Arauto da Consciência

Irmã/o/s de consciência denunciam pistolagem na cidade de Lagoa dos Gatos (Parte 2)

Postado em 29/04/2010 à/s 22:06

Mais uma denúncia relacionada a Lagoa dos Gatos, vinda por e-mail de irmã/o/s de consciência.

A opressão vista de perto

Nenhuma teoria, por mais revolucionária que seja, me deu ou dará o ímpeto de lutar e permanecer na luta além de qualquer coisa do que a visita a Lagoa dos Gatos, interior de Pernambuco, para ver de perto o assentamento da LIGA DOS CAMPONESES POBRES e sua realidade. Há mais ou menos duas semanas atrás não só eu como outros companheiros fomos avisados pelo o que estão passando os assentados, que tem como único objetivo repartir a terra igualmente e nela plantar, de forma equânime para que todos, sem exceção, compartilhem de uma vida mais digna. O que de fato está ocorrendo lá nada mais é do que o reflexo da face mais perversa de nosso país, latifundiários, possuidores de vastas terras, ocupantes de cargos legislativos e com contas no exterior, estão oprimindo da forma mais visceralmente cruel indivíduos que nada, alem dos braços e pernas, possuem de seu.

Embasados em sua luta, por um destino menos dependente, tomaram a fazenda da família Da Fonte, influente não só no nosso estado mais também em todo Brasil, tendo, inclusive um dos seus como representante legitimo e democrático no poder, o Sr. Eduardo da Fonte, deputado federal pelo PP. Lá iniciaram um trabalho árduo na arte de plantar, agoar e colher batatas, milho, macaxeira, coentro, para a sua subsistência e troca em outras mercadorias, tudo isso pra sobreviver. Pois bem, os companheiros lá estavam instalados e prosperando, quando em meados de março os donos legítimos de fato e direito, entraram armados ate os dentes respaldados pela policia, bombeiros e toda espécie de homem armado para retirar aqueles invasores, com tratores destruíram tudo sem deixar um pó sequer das plantações ou das casas de barro e madeira que estavam sendo construídas para acolher as quase cem famílias que ali estavam, inclusive que abrigava a escola popular. Os companheiros foram então obrigados a instalarem-se à margem do latifúndio, este protegido e guardado por pistoleiros traficantes de crack naquela área. Não podemos afirmar, entretanto que a presença destes senhores, que vem ameaçando, amedrontando e matando gente, está sob o julgo dos proprietários, só podemos afirmar que o Sr. Mauricio da Fonte, esteve lá no dia do despejo e mais nada. De resto, só nos cabe a especulação fundamentada em relatos de moradores da região e dos despejados.

Bookmark e Compartilhe

Irmã/o/s de consciência denunciam pistolagem na cidade de Lagoa dos Gatos

Postado em 29/04/2010 à/s 21:21

Recebi agora um e-mail de colegas que pediram para eu expor aqui a situação d@s camponesæs de Lagoa dos Gatos, que vêm sendo ameaçad@s por pistoleiros. Em solidariedade à luta dels, trago aqui o texto.

(Texto sem título)

Texto dedicado a Nanal e todos os agricultores que arriscam sua vida por uma repartição digna da terra

A situação vivida no município de Lagoa dos Gatos, agreste pernambucano, contradiz visceralmente a crença na suposta consolidação da democracia brasileira, crença disseminada entre a maioria dos “ilustres” partidos brasileiros que reduzem democracia a eleição.

Pois bem, a história é a seguinte: o camponês Nanal foi assassinado com oito tiros enquanto exercia seu ofício de leiteiro. Ele era um valente apoiador da luta pela terra em Lagoa dos Gatos, e talvez por seu passado marcado por passagens na polícia e sua convicção ideológica perante uma autoridade institucionalmente constituída que serve de joelhos aos anseios da classe latifundiária, foi identificado como alvo. Sua morte foi anunciada e cumprida, sem qualquer interferência da justiça num país “democrático” tal qual o Brasil.

Apesar do sucesso da empreitada o seu objetivo maior não foi alcançado: a intimidação dos camponeses e o decorrente enfraquecimento da luta. Falo dos camponeses que restam, pois dependendo da eficiência do poder público e da política bastante diplomática dos latifundiários, aqueles não terão tempo para ver uma terra dignamente repartida, se isso um dia acontecer.

No dia do citado homicídio estava “por coincidência” programada uma passeata pela cidade, direcionada para a questão agrária, apesar do clima de terror disseminado a mobilização aconteceu e foi até a prefeitura cobrar alguma atitude. O prefeito é um baluarte da consolidada democracia brasileira, não precisarei descrevê-lo, apenas citá-lo:- “Eu não tenho nada a ver com isso, a culpa é de vcs que ficam fazendo desordem, até pq e eu não preciso me preocupar pq tenho meus próprios seguranças”. Uma peça interessantíssima que comprova a riqueza da realidade política brasileira, talvez o mesmo não saiba como contribuiu para ilustrar a situação mesquinha em que se encontram os municípios brasileiros, lacaios da elite econômica e opressores das populações exploradas.

Bookmark e Compartilhe

Minha “comemoração” aos 50 anos de Brasília: por que foi construída longe das grandes cidades?

