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	<title>Arauto da Consciência &#187; Filosofia</title>
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		<title>Conscientização ambientalista e animalista: reações furiosas, paradigmas de pensamento e preconceitos</title>
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		<pubDate>Fri, 16 Jul 2010 21:07:12 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Robson Fernando</dc:creator>
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<p><img class="aligncenter" title="xingamentos" src="http://petcivilufjf.files.wordpress.com/2010/05/palavrao.jpg" alt="" width="371" height="240" /></p>
<p style="text-align: justify;">Algo muito visto hoje em dia é a rejeição ofensiva aos ideais do ambientalismo e do abolicionismo animal. Muita gente, mesmo algumas pessoas que se dizem politizadas e ávidas por um mundo melhor, quando se deparam com um debate sobre direitos animais e a interrupção do modelo tradicional insustentável de desenvolvimento econômico num blog ou fórum de debates públicos, costuma reagir com desdém e até grosseria aos argumentos apresentados. Tentarei abaixo descrever melhor minha experiência recente convivendo com esse comportamento e especular por que ele acontece.</p>
<p style="text-align: justify;">Tenho visto, em diversos debates lançados por mim ou por outros defensores ambientalistas ou animalistas, que as reações mais frequentes vão do desdém raivoso (“Vai arrumar o que fazer, vai arrumar mulher!”, “De novo esses ecochatos?!”, “Esses vegans são uns pentelhos mesmo...”, “Quanta frescura, quanta ecochatice!”, “por que você não experimenta viver sem remédios?” etc.) à contra-argumentação ofensiva, na qual uma troca de argumentações até acontece, mas o lado receptor termina descambando no baixo nível, com agressividade e ataques ad hominem. Isso sem falar no clássico “Enquanto crianças estão morrendo de fome, você vem falar de animais (ou de mato)?!”</p>
<p style="text-align: justify;">Nos meus debates mais recentes (este artigo é de julho de 2010), em que abordei o desmatamento do estuário onde se localiza o Porto de Suape e a campanha do governo e de organizações científicas em favor do uso de animais em pesquisa, percebi a mesma linha de reações. Ainda houve uma contraparte de pessoas que apoiaram meu discurso e até tentaram defendê-lo para os opostos – bem menor no caso do texto sobre a experimentação animal –, mas terminou prevalecendo a reação raivosa.</p>
<p style="text-align: justify;">Em vez de pessoas desejosas de conhecer a ideia e pensar um pouco melhor se o que pensavam até então não era algo tão óbvio, ou querendo expor contra-argumentos num debate civilizado em que se dissesse, por exemplo, “Veja bem, não é assim como você pensa, porque...”, o que vi foi infelizmente uma demonstração forte de incômodo com o que foi exposto. A ideia exposta, mesmo que não fizesse apologia a qualquer forma de violência, injustiça  ou supremacismo – muito pelo contrário, observe-se – nem incidisse em acusações injustas, gerou um furor contagiante, com acusações de “choradeira” e “criticar por criticar”, ironias e outras formas de desdém.<span id="more-5576"></span></p>
<p style="text-align: justify;">Algumas pessoas opostas, mesmo de forma agressiva, mostraram seus pontos de vista, cuja compilação posso resumir em dois tópicos:<br />
- O progresso é essencial à humanidade, mesmo que seja promovido a qualquer custo, mesmo que destrua todo o verde do mundo. Não há meio termo, mas sim uma dicotomia inviolável: ou se devasta e se polui tudo aquilo que seja “necessário” derrubar e contaminar para salvar os seres humanos da pobreza e do atraso, ou se preserva o verde que resta, fazendo a civilização correr o risco de cair na estagnação ou mesmo na retração tecnológica.<br />
