Desafio às mulheres
Na chamada Semana da Mulher, lanço um desafio àquelas que ainda falam ou escrevem, com naturalidade e sem nenhum constrangimento, "o homem" como sinônimo de ser humano ou humanidade. Na verdade são dois:
1. Desafio-as a, num discurso, falar "Nós, os homens, ..." ou "Nós homens ..."
2. Desafio-as a falar ou escrever sem nenhum constrangimento: Eu sou um homem!
Para quem estranhar: ué, vocês não consideram a palavra "homem" sinônimo de "ser humano"?
Discutindo “o homem” no Dia Internacional da Mulher
Post comemorativo do Dia Internacional da Mulher de 2010. Postado originalmente às 7h
Neste dia que comemora a luta feminista, vale apontar algo que me deixa constrangido, embora eu seja um homem, nesse universo de desigualdades de gênero: a aceitação por parte de tantas pessoas, incluindo muitas mulheres(!), do milenar dogma de que o homem é o centro da humanidade, através do uso, sem questionamentos, da palavra “homem” como sinônimo de “ser humano”.
Afirmam que “homem”, embora defina seres humanos adultos do sexo masculino, tem originalmente o significado de “ser humano”, o qual perduraria até hoje. Não entendem, no entanto, que essa palavra, por ter sido masculinizada ao longo da história, tornou-se enviesada e ambígua demais, logo inadequada, para continuar representando uma entidade de gênero neutro (o ser humano genericamente falando).
É certo que as traduções que equivalem etimologicamente a “homem” originaram-se de fato significando “ser humano” (exemplos: “homo” no latim, “man” no inglês, “mann” no alemão), mas nem sempre significaram “humano adulto do sexo masculino”. Foi na Idade Média, consolidando um processo de centralização sociocultural da imagem da humanidade na figura masculina e consequente desuso dos termos que estritamente significavam “humano adulto do sexo masculino” (como “uir” no latim clássico e “wer” no inglês arcaico; essa palavra não existiu na língua portuguesa), provavelmente acelerado pelo cristianismo de raízes misóginas semitas e gregas, que “homem” passou a significar simultaneamente a humanidade e os seus machos, tornou-se uma palavra dúbia e excelentemente masculina.
A neutralidade original do “homem”, aliás, foi o manto que escondeu na Declaração de Independência dos Estados Unidos e na francesa Declaração Universal dos Direitos do Homem(sic) e do Cidadão que os direitos declarados só começariam a valer para os homens – as mulheres continuariam presas ao lar como servas domésticas, e privadas da maioria dos direitos humanos e políticos.
O que Jesus não fez
Criado pelo NonStampCollector, um genial canal de desenhos esclarecedores no YouTube, o vídeo "O que Jesus não faria", dublado por Alessandro Magno e postado no blog Bule Voador, mostra o que Jesus deixou de fazer, coisas que poderiam confirmar a existência do deus cristão para toda a humanidade e, de quebra, melhorar ao extremo a vida da humanidade.
Se você tiver cerca de 9 minutos livres, assista e reflita. O desenho é muito inteligente.
Os novos movimentos da Terra-média
Escrito em outubro de 2009
Aqui na Terra-média
Estamos na Quarta Era
Já fazem séculos que Sauron deu no pé
Já faz um tempo que não ouço mais falar de grandes guerras
Entre homens ocidentais e orcs mais homens do sul e do leste.
Estamos vivenciando uma novidade:
Movimentos sociais, políticos e ambientais na Terra-média!
A luta por direitos e por igualdade
Tomou o lugar da luta contra o mal que vinha de Mordor
Apareceram nas últimas décadas uns movimentos interessantes
Deles, dez são mais conhecidos na terra.
Abaixo vou dizer um por um.
A história não é só do homem

Mulheres que nos ensinaram que a história não é só "o homem". Em sentido horário: Margaret Mead, Teodora de Constantinopla, Rainha Nzinga de Ndongo e Matamba (conhecida como Ana de Sousa Nzinga) e Betty Williams.
Artigo escrito em março de 2009. Escrito em dedicação às mulheres, em especial à minha mãe e às Erickas, colegas da antiga turma de Gestão Ambiental.
Ouvimos e lemos muito sobre a formação do homem, a ação do homem, as mais variadas questões relativas ao homem. Cita-se muito “o homem” na literatura e nos discursos. Enquanto para a maioria das pessoas falar do homem é normal, algumas pessoas notam de forma evidente um viés machista nessas expressões. O homem, ser humano macho, é (im)posto como o Homo sapiens padrão e nossa sociedade acostumou-se em assim considerar.
Muito embora a mulher seja coautora da história humana ao lado do homem, e não apenas uma colaboradora coadjuvante, seu papel torna-se ou parece tornar-se inconscientemente minimizado quando se enfatiza a palavra “homem” nos livros e nas falas daqueles que nos ensinam, mesmo que não seja essa a intenção de quem escreve, discursa e ensina. É visível que essa assinalação de uma humanidade de essência masculina reflete o machismo das sociedades ocidentais, ou ao menos das lusófonas.
