Arauto da Consciência
10mar/100

Desafio às mulheres

Na chamada Semana da Mulher, lanço um desafio àquelas que ainda falam ou escrevem, com naturalidade e sem nenhum constrangimento, "o homem" como sinônimo de ser humano ou humanidade. Na verdade são dois:

1. Desafio-as a, num discurso, falar "Nós, os homens, ..." ou "Nós homens ..."

2. Desafio-as a falar ou escrever sem nenhum constrangimento: Eu sou um homem!

Para quem estranhar: ué, vocês não consideram a palavra "homem" sinônimo de "ser humano"?

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8mar/100

Discutindo “o homem” no Dia Internacional da Mulher

Post comemorativo do Dia Internacional da Mulher de 2010. Postado originalmente às 7h

Neste dia que comemora a luta feminista, vale apontar algo que me deixa constrangido, embora eu seja um homem, nesse universo de desigualdades de gênero: a aceitação por parte de tantas pessoas, incluindo muitas mulheres(!), do milenar dogma de que o homem é o centro da humanidade, através do uso, sem questionamentos, da palavra “homem” como sinônimo de “ser humano”.

Afirmam que “homem”, embora defina seres humanos adultos do sexo masculino, tem originalmente o significado de “ser humano”, o qual perduraria até hoje. Não entendem, no entanto, que essa palavra, por ter sido masculinizada ao longo da história, tornou-se enviesada e ambígua demais, logo inadequada, para continuar representando uma entidade de gênero neutro (o ser humano genericamente falando).

É certo que as traduções que equivalem etimologicamente a “homem” originaram-se de fato significando “ser humano” (exemplos: “homo” no latim, “man” no inglês, “mann” no alemão), mas nem sempre significaram “humano adulto do sexo masculino”. Foi na Idade Média, consolidando um processo de centralização sociocultural da imagem da humanidade na figura masculina e consequente desuso dos termos que estritamente significavam “humano adulto do sexo masculino” (como “uir” no latim clássico e “wer” no inglês arcaico; essa palavra não existiu na língua portuguesa), provavelmente acelerado pelo cristianismo de raízes misóginas semitas e gregas, que “homem” passou a significar simultaneamente a humanidade e os seus machos, tornou-se uma palavra dúbia e excelentemente masculina.

A neutralidade original do “homem”, aliás, foi o manto que escondeu na Declaração de Independência dos Estados Unidos e na francesa Declaração Universal dos Direitos do Homem(sic) e do Cidadão que os direitos declarados só começariam a valer para os homens – as mulheres continuariam presas ao lar como servas domésticas, e privadas da maioria dos direitos humanos e políticos.

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7mar/100

O que Jesus não fez

Criado pelo NonStampCollector, um genial canal de desenhos esclarecedores no YouTube, o vídeo "O que Jesus não faria", dublado por Alessandro Magno e postado no blog Bule Voador, mostra o que Jesus deixou de fazer, coisas que poderiam confirmar a existência do deus cristão para toda a humanidade e, de quebra, melhorar ao extremo a vida da humanidade.

Se você tiver cerca de 9 minutos livres, assista e reflita. O desenho é muito inteligente.

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4mar/100

Os novos movimentos da Terra-média

Escrito em outubro de 2009

Aqui na Terra-média
Estamos na Quarta Era
Já fazem séculos que Sauron deu no pé
Já faz um tempo que não ouço mais falar de grandes guerras
Entre homens ocidentais e orcs mais homens do sul e do leste.
Estamos vivenciando uma novidade:
Movimentos sociais, políticos e ambientais na Terra-média!

A luta por direitos e por igualdade
Tomou o lugar da luta contra o mal que vinha de Mordor
Apareceram nas últimas décadas uns movimentos interessantes
Deles, dez são mais conhecidos na terra.
Abaixo vou dizer um por um.

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26fev/100

A história não é só do homem

Mulheres que nos ensinaram que a história não é só "o homem". Em sentido horário: Margaret Mead, Teodora de Constantinopla, Rainha Nzinga de Ndongo e Matamba (conhecida como Ana de Sousa Nzinga) e Betty Williams.

Artigo escrito em março de 2009. Escrito em dedicação às mulheres, em especial à minha mãe e às Erickas, colegas da antiga turma de Gestão Ambiental.

Ouvimos e lemos muito sobre a formação do homem, a ação do homem, as mais variadas questões relativas ao homem. Cita-se muito “o homem” na literatura e nos discursos. Enquanto para a maioria das pessoas falar do homem é normal, algumas pessoas notam de forma evidente um viés machista nessas expressões. O homem, ser humano macho, é (im)posto como o Homo sapiens padrão e nossa sociedade acostumou-se em assim considerar.

