Ataque à Turma da Mônica, o maior owned articulístico da internet brasileira?
Me chamou muito a atenção um fato de poucos dias atrás, que vem repercutindo até este momento. Dioclécio Luz, cuja profissão desconheço, escreveu um texto que consistiu num verdadeiro petardo contra os gibis da Turma da Mônica. Suas críticas se direcionavam à suposta falta de profundidade na personalidade das personagens dos quadrinhos -- incluindo as principais --, às características dos mesmos interpretáveis como uma apologia ao bullying, às características peculiares de cada personagem focadas em seus defeitos físicos ou comportamentais e à comparação dessas personalidades brasileiras com as personalidades muito profundas de heróis dos quadrinhos euamericanos.
Um trecho de seu artigo, que pode ser lido na íntegra aqui, diz:
O outro aspecto a se observar na Turma da Mônica é o abuso dos clichês. Pelo menos três personagens são clichês: Mônica, como se viu, a que resolve as coisas na porrada; Cascão, que odeia água; Magali, a comilona. Antes de tudo, note-se que são clichês negativos. Ninguém da turma é conhecido por ser inteligente, criativo, sensível, cuidadoso, gentil, amável, isto é, por qualidades humanas, por virtudes humanas. Na verdade, temos, mais uma vez, o incentivo ao bulling – esses três personagens trazem consigo motivos para discriminação e para serem agredidos pelos colegas.
O problema dos clichês nos personagens é que eles não existem fora disso. Cascão ou Magali (e a Mônica) não existem fora dessas suas "virtudes". As observações, as visões do mundo, as idéias, as sugestões, tudo isso que dá personalidade a um personagem, não existe na Turma da Mônica. A gente sabe que é Magali quando ela fala em comida; a gente sabe que é Cascão por seu ódio à água; a Mônica aparece quando é hora da porrada. Mas essas características de Cascão e Magali, como veremos mais adiante, não são exatamente traços de personalidade, e sim, desvios comportamentais. A violência da Mônica, sim, está mais próximo de um problema de personalidade.
Como se pode ver, praticamente uma versão brasileira do livro A sedução dos inocentes, que condenou os quadrinhos nos EUA na década de 50 e causou um bom dano na indústria dos gibis na época.
Escola de idiotice
Diretora ensina Rebolation a alunos e gera polêmica
Uma diretora causou polêmica ao ensinar a dança Rebolation para os alunos em uma escola estadual da cidade de Papagaio, no interior de Minas Gerais. As imagens foram gravadas por uma aluna da escola.
Pais e professores ficaram revoltados com a atitude da diretora da escola. Para eles, ela não estaria dando um bom exemplo aos alunos ao ensinar uma dança sensual às crianças.
O vídeo da baixaria "didática" está aqui:
Essa é mais uma da série "Professoras de Idiotice" -- a primeira foi a da professora que dançou para uma banda de swingueira (vôte!) no ano passado.
O pior é que a diretora parece ser de meia-idade, escapa do perfil de professoras jovens cuja juventude se deu nessa época de baixaria musical que vem desde os anos 90.
Pois é, essa é a educação que temos. Em vez de fazer o que deveria -- educar e ensinar valores éticos novos que despachem os atuais valores parasitas --, ajuda a perpetuar a fossa social, moral e política que foi cavada e mantida durante séculos.
A próxima vai ser um professor sendo flagrado ensinando seus/suas alun@s a promover pequenos atos de corrupção, como praticar pequenos furtos e subornar policiais.
P.S: Notaram que a Record põe notícias sobre educação numa seção chamada "Vestibulares e Concursos"? Muito bizarro. É como se a educação servisse apenas para "formar" vestibuland@s e concursand@s.
A grande corrupção nasce nos menores hábitos
Artigo escrito em fevereiro de 2009
O que mais se ouve de “discussão política” no Brasil são queixas de que o cenário político do país, de municipal até federalmente, está dominada por corruptos, por pessoas que chegam ao poder para angariar ganhos pessoais e sustentar os interesses de setores econômicos que lhe são aliados em vez de lutar pelo bem comum do município, estado ou país. Pensando melhor sobre a cultura brasileira em que prevalecem o Jeitinho e o pensamento do “depois eles repõem”, não é surpreendente concluir que os maus hábitos dos grandes políticos corruptos têm berço nos pequenos delitos que até mesmo aquele mais humilde trabalhador comete de vez em quando.
Esse lado sombrio da cultura brasileira, ao lado do mau caráter que o político carrega previamente à sua eleição, é de fato a fonte maior da tradição da roubalheira. O que esperar de uma sociedade que, além de desprezar a vivência realmente honesta, lança mão da desonestidade desde os procedimentos mais simples do dia-a-dia?
Entre os delitos pequenos que quase invariavelmente evoluem para os grandes crimes da política, está incluído o furto de pequenos itens das escolas, faculdades e hospitais. Um número razoável de estudantes, funcionários e outras pessoas que circulam em instituições desses tipos costuma furtar, por exemplo, papéis higiênicos, lápis-piloto e sabonetes para levá-los para casa. Afinal, para quem faz isso, “o governo repõe depois” e “um rolo ou lápis-piloto sozinho não faz diferença numa escola desse tamanho”. O que se pode esperar de um futuro em que os mandantes da nação serão algumas dessas pessoas?
Notícia que vai revolucionar a sociedade brasileira
"Kibando" a sequência "Notícias que vão mudar o mundo" do Kibe Loco...
Alemão, Preta Gil e Deborah Secco apostam na saída de Eliéser do "BBB10"
A polêmica análise sociológica de Alemão, Preta Gil e Deborah Secco, apontam analistas políticos, vai causar uma comoção social sem precedentes no Brasil, de modo que alguns até preveem um movimento tão volumoso quanto as Diretas-Já. Eliéser, por sua vez, terminará como um mártir para a história do seu estado de origem.
Bah...!
Reflexões de Idiocracy: rumo à Idiocracia brasileira?
Artigo escrito em março de 2009, minimamente editado
A comédia cult Idiocracy (2006) mostra, talvez de uma forma exagerada mas muito hilária, os extremos a que a degradação cultural de um país provavelmente pode chegar. A burrice, a imbecilidade, a ignorância, o desrespeito, a coprologia, a obscenidade e outras imundícies são costumes socioculturais predominantes nos EUA do ano 2505, tudo porque não se conseguiu educar uma população de deficientes intelectuais que procriava gerações sucessivas igualmente idiotizadas. “Tudo porque não se conseguiu educar”? Isso nos lembra algo.
Quem pensou no Brasil pensou no óbvio. Assim como o sistema educacional estadunidense, que na distopia foi incapaz de reverter a imbecilização da população no terceiro milênio da Era Comum, o brasileiro também está apanhando feio na luta contra a degradação dos valores culturais e morais*. Estilos musicais degenerados marcados por letras descerebradas se popularizaram, o alcoolismo social é praxe, trotes universitários violentos e tapetadas (agressões contra pedestres por idiotas a carro “armados” com um tapete enrolado) estão em alta entre a juventude... O que dizer mais para evidenciar que o Brasil da vida real está ameaçado de se tornar uma idiocracia da mesma categoria que os EUA do “futuro”?