- Os interesses dos seres humanos são supremos no planeta, pelo fato de o ser humano ser a espécie superior e dominante. Mesmo dez mil animais não-humanos, tais como camundongos “de laboratório” ou bois do gado “de corte”, não valem o que uma única pessoa vale. Assim sendo, é perfeitamente justificável infligir sofrimento e morte aos bichos que servem à humanidade (como carne ou como cobaias) para que esta seja poupada de sofrer e não seja privada de suas necessidades.</p>
<p style="text-align: justify;">E alguns expressaram: quem se opusesse a esse pensamento deveria seguir uma vida silvestre numa floresta, afastado de qualquer tecnologia, e recusar qualquer tratamento medicamentoso, mesmo que morresse nessas condições.</p>
<p style="text-align: justify;">Além disso, houve muitas cobranças de que eu mostrasse alternativas prontas – ou disponíveis a curto prazo – e obviamente aprováveis tanto à destruição da vegetação estuarina que rodeia Suape como às experiências em cobaias. Se eu não as mostrasse, meus argumentos não valeriam de nada, seriam vazios, nada além de um inócuo “criticar por criticar”. Ignorou-se (reconheço também que deixei de expor esse detalhe) que já há militantes das causas atuando para trazer, a médio ou longo prazo a despeito das cobranças dos críticos, essas alternativas, e que estas invariavelmente requerem tempo, interesse generalizado, empenho, paciência e, acima de tudo, uma teoria ética pré-existente que justifique tal trabalho material.</p>
<p style="text-align: justify;">A impressão que dá é que a teoria não pode influenciar a realidade e só pode ser gerada e exposta quando existir um precedente material pronto, ignorando-se que a teoria é que justifica a criação do material que, uma vez aplicado, servirá de alternativa ao paradigma destrutivo.</p>
<p style="text-align: justify;">Não condeno ninguém por manifestar tais atitudes nem comento particularmente cada um que as manifestou, até porque não é costume meu falar de pessoas, mas sim de ideias. Mas posso analisar o paradigma social por trás de tudo isso.</p>
<p style="text-align: justify;">Percebe-se que ainda prevalece com força na sociedade o pensamento antropocêntrico e imediatista, pelo qual vale tudo para se garantir o bem-estar dos seres humanos de hoje, em detrimento dos seres não-humanos e mesmo dos interesses das gerações humanas futuras. O que vale são as pessoas de hoje, que vivem agora.</p>
<p style="text-align: justify;">Terminam assim excluídos do círculo moral prevalente os humanos do futuro, que no presente  nada mais são do que personagens inexistentes, restritos neste instante à mera imaginação humana e cuja existência futura não é sequer certa, e os animais do presente, que, não tendo concepções racionais de senso moral nem capacidade de verbalizar seus interesses, sentimentos e sofrimentos, são julgados seres inferiores, entes marginais perante as supremacistas vontades humanas e exploráveis em prol do engrandecimento da vida humana atual.</p>
<p style="text-align: justify;">Há uma carência crônica de senso de alteridade, de capacidade ético-moral para se pôr no lugar de outrem – do boi que sente cheiro de sangue e muge alto às portas do matadouro, do camundongo que sibila sofrendo de câncer ou do indivíduo humano que, nascido no século 22, encontra condições ambientais degradadas e hostis demais para permitir uma vida minimamente confortável.</p>
<p style="text-align: justify;">Não se tem o costume de pensar que, em vez de camundongos ou caranguejos, os seres ameaçados e tratados como inferiores poderiam ser (ou melhor, às vezes são) os próprios humanos. O mesmo indivíduo que esculacha “ecochatos” não se põe na pele, por exemplo, de um pescador que, mesmo morando a dezenas de quilômetros de Suape, será alheado de seu ganha-pão pela escassez de peixes no mar de Boa Viagem ou de Candeias, onde pesca. O mesmo que desqualifica com ad hominem o defensor animal contrário à vivissecção não se dá ao trabalho de imaginar que poderia ter nascido como um cão “de laboratório”, preso perpetuamente num canil individual e submetido a experiências tortuosas, em vez de como humano livre.</p>