Postado em 21/04/2010 à/s 20:45

"Comemoro" os 50 anos da fundação de Brasília trazendo do passado (lá das férias de inverno de 2009) uma breve reflexão sobre o fato de aquela cidade ter sido construída bem no meio do cerrado.

É só viagem minha ou Brasília foi construída lá no Planalto Central, no meio do nada (urbanamente falando) e longe das maiores populações urbanas brasileiras, justamente para proteger o centro político do país de revoluções populares e evitar o contato da turma política com massas em protesto?

Se a capital brasileira continuasse no Rio, seria muitíssimo mais fácil que os três poderes enfrentassem cara-a-cara manifestações populares contra os desmandos políticos e/ou a favor de políticas públicas satisfatoriamente competentes. Seria muito mais prático concentrar uma grande massa de paulistas, cariocas e mineir@s no Rio, localizado mais próximo a seus estados, do que em Brasília, situada a não menos que 600 quilômetros de distância -- chegando a mais de 900 no caso do Rio e de Vitória -- das capitais do Sudeste.

É de se pensar essa questão. A fundação de Brasília pode ter sido a maior banana dada por políticos contra o povo na história do país.

Bookmark e Compartilhe

O artesão e a centelha: a força de quem fala e/ou escreve contra as injustiças e matanças

Postado em 17/04/2010 à/s 22:55

Como já afirmei algumas vezes no Consciência Efervescente e talvez aqui no Arauto, sou fã de Bruno Müller, escritor de artigos fantásticos sobre direitos animais -- melhor dizendo, direitos dos animais humanos e não-humanos.

Tem o porém de que seus artigos são grandes e isso desencoraja leitoræs mais preguiços@s. Entretanto, quem os lê sai de "alma" lavada.

Assim sendo, tenho o prazer de trazer mais um texto dele.

O artesão e a centelha
por Bruno Müller, para a ANDA

Um lugar comum da vida dos escritores profissionais, particularmente aqueles dos quais se exige grande prolixidade, como cronistas e colunistas de jornal, é a falta de assunto. Sobre o que escrever? O leitor (e o empregador) não quer saber se lhe faltam ideias ou notícias a comentar naquele determinado dia. Há que mostrar produtividade. É difícil manter um padrão de qualidade, de relevância e profundidade quando nos permitem tão pouco (uma lauda, com sorte) e nos exigem tanto (um texto por dia, e nem quero começar a pensar nos blogueiros profissionais, que precisam atualizar o conteúdo quase que de hora em hora).

Mas, afinal, do que estou reclamando? Em primeiro lugar, não sou escritor profissional. Em segundo lugar, não tenho uma coluna diária num jornal ou página de internet. Por fim, assunto é o que não me falta. Há tanta injustiça ocorrendo cotidiana e simultaneamente no mundo, que é humanamente impossível dar conta de tudo, mesmo que tenhamos apenas um dia para nos prepararmos. Pois a injustiça não descansa, não tira férias e não dá trégua.

Nos jornais de 25 de fevereiro de 2010 podemos ler: morreu, em decorrência de uma greve de fome , o dissidente cubano Orlando Zapata, perseguido político, condenado por “desobediência”, “desordem pública” e “resistência” [1], isto é: condenado e em última instância morto por confrontar um regime desumano – pois desumano é um regime que persegue seus oponentes e lhes deixa morrer de fome por intolerância e intransigência, não importando com quais fantasmas, reais ou imaginários, ele se bata, nem que propósitos, torpes ou sublimes, ele alegue ter. Seu funeral se deu sob estrita vigilância e algumas dezenas de subcidadãos cubanos foram detidos “preventivamente” [2].

Os políticos latino-americanos, que se dizem tão sensíveis às injustiças, silenciaram de forma vergonhosa, inclusive dois dos mais loquazes, que gostam de dar palpite em tudo, e que visitaram Cuba no mesmo dia: os presidentes do Brasil, Luís Inácio Lula da Silva, e da Venezuela, Hugo Chávez [3]. Cúmplices de um crime. Nenhuma lágrima será vertida por esse infeliz na casta de intelectuais e ativistas europeus e latino-americanos que dizem lutar por um mundo mais “justo e igualitário”. Não admira que um dos seus símbolos seja o globo terrestre invertido: eles não querem o fim da opressão, e sim a troca de papel entre opressores e oprimidos.

Bookmark e Compartilhe

Bancada ruralista maior e mais poderosa? Diga NÃO!

Postado em 22/03/2010 à/s 12:46

Bancada ruralista pretende dobrar de tamanho com doações de cooperativas

por Mauro Zanatta
do Valor Econômico

Um exército de 2 milhões de produtores ligados a sindicatos rurais, federações de agricultura e cooperativas iniciou um amplo movimento político de mobilização para dobrar o tamanho da influente bancada ruralista no Congresso Nacional.

Autorizadas pela nova lei eleitoral a doar recursos para campanhas, as cooperativas já preparam listas de candidatos que devem ser eleitos em outubro. “Vamos apoiar gente de todos os partidos. Não interessa a cor, mas o credo na doutrina cooperativista”, resume o presidente da Organização das Cooperativas Brasileiras (OCB), Márcio Lopes de Freitas. Aprovada em setembro de 2009, a Lei nº 12.034 permitiu a doação de até 2% do faturamento bruto desse grupos a campanhas eleitorais. “Porque uma empresa podia e uma cooperativa não?”, questiona Freitas.