Embora sua obra tenha sido uma ficção hiperbólica, Mike Judge, seu diretor, inspirou-se, entre outros fatores socioculturais, num fato real nos Estados Unidos: a capengagem do sistema educacional. Uma realidade precária que já havia sido denunciada em livros por Carl Sagan – que abordou a deficiência na formação científica naquele país n’O Mundo Assombrado pelos Demônios – e Michael Moore – cuja queixa exposta na obra Stupid White Men mostrou o quanto é fácil a ascensão da estupidez cultural num país educacionalmente fraco.
Uma máscara que tem como molde a situação idiocrática estadunidense se encaixa direitinho no status quo brasileiro. Está aí para todos verem: a grande maioria de nossas escolas, incluindo aí não só os penuriosos colégios públicos como também muitas instituições particulares ricas e sofisticadas, está falhando miseravelmente na formação de mentes pensantes preocupadas com a ética, a moralidade* e a promoção de uma cultura respeitável.
A virtude da responsabilidade pessoal sobre si mesmo não está sendo valorizada como deveria na prática do ensino e a suscetibilidade da juventude em assimilar costumes idiotas mas prazerosos está sendo negligenciada. Como consequência, os jovens estão sendo levados sem a mínima resistência pelas correntes da ressaca cultural do hedonismo e da irresponsabilidade total. Mesmo as drogas, em vez de assustarem por sua nocividade extrema tão divulgada na mídia, estão atraindo com facilidade um bom número de adolescentes e jovens adultos que não aprendem direito a discernir o certo do errado.
Sem perspectivas de melhoria na forma como a nossa educação pública e privada lida com a formação cultural dos brasileiros, vamos caminhando rumo à versão brasileira e real da distopia estadunidense, a nossa idiocracia. Os absurdos que Mike Judge pensou estão se repetindo em nossa realidade. Enquanto nos EUA do século 26 assistir a uma bunda no cinema e apreciar a violência policial são costumes corriqueiros, aqui “beber, cair e levantar” e “brindar sempre a p*taria” estão se tornando convenções sociais valorizadas. Antes que os jovens de hoje elejam daqui a pouco o “rei do cabaré” para presidente, os educadores precisam discutir como essa cultura tão degenerada deve ser enfrentada e seus danos na mentalidade juvenil brasileira mitigados.
*Minha concepção de moral, ao contrário dos (falsos) moralistas ultraconservadores, não milita, por exemplo, pela homofobia e pela recristianização dos valores socioculturais brasileiros, muitíssimo pelo contrário.
A evangelização traz a salvação moral?
Artigo escrito em janeiro de 2009
Esse é um fenômeno quase tão antigo quanto a primeira igreja evangélica e não é exclusivo do Brasil, mas percebi que hoje seus motivos estão fortes como há muito não estavam e tornou-se inevitável uma análise da situação ser feita. Trata-se da recorrência de muitas pessoas, de qualquer classe sócio-econômica, ao cristianismo pentecostal para se refugiar das falhas graves de moralidade que os provedores de cultura de massas vêm cometendo.
Quem ainda não conheceu um evangélico que demonstre manifestamente a rejeição às imoralidades mundanas contemporâneas? É de se notar, no entanto, por quem tem sobriedade intelectual, senso crítico e conhecimento suficiente de abusos religiosos, que, por mais que se espere no cristianismo e na igreja um Eldorado da retidão moral e dos chamados bons costumes, ele não o é e muitas vezes exerce um papel totalmente inverso, o de provedor de outras imoralidades e vícios.
Não é à toa que muitos ex-cristãos que hoje não têm mais religião concluem que, ao contrário do que o crescente número de evangélicos espera em seu novo padrão de comportamento, “aceitar Jesus” não é nem nunca foi garantia de se alcançar uma vida de salvação moral.
“Onde está essa tal decadência moral de que tanto falam?”, é necessário perguntar para querer compreender o ponto de vista cristão. Além daquelas tradicionais afirmações de que “as pessoas estão caindo cada vez mais facilmente na promiscuidade”, “não há mais respeito mútuo como antigamente(?)”, “os valores de hoje estão levando muitos às drogas, ao álcool, à autodestruição”, “o amor ao próximo está sendo desvalorizado” e outras que apontam, com ou sem razão, com ou sem vieses preconceituosos, a tendências de relaxamento do que chamam de “moral e bons costumes”, realmente são apontáveis diversos pontos em que os instrumentos que provêm cultura para as massas e influenciam decisivamente os seus hábitos estão atentando de fato contra a moralidade e agredindo diversos valores éticos sociais nos dias de hoje.
Dez frases que nunca direi
Obs.: a ordem não quer dizer nada.
1. Velha, me dá dinheiro pra comprar um galeto ali na esquina?
2. O homem [predicado qualquer, não relacionado a gênero, sobre biologia, filosofia ou ciências humanas].
3. Ainda vou comprar aquele Nike Shox made in China fuderoso.
4. [no telefone] Vou fazer um churrasco aqui na frente de casa nesse domingo, com carne de todo tipo, pra todos os gostos, e você está convidada.
5. É isso mesmo, eu deixei de ser vegetariano, desisti.
6. Tô chateado porque me esqueceram de convidar pra Vaquejada de Carpina.
7. [Algum/a colega vegetarian@], você deveria pensar nas crianças que estão passando fome no centro da cidade em vez de estar discutindo sobre animais irracionais.
8. Anuncio logo: vou querer de presente os últimos CDs de Jennifer Lopez e Amy Winehouse.
9. Esse cachorro tem dono [sic]?
10. Em nome do pai, do filho, do espírito santo, amém.
Alienação na sala de espera
Artigo escrito em julho de 2009
Quem frequenta lugares que demandam uma espera, como salões de beleza e consultórios médicos particulares, sabe as opções de distração que existem para a pessoa aguardar atendimento. Seja em salas confortáveis, seja dentro do único cômodo do recinto, é mais que esperado que encontremos a nosso dispor um televisor, sintonizado quase sempre nas emissoras mais populares ou num DVD tolo, e um punhado de revistas, geralmente de fofocas, novelas e carros e menos comumente de notícias voltadas para as classes média e alta.
Considerando a inutilidade (in)formativa das revistas não-jornalísticas geralmente disponíveis nesses lugares e a manipulação a que o jornalismo da TV aberta e das revistas mais comuns lá nos submetem, é de se refletir: salas de espera são recantos onde se reforçam a alienação e a estagnação intelectual. Não é por culpa das pessoas que não têm alternativas melhores, mas sim justamente dessa falta de opções quanto ao que ler e ver, da falta de costume cultural de se dispor ali de meios realmente construtivos de informação e provisão de conhecimento.
As pessoas abençoadas pelo hábito de ler livros e levá-los consigo para qualquer cantinho de aguardo são as únicas protegidas do adormecimento cerebral que essas revistas e canais televisivos de última categoria promovem – ou nem isso, quando a sala é pequena e o volume da TV está alto, interferindo na leitura do bom livro. Já as demais, coitadas, estão condenadas a viver por talvez horas numa prisão abstrata, uma cela minúscula e tortuosa onde só existem revistas como Caras, Contigo, Minha Novela, Tititi, Quatro Rodas e Veja e uma TV transmitindo Globo, Record, SBT ou um DVD musical meia-boca.
Os limites da coerção policial numa sociedade sem tratamento
Artigo escrito em janeiro de 2009
Com a Lei Seca, que pune com rigor motoristas que misturam álcool e direção, levantou-se um debate notável sobre o choque entre coerção e cultura, quando uma lei rigorosa se choca com os costumes viciados da sociedade. Duas perguntas oportunas são lançadas nessa discussão. A primeira é: uma norma que passe por cima de um vício cultural sem que este tenha sido devidamente remediado pela conscientização coletiva consegue cumprir o seu objetivo? E a segunda reflete uma outra preocupação de enorme importância, com muito em comum com a outra questão: até que ponto o poder policial consegue forçar a inibição da delinquência e da violência sem que as raízes sociais delas sejam devidamente tratadas?