<p style="text-align: justify;">Além do interesse imediatista e egoísta e da carência de alteridade, é marcante o aprisionamento das ideias das pessoas a dicotomias que não dificilmente se mostram falsas – por exemplo, ou o camundongo ou o ser humano, não havendo possibilidade de ambos saírem vivos e sãos mesmo num futuro próximo; ou o mangue ou o desenvolvimento de Suape, não existindo a alternativa do desenvolvimento sustentável que poupe o manguezal e redefina a posição geográfica das indústrias do futuro. Para se livrar desse pensamento dicotômico, a pessoa exige que sejam apresentadas alternativas prontas para serem aplicadas, ignorando-se, repito, que a teoria é essencial para que haja a criação material das novas opções.</p>
<p style="text-align: justify;">E a grosseria, a reação raivosa, a disposição de atacar em vez de questionar ou debater? Posso atribuí-la ao apego visceral ao modelo de vida vigente, paralelamente aos preconceitos existentes sobre os ambientalistas e defensores dos animais. Acha-se erroneamente que os “ecochatos”, aqueles que denunciam mas não dão alternativas a priori prontas, querem abolir as tecnologias poluentes sem dar uma contrapartida sustentável e ameaçam o progresso econômico em curso, sendo ignorados em seus apelos ao desenvolvimento sustentável.</p>
<p style="text-align: justify;">Da mesma forma, os defensores animais, cada vez mais generalizados pelo lado mais maldoso do senso comum como “vegans” (forma inglesa de “veganos”, usada muitas vezes em tom de menosprezo), são vistos como gente que prefere a vida animal não-humana à humana, ignorando-se que a defesa da libertação animal é pela igualdade moral das espécies sencientes, não pela inversão do desequilíbrio da balança, e também que a argumentação antivivisseccionista leva em conta que é a pressão ativista que irá inspirar alternativas de pesquisa.</p>
<p style="text-align: justify;">Nesse preconceito inclui-se também a rejeição a tudo aquilo que supostamente ameace o status quo de desenvolvimento, “avanço” científico, bem-estar e conforto. Não se pensa que a proposta é mudar o sistema, reformando aos poucos os métodos de desenvolver e pesquisar, mas sim que é acabar com ele e não deixar nada no lugar, o que gera medo e reação viscerais. Pois, afinal, quem traz ideias “idiotas” e “absurdas” tem mais é que ser esculachado e ridicularizado – pensa-se. Poucos conseguem canalizar esses sentimentos de modo a questionar racionalmente a validade dos argumentos ambientalistas e animalistas.</p>
<p style="text-align: justify;">São esses preconceitos e as reações raivosas de muitos leitores que tornam a conscientização um fardo para quem a conduz. Uma vez que faltam às pessoas o sentimento da alteridade e noções básicas de direitos animais e ambientalismo sustentabilista, faz-se necessário que os conscientizadores trabalhem em introduções ou recomendem artigos ou livros que introduzam a esses assuntos.</p>
<p style="text-align: justify;">Que fique claro, todavia, que a reação antipática não deve intimidar quem conscientiza. Houve resistência furiosa em outros momentos da história – por exemplo, à conquista de direitos civis pelas mulheres e à abolição da escravidão humana –, e estamos em um momento  semelhante, em que há um mundo melhor no horizonte e este só será conquistado com persistência e cabeça fria.</p>
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		<title>Educação e construção pessoal, por José Manuel Moran</title>
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		<pubDate>Fri, 09 Apr 2010 10:00:38 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Robson Fernando</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Um texto ótimo de José Manuel Moran, do seu livro A educação que desejamos: novos desafios e como chegar lá. Bastante motivador, retrata como a educação para toda a vida (dentro e fora da escola) pode ajudar a construir nossa pessoa. Educação e construção pessoal por José Manuel Moran, texto extraído do site Noticiário Net [...]


