“Fazendinhas” de shopping: o que estão ensinando aos nossos pequenos?

Alguns shoppings brasileiros, diante da realidade ultraurbana das crianças das grandes cidades, muitas das quais crescem acreditando que carne, leite e ovos são fabricados do nada no supermercado, tomaram a iniciativa de montar “fazendinhas” em parte de seu interior, no intuito de diverti-las, “ensiná-las” de onde vem os produtos de origem animal da mesa onívora brasileira e pô-las em contato com o mundo rural – ainda que de forma bem limitada.
Nesses pedaços de ruralidade incrustados nas urbes, estão expostos os mais diversos animais das fazendas de verdade: bovinos, porcos, coelhos, galinhas, perus, cavalos (ou pôneis)... Pode-se andar de charrete, montar equinos, participar de pescaria, e até levar animais típicos do campo para casa. Parece muito bom e saudável mostrar à meninada acostumada com a selva de concreto um pouco da vida da fazenda...
Eu disse “parece”. Porque, na ótica da ética animal, não o é nem um pouco. Em vez de apreciação, reservo a essas “fazendinhas” de shopping uma indagação preocupada: o que estão ensinando aos nossos pequenos?
A verdade é que estão lhes naturalizando o que há de pior na relação entre seres humanos e bichos: o regime de escravidão que norteia a pecuária, as fazendas de criação de animais, a mercantilização da vida. Aprende-se, com ou sem “educadores” presentes, que os animais rurais existem para nos servir, seja como comida, seja como meio de transporte, seja como bichinhos de estimação – mesmo sendo criados em pequenas gaiolas.
Essas instalações temporárias são na verdade um complexo de exploração animal, em três sentidos: propriamente exploram os animais, trazidos de fazendas de verdade para os shoppings, obrigados a cavalgar com crianças no lombo ou na charrete e expostos a todo o barulho estressante do local; engaiolam e comercializam diversos deles e, o mais preocupante, promovem a antipedagogia ética, pautada no utilitarismo servil, induzindo as crianças a crerem que cada espécie daqueles bichos de fato “servem”, vivos ou mortos, para determinados fins – e que isso é natural, é normal, é assim que a vida funciona e deve funcionar.
Visitei recentemente uma dessas “fazendinhas”, em um shopping movimentado de uma cidade metropolitana nordestina que não revelo aqui – pode ter sido em Natal, em Salvador, em Fortaleza, em Campina Grande, em qualquer uma grande cidade do Nordeste, ou até no Recife mesmo. Abaixo descrevo minha experiência nesse tipo de lugar. Nota importante: fui justamente para observar tudo e poder descrever aqui a realidade vislumbrada, não foi por outro motivo.
Frase da semana (4-10/07)
"Brasil ficou entre 8 melhores do mundo no futebol e ficou triste.É 85º em educação e não há tristeza." Cristovam Buarque, senador
A frase já diz por si só. Reflita sobre ela.
Exemplos de androcentrismo e machismo na sociedade brasileira
Abaixo mais um texto sobre como o androcentrismo se entranhou nos aspectos mais banais da vida social no Brasil, incluindo a linguagem. Do site da Rede Mulher, eu trouxe o texto de Vera Vieira sobre como a discriminação contra mulheres se arraigou na representações sociais imagéticas e linguísticas no país sobre o sexo feminino.
A discriminação à mulher está presa à tirania das palavras e imagens
por Vera Vieira (*)
Quando se diz "A salvação do planeta está nas mãos dos homens", ao invés de " A salvação do planeta está nas mãos da humanidade", reflete-se a posição que o homem vem ocupando na história, reforçando-se seu papel hierárquico e as relações de poder e dominação masculina na sociedade.
Ao longo dos tempos, tem ficado bastante evidenciado o papel da linguagem sexista no reforço dos estereótipos machistas que contribuem sobremaneira para o desequilíbrio das relações sociais entre homens e mulheres, caracterizadas pelo binômio dominação/subordinação. Ao nascermos, nosso sexo é definido pela natureza. Já o comportamento diferenciado tem a influência direta da formação e educação que recebemos no meio social, historicamente marcadas pela subordinação da mulher ao homem. Trata-se de um fenômeno cultural que se arrasta ao longo de milênios e que deve ser mudado.