Em São Paulo, as cooperativas farão, nesta semana, três seminários estaduais para pregar o voto em candidatos do segmento. “Mais do que doação financeira, nossa força estará nos votos”, diz o presidente da Ocesp, Edivaldo Del Grande. “Temos que fazer o lobby saudável e eleger uma bancada com os nove milhões de votos potenciais de que dispomos”. Na Assembleia Legislativa, 14 dos 94 deputados fazem parte da bancada cooperativista. No Congresso, 26 dos 70 deputados federais são ligados ao setor.

Dona de uma base composta por mais de um milhão de produtores, a Confederação da Agricultura e Pecuária (CNA) incorporou a meta de apoiar e buscar doações a campanhas de parlamentares ligados ao setor. “É lobby, sim. Mas é lobby positivo. Vamos nos organizar financeiramente para que nossos candidatos sejam apoiados”, diz a presidente da CNA, senadora Kátia Abreu (DEM-TO), pré-candidata ao governo estadual [Se a Sarah Palin Brasileira for eleita lá, os ecossistemas de Tocantins estarão sob situação tão desesperadora quanto os de Mato Grosso sob Blairo Maggi, o Máquina de Free Willy Brasileiro]. “Como não podemos doar, as empresas do agronegócio serão procuradas para contribuir com os candidatos do setor”.

Bookmark e Compartilhe

Frases da semana (7-13/03)

Postado em 12/03/2010 à/s 14:21

"Eu penso que a greve de fome não pode ser usada como um pretexto de direitos humanos para libertar as pessoas. Imagine se todos os bandidos que estão presos em São Paulo entrassem em greve de fome e pedissem liberdade?." Lula na terça passada, no ato infeliz de comparar pres@s polític@s com bandid@s

"Compartilho da posição do presidente Lula não só sobre Cuba, mas sobre toda a política externa." Dilma Rousseff um dia depois, defendendo seu patrão e cabo eleitoral

Lula pode ter dito mais uma de suas besteiras comuns, tal como George W. Bush fazia, mas essa o fez perder pontos comigo. Seu argumento, que compara pres@s polític@s cuban@s com marginais brasileiros, é tão defensável quanto as passagens bíblicas de violência extrema apadrinhada por Javé.

Ele mostrou toda a sua conivência -- ou, em última análise, apoio -- para com a violência totalitária do regime cubano. Mostrou-se adepto de dar banana à ética em nome de camaradagens políticas -- se bem que isso é infelizmente normal no mundo político, pois, como diz a Desciclopédia, a política é a versão "mundo do contra" da ética.

Infelizmente, agora a direita tem bastante munição para disparar nos programas eleitorais contra Dilma e lhe tirar votos. A sandice de Lula e o subsequente apoio de Dilma, ao meu ver, só não irão tirar votos dela se os direitistas forem muito incompetentes e o povo for estúpido a ponto de esquecer o que ele e ela disseram -- o último eu não duvido nada, uma vez que em 1998 o povão esqueceu a declaração de FHC chamando aposentad@s precoces de vagabund@s e o reelegeu.

Bookmark e Compartilhe

Uso livre do celular, um direito que ninguém se incomodou em ter perdido

Postado em 21/02/2010 à/s 18:58

Artigo escrito em dezembro de 2008

É fato: não temos mais o direito de andar nas ruas das cidades brasileiras portando ao mesmo tempo tranqüilidade e um celular. Este é o produto de roubo preferido dos meliantes das ruas. Ninguém mais deixa de ouvir ou falar a frase “roubaram meu celular”. Esta já é uma das frases mais marcantes dos últimos tempos no país, ao lado de antigos e recentes dizeres populares da moda como “Créu!”, “Pede pra sair”, “Ah, eu tô maluco!”, “Oh coitado!” e “Chupa que é de uva”. Parece ter virado moda mesmo ser assaltado na rua, e ninguém demonstra estar verdadeiramente incomodado com isso.

É interessante o comportamento: dezenas de celulares – e também tocadores de mp3 e câmeras digitais – são roubados por dia em cada capital e quase nenhuma reclamação pública em prol de demonstrar incômodo generalizado é feita. Perdemos o direito de usufruir do que há de mais novo e moderno na tecnologia portátil, mas ninguém parece estar obviamente insatisfeito. O medo existe, mas é reduzido a um sentimento de foro íntimo, algo irreversível.

Culpa-se muito, muito mesmo, as autoridades por não haver mais essa liberdade tecnológica. Polícia e políticos são apedrejados em cada conversa de bar e de vizinhos ou reunião de família. Mas, esquisito é, poucos chegam neles para pedir melhorias. Como é que vamos esperar alguma mudança se não reclamamos para quem devemos? Dizemos muito: essa polícia é ineficiente, não protege, não é boa, é mal distribuída, não faz isso, não faz aquilo. Mas cadê alguém para enviar um ofício à PM e mostrar as necessidades de cada comunidade e clamores da população? Cadê as pessoas que, nas poucas vezes em que mandam um abaixo-assinado ou algo do tipo, não persistem na cobrança política de soluções?