Gerou-se o aperto do costume alcoólico com a proibição total do álcool no sangue do motorista. Enquanto há fiscalização nas estradas, todos estão pensando duas vezes antes de “abastecer” o corpo com etanol. Mas bastou um relaxamento no rigor fiscal que os acidentes causados pela embriaguez no volante voltaram a crescer significativamente. A verdade escancarada é que, por não ter sido antecedida por um esforço de conscientização cultural de longo prazo, a Lei Seca só vem funcionando quando os corpos de polícia de trânsito apertam. É o mesmo efeito de uma seringa entupida contendo ar: o aperto, equivalente à coerção, só reduz o objeto a ser tratado por compressão forçada, nunca por diminuição do conteúdo. A mentalidade da sociedade não muda, só é forçada a se comportar dentro do limite. O combate policial à ebriedade dos motoristas pode continuar e até tornar-se mais eficiente com a investida de mais policiais, viaturas e delegacias móveis, mas será sempre limitado a forçar a compressão dos hábitos viciados, nunca sua redução consciente.
Assim a primeira pergunta encontra sua resposta: o objetivo da norma coerciva não antecipada pelo trabalho da consciência coletiva é atingido sim, mas só enquanto há fiscalização rígida. Não conseguirá nunca converter o costume popular viciado em responsabilidade autocultivada, mas só lhe impor volume menor.
Para que servem mesmo os hinos nacionais?
Artigo escrito em fevereito de 2009
Obs.: Este artigo é dirigido não apenas para os brasileiros, mas para todos os países e povos do planeta. Traduzi-lo para outras línguas será de muito bom grado. Também não busca inferiorizar o Brasil ou qualquer outra nação em relação às demais, muito pelo contrário.
“Ouviram do Ipiranga as margens plácidas...” Quando ouço essa música, em vez de sentir “orgulho” do país, pensar na suposta superioridade ambiental do mesmo, imaginar o Brasil como potência geopolítica num futuro hipotético, começo a pensar: para que servem mesmo os hinos nacionais? Qual a contribuição deles para um mundo melhor e mais unido? A utilidade do hino, em meu pensamento, se faz fortemente questionada.
Mediante essas questões, me vem à mente a ideia de que os hinos são resquícios de uma época em que o nacionalismo, o sentimento de que seu país é superior a todos os demais, era tratado como uma virtude e um valor inquestionável – ou melhor, questionável apenas por anarquistas. Entretanto, quando se muda o ângulo da visão do mundo, da arrogância patriocêntrica à filosofia de união internacional, percebemos que os hinos nacionais são dispensáveis num mundo unido e igualitário que irreleve diferenças territoriais, étnicas e religiosas.
A opinião favorável ao hino patriótico afirma que ele é bom porque exalta os esforços, tradições e virtudes do povo, valoriza a riqueza ambiental do país e releva a identidade nacional. É muito bonita a intenção, mas e os outros povos, as outras nações? O que realmente faz tal pátria ter um povo mais esforçado e virtuoso e melhores tradições do que todas as outras? Por que temos que necessariamente crer que somos “melhores” em vez de tratar todos os povos e nações do planeta como igualmente dignos e lutadores?
Amy, a Louca, apronta mais uma vez
Amy Winehouse é conhecida por promover o showbusiness da estupidez. Não satisfeita em fazer fama com suas músicas, investiu-se em destruir sua própria "alma", acreditando (infelizmente com razão) que muit@s de seus/suas fãs seriam idiotas o suficiente para admirá-la ainda mais por ser, hum... "polêmica". Drogas pesadas, atos de violência e vandalismo, internamentos, comportamentos ridículos... É um exemplo negativo de popstar, uma amostra de como alguém pode terminar à beira da insanidade por não saber lidar com a fama. Eu até lhe reservei umas boas críticas, exibindo-a como exemplo de celebridade a ser boicotada e repudiada, no extenso artigo Os 15 mandamentos do consumidor ético e consciente.
Pois ontem ou hoje ela deu mais uma amostra de que luta para morrer ostentando o título de cantora mais imbecil da história da música pop:
Amy Winehouse embarca para a Jamaica e doa seus gatos para abrigo
Amy Winehouse embarcou para Jamaica, onde deve trabalhar em seu terceiro álbum, mas antes de partir a cantora decidiu se desfazer de seus onze gatinhos de estimação.
De acordo com o jornal The Sun, Amy deu dois dos bichanos para a afilhada, Dionne Bromfield, e pediu que um abrigo de animais fosse buscar os outros bichos. [Como se abrigos de animais domésticos já não tivessem problemas o bastante com superlotação e dificuldades de arcar com as enormes despesas.]
Eu acho que, para ela, só falta mesmo matar um bicho ou uma pessoa para o seu showbusiness da estupidez atingir o auge e ela se sentir glorificada.
Está mais que certa a nota da redação que a ANDA reservou a essa nota:
Nota da Redação: Os gatos não deveriam ser assim tão estimados pela cantora. Pois, assim como um filho não se descarta nem se doa para um vizinho, o mesmo se sucede com os animais criados e cuidados por nós: cria-se um elo, e não é uma viagem que vai impedir que continuem conosco. Essa e outras histórias são puro pretexto para justificarem o abandono. Um péssimo exemplo. Quem sofre são os animais.
Perguntas indiscretas (Parte 13)
Carnaval é uma época em que investidas extraconjugais são mais que frequentes. Aliás, na verdade a "gaia" transcende o carnaval, acontecendo casos de "traição festiva" em qualquer show de falso forró, swingueira, pagode, brega, axé etc. Mas, contraditoriamente, as mesmas pessoas que "chifram" seus/suas parceir@s são as primeiras a achar ruim, sentir ódio e sofrer quando passam a ser as vítimas desse costume socialmente clandestino.
Pergunto então a todas essas pessoas que traem em shows e folias:
- Se a traição é tão comum e até corriqueira entre jovens, por que @s própri@s não a "legalizam" socioculturalmente? Por que @s jovens que traem não passam a adotar uma cultura de amor livre, em que relações extraconjugais efêmeras (ficada e sexo) são toleradas e não são mais transgressoras da fidelidade entre namorad@s?
- Por que quem trai não tolera ser traíd@ em nossa cultura?
TV Animal fora do ar: parabéns, SBT, por tamanha estupidez
O SBT parecia ter tomado vergonha na cara e lançado um programa de conteúdo educativo e conscientizador, e melhor, voltado para animais, abordando até um pouquinho de direitos animais (pelo menos constava isso na proposta do programa). Parecia estar começando a reconhecer o (teórico) papel social da televisão de prover informação, educação extraescolar e conscientização, como eu desejava.
Para quem sequer lembrava que o SBT existe, esta é a notícia de quando a emissora lançou esse programa, com uma proposta muito boa:
TV Animal retorna à grade do SBT totalmente reformulado
Um programa com proposta educativa e informativa que leva entretenimento para toda a família, principalmente para os amantes de animais
O "TV Animal" retorna à grade do SBT totalmente reformulado com a apresentação de Beto Marden a partir de 9 de outubro. A atração reúne quadros que proporcionam aos telespectadores conhecimento e curiosidades sobre os hábitos de animais de espécies variadas semanalmente, sempre às sextas-feiras, às 20h15.