Muito embora as sociedades patriarcais tenham, ao longo dos milênios, inibido severamente a capacidade e potencial das mulheres de construir os valores e estruturas sociais de seus povos, preferindo um caminho de dominação machista, com normas e valores que as trata(va)m como pessoas inferiores, à alternativa da construção sociocultural igualitária, é mais misoginia do que uma reconstituição fiel da realidade histórica humana atribuir à mulher um papel menor, “fora do padrão”, na história do ser humano a ponto de apenas “o homem” merecer ser citado.
Dez frases que nunca direi
Obs.: a ordem não quer dizer nada.
1. Velha, me dá dinheiro pra comprar um galeto ali na esquina?
2. O homem [predicado qualquer, não relacionado a gênero, sobre biologia, filosofia ou ciências humanas].
3. Ainda vou comprar aquele Nike Shox made in China fuderoso.
4. [no telefone] Vou fazer um churrasco aqui na frente de casa nesse domingo, com carne de todo tipo, pra todos os gostos, e você está convidada.
5. É isso mesmo, eu deixei de ser vegetariano, desisti.
6. Tô chateado porque me esqueceram de convidar pra Vaquejada de Carpina.
7. [Algum/a colega vegetarian@], você deveria pensar nas crianças que estão passando fome no centro da cidade em vez de estar discutindo sobre animais irracionais.
8. Anuncio logo: vou querer de presente os últimos CDs de Jennifer Lopez e Amy Winehouse.
9. Esse cachorro tem dono [sic]?
10. Em nome do pai, do filho, do espírito santo, amém.
Androcentrismo
Artigo escrito em junho de 2009
É impossível que alguém nunca tenha se deparado em sua vida com livros e discursos orais em que se cita o homem como sendo o ser humano como um todo. Com poucas exceções, o homem é sempre exibido como o representante “por excelência” da sua espécie – “evolução do homem”, “ciências do homem”, “Deus e os homens”, “os animais e o homem”, “direitos do homem”, “os homens são pecadores”, “melhores amigos do homem”... O macho torna-se sua espécie inteira.
Para muitos, falar do ser humano pela palavra “homem(ns)” é algo inocente que nada de ruim representa. Mas uma visão que prime pela igualdade de gêneros perceberá que é de fato uma atitude perniciosa. Trata-se de androcentrismo: a humanidade centrada na figura do homem, do humano macho. Nessa visão, ele tem a prerrogativa de representar o ser humano quando este engloba todos os gêneros. O ser humano pode ser chamado de “o homem”. Os seres humanos podem ser chamados de “os homens”, mesmo sabendo-se que há mulheres no conjunto. Ele representa ele mesmo e também ele e ela simultaneamente. Eles são ele e ela, ou eles e elas, ou eles e ela, ou – ainda pior – ele e elas. É como um gene dominante.
Já a mulher, não. Ela é sempre apenas uma fração secundária de sua espécie. Nunca se chama o ser humano de “a mulher”. Ela só pode representar ela mesma, nunca ele e ela juntos. Elas só podem ser elas, nunca ele(s) mais ela(s). A mulher é sempre o segundo sexo, enquanto o homem é o primeiro. É como um gene recessivo.
O androcentrismo é parte da dominação patriarcalista, do homem sobre a mulher, que perdura entre nós desde a Idade do Cobre (entre o Neolítico e a Idade do Bronze), foi legitimada explicitamente pelas duas religiões mais seguidas do mundo – o cristianismo e o islamismo – e tornou-se titanicamente majoritário no mundo depois do avanço islâmico e da dominação colonialista europeia. O comportamento androcêntrico de quem fala do “homem” como se fosse o ser humano em sua totalidade é uma naturalização do patriarcalismo.
Entre os “centrismos” da discriminação e da segregação, soma-se ao antropocentrismo, ao etnocentrismo e ao brancocentrismo racista (hegemonia dos brancos sobre outras raças). Para todos esses, há uma categoria “melhor” que todas as outras. No androcentrismo, o homem é tão superior que é confundido – ou convertido – com a soma de todos os gêneros.
Reflexão sobre sexismo nas propagandas, por Raphael Tsavkko
Mais uma análise crítica de Raphael Tsavkko que admirei muito -- a primeira foi sobre o Programa Nacional de Direitos Humanos, que a perversa direita tenta sabotar de todo jeito.
Duas coisas tenho a dizer sobre a análise dele:
a) aplaudo de pé;
b) sobre os comerciais, CONAR na cabeça!
