de 2009
Presenciamos anualmente muitas ações de organismos ambientalistas estatais (IBAMA, Ministério do Meio Ambiente, secretarias estaduais ambientais etc.) e não-governamentais (Greenpeace, WWF, Sea Shepherd etc.) direcionadas ao combate de crimes ambientais que envolvem opressão de animais não-humanos. Tais atuações vêm comprovando e apontando uma verdade essencial que se aproxima cada vez mais do óbvio dia após dia: ambientalismo e Direitos Animais são movimentos irmãos, possuem uma associação perfeita e inquebrantável, e tentar vê-los ou praticá-los de forma separada será uma encaração sempre incompleta e limitada.
Essa associação é muito rica e, mais que uma relação de causa e efeito entre a exploração animal e crimes ambientais, é uma constatação lógica e uma visão ecológica bem mais abrangente e completa. As duas causas completam-se entre si de tal modo que ações de um lado que deem menor importância ao outro serão apenas enxugamento de gelo.
O primeiro ponto principal que torna ambientalismo e Direitos Animais inseparáveis surge na convergência de ambos em zelar pela fauna. O primeiro vê os animais como parte essencial da biosfera ao lado da flora, dos micro-organismos e dos elementos abióticos e o segundo defende que sua integração à natureza como seres livres e íntegros lhes é um direito inalienável, juntando-se numa proteção excelentemente justificada.
O ambientalismo, quando livre das limitações impostas por visões naturalistas e antropocêntricas, inclui todo o Reino Animal em sua esfera de proteção, passando a abranger também os animais domésticos e os humanos, tendo nesse ponto um importantíssimo respaldo dos Direitos Animais e até fundindo-se com este.
“Dono” e “posse”, palavras que não combinam com os animais
Artigo escrito em março de 2008
Dois vícios infelizmente ainda comuns entre defensores de animais e legisladores, sem falar da população como um todo, são considerar a tutela e responsabilidade de uma pessoa sobre seu bicho de estimação uma “posse” e chamar humanos que cuidam e tutelam animais domésticos de “donos”. Quem nunca falou ou ouviu expressões como “o dono desse cão...” ou “...em prol da posse responsável de animais”? É esse uso extremamente inadequado e vicioso, senão especista, dessas palavras que todos precisam repensar e abolir da relação entre os humanos e os animais não-humanos.
Há de se responder às perguntas: por que é inadequado dizer que um tutor de bichos de estimação é dono deles? Por que não é bom falar “o dono do bicho”? Por que não falar de posse de animais domésticos?
Em primeiro lugar, evoco a semântica denotativa, a que não tem sentido figurado (conotativo). As palavras “dono” e “posse” denotam propriedade. O dono de algo é proprietário desse mesmo algo. Quem tem posse tem propriedade sobre o objeto possuído. Seria ético dizer que temos propriedade sobre nossos bichos de estimação?
Para aumentar a minha objeção sobre o uso dessas palavras sobre a relação humano-bicho, invoco suas definições nos dicionários “Priberam/Texto Editores” e “Aurélio”. Mesmo que você contrarie dizendo que a língua portuguesa é flexível e não se prende às definições contidas em um dicionário, eu mostro-as com o propósito de apontar o sentido original dos vocábulos referidos.
A antiética da cultura do comércio e propriedade de animais
Artigo escrito em janeiro de 2008
Imagine o Mercado de Delos, numa cena corriqueira do século 3 A.C.. Lá, homens, mulheres e até crianças eram “emplacados” com tábuas penduradas no pescoço com origem, qualidades e defeitos descritos e o preço em dracmas. Comerciantes abastados chegavam à ilha da cidade, compravam essas pessoas para lhes servirem de escravos e arrogavam então a si a posse dos humanos comprados.
Imagine você, vindo de uma viagem no tempo, perguntando para um comerciante daqueles quem eram aquelas três crianças nuas no barco dele e se tinham algum parentesco com ele. Então ele diz: “Ah, são uns escravos que comprei agora há pouco. E não sou pai deles, sou dono”. E explica que os garotos comprados eram de sua preferência: morenos, cabelos longos e de olhos verdes, e satisfaziam aos seus desejos de ter crianças bonitas para sua companhia afetiva.
Uma sensação de indignação e compaixão invade você ao ver aquele senhor tratando aquelas crianças como mercadorias, como coisas, como objetos de posse e categorizáveis. Não tolera que ele esteja daquela forma comprando vidas humanas dotadas de afeto e sentimentos num mercado. Num ato de reação humana a atos de desumanidade, você semeia uma conversa argumentativa com o “dono” das crianças na intenção de mostrar que ele está sendo imoral e desumano e fazê-lo libertar aquelas crianças ou adotá-las como filhos de verdade. Seus argumentos falam de as crianças serem humanas iguais a ele, terem sentimentos, pensamentos, desejos, virtudes e direitos naturais à dignidade.