Nesta quarta, 30 de setembro, o SBT reuniu jornalistas de diversos veículos de imprensa no Aquário de São Paulo, Zona Sul da cidade, para apresentar a nova atração.
Poesia: Vasto mar de álcool
Socorro!
Estou me afogando
Neste vasto mar de álcool
Que me cerca!
Este mar implacável de etanol
Da cerveja, da cachaça, do vinho, do whisky
Cheio de barcos, de pessoas amantes do mar
Não tem ninguém para me ouvir
Para me ver sofrer
Estou sem fôlego
Sem forças
Sem ânimo
Sem esperança
Sem vida!
Não aguento mais viver
Cercado de álcool!
Estou cansado de nadar
Exausto
Já nadei por quilômetros ao meu redor
Por anos e anos
Por entre os tantos barcos de gente que gosta desse mar
(e eu não gosto, nunca gostei)
E não encontrei sequer um chão onde pisar
E descansar
Neste mar alcoólico.
Em defesa de Yu-Gi-Oh!: por que os ataques cristãos ao desenho e ao jogo são absurdos
Artigo escrito em setembro de 2008. Hoje a época é de Yu-Gi-Oh GX e 5D's, mas o texto não perde a atualidade pelo fato de ainda existirem ataques a jogos e animes de temáticas que afrontam o etnocentrismo cristão.
Em 2008, numa nostalgia de lembrar a adolescência, resolvi rever episódios do anime Yu-Gi-Oh!, que tem o menino Yugi Moto (escrito ao redor do mundo como Yugi Muto ou Mutou) e o espírito do Faraó Yami/Atem que incorpora o primeiro como protagonistas. Como era de se esperar, me lembrei das inúmeras “críticas” (eufemismo de condenações) vindas de denominações cristãs ora contra o desenho ora contra o jogo de cartas que deu origem a ele.
Algo muito esperado vindo de uma religião intolerante e antipagã “por excelência” – ainda que ironicamente recheada de muitos aspectos assimilados de várias culturas pagãs situadas pelos domínios do antigo Império Romano e suas vizinhanças – que, para tentar desqualificar as religiões não-monoteístas, tacham as entidades divinas delas de “demônios” e os rituais sagrados delas de “satânicos”, passando pela obtusidade de falar de forma caluniosa que os espíritos malignos contra os quais essas crenças alheias sempre se posicionaram são seus aliados também.
Nessa nostalgia pessoal e me aproveitando de minha posição de defesa à harmonia e respeito mútuo entre as crenças e descrenças – o que, a saber, não exclui o direito de levantar críticas baseadas em argumentação racional, objetiva e honesta –, entro em defesa a Yu-Gi-Oh!, incluindo eu o jogo de cartas e o anime que se baseia nele. Manejo minha argumentação ao melhor estilo “Monstros de Duelo”, com conhecimento de causa, cabeça fria e senso de saber onde me defender e (contra-)atacar. Então, é hora do duelo, cristãos.
Enquete anti-idiocracia no site da Câmara dos Deputados
Em tempos de 4548/98, temos um projeto de lei do bem, decente. É o PL 6446/09, de autoria do deputado Nelson Goetten (PR/SC), que visa vetar cenas degradantes e humilhantes nos lixos televisivos chamados reality shows.
Abaixo a justificativa, que considero mais que válida e muito pertinente:
O art. 5º da Constituição Federal estabelece que “todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, e que ninguém
será submetido à tortura nem a tratamento desumano ou degradante (art. 5º, inciso III, CF).Ademais, o mesmo artigo 5° estabelece que:
(...)
X – São invioláveis a intimidade, a vida privada, a honra e a imagem das pessoas, assegurando o direito à indenização pelo dano material ou moral decorrente de sua violação;
(...)
XXVIII – São assegurados, nos termos da lei:
a) a proteção às participações individuais em obras coletivas e à reprodução da imagem e voz humanas, inclusive nas atividades esportivas.A despeito da existência de tais mecanismos constitucionais de proteção aos direitos individuais, os castigos físicos e o tratamento humilhante, amplamente combatidos nos tratados internacionais e consolidados no ordenamento jurídico das sociedades democráticas, ganharam uma nova arena de exibição nos tempos modernos, que é mídia eletrônica. Desafio é o codinome que legitima a exposição de indivíduos a situações de risco real de morte e com efetivas conseqüências prejudiciais do ponto de vista da preservação da moralidade e da dignidade humana.
Viver a pancadaria (Parte 2)
Anteontem fui obrigado pelas circunstâncias (como sempre, familiares vendo televisão) a ouvir (e ver alguns poucos instantes) mais uma das tantas brigas que marcam a novela Viver a Vida. Entre quais personagens, não me interessa.
Pensando em mais esse momento de baixaria das novelas das nove da Globo, dei uma procurada no Google News sobre brigas nessa novela.
Vejam o resultado e tirem suas conclusões: http://news.google.com.br/news/search?pz=1&cf=all&ned=pt-BR_br&hl=pt-BR&q=viver+a+vida+briga
Essa novela está mais para Viver a Pancadaria. É lamentável como a Globo gosta de incitar a baixaria como valor sociocultural.
Tenho saudades daquela campanha que, dez anos atrás, estava surgindo, a Quem financia a baixaria é contra a cidadania. E a Globo é evidentemente contra a cidadania -- em diversos sentidos, da cidadania da mobilização à cidadania das relações humanas civilizadas.
Novamente digo: é uma pena que tanta gente tenha a TV ligada na Globo como principal diversão de seu dia-a-dia.
Fica a mensagem, que faço questão de repetir:

Resenha do documentário Jesus Camp
Quem assiste ao documentário Jesus Camp (2006) adquire a convicção de que o ministério cristão Kids on Fire, presidido pela pastora Becky Fischer, é um perigoso Talibã cristão criador de fanáticos/as religiosos/as. O vídeo mostra, embora num ponto de vista tendente à neutralidade, uma das formas como as igrejas evangélicas mais fundamentalistas dos Estados Unidos estão recrutando fiéis. Escancara todo o processo de lavagem cerebral e fanatização intensiva de crianças sob controle de ministérios extremistas.
Centrados no cotidiano das crianças Levi, Tory e Rachael, Jesus Camp relata como o acampamento de férias da Kids on Fire transformava crianças em fanáticos/as de guerra. Eram crianças treinadas desde cedo a seguirem cegamente o cristianismo, “aprendendo” a crença criacionista por livro de “ciência”, sendo induzidas a acreditar que filmes como os de Harry Potter são demoníacos, tendo sua mente bombardeada por insistentes pregações religiosas, sendo doutrinadas que o aborto tem que ser banido de seu país.
Segundo a pastora Fischer, é nessa idade, entre 5 e 8 anos, que as crianças absorvem algo que ficará em suas cabeças pelo resto da vida. Embora o filme não intencione a denúncia explícita como os documentários de Michael Moore fazem, a abordagem de cada detalhe do verdadeiro abuso psicológico daquela meninada nos leva à indignação diante de tanto absurdo. As crianças choram pela emoção induzida pela fé, têm sensações praticamente psiquiátricas de que estão sendo “abençoadas” pelo deus cristão, gritam por Jesus, são mentalmente levadas a pregar e prestar juramento à sua religião, repetem obsessivamente a si mesmas a convicção religiosa...