As pessoas são educadas e formadas tanto pelas escolas, como pela família, Igreja, meios de comunicação de massa, leis do Estado, etc., que são responsáveis pela clara definição dos papéis desiguais da mulher e do homem, com conseqüências dramáticas na sociedade. Bastam somente alguns dados para essa comprovação: alto índice de violência doméstica sofrida pela mulher (com um número assustador de mortes), independente de raça, cor, etnia, classe social ou escolaridade; a média salarial baixa, mesmo com maior formação; pouca ocupação de cargos de liderança e número elevado de mulheres chefes de família, entre outros.
Animais sofrem com Copa do Mundo: venda de carne cresce muito
Venda de carne cresce 20% na véspera de jogo do Brasil
Os jogos da Copa do Mundo têm antecipado os finais de semana de muitos torcedores, que transferem o tradicional churrasco de sábado para o meio da semana nos dias das partidas da seleção brasileira. É o que mostra levantamento divulgado hoje pelo frigorífico Quatro Marcos. Entre os dias 13 e 15 de junho, horas antes da estreia do Brasil na Copa contra a Coreia do Norte, a venda de carne cresceu 20% no varejo em relação ao mesmo intervalo do ano passado. No atacado, o resultado foi ainda maior, de 25% em relação ao mesmo período de 2009.
O frigorífico realizou ainda pesquisa com seus clientes e constatou que a alta deve-se realmente aos jogos da seleção. "Os torcedores preferem o churrasco a outras receitas, devido ao número de pessoas reunidas em um mesmo local", avalia a empresa. Pesquisa realizada pela Associação Comercial de São Paulo (ACSP) e divulgada na semana passada indicava que os brasileiros pretendem gastar cerca de R$ 181,00 com a Copa do Mundo. Deste total, o gasto com comida corresponde a 20%, sendo 9% com ingredientes para refeições, 7% com petiscos e guloseimas e 4% com bares e restaurantes. Se a seleção brasileira for para a final do mundial, o desembolso deverá subir para R$ 357,00.
Para a população onívora e o agrocriminegócio, é uma notícia não só boa como literalmente deliciosa. Mas, para os animais que vêm à existência em maior número para sofrer com todas as privações de direitos possíveis e têm sua vida encerrada de forma cruel e precoce, é um fato infernal.
Pouco vai adiantar eu trazer aqui um desabafo de vegetariano sobre como a população está se alienando de qualquer preocupação com a vida animal como merecedora de direitos, já que a única resposta esperada dessa mesma turma que compra carne a mais antes dos jogos da Copa é o velho apelo troll à creofilia. Mas posso dizer que percebo no apego brasileiro ao churrasco em detrimento do respeito aos animais que foram mortos por essa causa um tema conveniente para um competente estudo sociológico.
É uma pena, porém, que eu esteja às vésperas de trancar Ciências Sociais para tentar o mestrado em Meio Ambiente no fim do ano. Mas, sendo a volta às CS um plano para o futuro depois desse mestrado, a pesquisa ficará como algo guardado para ser concretizado.
Montado na fúria: vídeo hilário com “rodeio humano”
Sei que é muito provável que respondam ao vídeo abaixo que "os touros são preparados para os rodeios", mas serve pelo menos para mostrar que, quando o assunto é montaria incômoda e incitar o temor da predação, mesmo o ser humano se torna um animal "xucro" e "bravo", tanto quanto dizem que os touros "de rodeio" são.
O título do post é uma alusão à ridícula reportagem da Superinteressante que saiu em 2006 -- depois de sua publicação, a revista perdeu o meu respeito.
Frase da semana (30/05-05/06)
Na verdade é uma frase lá da minha infância.
"Mamãe, essas caminhadas são para pedir para os bandidos pararem de cometer crimes? Será que eles vão obedecer e parar?" Pergunta que fiz para minha mãe lá na década de 90, sobre caminhadas pela paz, depois que vi uma notícia sobre uma caminhada, não sei se no Recife, no Rio ou em São Paulo. Não é a frase exatamente como saiu de minha boca, mas dá uma ideia do que perguntei.
Só sendo criança mesmo para acreditar que caminhadas pela paz vão resolver o problema da violência urbana.
Recomendo a você que leia meus artigos:
Caminhada para lugar nenhum
Problemas tratados com gozação e festejo, um vício social
Pela valorização do patriotismo crítico no Brasil
O texto abaixo, de Rafael Martins, publicado por Jefferson Xavier no Vooz, mostra como eu penso. Confundido com o nacionalismo fajuto, ufânico e meramente simbólico mas não sendo a mesma coisa, o patriotismo de querer um país melhor está em escassez no Brasil. O texto é do ano passado mas continua atual -- e provavelmente assim continuará por décadas.
