Discutindo “o homem” no Dia Internacional da Mulher
Post comemorativo do Dia Internacional da Mulher de 2010. Postado originalmente às 7h
Neste dia que comemora a luta feminista, vale apontar algo que me deixa constrangido, embora eu seja um homem, nesse universo de desigualdades de gênero: a aceitação por parte de tantas pessoas, incluindo muitas mulheres(!), do milenar dogma de que o homem é o centro da humanidade, através do uso, sem questionamentos, da palavra “homem” como sinônimo de “ser humano”.
Afirmam que “homem”, embora defina seres humanos adultos do sexo masculino, tem originalmente o significado de “ser humano”, o qual perduraria até hoje. Não entendem, no entanto, que essa palavra, por ter sido masculinizada ao longo da história, tornou-se enviesada e ambígua demais, logo inadequada, para continuar representando uma entidade de gênero neutro (o ser humano genericamente falando).
É certo que as traduções que equivalem etimologicamente a “homem” originaram-se de fato significando “ser humano” (exemplos: “homo” no latim, “man” no inglês, “mann” no alemão), mas nem sempre significaram “humano adulto do sexo masculino”. Foi na Idade Média, consolidando um processo de centralização sociocultural da imagem da humanidade na figura masculina e consequente desuso dos termos que estritamente significavam “humano adulto do sexo masculino” (como “uir” no latim clássico e “wer” no inglês arcaico; essa palavra não existiu na língua portuguesa), provavelmente acelerado pelo cristianismo de raízes misóginas semitas e gregas, que “homem” passou a significar simultaneamente a humanidade e os seus machos, tornou-se uma palavra dúbia e excelentemente masculina.
A neutralidade original do “homem”, aliás, foi o manto que escondeu na Declaração de Independência dos Estados Unidos e na francesa Declaração Universal dos Direitos do Homem(sic) e do Cidadão que os direitos declarados só começariam a valer para os homens – as mulheres continuariam presas ao lar como servas domésticas, e privadas da maioria dos direitos humanos e políticos.
Crer em Deus é mais complicado do que parece
É o que mostra o vídeo de Fernando Thomazi, intitulado "Você acredita em deus?"
Veja e reflita, se sua fé deixar.
Uma pequena observação de erro: Hércules não era um deus.
A história não é só do homem

Mulheres que nos ensinaram que a história não é só "o homem". Em sentido horário: Margaret Mead, Teodora de Constantinopla, Rainha Nzinga de Ndongo e Matamba (conhecida como Ana de Sousa Nzinga) e Betty Williams.
Artigo escrito em março de 2009. Escrito em dedicação às mulheres, em especial à minha mãe e às Erickas, colegas da antiga turma de Gestão Ambiental.
Ouvimos e lemos muito sobre a formação do homem, a ação do homem, as mais variadas questões relativas ao homem. Cita-se muito “o homem” na literatura e nos discursos. Enquanto para a maioria das pessoas falar do homem é normal, algumas pessoas notam de forma evidente um viés machista nessas expressões. O homem, ser humano macho, é (im)posto como o Homo sapiens padrão e nossa sociedade acostumou-se em assim considerar.
Muito embora a mulher seja coautora da história humana ao lado do homem, e não apenas uma colaboradora coadjuvante, seu papel torna-se ou parece tornar-se inconscientemente minimizado quando se enfatiza a palavra “homem” nos livros e nas falas daqueles que nos ensinam, mesmo que não seja essa a intenção de quem escreve, discursa e ensina. É visível que essa assinalação de uma humanidade de essência masculina reflete o machismo das sociedades ocidentais, ou ao menos das lusófonas.
Muito embora as sociedades patriarcais tenham, ao longo dos milênios, inibido severamente a capacidade e potencial das mulheres de construir os valores e estruturas sociais de seus povos, preferindo um caminho de dominação machista, com normas e valores que as trata(va)m como pessoas inferiores, à alternativa da construção sociocultural igualitária, é mais misoginia do que uma reconstituição fiel da realidade histórica humana atribuir à mulher um papel menor, “fora do padrão”, na história do ser humano a ponto de apenas “o homem” merecer ser citado.