Nos cerca de 80 minutos do documentário, aprendemos como as igrejas fundamentalistas estadunidenses estabelecem, de forma muito covarde, um controle cerebral sobre mentes tão tenras e imaturas; como a lavagem cerebral que aplicam é tão sofisticada; como estão criando extremistas que se põem em guerra, terroristas em nome de Jesus.
George W. Bush, um dos presidentes mais malignos da história estadunidense, é abençoado pelas crianças do acampamento fundamentalista. Nos momentos em que ele e o juiz Samuel Alito são citados, percebemos como seu governo representou tudo que não prestava. Não bastasse ser um senhor da guerra e inimigo do meio ambiente, Bush também favoreceu o fundamentalismo cristão, segundo as próprias personalidades principais do ministério Kids on Fire.
Depois de terminamos de assistir a Jesus Camp, entramos num processo de reflexão: como essa gente é capaz de fazer tudo isso com meninos e meninas que mal tiveram a oportunidade de aprender a pensar? Pensamos também que, se essa atitude de doutrinar crianças para o fanatismo religioso se proliferar nos EUA, a situação futura daquele país será muito desconfortável, vislumbrando-se para o futuro a violação do laicismo do Estado, a expansão e radicalização da população ultraconservadora e os prejuízos às mulheres e às minorias, ambas as quais serão oprimidas por sombrios governos orientados pelo fundamentalismo cristão tal como foi o mandato duplo de Bush.
Jesus Camp nos dá um alerta: se esse processo de fanatização crescer por lá, se a população estadunidense se deparar com mais pastores/as do tipo de Becky Fischer, a coisa lá vai ficar ainda mais feia, e, em última análise, o mundo sofrerá ainda mais do que sofreu na era Bush.
Mas felizmente o acampamento do fanatismo foi brecado: em novembro de 2006, graças às reações indignadas da parte esclarecida e lúcida da população estadunidense, a colônia cristã infantil do documentário foi fechado e não há mais planos de novas concentrações de crianças cristãs por parte da pastora até o momento em que esta resenha foi escrita. Esperemos que a militância antifundamentalista se fortaleça de modo que cânceres religiosos como o ministério Kids on Fire não tenham mais vez por lá.
Resenha do documentário Super Size Me: a dieta do palhaço
A experiência de Morgan Spurlock com os 30 dias de refeições de tamanho até “Super Size” no seu documentário Super Size Me foi algo quase suicida. E muito corajoso também. Ele debilitou seu corpo com um mês de dietas nada saudáveis para denunciar como o fast-food estraga o organismo e vem provocando um crescimento epidêmico da obesidade na população dos Estados Unidos – e também do mundo, se considerarmos a clientela global das empresas multinacionais de comida rápida.
Ele resolveu se jogar na aventura perigosíssima de comer durante trinta longos dias três refeições diárias só com alimentos provenientes da McDonald’s, escolhida por ser a maior corporação de fast-food dos EUA. Aceitaria sempre as porções de tamanho “super size” quando fossem oferecidas. Viajaria por várias cidades norteamericanas para testar o serviço das lanchonetes da empresa.
Antes da experiência, era um homem muito saudável, com todas as taxas fisiológicas e desempenhos físicos “fora de série” de acordo com os muitos exames feitos. Era vegetariano assim como sua esposa, mas resolveu fazer como o Jesus bíblico – sacrificar a si mesmo, assim como o seu vegetarianismo, pela iniciativa de salvar as pessoas.
Esteve ligado a vários/as doutores/as para verificar como sua saúde passaria os trinta dias de tormenta alimentar. Em cada dia ele vai mostrando à câmera o que come e bebe. Paralelamente, o documentário mostra os podres da indústria de fast-food e as aberrações corporativas cometidas.
Entre esses podres e aberrações, o lobby da indústria alimentícia não-saudável, a quantidade de propagandas de alimentos ruins comparada às dos saudáveis, a invasão do fast-food nas escolas, a omissão de exibir os valores nutricionais do que se serve nas lanchonetes... Também são denunciados os problemas de saúde e socioculturais – neste caso, a autodepreciação que garotas obesas vivem quando se deparam com propagandas e programas de TV com mulheres magras – que a epidemia de obesidade veio acarretando.
Ele também tentava entrar em contato com alguém da McDonald’s para pedir esclarecimentos sobre a antinutritividade dos alimentos oferecidos, mas as pessoas responsáveis eram quase incomunicáveis, dando desculpas atrás de desculpas para não atenderem às ligações.
Durante o filme, ele foi surpreendido pelo fechamento da clínica Hælth, onde ele fazia alguns de seus exames, uma amostra, segundo ele, de que a saúde não era valorizada nos EUA – o que Michael Moore confirmaria no documentário Sicko anos depois.
A cada dia, Morgan sentia os sintomas da deterioração de sua saúde. Sentia estufamento, momentos de depressão, falta de fôlego, formigamentos, falta de ar, dores internas, entre vários outros problemas. Seu peso aumentava vários quilos em poucos dias. Seu fígado estava a caminho da deterioração, um fenômeno que nem mesmo um dos doutores que ele estava consultando havia visto antes. Estava ficando impotente sexualmente. Adquiriu um princípio de vício de hambúrgueres e refrigerantes. Ele poderia morrer se persistisse com a dieta suicida por mais tempo.
Quem assiste ao documentário torce para que os trinta dias de sofrimento de Morgan acabem logo. A pessoa pode ficar um pouco nervosa, enquanto assiste ao filme, na espera pelo fim da aventura sacrificante dele, compadecendo do princípio de doença que ele estava sofrendo.
No 30º e último dia do terrível hábito alimentar, o/a telespectador/a sente um alívio: enfim Morgan encerrou sua dieta patológica! Em seguida, ele mostra como sua saúde se deteriorou tão fortemente. Descobrimos que ele ingeriu quantidades bombásticas de açúcar (quase 14kg somados) e gordura (mais de 5kg no total) no mês da “dieta do palhaço”.
No final, antes dos créditos, os desfechos: ele recuperou sua saúde em poucas semanas, embora até a conclusão do filme ele ainda estivesse perdendo o peso; o McDonald’s decidiu retirar do mercado os alimentos de tamanho “super size”, lançar pratos (questionavelmente) saudáveis e passou a patrocinar eventos esportivos – negando, no entanto, a influência do documentário sobre essas decisões –; o representante do lobby alimentício já não estava mais no cargo; Morgan, por motivos não esclarecidos, deixou o vegetarianismo – o único desfecho triste da história.
Duas citações são mais marcantes no filme: “[Você] precisa pensar que, se acredita que o sistema [de que você desfruta] é corrupto, imoral, errado e agressivo, você estará fazendo parte dele”, segundo Alexandra Jamieson, a namorada de Morgan; “Mas por que as empresas mudariam? A lealdade delas não é com você, e sim com os acionistas. A verdade é que isso é um negócio, não importa o que digam”, segundo o próprio Morgan.
Partindo para a análise crítica, não há praticamente nada do que reclamar do Super Size Me. O filme atinge seus objetivos e cumpre o que se habilitou a fazer: denunciar como o fast-food de hoje é imprestável em termos de saúde e nutrição e como seu empresariado não tem compromisso nenhum com o bem-estar humano – muito menos animal, visto a matança de animais que a pecuária promove, embora isso não tenha sido abordado no documentário.