Deixo claro que a opinião tanto minha quanto a de Rafael sobre a palavra patriotismo usada aqui não é o citado nacionalismo simbolista e fajuto, mas sim um civismo crítico que consiste em lutar como cidadã/o pela prevalência da justiça, seja jurídica, seja social, no Brasil.
Brasileiro acha que ser patriota é torcer pela seleção
Por Rafael Martins, escrito em 2009
Ano que vem tem copa do mundo e veremos mais uma vez aquelas manifestações de norte a sul do Brasil, ruas pintadas de verde – amarelo, bandeiras do Brasil penduradas nos carros, camisas com a bandeira do Brasil, rostos pintados com as cores da bandeira, gente chorando de alegria e chorando de tristeza.. Algum vizinho vai bater na sua porta e perguntar se você vai participar da “vaquinha” para pintar a rua. Vai ter rosto de Ronaldinho Gaúcho pintado pra cá, rosto de Kaká pintado pra lá. Vai ser aquela mobilização nacional pelos nossos “heróis”, a nossa seleção brasileira de futebol.
Torcer pela seleção brasileira não tem nada de mal, o problema é que aqui no Brasil a maioria das pessoas acha que ser patriota é torcer pelo Brasil na copa do mundo. E isso é alimentado com fervor pelas redes de televisão, pelas propagandas de cerveja, pelas propagandas de chinelos, pelos rádios etc..etc..etc..
Eu não tenho a menor dúvida em dizer que isso é lamentável! Acho que já está mais do que na hora do Brasil levar um “TAPA NA CARA” e cair na real.
A raiz de muitos problemas do nosso Brasil está ai, quer ver?
Digressão sobre o mal chamado nacionalismo
No texto Veganismo na província, de Bruno Müller, publicado na ANDA, a parte inicial fala de forma brilhante sobre a perversão sociocultural que é o nacionalismo.
Com poucas edições para tornar o trecho sobre nacionalismo um texto standalone, eis a mais inteligente e incisiva digressão sobre o nacionalixo que li até hoje.
Breves notas sobre o nacionalismo
Por Bruno Müller, no artigo Veganismo na província
O nacionalismo é uma das ideologias mais absurdas, ridículas, irracionais, perigosas e desprezíveis do mundo. Não estou sozinho nessa opinião*. Atribui-se a Albert Einstein a seguinte frase: “o nacionalismo é uma doença infantil; é o sarampo da humanidade”. Como se vê, não é só a física quântica que define os gênios.
O tema do nacionalismo me fascina desde a adolescência. Deve ser pelo fato de ser tão difundido entre os brasileiros. Do nacional-desenvolvimentismo dos anos 1950 até o nacional-futebolismo de sempre, passando pelo integralismo protofascista e o nacionalismo de esquerda, parece ser a única ideologia que realmente “pegou” no Brasil. O que certamente diz muito sobre seu povo e sua classe dirigente. E me recorda uma teoria. No filme “As Invasões Bárbaras”, um dos personagens defende que a inteligência é um fenômeno coletivo. Na Florença de 1504, por exemplo, brilhavam Maquiavel na filosofia e política, Michelangelo e Leonardo da Vinci nas artes, tendo Rafael como discípulo. Quando a maioria de um povo partilha uma mesma ideologia, será que isso diz alguma coisa sobre a sua inteligência coletiva?
O nacionalismo tem várias facetas e vertentes e, longe de sinal de vigor e versatilidade, isso aponta para sua incontornável debilidade. O que define uma nação? Ninguém sabe dizer ao certo. Idioma, etnia, religião, concentração geográfica, histórica ligação política. Tudo depende do que as pessoas podem alegar para se definirem uma nação e se sentirem no direito de matar outras pessoas só por serem de outra “nação”. Contudo, o constante contato entre os povos torna seu idioma e cultura dinâmicos, em constante mutação, ao passo que a pureza étnica não passa de uma aspiração falsa, e ainda por cima racista.
Nenhum povo tem uma origem única. Na Europa antiga e medieval, seja pelas conquistas militares, seja pelos fluxos comerciais, povos de diferentes origens, diferentes idiomas, diferentes culturas, estavam em contato constante. Os grandes impérios da Europa moderna, como a Áustria, a Prússia e a Rússia, eram uma colcha de retalhos étnica. A miscigenação pode ser mais evidente quando envolve povos de diferentes fenótipos, como nos países da América, mas acreditem-me, suecos, alemães, russos, italianos e britânicos são resultados de tantas misturas quanto qualquer brasileiro.