O homem então, depois de dez minutos de conversa, vai embora irritado, levando as crianças, sem assimilar a moral de direitos humanos que você tentou incutir nele. Para ele, os meninos eram seres inferiores e sem direito à dignidade que apenas os humanos de sua “raça” tinham e cujos sentimentos e demonstrações de inteligência serviriam para sua função de escravos de companhia.
Mais uma perversão de cientistas torturadores (Parte 31)
As causas da doença de Parkinson ainda não são completamente conhecidas. Sabe-se que essa desordem degenerativa é caracterizada pela disfunção dos neurônios secretores de dopamina (mediador químico importante para a atividade normal do cérebro) e afeta regiões cerebrais responsáveis pelo controle muscular, provocando tremores, rigidez nos músculos e diminuição de mobilidade
Novos estudos têm indicado também a associação da doença com problemas no coração, como se viu no 18th WFN World Congress on Parkinson’s Disease and Related Disorders, realizado em Miami, nos Estados Unidos, em dezembro último.
De acordo com as pesquisas, sintomas cardíacos podem anteceder os sintomas motores causados pela doença de Parkinson, e pode haver uma independência entre os sintomas cardíacos e os motores da doença em pacientes humanos.
Segundo o estereologista Antonio Augusto Coppi, responsável pelo Laboratório de Estereologia Estocástica e Anatomia Química (LSSCA) do Departamento de Cirurgia da Faculdade de MedicinaVeterinária e Zootecnia (FMVZ) da Universidade de São Paulo (USP), que apresentou no congresso de Miami um trabalho relacionando os efeitos da doença no coração, os estudos recentes ressaltam novas formas de manifestação clínica da doença de Parkinson.
“Antes, quando se falava em Parkinson, havia uma clara referência ao indivíduo com dificuldade de tirar a carteira do bolso em um supermercado ou que não conseguia atravessar a rua. Ou seja, eram apenas sintomas motores. Hoje, já se sabe que o paciente pode também apresentar sintomas generalizados, como os cardíacos. Mas se esses sintomas antecedem os motores, sucedem ou se eles ocorrem simultaneamente, ainda é uma incógnita”, disse Coppi à Agência FAPESP .
O docente coordena a pesquisa intitulada “Caracterização comportamental, funcional e morfológica das cardioneuromiopatias tóxicas (MPTP) e geneticamente induzidas em camundongos com alta expressão de alfa-sinucleina humana”, apoiada pela FAPESP na modalidade Auxílio à Pesquisa – Regular, na qual se busca adequar modelos (químico e genético) eficazes para estudar a doença de Parkinson.
A equipe de Coppi induziu a doença de Parkinson nos animais por meio do uso do 1-metil-1-4-fenil-1,2,3,6-tetrahidropirimidina (MPTP), de modo a analisar seus efeitos no miocárdio, na inervação do coração e nos neurônios do sistema nervoso central.
Tráfico de animais silvestres: a cultura da propriedade animal só podia dar nisso mesmo (Parte 6)
210 aves são apreendidas pelo Cipoma em comércio ilegal no Cordeiro
210 aves, onze delas ameaçadas de extinção, chegaram neste domingo (24), ao Centro de Triagem de Animais Silvestres (CETAS) do Ibama. A apreensão foi fruto de uma ação do Cipoma na Feira de Cordeiro, na Zona Oeste do Recife.
Segundo os analistas ambientais, os animais foram vítimas de maus-tratos. Eles estavam aprisionados em gaiolas pequenas e sem água. A comida estava infectada com fezes dos bichos. Por conta disso, oito aves morreram até a manhã deste domingo.
Policiais do Cipoma ainda não confirmaram a detenção dos envolvidos. Se presos, poderiam pegar até um ano de prisão, além de multas de R$ 500 a R$ 5.000 por animal.
Como afirmei com insistência no Consciência Efervescente, o Ibama só está enxugando gelo. De nada adianta reprimir o mercado de vidas silvestres se nossa cultura os deseja como posses valiosas, como objetos ornamentais preciosos.
Esse tráfico criminoso só vai começar a perder força com uma campanha permanente de educação zooética e ambiental que desencoraje a atitude de comercializar e aprisionar animais de qualquer espécie e com uma reforma jurídica que retire dos animais domésticos* o atributo legal de propriedade privada e lhes dê o atributo de seres tuteláveis, protegidos de mercantilização e dotados do direito à liberdade tutelada.
*Começaria pelos domésticos e infelizmente nem tão cedo alcançaria os domesticados/rurais, porque, se estes últimos fossem beneficiados, a pecuária iria se tornar inviável, e isso os interesses de quem exalta o lucro acima da vida não vai permitir a curto e médio prazo. Para os animais rurais poderem vislumbrar direitos, a militância brasileira pelos direitos animais terá que crescer muito ainda.