Denúncias como a persuasão infantil ao mau hábito alimentar, a invasão do fast-food nas escolas, o lobby que inibe providências governamentais de combate à má alimentação e, mais notável, a epidemia de obesidade sem precedentes – todas referentes aos EUA, mas que, com o tempo, poderão contaminar outros países – são gravíssimas e o Super Size Me escancarou-as competentemente.
Morgan Spurlock, com seu documentário, juntou-se a Michael Moore no hall de cineastas corajosos que dão a cara à tapa – e, dependendo da perversidade dos denunciados, o corpo às balas – para mostrar que desgraças certas categorias políticas e econômicas do seu país são capazes de causar em prol de interesses escusos.
Bom seria se no Brasil tivéssemos gente do tipo deles, cineastas e escritores/as que conscientizam ludicamente a população, abrindo seus olhos para os problemas do país. É um dos melhores estilos de filme existentes: documentários educativos, que servem, com eficiência e competência, de apoio para as escolas e as campanhas de conscientização.
Super Size Me merece palmas, e Morgan, encorajamento para fazer mais documentários. Os EUA precisam de mais filmes do estilo. Depois de assistir ao filme, é de se duvidar que a pessoa vá continuar comendo regularmente fast-food. As pessoas menos resistentes a conscientizações vão muito provavelmente jurar nunca mais pôr os pés na McDonald’s, Bob’s, Burger King ou qualquer lanchonete do gênero. Obrigado, Morgan Spurlock, por ter dado uma de Jesus bíblico.
Resenha: Hagakure
Hagakure é um ótimo livro em que se pesquisar, mas bastante ruim para se ler e se aprender algo. Tem uma boa temática que aborda tudo ou quase tudo sobre o pensamento e a vida de um samurai, mas, pelo menos na edição da Conrad Livros, deixa de ser interessante e atraente até para quem quer aprender como viver como um samurai por causa da tosca distribuição dos ensinamentos pelas páginas.
A secular obra de Yamamoto Tsunetomo (ou, na disposição ocidental de nome e sobrenome, Tsunetomo Yamamoto) expõe centenas de curiosidades sobre como viver e pensar como samurai, como bons modos, o costume de beber chá e a homossexualidade entre tantas outras questões.
Três pontos que merecem destaque maior por terem uma abordagem em mais passagens são a devoção incondicional do guerreiro, com quê de submissão, ao seu mestre; a disposição que o indivíduo deveria ter para morrer “a qualquer momento” – viver sempre preparado para a morte – e a atitude de racionar palavras – em grande parte das situações cotidianas, procurar falar pouco e às vezes ser lacônico ou ficar calado.
Aparecem também instantes filosóficos em que Tsunetomo fala sobre, por exemplo, o nada e as formas dos seres – vivos e inanimados.
Grande parte dos ditados desse samurai que se tornou monge são dele mesmo, enquanto tantos outros ele mesmo diz que “dizia o senhor fulano”, vindos de homens como o Mestre Ittei, o Sacerdote Tannen e personalidades da história japonesa.
Um ponto negativo dos ensinamentos de Tsunetomo – ou da cultura japonesa, se considerarmos que ele estava apenas descrevendo costumes do Japão de sua época – é a forte misoginia expressa em passagens que pregam, por exemplo, a submissão da mulher ao seu marido e as proibições específicas de gênero impostas a ela. O machismo descrito em Hagakure mostra que a filosofia do Bushido era algo reservado apenas para homens.
Também chamam a atenção curtas passagens que são narrações de situações acontecidas com certos samurais, como a perseguição de um assassino, uma reunião de deliberações sobre criminosos e a discussão sobre a promoção de um samurai.
Tsunetomo preocupou-se, pelo que se pode deduzir, não em escrever uma autoajuda, mas em dar recomendações sobre o Bushido a quem lesse seu livro. Na introdução, diz-se que ele queria queimá-lo, mas não se sabe se essa atitude era uma mentira dita em atitude de protesto ou uma intenção.
Hagakure pode servir como uma ótima fonte para estudos etnológicos sobre o Japão feudal e, como repositório de preceitos da cultura desse lugar e época, não deve ser inteiramente levado ao pé da letra como ensinamento contemporaneamente adequado. Várias passagens são úteis hoje, mas outras devem ser observadas como amostras dos costumes e valores daquela sociedade.
Não sei sobre edições publicadas por outras editoras, mas a da Conrad Livros dispôs uma estrutura que nos convida a abandonar a leitura após passar do primeiro capítulo. Os tópicos são dispostos aleatoriamente pelos onze capítulos. Ensinamentos assim dispersos e tão curtos são muito difíceis de ser assimilados, uma vez que abordam apenas superficialmente as questões presentes e bruscamente somos remetidos a um assunto totalmente diferente depois de terminar uma passagem. Assim sendo, o livro não se faz de grande ajuda para o leitor – dificilmente a leitora – que deseja alinhar certos pontos de sua vida à antiga disciplina do samurai, e quem tem um outro livro na fila pode parar a leitura da obra na metade sem relevante prejuízo na aquisição de conhecimento.
Hagakure é útil como fonte de estudo sobre como o samurai vivia e pensava, mas sua leitura seria muito mais recomendável se houvesse uma organização nos tópicos abordados. Mesmo que subvertesse a disposição original do que Tsunetomo escreveu, uma nova edição que priorizasse a divisão das passagens por tema seria bem mais adequada e fácil de ser lida.
Resenha: Febeapá – O Festival de Besteira que Assola o País
Para quem gosta de crônicas, humor politizado e história brasileira contemporânea, o livro de Stanislaw Ponte Preta (pseudônimo de Sérgio Porto) é um prato cheio e delicioso. Esse livro, escrito em plena ditadura militar – mas antes do AI-5 –, soube bem como tirar sarro dos atos mais estúpidos e arbitrários do regime autoritário em seus primeiros anos e também mostrar que a vida do povão na época, mesmo politicamente reprimida e controlada pelos militares, era em tantas ocasiões agitada e engraçada.
O livro inicia-se com 25 páginas contendo um sem-número de anedotas envolvendo trapalhadas crassas da polícia, da DOPS, das Forças Armadas e de políticos, expostas como verídicas. São fatos ocorridos entre 1964 e 1966, em que se destaca a polícia querendo prender Sófocles, morto em 406 A.E.C. e autor da peça teatral “Electra”. É um humor político bastante refinado, que não chegou a defender a restauração do governo civil mas estabeleceu críticas à atuação dos militares num nível que não despertasse a repressão à sua pessoa e obra.
Em seguida, é a vez das crônicas dirigidas à crítica humorística das autoridades políticas e policiais. Com extensão de duas páginas cada, elas novamente nos levam a rir muito daquele poder público autoritário, tão raivoso mas tão patético. Novamente Stanislaw leva o lado risível do poder público da época às últimas consequências: a risada intensa de quem lê. Mesmo hoje, mais de 40 anos depois da publicação do Febeapá, continuamos rindo muito, e vemos como o caráter paquidérmico dos nossos governos federais e estaduais vêm desde muito tempo atrás.
Nessa primeira parte, que abrange as anedotas e as crônicas das autoridades, os comportamentos mais atacados foram a mania da população de chamar uns aos outros de “subversivos” e “comunistas” quando algo que não gostavam acontecesse; obsessão repressiva da DOPS e da polícia militar, que queriam prender autores teatrais que já haviam morrido muitos anos antes, apreendiam até liquidificadores e fechavam até creches sob acusação de subversão; e o moralismo extremo que tentava impedir a popularização das liberdades femininas em usar minissaias, vestidos decotados, exibir as pernas e outros hábitos novos.