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<p style="text-align: justify;">Um texto ótimo de José Manuel Moran, do seu livro<strong> <a href="http://www.livrariasaraiva.com.br/produto/produto.dll/detalhe?pro_id=1972173&amp;PAC_ID=6297" target="_blank">A educação que desejamos: novos desafios e como chegar lá</a></strong>. Bastante motivador, retrata como a educação para toda a vida (dentro e fora da escola) pode ajudar a construir nossa pessoa.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Educação e construção pessoal</strong><br />
<em>por José Manuel Moran, <a href="http://noticiarionet.blogspot.com/2010/04/educacao-e-construcao-pessoal.html" target="_blank">texto extraído do site Noticiário Net</a></em></p>
<p style="text-align: justify;">Podemos transformar a nossa vida em permanente, paciente, afetuoso e emocionante processo de aprendizagem. Em todos os momentos, em todos os espaços, em todos os nossos tempos, em todas as situações podemos aprender muito ou pouco, dependendo da atitude profunda em relação à nossa motivação.</p>
<p style="text-align: justify;">Quanto mais avançamos em idade, mais claramente mostramos o que aprendemos, o que somos, em que nos transformamos, o que é autêntico e o que não é. Cada um de nós, com o passar dos anos, vai revelando, por sua atuação e palavras, o que aprendeu realmente, até onde evoluiu.</p>
<p style="text-align: justify;">A infância e a juventude são fases de descobertas, de busca de identidade, de inserção nos diversos espaços pessoais. É difícil avaliar ainda o que é autêntico, o que permanecerá como eixo fundamental em cada pessoa e o que é “fabricado”, “postiço” ou moda, que se modificará significativamente com o tempo.</p>
<p style="text-align: justify;">No começo da idade adulta nós vamos nos definindo em todos os campos – o intelectual, o emocional, o profissional. Já mostramos mais claramente o que aprendemos e o que não aprendemos, o que é verdadeiro e o que é fantasia. A nossa personalidade e a maneira de nos adaptarmos socialmente ficaram mais perceptíveis, mais ainda podemos nos iludir, perder a nós mesmos, adiar decisões. Muitas decisões podem ser justificadas com motivos como “sustentar uma família”, “não perder um emprego”, “tentar levar adiante uma relação afetiva”.</p>
<p style="text-align: justify;">Ao chegar na maturidade, então, mostramos realmente o que somos, o que aprendemos, o que nos complica e o que nos realiza; nossos pontos fortes e fracos; o que conseguimos e o que deixamos de lado. Pode ser uma etapa muito rica – com os compromissos sociais, profissionais e familiares mais consolidados - se enfrentamos nosso eu mais profundo, repensamos algumas decisões, buscamos novos desafios, sermos pessoas mais livres e realizadas, mesmo num contexto de um progressivo declínio físico.</p>
<p style="text-align: justify;">Enquanto alguns avançam na aprendizagem, muitos desistem. Como não conseguiram realizar alguns dos grandes sonhos – que nem sempre eram deles, mas plantados por terceiros – acreditam que não vale a pena ir além. Procuram fora de si motivos para continuar vivendo: em momentos de entretenimento, de ocupação, de sobrevida. Aprendem pouco com o cotidiano: são como náufragos, a deriva, que só pensam em continuar vivos. “Vão vivendo”, contentando-se com suas expectativas mínimas, com suas receitas repetidas, com o arroz e feijão básicos, sem degustar tantos outros manjares possíveis.</p>
<p style="text-align: justify;">Cada etapa da vida tem seu fascínio, seus motivos para gostar de aprender mais. Esse é um dos encantamentos da vida: poder evoluir, crescer, ser pessoas mais plenas, mesmo com muitas contradições, dificuldades e perplexidades. Vale a pena sempre manter a atitude positiva, ativa, curiosa, atenta de querer aprender sempre mais, de fazer a ponte entre o exterior e o interior, entre o social e o pessoal, entre o intelectual, o emocional e o comportamental.</p>
<p style="text-align: justify;">O desafio mais interessante da nossa vida é transformá-la em um processo contínuo de aprendizagem, de evolução e de realização – no meio de contradições; um processo cada vez mais pleno, autêntico, rico e profundo.</p>
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		<title>Frase da semana (28/03-03/04)</title>
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		<pubDate>Thu, 01 Apr 2010 05:55:33 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Robson Fernando</dc:creator>
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		<category><![CDATA[Cultura de Massas]]></category>
		<category><![CDATA[Direitos Animais]]></category>
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		<category><![CDATA[Ética e Moral]]></category>

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<p style="text-align: justify;"><strong><em>"Publicar gente que prega veganismo, vegetarianismo, abduções  socio-econômicas e outros que tais? Tenha santa paciência…"</em></strong> Comentário (cuj<small>@</small> don<small>@</small> não vou identificar) encontrado em um blog multitemático (que, por motivo de bom senso, também não vou dizer qual foi, mas digo que não foi aqui)</p>