Pior que a fragilidade da sua conceituação, só mesmo as suas implicações. A presunção de originalidade e de diferença, que rapidamente transmuta-se em presunção de superioridade, ideais de grandeza e aspiração de pureza. Grandeza, superioridade, pureza… soa familiar?
Campanha da OMS quer inibir alcoolismo. Vai ter muito trabalho no Brasil
OMS lança campanha para impedir avanço do abuso do álcool no mundo
A Organização Mundial da Saúde (OMS) aprovou nesta quinta-feira uma estratégia global envolvendo 194 países para adoção de medidas de combate ao abuso de álcool. A estimativa é que 2,5 milhões de pessoas morram, por ano, no mundo em decorrência do abuso do álcool. Pelo menos 320 mil destas vítimas são jovens que têm de 15 a 29 anos.
Para a OMS, o ideal é que sejam adotadas ações diretas e indiretas nos vários setores da saúde pública visando a redução do abuso de álcool. As medidas devem incluir campanhas educativas e também a formação de profissionais, além de orientações para a prevenção ao abuso.
A organização sugere ainda que os governos fixem regulamentos mais rigorosos no caso da publicidade envolvendo bebidas alcoólicas. Outra recomendação é elevar os preços das bebidas como meio de tornar a ingestão menos acessível.
No Brasil, o Centro de Informações sobre Saúde e Álcool (Cisa) fez pesquisa e constatou que, em geral, o consumo de bebida alcoólica é maior entre os homens. De acordo com o Ministério da Saúde, entre os homens o consumo ocorre principalmente dos 25 aos 34 anos. No caso das mulheres, o uso de bebida alcoólica é maior no período dos 18 aos 24 anos.
Pela análise do Cisa, o consumo de álcool também é mais elevado entre os homens em outros países, como os Estados Unidos, o Chile e a Colômbia. Variam as faixas etárias e os percentuais apenas.
Pelo visto a OMS vai ter muito e muito trabalho no Brasil, onde o alcoolismo e o consumo "social" de bebidas alcoólicas sem moderação são um fenômeno sociocultural.
Que os batalhões de sociólog@s sejam acionados para estudarem por que se bebe tanto no Brasil, por que o álcool aqui é elevado quase à sacralidade -- coisa que tem evidentemente consequências catastróficas.
Aqui o consumo de álcool é quase um fato social (termo dado por Durkheim a fatos de interesse sociológico que exercem uma espécie de poder coercitivo sobre os indivíduos e são externos às vontades estritamente individuais). Quem não toma cerveja, cachaça, whisky, vinho ou alguma outra bebida do gênero em ocasiões de confraternização social, termina deslocad@ na roda de companhias, termina sem estar identifiicad@ com o grupo que tenta integrar. A não ser que seja um/a evangélic@ num grupo de irmã/o/s de fé.
Aproveito este post para recomendar esta comunidade do Orkut a quem é de Pernambuco e não bebe nem fuma: Não fumo nem bebo - Pernambuco
Obs.: Caso você tenha a impressão de que este post parece off e não corresponde ao propósito do Arauto relativo a influenciar o zeitgeist moral vigente, esclareço que corresponde sim porque o zeitgeist moral do futuro, pelo menos em minha concepção, visará o zelo à saúde própria, e assim repudiará esse consumo imoderado e irresponsável de álcool.
MTV Debate sobre rodeios
Está na internet a íntegra do MTV Debate de semana passada, no qual o assunto era rodeios.
Os participantes do lado do bem, pelos animais, foram Leandro Ferro, fundador do Ativismo.com e do OdeioRodeio.com; o advogado animalista Carlos Cipro; e o vereador João Farias, que conseguiu proibir (parcialmente) rodeios em Araraquara este ano.
Pelo lado pró-rodeio, participaram Tião Procópio, juiz de rodeios; Adriano Morais, peão de rodeios famoso; e o professor da UNESP Orivaldo Tenório.