Brastemp e Machismo: O lugar das mulheres é na cozinha.
por Raphael Tsavkko Garcia, do Blog do Tsavkko
Eis a propaganda da discórdia. Mas poderia ser qualquer outra que fale de eletrodomésticos. Esta é a cara da Brastemp, mas também de todas as demais.
Em toda propaganda do tipo vemos o direcionamento à dona-de-casa, à mulher. Algumas, ao menos, já aceitam que a mulher pode ser algo além de dona-de-casa, que tem uma vida e não passa o dia a cuidar dos filhos, é alguém. É pouco.
Tudo se resume à mulher que limpa, passa, lava e cozinha. No máximo, "administra" o lar e comanda sua(s) empregada(s). A cozinha é seu lugar.
Alguém conhece propaganda de eletrodoméstico direcionada ao homem ou que seja neutra? Nunca vi.
É um machismo descarado e aceito pela sociedade. Silenciosamente aceito, compreendido e replicado. E os protestos são raros, poucos, não incomodam.
Resenha: Hagakure
Hagakure é um ótimo livro em que se pesquisar, mas bastante ruim para se ler e se aprender algo. Tem uma boa temática que aborda tudo ou quase tudo sobre o pensamento e a vida de um samurai, mas, pelo menos na edição da Conrad Livros, deixa de ser interessante e atraente até para quem quer aprender como viver como um samurai por causa da tosca distribuição dos ensinamentos pelas páginas.
A secular obra de Yamamoto Tsunetomo (ou, na disposição ocidental de nome e sobrenome, Tsunetomo Yamamoto) expõe centenas de curiosidades sobre como viver e pensar como samurai, como bons modos, o costume de beber chá e a homossexualidade entre tantas outras questões.
Três pontos que merecem destaque maior por terem uma abordagem em mais passagens são a devoção incondicional do guerreiro, com quê de submissão, ao seu mestre; a disposição que o indivíduo deveria ter para morrer “a qualquer momento” – viver sempre preparado para a morte – e a atitude de racionar palavras – em grande parte das situações cotidianas, procurar falar pouco e às vezes ser lacônico ou ficar calado.
Aparecem também instantes filosóficos em que Tsunetomo fala sobre, por exemplo, o nada e as formas dos seres – vivos e inanimados.
Grande parte dos ditados desse samurai que se tornou monge são dele mesmo, enquanto tantos outros ele mesmo diz que “dizia o senhor fulano”, vindos de homens como o Mestre Ittei, o Sacerdote Tannen e personalidades da história japonesa.
Um ponto negativo dos ensinamentos de Tsunetomo – ou da cultura japonesa, se considerarmos que ele estava apenas descrevendo costumes do Japão de sua época – é a forte misoginia expressa em passagens que pregam, por exemplo, a submissão da mulher ao seu marido e as proibições específicas de gênero impostas a ela. O machismo descrito em Hagakure mostra que a filosofia do Bushido era algo reservado apenas para homens.
Também chamam a atenção curtas passagens que são narrações de situações acontecidas com certos samurais, como a perseguição de um assassino, uma reunião de deliberações sobre criminosos e a discussão sobre a promoção de um samurai.
Tsunetomo preocupou-se, pelo que se pode deduzir, não em escrever uma autoajuda, mas em dar recomendações sobre o Bushido a quem lesse seu livro. Na introdução, diz-se que ele queria queimá-lo, mas não se sabe se essa atitude era uma mentira dita em atitude de protesto ou uma intenção.
Hagakure pode servir como uma ótima fonte para estudos etnológicos sobre o Japão feudal e, como repositório de preceitos da cultura desse lugar e época, não deve ser inteiramente levado ao pé da letra como ensinamento contemporaneamente adequado. Várias passagens são úteis hoje, mas outras devem ser observadas como amostras dos costumes e valores daquela sociedade.
Não sei sobre edições publicadas por outras editoras, mas a da Conrad Livros dispôs uma estrutura que nos convida a abandonar a leitura após passar do primeiro capítulo. Os tópicos são dispostos aleatoriamente pelos onze capítulos. Ensinamentos assim dispersos e tão curtos são muito difíceis de ser assimilados, uma vez que abordam apenas superficialmente as questões presentes e bruscamente somos remetidos a um assunto totalmente diferente depois de terminar uma passagem. Assim sendo, o livro não se faz de grande ajuda para o leitor – dificilmente a leitora – que deseja alinhar certos pontos de sua vida à antiga disciplina do samurai, e quem tem um outro livro na fila pode parar a leitura da obra na metade sem relevante prejuízo na aquisição de conhecimento.
Hagakure é útil como fonte de estudo sobre como o samurai vivia e pensava, mas sua leitura seria muito mais recomendável se houvesse uma organização nos tópicos abordados. Mesmo que subvertesse a disposição original do que Tsunetomo escreveu, uma nova edição que priorizasse a divisão das passagens por tema seria bem mais adequada e fácil de ser lida.