Ética e ateísmo, por Bruno Müller
Sou fã dos artigos de Bruno Müller, dono do hoje abandonado blog Seres Livres e colunista da ANDA. Como já falei um tempo atrás, ele foi uma das pessoas que me inspiraram a escrever artigos e a criar o Consciência Efervescente.
Concordo em muita coisa com ele, a não ser sobre anarquismo, sobre o qual ainda não sei muito e nada li.
Com vocês, um ótimo artigo sobre ateísmo, religiões e ética.
Ética e ateísmo
por Bruno Müller
Certa vez conheci uma pessoa que me disse que, ao saber que eu era ateu, sentiu-se receosa, mas que, com o tempo, percebeu que apesar disso eu era uma boa pessoa – como se o ateísmo fosse um entrave para o desenvolvimento ético de um ser humano. No entanto, essa mesma pessoa era perversa, manipuladora, mentirosa, arrogante – para resumir, uma hipócrita.
Com o tempo, entendi que não havia uma contradição em sua personalidade. Não que pessoas religiosas sejam necessariamente hipócritas, mas aquelas mais fanáticas e que se consideram ungidas de uma missão divina, como era o caso dela, frequentemente o são, mesmo sem se dar conta. Isso porque é necessária uma boa dose de arrogância para acreditar conhecer os segredos do universo, ter “linha direta” com um deus e sentir-se apto a revelar – ou impor – esses segredos aos demais.
Ainda jovem, quando a curiosidade me levou a frequentar alguns cultos, entendi que o pecado que mais se observa nas igrejas e templos é o do orgulho, da vaidade. O que há na fé que faz as pessoas se sentirem melhores que as outras que não têm fé ou não têm a supracitada “linha direta”? Não tenho resposta pronta para essa pergunta, mas esta leva a uma outra questão, mais fácil de abordar: o sentimento de superioridade lhes leva a supor que não há bondade fora da religião, que quem não tem religião não possui estatura moral ou capacidade de praticar o bem e o respeito ao próximo.
O analfabetismo político no Brasil
Artigo escrito em fevereiro de 2009
Já dizia Bertold Brecht*, em seu poema que criticou tão pesadamente aqueles que dizem ter orgulho de se alienar de conversas sobre política, que essa mesma gente é quem origina o mal social. Notamos sua razão quando olhamos para dentro do Brasil, cujo povo, em sua maioria, tem horror a falar sobre o que acontece em Brasília, exceto falar o popular “dogma” de que “político é tudo ladrão”.
Os hábitos políticos do brasileiro médio, notavelmente, restringem-se a repetir a citada “verdade” e, estritamente em épocas eleitorais, a debater quem é o menos pior candidato. É notável a quase generalizada aversão a se falar do que acontece em Brasília.
Não se fala nas mesas de bar e vizinhanças sobre a votação dos projetos de lei, sobre as manobras limpas ou sujas nas relações de poder, sobre as estratégias políticas, sobre como os parlamentares e chefes do Poder Executivo deveriam proceder em relação a estratégias políticas.
Queira o povo ou não, esse assunto é extremamente importante e ignorá-lo é um delito contra a integridade do país onde vivem, é rejeitar a democracia. Reiterando o que Brecht disse, é desse comportamento que vêm “a prostituta, o menor abandonado e (...) o político vigarista”. Deixar a política de lado, além de ser um não da pessoa à democracia, permite que os tais vigaristas ajam livremente sem a oposição do povo e impede que os políticos mais honrados e que mantêm os laços com seus eleitores – sim, eles existem, queira você ou não – tenham em mãos um maior variedade de estratégias de manobrar sua influência política e conseguir apoio a suas leis.