<p style="text-align: justify;">Não vou criticar quem escreveu isso, até porque não é minha política criticar as pessoas. Mas sim faço uma reflexão sobre o pensamento que vigora em grande parte da população, a ridicularização da <a href="http://consciencia.blog.br/2009/04/manifesto-de-uma-nova-consciencia.html" target="_blank"><strong>nova consciência</strong></a>.</p>
<p style="text-align: justify;">Schopenhauer já dizia no século 19: "A verdade passa por três estágios: primeiro, é ridicularizada; segundo, sofre oposição violenta; terceiro, é aceita como autoevidente." E de fato ele estava certo. O veg(etari)anismo, os direitos animais, <strong><a href="http://consciencia.blog.br/2009/05/por-um-terceiro-sistema-economico.html" target="_blank">a utopia do terceiro sistema econômico</a></strong>, o não-teísmo (ateísmo e agnosticismo) cético, entre tantos outros valores e ideologias que são ainda novidades "esquisitas" para a população, vêm sendo tratadas com desdém por muita gente, seja na fase da ridicularização (direitos animais, veg[etari]anismo e outros), seja na da oposição violenta (ateísmo, alvo da intolerância de gente que não admite que existam pessoas que não compartilham de sua fé).</p>
<p style="text-align: justify;">Não culpo as pessoas por isso. Elas são levadas a atos absurdos de reprovação de valores e ideias que destoem dos paradigmas vividos como padrão pela sociedade pela força do que Durkheim chama de fatos sociais. O onivorismo, a exploração animal, a religião não lúcida, o materialismo* capitalista, o padrão de comportamento masculino "se você não gosta de catar <em>mulé</em> uma atrás da outra, você é um pateta", todos esses fenômenos têm um poder de coerção tal que as pessoas se mobilizam para reprovar e reprimir quem pensa e age diferente.</p>
<p style="text-align: justify;">Não digo que eu mesmo poderia ridicularizar o vegetarianismo em outras épocas porque sempre tive, desde criança, uma suscetibilidade a ser mexido por ideias "forasteiras" plausíveis. Mas, digamos, fui cristão até a adolescência, e eu poderia muito bem criticar algum/a colega ateu/ateia, convidando-<small>@</small> a "aceitar Jesus" ou tentando convencê-l<small>@</small> de que o ateísmo seria perigoso (pela lógica da Aposta de Pascal). Enfim, eu cristão e as pessoas que seguem os comportamentos e valores nocivos esta(áva)mos pres<small>@</small>s na Caverna de Platão, atad<small>@</small>s a crenças e valores nada saudáveis e resistentes a ver a luz do mundo real. Não posso culpar <small>@</small>s pres<small>@</small>s por seu encarceramento numa caverna que só lhes mostra ilusões e preconceitos sobre o que é bom e ruim para o mundo, a natureza e os seres sencientes.</p>
<p style="text-align: justify;">Saber como tirar essas pessoas dessa caverna das ilusões, fazê-las começar a pensar racionalmente em seus comportamentos, é um desafio que anima <small>@</small>s sociólog<small>@</small>s, e essa é uma das maiores motivações para eu estar no curso de Ciências Sociais.</p>
<p style="text-align: justify;">A saber, sempre que enfatizam que eu e o <strong>Arauto</strong> defendemos o veg(etari)anismo, somos verdes e descrentes, defendemos ideias muito diferentes do que a sociedade hoje "pensa", tais colocações me caem como um elogio.</p>
<p style="text-align: justify;">
<p style="text-align: justify;">*O materialismo a que me refiro é o comportamento capitalista de apego máximo a bens materiais cuja obtenção e posse se tornam objetivos de vida.</p>
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		<title>Discutindo &#8220;o homem&#8221; no Dia Internacional da Mulher</title>
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		<pubDate>Mon, 08 Mar 2010 23:02:41 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Robson Fernando</dc:creator>
				<category><![CDATA[Alienação e Conformismo]]></category>
		<category><![CDATA[Androcentrismo]]></category>
		<category><![CDATA[Artigo]]></category>
		<category><![CDATA[Contradições Humanas]]></category>
		<category><![CDATA[Desigualdades de Gênero]]></category>
		<category><![CDATA[Direitos Humanos]]></category>
		<category><![CDATA[Feminismo e Questões de Gênero]]></category>
		<category><![CDATA[Filosofia]]></category>
		<category><![CDATA[História]]></category>
		<category><![CDATA[Linguagem]]></category>
		<category><![CDATA[Opressão]]></category>
		<category><![CDATA[Post Comemorativo]]></category>
		<category><![CDATA[Posts e Atos de Conscientização]]></category>
		<category><![CDATA[Sociedade]]></category>
		<category><![CDATA[Sociologia]]></category>
		<category><![CDATA[Tradições Cruéis e Viciosas]]></category>
		<category><![CDATA[Vícios de Linguagem]]></category>

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		<description><![CDATA[Post comemorativo do Dia Internacional da Mulher de 2010. Postado originalmente às 7h Neste dia que comemora a luta feminista, vale apontar algo que me deixa constrangido, embora eu seja um homem, nesse universo de desigualdades de gênero: a aceitação por parte de tantas pessoas, incluindo muitas mulheres(!), do milenar dogma de que o homem [...]