Bookmark e Compartilhe

A armadura pesada do guerreiro covarde e nossa alienação

Postado em 21/02/2010 à/s 17:29

Artigo escrito em novembro de 2008

O bairro do Ipsep era bastante tranqüilo, se comparado com outros lugares de Recife. No passado, um carro antigo do meu pai amanhecia aberto e com a chave na ignição, intocado. Assaltos eram tão freqüentes quanto na Finlândia, respeitando-se a proporção de área territorial. Hoje vejo melancolicamente os conjuntos residenciais do bairro se tornando fortalezas gradeadas. Até pouco tempo atrás (considerando que hoje é novembro de 2008) eu tinha acesso fácil às paradas de ônibus mais próximas, graças aos atalhos que eram as ruas de terra entre os prédios-caixão desses condomínios. Agora eu tenho que arrudiar as esquinas porque tais atalhos foram fechados com grades e portões.

Se você mora no Brasil, não precisa pensar muito até ter noção de que isso foi promovido em razão do aumento da violência. Roubos de carro e assaltos de rua passaram a pipocar por esse bairro, piorando desde quatro anos e meio atrás. Percebamos com igual acurácia que está sendo desenrolada uma perversa tendência de comportamento: enquanto fortificamos os lugares onde moramos, com particularização de ruas, cercamento com grades e cercas elétricas e seguranças particulares, negamos com uma vergonhosa convicção a luta contra aqueles que nos obrigam a levantar tantas proteções domiciliares. Somos como um guerreiro covarde que veste a mais pesada das armaduras mas não quer ter sua espada, nem que seja uma curtinha.

Não vá entender essa espada como uma convocação à reação a assaltos, mas como a luta popular contra o problema da violência. É essa luta que praticamente não existe hoje no Brasil. Ou será que você chama essas inúteis “caminhadas pela paz” de protestos convincentes?

Bookmark e Compartilhe

Assine, contra a Lei das Religiões

Postado em 17/02/2010 à/s 8:12

O projeto de lei 160/2009, que institui a Lei das Religiões, promete tornar as coisas muito mais fáceis para pastores corruptos e para religios@s interessad@s em calar as críticas a suas igrejas e crenças.

Transcrevo o que a página do abaixo-assinado fala para você ter ideia do que estou falando:

Vimos por meio desta protestar contra o Projeto de Lei 160/2009 (Lei das Religiões), por acreditarmos que este fere diversos princípios constitucionais, entre eles a laicidade estatal e a proibição de distinções ou preferências entre brasileiros, além da isonomia. Nossos principais motivos para pedir a rejeição do projeto são os que seguem:

  • O Art. 7 º, que prevê reserva de áreas no Plano Diretor dos Municípios, para que templos sejam erguidos. Consideramos que isso afronta o Art. 19, I, da Constituição, que veda a subvenção estatal de cultos religiosos ou igrejas. Subvencionar culto é concorrer de qualquer forma para que se exerça a atividade religiosa, e acreditamos que não há dúvidas de que reservar áreas do Município, portanto bens públicos, para que locais de culto sejam construídos, constitui subvenção inconstitucional de culto religioso.
    Consideramos também que o dispositivo implica em profundas complicações práticas, pelo extenso número de áreas a ser reservadas para contemplar todas as religiões presentes em um Município (principalmente quando se considera que algumas denominações evangélicas necessitariam de locais próprios, por apresentarem grandes divergências entre si). Seria necessário estabelecer se o tamanho ou número de áreas seria igual para todos, ou proporcional ao número de fiéis na cidade, além do risco de gerar o entendimento de que as áreas reservadas para aquele templo seriam as únicas que eles estariam autorizados a ocupar.
  • O Art. 6 º, §1º, tem uma redação extremamente confusa, quando diz que '"nenhum edifício, dependência ou objeto afeto aos cultos religiosos, observando a função social da propriedade e a legislação própria, pode ser demolido,ocupado, penhorado, transportado, sujeito a obras ou destinado pelo Estado e entidades públicas a outro fim, salvo por utilidade pública ou por interesse social, na forma da lei.''
    Analisando-se só a primeira parte, é um artigo redundante. Isso porque, ' 'observada a fun ção social da propriedade e a legislação vigente ' ' , nenhum bem pode ser alienado, penhorado, etc, sem a concordância de seu proprietário. Já o vocábulo salvo na segunda parte pode dar a entender que as únicas hip óteses que autorizam a alienação, penhora, etc, são a utilidade pública e o interesse social.
    Interpretado dessa forma, ele é inconstitucional, pois fere o princípio da isonomia e a proibição de criar distinções ou preferencias entre brasileiros...pois impossibilitaria intervenções estatais na propriedade como a penhora em execução fiscal, e poderia eventualmente (embora consideremos improvável) gerar discussão em relação à desapropriação, já que persiste a distinção doutrinária entre utilidade pública e necessidade pública, uma hip ótese que não está expressamente mencionada no artigo. Em suma, o artigo é mal escrito, confuso, na melhor das hipóteses é desnecessário e na melhor delas é inconstitucional.
Bookmark e Compartilhe

Resenha: 1984

Postado em 21/01/2010 à/s 9:30

Aviso: esta resenha contém spoilers sobre o referido livro. Se você já o leu e quer ler a resenha ou ainda não leu o livro mas quer ter uma ideia prévia de como a trama se desenrola, clique em "Continue lendo..." caso este post não esteja sendo exibido numa página individual.