Muito embora a mulher seja coautora da história humana ao lado do homem, e não apenas uma colaboradora coadjuvante, seu papel torna-se ou parece tornar-se inconscientemente minimizado quando se enfatiza a palavra “homem” nos livros e nas falas daqueles que nos ensinam, mesmo que não seja essa a intenção de quem escreve, discursa e ensina. É visível que essa assinalação de uma humanidade de essência masculina reflete o machismo das sociedades ocidentais, ou ao menos das lusófonas.

Muito embora as sociedades patriarcais tenham, ao longo dos milênios, inibido severamente a capacidade e potencial das mulheres de construir os valores e estruturas sociais de seus povos, preferindo um caminho de dominação machista, com normas e valores que as trata(va)m como pessoas inferiores, à alternativa da construção sociocultural igualitária, é mais misoginia do que uma reconstituição fiel da realidade histórica humana atribuir à mulher um papel menor, “fora do padrão”, na história do ser humano a ponto de apenas “o homem” merecer ser citado.

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25fev/102

Dez frases que nunca direi

Obs.: a ordem não quer dizer nada.

1. Velha, me dá dinheiro pra comprar um galeto ali na esquina?

2. O homem [predicado qualquer, não relacionado a gênero, sobre biologia, filosofia ou ciências humanas].

3. Ainda vou comprar aquele Nike Shox made in China fuderoso.

4. [no telefone] Vou fazer um churrasco aqui na frente de casa nesse domingo, com carne de todo tipo, pra todos os gostos, e você está convidada.

5. É isso mesmo, eu deixei de ser vegetariano, desisti.

6. Tô chateado porque me esqueceram de convidar pra Vaquejada de Carpina.

7. [Algum/a colega vegetarian@], você deveria pensar nas crianças que estão passando fome no centro da cidade em vez de estar discutindo sobre animais irracionais.

8. Anuncio logo: vou querer de presente os últimos CDs de Jennifer Lopez e Amy Winehouse.

9. Esse cachorro tem dono [sic]?

10. Em nome do pai, do filho, do espírito santo, amém.

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8fev/100

Androcentrismo

Artigo escrito em junho de 2009

É impossível que alguém nunca tenha se deparado em sua vida com livros e discursos orais em que se cita o homem como sendo o ser humano como um todo. Com poucas exceções, o homem é sempre exibido como o representante “por excelência” da sua espécie – “evolução do homem”, “ciências do homem”, “Deus e os homens”, “os animais e o homem”, “direitos do homem”, “os homens são pecadores”, “melhores amigos do homem”... O macho torna-se sua espécie inteira.

Para muitos, falar do ser humano pela palavra “homem(ns)” é algo inocente que nada de ruim representa. Mas uma visão que prime pela igualdade de gêneros perceberá que é de fato uma atitude perniciosa. Trata-se de androcentrismo: a humanidade centrada na figura do homem, do humano macho. Nessa visão, ele tem a prerrogativa de representar o ser humano quando este engloba todos os gêneros. O ser humano pode ser chamado de “o homem”. Os seres humanos podem ser chamados de “os homens”, mesmo sabendo-se que há mulheres no conjunto. Ele representa ele mesmo e também ele e ela simultaneamente. Eles são ele e ela, ou eles e elas, ou eles e ela, ou – ainda pior – ele e elas. É como um gene dominante.

Já a mulher, não. Ela é sempre apenas uma fração secundária de sua espécie. Nunca se chama o ser humano de “a mulher”. Ela só pode representar ela mesma, nunca ele e ela juntos. Elas só podem ser elas, nunca ele(s) mais ela(s). A mulher é sempre o segundo sexo, enquanto o homem é o primeiro. É como um gene recessivo.

O androcentrismo é parte da dominação patriarcalista, do homem sobre a mulher, que perdura entre nós desde a Idade do Cobre (entre o Neolítico e a Idade do Bronze), foi legitimada explicitamente pelas duas religiões mais seguidas do mundo – o cristianismo e o islamismo – e tornou-se titanicamente majoritário no mundo depois do avanço islâmico e da dominação colonialista europeia. O comportamento androcêntrico de quem fala do “homem” como se fosse o ser humano em sua totalidade é uma naturalização do patriarcalismo.

Entre os “centrismos” da discriminação e da segregação, soma-se ao antropocentrismo, ao etnocentrismo e ao brancocentrismo racista (hegemonia dos brancos sobre outras raças). Para todos esses, há uma categoria “melhor” que todas as outras. No androcentrismo, o homem é tão superior que é confundido – ou convertido – com a soma de todos os gêneros.

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2fev/100

Reflexão sobre sexismo nas propagandas, por Raphael Tsavkko

Mais uma análise crítica de Raphael Tsavkko que admirei muito -- a primeira foi sobre o Programa Nacional de Direitos Humanos, que a perversa direita tenta sabotar de todo jeito.

Duas coisas tenho a dizer sobre a análise dele:
a) aplaudo de pé;
b) sobre os comerciais, CONAR na cabeça!