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<p style="text-align: justify;"><em><a href="http://consciencia.blog.br/wp-content/uploads/2010/03/homem-e-mulher.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-3179" title="homem e mulher" src="http://consciencia.blog.br/wp-content/uploads/2010/03/homem-e-mulher.jpg" alt="" width="142" height="247" /></a>Post comemorativo do Dia Internacional da Mulher de 2010. Postado originalmente às 7h<br />
</em></p>
<p style="text-align: justify;">Neste dia que comemora a luta feminista, vale apontar algo que me deixa constrangido, embora eu seja um homem, nesse universo de desigualdades de gênero: a aceitação por parte de tantas pessoas, incluindo muitas mulheres(!), do milenar dogma de que o homem é o centro da humanidade, através do uso, sem questionamentos, da palavra “homem” como sinônimo de “ser humano”.</p>
<p style="text-align: justify;">Afirmam que “homem”, embora defina seres humanos adultos do sexo masculino, tem originalmente o significado de “ser humano”, o qual perduraria até hoje. Não entendem, no entanto, que essa palavra, por ter sido masculinizada ao longo da história, tornou-se enviesada e ambígua demais, logo inadequada, para continuar representando uma entidade de gênero neutro (o ser humano genericamente falando).</p>
<p style="text-align: justify;">É certo que as traduções que equivalem etimologicamente a “homem” originaram-se de fato significando “ser humano” (exemplos: “homo” no latim, “man” no inglês, “mann” no alemão), mas nem sempre significaram “humano adulto do sexo masculino”. Foi na Idade Média, consolidando um processo de centralização sociocultural da imagem da humanidade na figura masculina e consequente desuso dos termos que estritamente significavam “humano adulto do sexo masculino” (como “uir” no latim clássico e “wer” no inglês arcaico; essa palavra não existiu na língua portuguesa), provavelmente acelerado pelo cristianismo de raízes misóginas semitas e gregas, que “homem” passou a significar simultaneamente a humanidade e os seus machos, tornou-se uma palavra dúbia e excelentemente masculina.</p>
<p style="text-align: justify;">A neutralidade original do “homem”, aliás, foi o manto que escondeu na Declaração de Independência dos Estados Unidos e na francesa Declaração Universal dos Direitos do Homem(sic) e do Cidadão que os direitos declarados só começariam a valer para os homens – as mulheres continuariam presas ao lar como servas domésticas, e privadas da maioria dos direitos humanos e políticos.<span id="more-3177"></span></p>
<p style="text-align: justify;">O mesmo valeu para as escrituras dos mais diversos filósofos dos séculos 18 e 19. Quando falavam “o homem” ou “os homens”, Rousseau, Kant, Comte e muitos outros realmente só estavam falando de homens, embora a palavra “homem” estivesse aparentemente significando a humanidade inteira.</p>
<p style="text-align: justify;">Esse androcentrismo dos pensadores e a consequente continuidade do patriarcalismo ocidental foram muito facilitados pelo fato de que “homem” realmente era/é uma palavra dúbia e tende a masculinizar a humanidade. Imagine se não tivesse havido a tendenciosa unificação etimológica entre a humanidade e os humanos machos – ou teriam que usar “todos os ‘uirs’ têm direitos e são iguais perante a lei” e assumir que eram realmente direitos masculinos, não humanos, ou “todos os ‘seres humanos’ têm direitos e são iguais perante a lei” e obrigatoriamente estender os direitos às mulheres, indo de encontro aos interesses machistas de sua época.</p>