Na segunda parte, entra em cena a vida cotidiana do povão brasileiro, de todas as regiões do país. Os 40 contos abordam fatos também anunciados como reais e a maioria deles, pelo que podemos notar, dá alguma cutucada na autoridade política da época com rápidas referências a pessoas ou entidades de poder. É uma comédia da vida privada o que Stanislaw mostra.
O humor é constante até o antepenúltimo conto. Os dois últimos são sérios: um fala de reservar o “coração suplementar”, invento médico-tecnológico da época, para os problemas cotidianos enquanto nosso coração principal fosse reservado aos sentimentos e o último narra uma tragédia em que um mendigo afronta a polícia repressora e moralista e acaba morto. É um protesto contra o moralismo exacerbado que podia até matar e a coerção estatal que desrespeitava completamente os direitos individuais e liberdades das pessoas.
O Febeapá é uma das obras literárias que melhor escancaram o “país da piada pronta” que o Brasil é pelo menos desde a distante década de 60. Para quem quer um humor histórico, sociológico e político, o livro é excelente, e ainda torna-se mais valoroso pela coragem que Stanislaw manifestou em escrevê-lo cheio de críticas ao risível poder ditatorial opressor que dominava o Brasil em sua época. É uma pena que ele faleceria não muito tempo depois, deixando saudades enormes no humor brasileiro.
Resenha do documentário The Corporation
The Corporation (2003) cumpriu bem seu papel de alertar os olhos dos telespectadores quanto ao papel vilânico exercido por grande parte das maiores empresas multinacionais do mundo. Desmascarou os monstros – ou melhor, as entidades psicopatas, como o documentário “diagnostica” – escondidos atrás dos(as) simpáticos(as) garotos(as)-propaganda. Entretanto, tropeçou ao limitar a abordagem de certos assuntos críticos, ao deixar de abordar mais profundamente esperanças e soluções e ao direcionar os sentimentos da audiência com uma habilidade limitada e falha.
Para quem não assistiu ainda ou quer se lembrar “do que é que falava mesmo”, o filme se divide em vários blocos que contam tópicos como:
- a história do poder abusivo das corporações, quando aproveitou a 14ª emenda da Constituição norteamericana para adquirir direitos de pessoa física;
- a imoralidade ou amoralidade do exercício do poder empresarial, a falta de ética;
- os baixíssimos salários oferecidos a empregados em países pobres;
- as indenizações que foram obrigadas a pagar e o fato de as mesmas serem tratadas como custos adicionais que podem ser arcados;
- o uso de substâncias tóxicas na pecuária;
- os danos ambientais de muitos empreendimentos;
- as tentativas – muitas bem-sucedidas – de apoderamento do “direito” de obter patente em cima de espécies de seres vivos transgênicos;
- o mau-caratismo das estratégias de incremento da preferência consumista infantil;
- a hipocrisia da (suposta) responsabilidade social;
- o poder sedutor da propaganda;
- a venda de valores sociais e de desejos;
- o poder de manipulação política, incluindo a superação do poder aos próprios políticos;
- as intimidações aos meios de comunicação e a quem quer denunciar os abusos corporativos;
- a aliança empresarial com governos totalitários;
- a tentativa de golpe de Estado contra Franklin Roosevelt;
- as tentativas de privatizar recursos naturais e o direito ao usufruto dos mesmos em outros países.
The Corporation mexe muito, muito mesmo, com os sentimentos de quem assiste, desde os iniciantes no pensamento consciente, que querem deixar a alienação que marcava suas vidas até pouco tempo atrás, até os mais ativistas. As reações são variadas: embora em alguns poucos momentos lance mão de cenas que fazem rir por uns segundos, o caráter alarmista provoca desde a desilusão com muitas marcas muito consumidas até o mórbido desejo de que os CEOs e diretores das gigaempresas fossem todos mortos.
Como denunciante do inferno que existe atrás da fachada “celestial” da publicidade, como flagrante das inúmeras atrocidades cometidas em nome do lucro alto, o filme cumpre bem a função. Abre os olhos de muitas pessoas que até certo momento nutriam sonhos capitalistas, sonhos de consumo, sonhos de um futuro como gigaempresário(a). Revela que produtos de muitas marcas têm crime, morte e destruição entre seus ingredientes.
Cumpre seu objetivo, mas a strictu sensu. Exerce mal a segunda parte do processo de conscientização anticorporativa: mostrar soluções e como cada pessoa pode proceder, individual ou coletivamente, para derrubar os superpoderes malignos das corporações.
Restringe-se a mostrar de forma vaga que “um mundo melhor, sem o mal corporativo, é possível”, num discurso que lembra mais os sonhos de um adolescente de 17 anos que tenta uma vaga numa faculdade de jornalismo do que o levantamento de possibilidades claras e estratégias consistentes de como, por exemplo, consumir eticamente e contribuir para que o megaempresariado passe a pensar duas vezes antes de agir como demônios.
Embora tivesse feito (breves) referências a questões como defesa da democracia, manifestações, boicotes, união popular e prestação de contas, várias perguntas ficaram em aberto para quem, após o filme, passou a interessar-se mais pela luta por um mundo livre de corporações “demoníacas”: Como organizar campanhas de boicote? Como acordar uma parte significativa da população urbana regional ou nacional de modo que haja possibilidade de haver ativismo anticorporativo em massa? Como impedir uma decisão política que, por exemplo, determine uma privatização absurda? Como impedir que uma empresa nacional em ascensão, prestes a alcançar a multinacionalidade, saia da linha e se torne mais uma “corporação do mal”? Como se opor a abusos éticos como o patenteamento sobre seres vivos ou códigos genéticos? Como contribuir individualmente para ajudar a derrubar a crueldade capitalista?
Exemplos como a oposição dos agricultores indianos à patente imposta ao arroz basmati ainda foram dados, mas no geral faltou uma maior ênfase em casos bem-sucedidos das mais variadas formas de oposição aos abusos capitalistas – faltando inclusive exemplificar campanhas de boicote que alcançaram sucesso.
E, acima de tudo, faltou a proposição de um debate global sobre como suplantar a estrutura capitalista-corporativa atual e lançar um sistema econômico sustentável, ético, respeitável e socialmente conveniente. Nos mais marxistas, essa falta de alternativa sistemática acirra o desejo de promover um estouro revolucionário socialista, proposta que a História já comprovou ser um fracasso.
Essa limitação no apontamento de soluções terminou causando um atropelo nos sentimentos das pessoas que guardavam esperanças de que o filme apontasse soluções de forma pragmática e desse o pontapé para que se começassem articulações de militância.
Considerando que em certo momento, antes dessa fraca exposição de saídas, foi dada a impressão de que as corporações venceram definitivamente, que não há mais soluções para salvar o planeta, que tentativas de ativismo serão vãs e que o mundo está perto de entrar em colapso irreversível, houve uma condução um tanto atrapalhada das emoções dos telespectadores. O mais provável foi que esse fortíssimo toque passional não havia sido previsto pelos produtores do documentário.
Essa falha na canalização emocional, ao ver de alguns, tem potencial de despertar em algumas pessoas de pensamento ideológico mais passional uma explosão psicológica de revolta, desespero por encaração de um problema sem soluções definitivas à vista e até ímpetos coléricos de revolucionismo para quem ainda vê o ideal comunista como única “alternativa” à crueldade capitalista.