Abaixo os links do programa, que foi gravado dividido em cinco partes:
Parte 1/5 www.youtube.com/watch?v=COJ6oejmIQs
Parte 2/5 www.youtube.com/watch?v=fUXi6DVRMTk
Parte 3/5 www.youtube.com/watch?v=W7SuzRdkKVg
Parte 4/5 www.youtube.com/watch?v=qoVoFH8YNkU
Parte 5/5 www.youtube.com/watch?v=FLN9fZrFBLs
Em vez de eu mesmo dar um parecer como foi, prefiro que você mesm@ veja e tire suas próprias conclusões.
Ótimo artigo sobre linguagem androcêntrica e desigualdades de gênero
Encontrei na internet esse ótimo ensaio, escrito por José Eustáquio Diniz Alves, que fala com riqueza de detalhes sobre a questão da linguagem androcêntrica e como ela reproduz e legitima as desigualdades de gênero existentes até hoje no Brasil.
Vale muito a pena ler. É muito bom também para professors colocarem para seus/suas aluns lerem e para discutirem em sala de aula -- como forma de nos aproximar de um zeitgeist moral limpo da desigualdade de tratamento entre os gêneros.
Só achei que algumas citações de ditos populares tiveram sua suposta conotação machista extrapolada, uma vez que não se explica como se chegou à conclusão de que aquelas frases foram realmente construídas com base androcêntrica.
Abaixo trago o link e o resumo do ensaio:
A linguagem e as representações da masculinidade
por José Eustáquio Diniz Alves
Este artigo tem por objetivo analisar como a linguagem corrente, os ditos populares e as piadas refletem e reforçam as representações assimétricas de gênero na sociedade. A linguagem e as representações da masculinidade e da feminilidade estão impregnadas de valores criados ao longo de séculos. O discurso masculino, construído no plano simbólico, busca tornar naturais as desigualdades sociais de gênero, legitimando as divisões sexual e social do trabalho, diferentes comportamentos sexuais e reprodutivos, bem como uma menor inserção social, cultural e política das mulheres na sociedade.
Relembrando um feliz momento de justiça pelos animais
A notícia abaixo é de agosto do ano passado, mas dá regozijo relê-la:
Sentença judicial proíbe a realização de vaquejadas em Xerém, RJ
O Ministério Público Federal, por meio de uma ação civil pública, determinou a proibição das vaquejadas em Xerém, distrito de Duque de Caxias (RJ). O juiz Vladimir Santos Vitovsky, titular da 5ª Vara Federal de São João de Meriti, condenou os réus Parque Ana Dantas Promoções e Eventos Ldta e Jonatas de Oliveira Dantas Filho a não mais realizar vaquejadas ou eventos similares com o uso de animais, sob pena de multa de R$ 100 mil por dia de descumprimento.
A sentença solicita a fiscalização das atividades do Parque Ana Dantas, por parte da FEEMA (Fundação Estadual de Engenharia do Meio Ambiente) e do IBAMA (Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis), exigindo a tomada de providências cabíveis para a proteção da Reserva Biológica do Tinguá e não autorizando a realização de nenhuma atividade que implique submissão de animais à crueldade.
Os motivos
O juiz condena os réus ao pagamento de indenização no valor de 1 milhão de reais por danos morais coletivos. Vistovsky alega que a infra-estrutura do parque está localizada apenas a 600 metros da Reserva Biológica do Tinguá, unidade de conservação federal, criada pelo Decreto 97.780/89.
De acordo com a Resolução Conama 13 de 1990, “nas áreas circundantes das Unidades de Conservação, num raio de dez quilômetros, qualquer atividade que possa afetar a biota [seres vivos, fauna e flora], deverá ser obrigatoriamente licenciada pelo órgão ambiental competente.”
Os argumentos apresentados por Vitovsky ainda reconhecem a importância de se preservar o bem-estar animal. Ao justificar as penas que serão cumpridas pelos réus, o juiz considera que o evento envolve brutalidade, maltrata e expõe à crueldade os animais.
Crueldades da vaquejada, uma “novidade” para o Brasil
Numa notícia divulgada pela ANDA – Agência de Notícias de Direitos Animais no último dia 1º, pude perceber como a vaquejada, mesmo com muitas décadas de abuso e exploração de animais, ainda é tão pouco conhecida fora do Nordeste (exceto pela Vaquejada de Xerém, realizada em Duque de Caxias/RJ, e por algumas ocorrências no Pará). No Sul-Sudeste, onde as organizações de defesa dos direitos animais são mais robustas e estão em notório crescimento, é vista como se fosse praticamente uma novidade, uma nova e exótica modalidade de exploração animal por entretenimento.