"1984" é um livro diferente da grande maioria das ficções: não tem um herói – embora tenha um protagonista – nem um final feliz. Nem um desfecho compreensível o livro chega a ter – sendo necessário, para muitos, a leitura de um spoiler depois de ter acabado todas as páginas para se saber o que realmente aconteceu com Winston, o protagonista que não consegue ser um herói, no final da história. Portanto, se você só gosta de livros com heróis ou heroínas lutando obstinadamente em favor de um final feliz que de fato aguarda os(as) leitores(as) nas últimas páginas, “1984” não é um livro recomendável.

A obra maior de George Orwell é uma distopia cruelmente pessimista sobre como seria a Inglaterra e o mundo num ano de 1984 dominado por regimes totalitários pancontinentais. A Inglaterra não é mais Inglaterra, e sim a Oceania, um megapaís que abrangeria grande parte das terras emersas do planeta. Está em uma guerra perpétua em que ela e as meganações Eurásia e Lestásia revezam através do conflito o controle parcial da calota polar ártica e de parte da África e da Ásia.

A história de Winston antes de sua prisão pela Polícia do Pensamento – corpo policial que prende todo(a) aquele(a) que ousa pensar diferente do que o Partido manda que se pense – é inspiradora, uma vez que ele é identificável com quem adota uma visão de mundo mais esclarecida que destoe da alienação sociopolítica da sociedade. É a parcela menos pessimista do livro.

Ao contrário do que demonstra a população que trabalha com o Partido, ele mantém pensamentos destoantes do que o governo totalitário prega. Consegue manter-se seguro (apenas aparentemente, visto o que O’Brien, o personagem que se exibe como o maior antagonista, revela nos capítulos da tortura), mantendo discrição em casa e no trabalho – o Ministério da Verdade.

Esse ministério, aliás, é um dos órgãos de um sistema estatal cuja dominação deve ser descrita: é um domínio ultratotalitário em que a população da “Oceania” – especialmente os seis milhões de membros do chamado Partido Externo – é vigiada por aparatos como a Polícia do Pensamento e teletelas, um misto de televisor com câmera que vigia o comportamento das pessoas dentro de suas casas e em locais públicos e transmite propaganda governamental.

O Partido vangloria-se divulgando mentiras em suas propagandas e boletins e mantém o poder pelo controle psicológico dos(as) seus/suas filiados(as) através de estratégias de manipulação de pensamento como o duplipensar – capacidade de acreditar simultaneamente que, por exemplo, o céu é azul e é verde – e o crimedeter – rejeição psicológica imediata a qualquer pensamento subversivo que tente aflorar do cérebro.

A política existente impede até a manifestação dos instintos, emoções e virtudes humanas, como o amor – que deveria ser dedicado exclusivamente ao Grande Irmão, o líder governamental que talvez nem exista –, a libido e a amizade. Tornava as pessoas marionetes indefesas.

Voltando a Winston, ele corajosamente alimenta pensamentos de dúvida sobre o que o Partido faz com um terço da humanidade da ficção. Certo dia, Júlia, uma mulher que ele frequentemente via nos corredores do Ministério da Verdade, consegue que ele fale com ela e arquiteta com ele encontros em lugares diversos, onde os dois formam um casal e descobrem o censurado prazer de amar um ao outro.

Encontram no andar superior de uma antiga igreja, habitada pelo Sr. Charrington, um refúgio livre da vigilância da Polícia do Pensamento. Pelo menos era o que acreditavam.

O’Brien, que finge em suas feições ser outro “camarada” secretamente descontente com o governo totalitário e pertencer à Fraternidade, um grupo rebelde cuja existência é uma crença não comentada entre os membros do Partido Externo, marca de forma codificada um encontro com eles em seu apartamento, onde tem noção da inimizade do casal dirigida à entidade política. Distribui a eles, por intermédio de um estranho, “O Livro”, presumivelmente escrito por Emmanuel Goldstein, o líder da rebelde Fraternidade.

“O Livro” é a parte mais interessante de “1984”. É um momento em que George Orwell ensaia uma ficção sociológica e explica o passado verídico da humanidade e o presente distópico surgido nas revoluções que deram origem às três meganações do planeta. Conta o funcionamento da guerra perpétua que sustenta a economia delas e a estagnação de toda a arte, ciência e outras habilidades intelectuais, entre outros detalhes fundamentais para a compreensão de grande parte da obra.

No dia em que Winston lê para Júlia o livro, a surpresa fatal: a antiga igreja tinha uma teletela e Sr. Charrington era um agente disfarçado da Polícia do Pensamento. A voz metálica da tela anuncia a prisão e guardas de uniforme negro prendem os dois. O casal é violentamente separado e encaminhado para a cadeia do Ministério do Amor. Seu crime era a “crimideia”, o delito de pensar diferente do que o Partido dizia.

Winston vê o terror da prisão onde eram confinados presos políticos e criminosos. Em seguida, O’Brien, revelando-se um capacho leal do Partido e torturador profissional, chega na cela e o encaminha a uma sala onde é espancado brutalmente por cruéis soldados. O protagonista em seguida é submetido a outras torturas dolorosas em outra sala. É forçado a fazer confissões reais e imaginárias.