Brastemp e Machismo: O lugar das mulheres é na cozinha.
por Raphael Tsavkko Garcia, do Blog do Tsavkko

Eis a propaganda da discórdia. Mas poderia ser qualquer outra que fale de eletrodomésticos. Esta é a cara da Brastemp, mas também de todas as demais.

Em toda propaganda do tipo vemos o direcionamento à dona-de-casa, à mulher. Algumas, ao menos, já aceitam que a mulher pode ser algo além de dona-de-casa, que tem uma vida e não passa o dia a cuidar dos filhos, é alguém. É pouco.

Tudo se resume à mulher que limpa, passa, lava e cozinha. No máximo, "administra" o lar e comanda sua(s) empregada(s). A cozinha é seu lugar.

Alguém conhece propaganda de eletrodoméstico direcionada ao homem ou que seja neutra? Nunca vi.

É um machismo descarado e aceito pela sociedade. Silenciosamente aceito, compreendido e replicado. E os protestos são raros, poucos, não incomodam.

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10jan/101

Resenha: Hagakure

Hagakure é um ótimo livro em que se pesquisar, mas bastante ruim para se ler e se aprender algo. Tem uma boa temática que aborda tudo ou quase tudo sobre o pensamento e a vida de um samurai, mas, pelo menos na edição da Conrad Livros, deixa de ser interessante e atraente até para quem quer aprender como viver como um samurai por causa da tosca distribuição dos ensinamentos pelas páginas.

A secular obra de Yamamoto Tsunetomo (ou, na disposição ocidental de nome e sobrenome, Tsunetomo Yamamoto) expõe centenas de curiosidades sobre como viver e pensar como samurai, como bons modos, o costume de beber chá e a homossexualidade entre tantas outras questões.

Três pontos que merecem destaque maior por terem uma abordagem em mais passagens são a devoção incondicional do guerreiro, com quê de submissão, ao seu mestre; a disposição que o indivíduo deveria ter para morrer “a qualquer momento” – viver sempre preparado para a morte – e a atitude de racionar palavras – em grande parte das situações cotidianas, procurar falar pouco e às vezes ser lacônico ou ficar calado.

Aparecem também instantes filosóficos em que Tsunetomo fala sobre, por exemplo, o nada e as formas dos seres – vivos e inanimados.

Grande parte dos ditados desse samurai que se tornou monge são dele mesmo, enquanto tantos outros ele mesmo diz que “dizia o senhor fulano”, vindos de homens como o Mestre Ittei, o Sacerdote Tannen e personalidades da história japonesa.

Um ponto negativo dos ensinamentos de Tsunetomo – ou da cultura japonesa, se considerarmos que ele estava apenas descrevendo costumes do Japão de sua época – é a forte misoginia expressa em passagens que pregam, por exemplo, a submissão da mulher ao seu marido e as proibições específicas de gênero impostas a ela. O machismo descrito em Hagakure mostra que a filosofia do Bushido era algo reservado apenas para homens.

Também chamam a atenção curtas passagens que são narrações de situações acontecidas com certos samurais, como a perseguição de um assassino, uma reunião de deliberações sobre criminosos e a discussão sobre a promoção de um samurai.

Tsunetomo preocupou-se, pelo que se pode deduzir, não em escrever uma autoajuda, mas em dar recomendações sobre o Bushido a quem lesse seu livro. Na introdução, diz-se que ele queria queimá-lo, mas não se sabe se essa atitude era uma mentira dita em atitude de protesto ou uma intenção.

Hagakure pode servir como uma ótima fonte para estudos etnológicos sobre o Japão feudal e, como repositório de preceitos da cultura desse lugar e época, não deve ser inteiramente levado ao pé da letra como ensinamento contemporaneamente adequado. Várias passagens são úteis hoje, mas outras devem ser observadas como amostras dos costumes e valores daquela sociedade.

Não sei sobre edições publicadas por outras editoras, mas a da Conrad Livros dispôs uma estrutura que nos convida a abandonar a leitura após passar do primeiro capítulo. Os tópicos são dispostos aleatoriamente pelos onze capítulos. Ensinamentos assim dispersos e tão curtos são muito difíceis de ser assimilados, uma vez que abordam apenas superficialmente as questões presentes e bruscamente somos remetidos a um assunto totalmente diferente depois de terminar uma passagem. Assim sendo, o livro não se faz de grande ajuda para o leitor – dificilmente a leitora – que deseja alinhar certos pontos de sua vida à antiga disciplina do samurai, e quem tem um outro livro na fila pode parar a leitura da obra na metade sem relevante prejuízo na aquisição de conhecimento.

Hagakure é útil como fonte de estudo sobre como o samurai vivia e pensava, mas sua leitura seria muito mais recomendável se houvesse uma organização nos tópicos abordados. Mesmo que subvertesse a disposição original do que Tsunetomo escreveu, uma nova edição que priorizasse a divisão das passagens por tema seria bem mais adequada e fácil de ser lida.

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