Ainda se tem muito pouco conhecimento, nos atuais polos de militância pelos direitos animais, sobre o pseudoesporte nordestino. Além de serem raros os sites sul-sudestinos que dedicam uma ou mais páginas à denúncia das vaquejadas e da maldade que lhes é intrínseca, quase todos entre estes ainda se restringem a falar de noções básicas – “o que é vaquejada?”, “em que consiste?”, “por que é um pseudoesporte abusivo?”. A própria notícia da ANDA citada acima demonstra isso, inclusive falando “as chamadas vaquejadas”, assumindo que há pouco conhecimento sobre as mesmas fora do Nordeste.
Esse desconhecimento tem um lado relativamente bom, aliviante, e um muito ruim, preocupante. O bom é que isso demonstra que a vaquejada não conseguiu (ainda) se estabelecer fora do Nordeste (exceto Duque de Caxias/RJ, algumas cidades do Pará e ocorrências isoladas em outros estados), os organizadores ainda não se preocupam tanto em explorar animais fora dos limites regionais, preferindo a influência local.
O lado mau, por sua vez, é que fica clara a fraqueza e baixa expressividade nacional do ativismo de direitos animais nordestino, o qual ainda não tem forças para mobilizar pessoas dispostas a, por exemplo, gravar com câmera escondida o que acontece nos bretes das arenas de vaquejadas e mesmo a protestar contra esse tipo de atividade.
Animação Flash que comenta as músicas de letras toscas
Encontrei no Orkut o link de uma animação bem interessante que aborda músicas de letras toscas (Festa no Apê, Créu, Bicicletinha, Rebolation etc.) e a rápida assimilação das mesmas ao gosto musical de grande parte da população urbana brasileira.
Como não tem um botão de play, reproduzindo imediatamente quando se abre, trago apenas o link em vez do embed:
Flash sobre "Rebolation" e similares: uma análise sociocultural interessante
Com um aviso: o flash não é uma análise sociológica científica, e, assim sendo, tem uma carga de juízos de valor.
Atualização (02/05/10, 12:44): Tem o vídeo no YouTube, trazido para cá abaixo (obrigado, Junior):
A boa internet que a Globo escondeu
Uma reportagem da Rede Globo Nordeste, que ganhou online o título “Especialistas alertam para mau uso da internet”, mostrou aqueles que seriam o mau e o bom uso da internet pelos brasileiros. O mau uso seria aquele centrado em banalidades – fuxicos em sites de relacionamentos, fotologs, bate-papos, sites de banalidades em geral; o bom, por sua vez, seria a procura por sites de empregos e a busca por conhecimento útil e resolução de curiosidades. Mas o bom da internet é só isso mesmo – procurar trabalho, obter conhecimentos bons de encher currículos e, às vezes, matar a curiosidade?
Quem usa a internet com bom proveito sabe que ela é muito mais do que isso que a Globo Nordeste falou. Saberá também, ao ver a reportagem, que a emissora omitiu pontos importantíssimos como a leitura de blogs e sites de mídia alternativa e opinião crítica e a discussão de assuntos sérios nos mesmos sites de relacionamento criticados. E incorreu num reducionismo que transforma a internet em mera ferramenta conservadora a serviço do mercado de trabalho e aliena-a da notável função de prover troca de conhecimento intelectual e científico.
A Globo, na primeira metade da reportagem, mostrou de forma adequada, ainda que resumida, aquele lado mais fútil da internet, que é o uso de sites de relacionamento para fins banais como postar fotos pessoais, bater papo e entrar em comunidades de pessoas que, por exemplo, pensam coisas como “A fila anda” ou “Deus me disse: desce e arrasa!”. Em seguida, falou do que poderia ser feito para se tirar bom proveito da rede mundial.
Esse melhor lado da internet, no entanto, foi severamente encolhido. Quando se esperava que se falasse do lado formador de cidadãos pensantes do sistema, a emissora confirmou que esperar isso é esperar demais de uma empresa de comunicação que gosta do status quo atual, de pessoas materialistas, despolitizadas, desprovidas de senso crítico, escravas do deus dinheiro.
Pois bem, o lado bom da net para a Globo não passa de procurar empregos, entrar em sites que melhoram o aprendizado de idiomas estrangeiros e aprender coisas. Aliás, esse último ponto, o de aprender, não é o aprendizado que forma, mas aquele que meramente informa e apazigua curiosidades, tal como uma escola tradicional faz.