Nos antepenúltimo capítulo, Winston trava um diálogo com O’Brien, no qual é gritante o contraste entre a fraqueza do protagonista e o poder do antagonista, que podia torturá-lo novamente a qualquer momento. É revelada a verdadeira natureza da dominação totalitária estabelecida: baseia-se no ódio em vez do zelo à população, busca a manutenção do poder acima de qualquer outro objetivo, não intenciona a melhoria da sociedade, almeja esmagar qualquer traço de emoção que não seja devotado ao Partido e ao Grande Irmão. Enfim, realmente quer que a população da Oceania seja um conjunto de marionetes sob rígido controle.

Nos penúltimo capítulo, Winston passa a conhecer o que é a tão terrível Sala 101: um lugar onde as pessoas dão de cara com seus piores pesadelos. Ele se obriga a pedir que “façam isso com Júlia”, para só assim ser livrado da gaiola de ratos que poderiam devorar sua cabeça. O último é uma quebra de coesão em relação ao anterior, uma vez que mostra um Winston de cérebro lavado, enfim submisso ao sistema comandado pelo Partido, sem mais nenhuma emoção para com uma Júlia também lavada. Presume-se que ele deveria ser finalmente morto, mas até o fim da trama ele não o é.

E o mundo viveu triste e condenado para sempre. Um trágico final.

Para quem acaba o livro esperando reações heroicas e ação eletrizante em nome da libertação, o livro decepciona. Quem termina de lê-lo, fecha-o entristecido, por não ter encontrado nada que desse um pingo de esperança para a detenção da crudelíssima ação do Partido, e até assustado e temeroso pelo futuro da humanidade, uma vez que George Orwell dá à obra um aspecto assustadoramente verossímil. Pergunta-se: será que o mundo realmente corre o risco de um futuro tão trágico e terrível?

O consolo é enxergar o contexto histórico em que ele publicou o livro. O ano de publicação era 1949, uma quente época da Guerra Fria, em que Estados Unidos e União Soviética disputavam o domínio econômico do planeta e a hegemonia militar. Não havia muito motivo para otimismo político na época.

Hoje, com exceção da China e seu realíssimo Partido “Comunista” que vem ascendendo no panorama geopolítico mundial e adotando alguns dos fundamentos da ditadura do Grande Irmão, vemos que muito da estrutura que possibilitaria a realização da ameaça distópica foi desmontado com a queda da União Soviética e o enfraquecimento geopolítico dos Estados Unidos.

O livro não deixa mensagens encorajadoras ou esperançosas para quem o lê, não dá uma “moral da história” que inspire as pessoas – e por isso pode ser uma leitura muito frustrante para alguns/mas –, mas consegue despertar a curiosidade de muitos(as) para a política e para o estudo das formas de como ditaduras como a chinesa e as africanas se mantêm no poder. Inspira de forma indireta quem quer elaborar formas de levantar a conscientização política da população antes que se configurem perigos reais de golpe de Estado facilitados pela alienação sociopolítica popular.

A obra de Orwell é mais recomendável para quem já tem um gosto por livros de política, enquanto não o é para quem só gosta de obras com lutas travadas em prol da justiça e finais felizes. Elogio-a por levantar utilíssimos debates políticos, mas critico-o por semear pessimismo e desesperança quanto ao futuro da humanidade.

Bookmark e Compartilhe

Resenha: Febeapá – O Festival de Besteira que Assola o País

Postado em 21/01/2010 à/s 8:00

Para quem gosta de crônicas, humor politizado e história brasileira contemporânea, o livro de Stanislaw Ponte Preta (pseudônimo de Sérgio Porto) é um prato cheio e delicioso. Esse livro, escrito em plena ditadura militar – mas antes do AI-5 –, soube bem como tirar sarro dos atos mais estúpidos e arbitrários do regime autoritário em seus primeiros anos e também mostrar que a vida do povão na época, mesmo politicamente reprimida e controlada pelos militares, era em tantas ocasiões agitada e engraçada.

O livro inicia-se com 25 páginas contendo um sem-número de anedotas envolvendo trapalhadas crassas da polícia, da DOPS, das Forças Armadas e de políticos, expostas como verídicas. São fatos ocorridos entre 1964 e 1966, em que se destaca a polícia querendo prender Sófocles, morto em 406 A.E.C. e autor da peça teatral “Electra”. É um humor político bastante refinado, que não chegou a defender a restauração do governo civil mas estabeleceu críticas à atuação dos militares num nível que não despertasse a repressão à sua pessoa e obra.

Em seguida, é a vez das crônicas dirigidas à crítica humorística das autoridades políticas e policiais. Com extensão de duas páginas cada, elas novamente nos levam a rir muito daquele poder público autoritário, tão raivoso mas tão patético. Novamente Stanislaw leva o lado risível do poder público da época às últimas consequências: a risada intensa de quem lê. Mesmo hoje, mais de 40 anos depois da publicação do Febeapá, continuamos rindo muito, e vemos como o caráter paquidérmico dos nossos governos federais e estaduais vêm desde muito tempo atrás.

Nessa primeira parte, que abrange as anedotas e as crônicas das autoridades, os comportamentos mais atacados foram a mania da população de chamar uns aos outros de “subversivos” e “comunistas” quando algo que não gostavam acontecesse; obsessão repressiva da DOPS e da polícia militar, que queriam prender autores teatrais que já haviam morrido muitos anos antes, apreendiam até liquidificadores e fechavam até creches sob acusação de subversão; e o moralismo extremo que tentava impedir a popularização das liberdades femininas em usar minissaias, vestidos decotados, exibir as pernas e outros hábitos novos.