Reflexão sobre o duplipensar moral onívoro
Artigo escrito em dezembro de 2009
Israel, século 8 A.E.C.; Roma, século 1 A.E.C.; Arábia, século 6; Brasil, século 17. Escravos... Sendo de etnia ou nacionalidade dominada, eram tratados como propriedades. Sua existência era praticamente atrelada a seus senhores ou “donos”. Eram obrigados a lhes prover mão-de-obra, recebendo durante a vida apenas alimentação e algumas roupas em troca.
Como eram propriedades, seus senhores se viam livres para lhes causar violências diversas, que variavam de acordo com o país e época: marcação a ferro quente, gritos de ordem, espancamentos no caso de demonstração de rebeldia. A liberdade era palavra proibida. Não viviam mais como fins em si mesmos, por suas necessidades, anseios, prazeres e interesses próprios, mas estritamente para os interesses do senhor que os tinha como propriedade. Eram seres dotados de sentimentos, desejos, anseios e capacidade de sofrer, mas seus “donos” não se importavam com isso.
Qualquer lugar do mundo, século 21. Animais rurais... Sendo de espécie dominada, são tratados como propriedades. Sua existência é. na prática, atrelada a seus senhores ou “donos”. São obrigados a lhes fornecer matéria-prima, recebendo durante a vida apenas alimentação em troca.
Como são propriedades, seus senhores se veem livres para lhes causar violências diversas: marcação a ferro quente, fustigações como ordens, espancamentos no caso de demonstração de rebeldia. A liberdade é palavra proibida, um absurdo aos olhos da espécie dominante. Não vivem como fins em si mesmos, por suas necessidades, anseios, prazeres e interesses próprios, mas estritamente para os interesses do senhor que os tem como propriedade. São seres dotados de sentimentos, desejos, anseios e capacidade de sofrer, mas seus “donos” não se importam com isso.
Em defesa de Yu-Gi-Oh!: por que os ataques cristãos ao desenho e ao jogo são absurdos
Artigo escrito em setembro de 2008. Hoje a época é de Yu-Gi-Oh GX e 5D's, mas o texto não perde a atualidade pelo fato de ainda existirem ataques a jogos e animes de temáticas que afrontam o etnocentrismo cristão.
Em 2008, numa nostalgia de lembrar a adolescência, resolvi rever episódios do anime Yu-Gi-Oh!, que tem o menino Yugi Moto (escrito ao redor do mundo como Yugi Muto ou Mutou) e o espírito do Faraó Yami/Atem que incorpora o primeiro como protagonistas. Como era de se esperar, me lembrei das inúmeras “críticas” (eufemismo de condenações) vindas de denominações cristãs ora contra o desenho ora contra o jogo de cartas que deu origem a ele.
Algo muito esperado vindo de uma religião intolerante e antipagã “por excelência” – ainda que ironicamente recheada de muitos aspectos assimilados de várias culturas pagãs situadas pelos domínios do antigo Império Romano e suas vizinhanças – que, para tentar desqualificar as religiões não-monoteístas, tacham as entidades divinas delas de “demônios” e os rituais sagrados delas de “satânicos”, passando pela obtusidade de falar de forma caluniosa que os espíritos malignos contra os quais essas crenças alheias sempre se posicionaram são seus aliados também.
Nessa nostalgia pessoal e me aproveitando de minha posição de defesa à harmonia e respeito mútuo entre as crenças e descrenças – o que, a saber, não exclui o direito de levantar críticas baseadas em argumentação racional, objetiva e honesta –, entro em defesa a Yu-Gi-Oh!, incluindo eu o jogo de cartas e o anime que se baseia nele. Manejo minha argumentação ao melhor estilo “Monstros de Duelo”, com conhecimento de causa, cabeça fria e senso de saber onde me defender e (contra-)atacar. Então, é hora do duelo, cristãos.