Outra falha importante foi a exclusão de alguns assuntos fundamentais, no mínimo dois: os Direitos Animais e o poder da educação. A questão animal ficou limitada à exposição do problema dos hormônios e drogas aplicados em vacas e na intoxicação do leite, aliás, uma abordagem muito bem-estarista, restrita à denúncia dos danos bioquímicos ao organismo daqueles animais. A vivissecção ficou como promessa descumprida.
Não houve debates sobre as muitas outras crueldades praticadas pela pecuária ou pela prática de testes de produtos em bichos, nem uma abordagem ética da coisificação e comercialização de animais não-humanos. O veganismo, visto e compreendido por um número crescente de cidadã(o)s como uma das atitudes mais praticáveis e eficientes de oposição a abusos corporativos no que tange à ética animal e ao meio ambiente, sequer foi mencionado no filme.
A educação também quase não entrou na história. Aliás, foi ainda menos perceptível do que os animais. Ficamos sem saber se as “corporações do mal” também estão interferindo na educação escolar ao redor do mundo e se/como as escolas estão lidando com a perversão consumista induzida nas crianças. Uma das grandes esperanças de salvação para as sociedades mundiais, a formação estudantil de pessoas conscientes e resistentes à tentação publicitária, terminou esquecida.
Passando da época do The Corporation, primeira metade da década de 2000, a hoje, final da década, nos vemos no desejo necessitado de assistir a um “The Corporation 2”. O mesmo poderia abranger questões como o agronegócio e suas implicações catastróficas no meio ambiente, a situação da China e do Sudeste Asiático, onde uma versão ainda mais monstruosa do capitalismo encontrou moradia, e enfim a ética animal, além de observar o impacto da crise econômica global de 2008-2009, que aconteceu como uma explosão no sistema capitalista-corporativo mundial, analisar se houve algo de bom nesse quase-quebra-quebra.
E também, a sugerida continuação poderia abordar muitíssimo melhor as soluções possíveis para derrubar o poder megalomaníaco e cruel das corporações. Que venha falando de boicotes que deram certo, do movimento vegano, de manifestações que proporcionaram a expulsão de uma ou mais megaempresas de determinado(s) país(es), etc. Que analise se a ascensão de governos como o de Evo Morales – eleito na mesma Bolívia onde outrora tentaram privatizar a água – é algo positivo para a humanidade, para as esperanças de reação contra os poderes abusivos das multinacionais.
Se eu desse uma nota ao documentário, daria 6 – passaria de ano ainda, ainda que “na agulha” –, vistas as limitações e ausências descritas mais acima e a consequente incompletude do trabalho de conscientização. Não adianta gritar: “Ei! As corporações são monstruosas e o capitalismo é cruel! Abram os olhos!” e não dar soluções claras ou ao menos uma convocação geral a um debate global. O filme cumpriu o objetivo principal, mas de forma muito limitada. Que venha um “The Corporation 2” para terminar o serviço, que, convenhamos, foi muito nobre e bem-intencionado apesar das faltas.
Resenha: Stupid White Men
Michael Moore fez um bom trabalho com o Stupid White Men. Seus ataques às injustiças dos Estados Unidos e de “W.” foram bem vindos. Entretanto, eu esperava um pouco mais de críticas ferozes aos pontos podres da cultura americana indistintos de raça, sexo e filiação política. Fiquei com a sensação de que o livro matou a sede mas ainda faltou algo para completá-lo, e também não é muito um livro que sirva para o leitor rir.
Michael, segundo o que ele mesmo relatou, teve uma trajetória sofrida e heróica para mesmo conseguir publicá-lo em plena paranóia pós-11/09. Ou melhor, os maiores heróis da história, ele mesmo reconhece, foram na verdade os bibliotecários, categoria tão subvalorizada nas sociedades ocidentais mas que teve uma voz suficientemente poderosa para desafiar aquela editora que, mantendo uma postura que não se esperava “ouvir em uma nação livre”, se recusava em publicar integralmente o livro.
Os ataques a Bush “Júnior” foram intensos e mordazes e alternavam entre o irreverente e o praticamente sério. Pode parecer que ele decidiu preservar a gestão de Bill Clinton, mas mais na frente o leitor poderá ver que não é bem assim. Entretanto achei os ataques à sua gestão (que agora sei que foi) pseudodemocrata moderados demais para alguém que não poupou dedos para meter o máximo possível de pau no sucessor dele, e ao longo do livro, antes do capítulo “Democratas, mortos ao chegar”, parece haver uma tendenciosidade em favor de Clinton, mesmo depois de mostrar fatos que comprometiam a probidade do mandato dele.
Foram louváveis também os ataques aos mais notáveis vícios da sociedade americana, como o racismo (“Matem os branquelas”) e machismo (“O fim dos homens”) sociais, a imprudência ambiental (“Planeta bacana, ninguém em casa”) e a vilania para diversos outros assuntos (“Somos a número um”). Outros detalhes que escapam a esses meros vícios, como o sistema prisional e a justiça bastante injusta (“Uma grande e feliz prisão”), a falsidade de muitos democratas (“Democratas, mortos ao chegar”) e, mais importante, o descaso do Estado de lá para com a educação (“Uma nação de idiotas”), um detalhe que lembra muitíssimo a situação daqui do Brasil. Quanto a esse último, recomendo que o leitor complemente lendo o livro “O mundo assombrado pelos demônios”, de Carl Sagan, mais precisamente os capítulos “Não existem perguntas imbecis”, “A casa em fogo” e “O caminho para a liberdade”, que tratam da deplorável relação entre a educação e a ciência naquele mesmo país de Michael, e vai ter uma idéia de como o Brasil não é o único país territorialmente grande com o ensino público arruinado.
Como eu já disse mais acima, fica aquela sensação de que faltou alguma coisa. Algo bem importante, tenho que relevar. Trata-se da bitolagem religiosa, o fanatismo-fundamentalismo cristão que controla uma enorme parte daquela população mal-educada. Senti muita falta, muita mesmo, de ver Michael vociferando contra os fanáticos – e seus chefes reverendos maléficos – que tanto atrasam aquele país em todos os âmbitos.
Foi divertido o testemunho de sua trajetória em Tallahassee, capital da Flórida, e sua tentativa de mudar o destino dos Estados Unidos. Aliás, é de se ficar cético sobre esse detalhe que ele expôs de a realidade de seu país estar quase em suas mãos, exceto pela teimosia dos correligionários da campanha de Ralph Nader em não apoiar o “menos pior candidato”, Al Gore, naquele ano 2000.
Sobre essa parte de divertir, o livro é sim divertido, mas não chega a fazer rir bastante. O tom das críticas e as divulgações dos mais variados dados fazem do Stupid White Men mais uma obra de denúncias e desmascarações do que parcialmente de humor.
E não posso acusá-lo de ser um livro de dizeres (tão) duvidosos. Michael Moore teve a dignidade de pôr no final a fonte de cada informação que deu ao longo das páginas. Sem elas, o leitor o acharia uma obra nada confiável, dado o teor que pendeu politicamente contra os republicanos.
Michael escreveu uma boa obra, deixando a imagem de “George Bush II” em frangalhos, mas faltou uma intensidade maior de ataques aos democratas traidores e, por tudo que é sagrado para uma boa vida secular, críticas aos fanáticos-fundamentalistas cristãos dos EUA. Ele consegue se firmar como escritor admirável, embora (talvez mais da) metade daquele país ainda o ache idiota.