<p style="text-align: justify;">Hoje chamar o indivíduo humano genérico de “homem” continua tendo uma tendência androcêntrica, e desperta uma interessante pergunta: por que nos referimos aos seres humanos e à humanidade como “o homem”, nunca como “a mulher”? Etimologicamente essa questão é muito facilmente respondível, mas, sob a perspectiva da desigualdade de gênero, tem todo um sentido problemático.</p>
<p style="text-align: justify;">Por muito tempo o uso pseudogenérico da referida palavra foi uma legitimação do homem como centro de sua espécie, como ator principal – enquanto a mulher era relegada a uma coadjuvante, o sexo secundário. Atualmente tal simbolização continua ativa, ainda que despercebida e mesmo com as mulheres tendo obtido direitos e possuindo no presente mais dignidade social do que há um século. Pode-se considerá-lo um resquício de patriarcalismo, um dos diversos pontos em que, por escassez de discussão, ainda não avançou a luta feminista. É um ponto em que se admite inconscientemente que ele tem mais poder do que ela, logo merece herdar até mesmo aquele que se constituiu o nome de sua espécie.</p>
<p style="text-align: justify;">Apesar de tudo, mesmo muitas mulheres – incluindo até algumas feministas – continuam usando “homem” num sentido genérico, sem saber que a neutralidade plena e não ambígua desse termo já não existe desde a Idade Média. Nossa educação insiste em não ensinar a história dessa palavra, marcada por um contexto de machismo extremo e opressão contra mulheres – pelo contrário, perpetua esse vício social, até mesmo na universidade de História, Ciências Sociais e Filosofia, cursos que justamente deveriam questionar e repudiar a dubiedade androcêntrica do termo “homem”.</p>
<p style="text-align: justify;">O uso unissex da palavra “homem” é algo que precisa ser pensado e discutido neste e nos próximos Dias Internacionais da Mulher, pois é algo mais problemático do que se supõe. Já depôs e depõe gente como Olympe de Gouges, John Stuart Mill, Casey Miller, Kate Swift e Richard Dawkins, o “homem” é a cabeça do androcentrismo linguístico de grande parte dos idiomas indoeuropeus, e está na hora de se fazer algo direcionado a essa questão, não mais manter a situação como está, com a reiteração linguística da supremacia masculina.</p>
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		<title>A história não é só do homem</title>
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		<pubDate>Fri, 26 Feb 2010 17:37:13 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Robson Fernando</dc:creator>
				<category><![CDATA[Androcentrismo]]></category>
		<category><![CDATA[Artigo]]></category>
		<category><![CDATA[Cidadania e Mobilização]]></category>
		<category><![CDATA[Contradições Humanas]]></category>
		<category><![CDATA[Desigualdades de Gênero]]></category>
		<category><![CDATA[Educação]]></category>
		<category><![CDATA[Feminismo e Questões de Gênero]]></category>
		<category><![CDATA[Filosofia]]></category>
		<category><![CDATA[Grandes Mentes e Personalidades]]></category>
		<category><![CDATA[História]]></category>
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		<category><![CDATA[Motivação]]></category>
		<category><![CDATA[Política]]></category>
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		<category><![CDATA[Sociedade]]></category>
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		<description><![CDATA[Artigo escrito em março de 2009. Escrito em dedicação às mulheres, em especial à minha mãe e às Erickas, colegas da antiga turma de Gestão Ambiental. Ouvimos e lemos muito sobre a formação do homem, a ação do homem, as mais variadas questões relativas ao homem. Cita-se muito “o homem” na literatura e nos discursos. [...]