Na segunda parte, entra em cena a vida cotidiana do povão brasileiro, de todas as regiões do país. Os 40 contos abordam fatos também anunciados como reais e a maioria deles, pelo que podemos notar, dá alguma cutucada na autoridade política da época com rápidas referências a pessoas ou entidades de poder. É uma comédia da vida privada o que Stanislaw mostra.

O humor é constante até o antepenúltimo conto. Os dois últimos são sérios: um fala de reservar o “coração suplementar”, invento médico-tecnológico da época, para os problemas cotidianos enquanto nosso coração principal fosse reservado aos sentimentos e o último narra uma tragédia em que um mendigo afronta a polícia repressora e moralista e acaba morto. É um protesto contra o moralismo exacerbado que podia até matar e a coerção estatal que desrespeitava completamente os direitos individuais e liberdades das pessoas.

O Febeapá é uma das obras literárias que melhor escancaram o “país da piada pronta” que o Brasil é pelo menos desde a distante década de 60. Para quem quer um humor histórico, sociológico e político, o livro é excelente, e ainda torna-se mais valoroso pela coragem que Stanislaw manifestou em escrevê-lo cheio de críticas ao risível poder ditatorial opressor que dominava o Brasil em sua época. É uma pena que ele faleceria não muito tempo depois, deixando saudades enormes no humor brasileiro.

Bookmark e Compartilhe

Resenha do documentário The Corporation

Postado em 21/01/2010 à/s 7:30

The Corporation (2003) cumpriu bem seu papel de alertar os olhos dos telespectadores quanto ao papel vilânico exercido por grande parte das maiores empresas multinacionais do mundo. Desmascarou os monstros – ou melhor, as entidades psicopatas, como o documentário “diagnostica” – escondidos atrás dos(as) simpáticos(as) garotos(as)-propaganda. Entretanto, tropeçou ao limitar a abordagem de certos assuntos críticos, ao deixar de abordar mais profundamente esperanças e soluções e ao direcionar os sentimentos da audiência com uma habilidade limitada e falha.

Para quem não assistiu ainda ou quer se lembrar “do que é que falava mesmo”, o filme se divide em vários blocos que contam tópicos como:
- a história do poder abusivo das corporações, quando aproveitou a 14ª emenda da Constituição norteamericana para adquirir direitos de pessoa física;
- a imoralidade ou amoralidade do exercício do poder empresarial, a falta de ética;
- os baixíssimos salários oferecidos a empregados em países pobres;
- as indenizações que foram obrigadas a pagar e o fato de as mesmas serem tratadas como custos adicionais que podem ser arcados;
- o uso de substâncias tóxicas na pecuária;
- os danos ambientais de muitos empreendimentos;
- as tentativas – muitas bem-sucedidas – de apoderamento do “direito” de obter patente em cima de espécies de seres vivos transgênicos;
- o mau-caratismo das estratégias de incremento da preferência consumista infantil;
- a hipocrisia da (suposta) responsabilidade social;
- o poder sedutor da propaganda;
- a venda de valores sociais e de desejos;
- o poder de manipulação política, incluindo a superação do poder aos próprios políticos;
- as intimidações aos meios de comunicação e a quem quer denunciar os abusos corporativos;
- a aliança empresarial com governos totalitários;
- a tentativa de golpe de Estado contra Franklin Roosevelt;
- as tentativas de privatizar recursos naturais e o direito ao usufruto dos mesmos em outros países.

The Corporation mexe muito, muito mesmo, com os sentimentos de quem assiste, desde os iniciantes no pensamento consciente, que querem deixar a alienação que marcava suas vidas até pouco tempo atrás, até os mais ativistas. As reações são variadas: embora em alguns poucos momentos lance mão de cenas que fazem rir por uns segundos, o caráter alarmista provoca desde a desilusão com muitas marcas muito consumidas até o mórbido desejo de que os CEOs e diretores das gigaempresas fossem todos mortos.

Como denunciante do inferno que existe atrás da fachada “celestial” da publicidade, como flagrante das inúmeras atrocidades cometidas em nome do lucro alto, o filme cumpre bem a função. Abre os olhos de muitas pessoas que até certo momento nutriam sonhos capitalistas, sonhos de consumo, sonhos de um futuro como gigaempresário(a). Revela que produtos de muitas marcas têm crime, morte e destruição entre seus ingredientes.

Cumpre seu objetivo, mas a strictu sensu. Exerce mal a segunda parte do processo de conscientização anticorporativa: mostrar soluções e como cada pessoa pode proceder, individual ou coletivamente, para derrubar os superpoderes malignos das corporações.

Restringe-se a mostrar de forma vaga que “um mundo melhor, sem o mal corporativo, é possível”, num discurso que lembra mais os sonhos de um adolescente de 17 anos que tenta uma vaga numa faculdade de jornalismo do que o levantamento de possibilidades claras e estratégias consistentes de como, por exemplo, consumir eticamente e contribuir para que o megaempresariado passe a pensar duas vezes antes de agir como demônios.

Embora tivesse feito (breves) referências a questões como defesa da democracia, manifestações, boicotes, união popular e prestação de contas, várias perguntas ficaram em aberto para quem, após o filme, passou a interessar-se mais pela luta por um mundo livre de corporações “demoníacas”: Como organizar campanhas de boicote? Como acordar uma parte significativa da população urbana regional ou nacional de modo que haja possibilidade de haver ativismo anticorporativo em massa? Como impedir uma decisão política que, por exemplo, determine uma privatização absurda? Como impedir que uma empresa nacional em ascensão, prestes a alcançar a multinacionalidade, saia da linha e se torne mais uma “corporação do mal”? Como se opor a abusos éticos como o patenteamento sobre seres vivos ou códigos genéticos? Como contribuir individualmente para ajudar a derrubar a crueldade capitalista?

Exemplos como a oposição dos agricultores indianos à patente imposta ao arroz basmati ainda foram dados, mas no geral faltou uma maior ênfase em casos bem-sucedidos das mais variadas formas de oposição aos abusos capitalistas – faltando inclusive exemplificar campanhas de boicote que alcançaram sucesso.

E, acima de tudo, faltou a proposição de um debate global sobre como suplantar a estrutura capitalista-corporativa atual e lançar um sistema econômico sustentável, ético, respeitável e socialmente conveniente. Nos mais marxistas, essa falta de alternativa sistemática acirra o desejo de promover um estouro revolucionário socialista, proposta que a História já comprovou ser um fracasso.

Essa limitação no apontamento de soluções terminou causando um atropelo nos sentimentos das pessoas que guardavam esperanças de que o filme apontasse soluções de forma pragmática e desse o pontapé para que se começassem articulações de militância.

Considerando que em certo momento, antes dessa fraca exposição de saídas, foi dada a impressão de que as corporações venceram definitivamente, que não há mais soluções para salvar o planeta, que tentativas de ativismo serão vãs e que o mundo está perto de entrar em colapso irreversível, houve uma condução um tanto atrapalhada das emoções dos telespectadores. O mais provável foi que esse fortíssimo toque passional não havia sido previsto pelos produtores do documentário.

Essa falha na canalização emocional, ao ver de alguns, tem potencial de despertar em algumas pessoas de pensamento ideológico mais passional uma explosão psicológica de revolta, desespero por encaração de um problema sem soluções definitivas à vista e até ímpetos coléricos de revolucionismo para quem ainda vê o ideal comunista como única “alternativa” à crueldade capitalista.

Outra falha importante foi a exclusão de alguns assuntos fundamentais, no mínimo dois: os Direitos Animais e o poder da educação. A questão animal ficou limitada à exposição do problema dos hormônios e drogas aplicados em vacas e na intoxicação do leite, aliás, uma abordagem muito bem-estarista, restrita à denúncia dos danos bioquímicos ao organismo daqueles animais. A vivissecção ficou como promessa descumprida.

Não houve debates sobre as muitas outras crueldades praticadas pela pecuária ou pela prática de testes de produtos em bichos, nem uma abordagem ética da coisificação e comercialização de animais não-humanos. O veganismo, visto e compreendido por um número crescente de cidadã(o)s como uma das atitudes mais praticáveis e eficientes de oposição a abusos corporativos no que tange à ética animal e ao meio ambiente, sequer foi mencionado no filme.

A educação também quase não entrou na história. Aliás, foi ainda menos perceptível do que os animais. Ficamos sem saber se as “corporações do mal” também estão interferindo na educação escolar ao redor do mundo e se/como as escolas estão lidando com a perversão consumista induzida nas crianças. Uma das grandes esperanças de salvação para as sociedades mundiais, a formação estudantil de pessoas conscientes e resistentes à tentação publicitária, terminou esquecida.

Passando da época do The Corporation, primeira metade da década de 2000, a hoje, final da década, nos vemos no desejo necessitado de assistir a um “The Corporation 2”. O mesmo poderia abranger questões como o agronegócio e suas implicações catastróficas no meio ambiente, a situação da China e do Sudeste Asiático, onde uma versão ainda mais monstruosa do capitalismo encontrou moradia, e enfim a ética animal, além de observar o impacto da crise econômica global de 2008-2009, que aconteceu como uma explosão no sistema capitalista-corporativo mundial, analisar se houve algo de bom nesse quase-quebra-quebra.

E também, a sugerida continuação poderia abordar muitíssimo melhor as soluções possíveis para derrubar o poder megalomaníaco e cruel das corporações. Que venha falando de boicotes que deram certo, do movimento vegano, de manifestações que proporcionaram a expulsão de uma ou mais megaempresas de determinado(s) país(es), etc. Que analise se a ascensão de governos como o de Evo Morales – eleito na mesma Bolívia onde outrora tentaram privatizar a água – é algo positivo para a humanidade, para as esperanças de reação contra os poderes abusivos das multinacionais.

Se eu desse uma nota ao documentário, daria 6 – passaria de ano ainda, ainda que “na agulha” –, vistas as limitações e ausências descritas mais acima e a consequente incompletude do trabalho de conscientização. Não adianta gritar: “Ei! As corporações são monstruosas e o capitalismo é cruel! Abram os olhos!” e não dar soluções claras ou ao menos uma convocação geral a um debate global. O filme cumpriu o objetivo principal, mas de forma muito limitada. Que venha um “The Corporation 2” para terminar o serviço, que, convenhamos, foi muito nobre e bem-intencionado apesar das faltas.

Bookmark e Compartilhe