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<div id="attachment_3002" class="wp-caption aligncenter" style="width: 364px"><a href="http://consciencia.blog.br/wp-content/uploads/2010/02/mulheres-históricas.jpg"><img class="size-full wp-image-3002 " title="mulheres históricas" src="http://consciencia.blog.br/wp-content/uploads/2010/02/mulheres-históricas.jpg" alt="" width="354" height="510" /></a><p class="wp-caption-text">Mulheres que nos ensinaram que a história não é só &quot;o homem&quot;. Em sentido horário: Margaret Mead, Teodora de Constantinopla, Rainha Nzinga de Ndongo e Matamba (conhecida como Ana de Sousa Nzinga) e Betty Williams.</p></div>
<p><em>Artigo escrito em março de 2009. Escrito em dedicação às mulheres, em especial à minha  mãe e às Erickas, colegas da antiga turma de Gestão Ambiental.</em></p>
<p style="text-align: justify;">Ouvimos e lemos muito sobre a formação<em> do homem</em>, a ação <em>do homem</em>, as  mais variadas questões relativas ao<em> homem</em>. Cita-se muito “<em>o homem</em>” na  literatura e nos discursos. Enquanto para a maioria das pessoas falar do  homem é normal, algumas pessoas notam de forma evidente um viés  machista nessas expressões. O homem, ser humano macho, é (im)posto como o  Homo sapiens padrão e nossa sociedade acostumou-se em assim considerar.</p>
<p style="text-align: justify;">Muito embora a mulher seja coautora da história humana ao lado do  homem, e não apenas uma colaboradora coadjuvante, seu papel torna-se ou  parece tornar-se inconscientemente minimizado quando se enfatiza a  palavra “homem” nos livros e nas falas daqueles que nos ensinam, mesmo  que não seja essa a intenção de quem escreve, discursa e ensina. É  visível que essa assinalação de uma humanidade de essência masculina  reflete o machismo das sociedades ocidentais, ou ao menos das lusófonas.</p>
<p style="text-align: justify;">Muito embora as sociedades patriarcais tenham, ao longo dos milênios,  inibido severamente a capacidade e potencial das mulheres de construir  os valores e estruturas sociais de seus povos, preferindo um caminho de  dominação machista, com normas e valores que as trata(va)m como pessoas  inferiores, à alternativa da construção sociocultural igualitária, é  mais misoginia do que uma reconstituição fiel da realidade histórica  humana atribuir à mulher um papel menor, “fora do padrão”, na história  do ser humano a ponto de apenas “o homem” merecer ser citado.<span id="more-2999"></span></p>
<p style="text-align: justify;">Que o digam as deusas magnas ou principais de tantas culturas:  Amaterasu, Isis, Astarte, as deusas minoanas, Cibele, as Deusas-Terra...  As sociedades cujas religiões veneravam divindades femininas entre as  de primeiro escalão. As culturas matriarcais da Idade do Cobre que  terminaram vitimadas por povos agressores patriarcais. As mulheres de  Creta.</p>
<p style="text-align: justify;">No âmbito da liderança política e até militar, tivemos as Ngolas  (rainhas) de reinos do sudoeste africano e de alguns quilombos  brasileiros. Mulheres de grande poder como Nefertiti, Hatshepsut,  Cleópatra, Lívia, Teodora e Joana d’Arc. A rainhas britânicas Elizabeth e  Vitória. A rainha Isabel de Castela. Princesa Isabel no Brasil.  Personalidades recentes e atuais como Indira Gandhi, Benazir Bhutto,  Michelle Bachelet, Cristina Kirchner, Dilma Rousseff, Marina Silva e tantas outras.  Todas mostram como a mulher pode encabeçar sem problemas, ou dividir  harmonicamente com o homem, o poder político ou ao menos exercer funções  muito importantes.</p>
<p style="text-align: justify;">As intelectuais, cientistas e ativistas também possuem importância  inegável. Mesmo tendo o homem tentado inibir essa vertente da força  feminina, muitas quebraram as limitações impostas e exerceram papéis  memoráveis e importantíssimos no progresso do pensamento humano. Temos  Marie Curie, Florence Nightingale, Olympe de Gouges, Ruth Benedict, Margaret Mead, Alice  Walker, Emma Goldman, Nísia Floresta, Olga Benário, Rosa Luxemburgo,  Betty Williams e milhares de tantas outras.</p>
<p style="text-align: justify;">Irresponsável seria esquecer todas as anônimas que, no passado e no  presente, contribuíram e contribuem para a evolução, edificação e  continuidade da espécie humana, seja trabalhando arduamente por suas  famílias, clãs, tribos, povos e nações, ou alimentando seus filhos e  filhas, ou assistindo seus maridos nas mais variadas realizações  humanas, ou escrevendo livros, ou criando obras de arte, ou  administrando empresas, ensinando...</p>
<p style="text-align: justify;">Depois de tantas constatações sobre o papel da mulher, convém  perguntar por que ainda dizemos tanto que quem evoluiu e progrediu ao  longo de milênios foi “<em>o homem</em>”. A mulher é um homem também?</p>
<p style="text-align: justify;">Não seria melhor, em vez de “o homem”, dizermos “o ser humano”, ou “o  humano” ou mesmo “a pessoa”?</p>
<p style="text-align: justify;">Se ainda damos o mérito ao homem pelo andamento da história do ser  humano, se o tratamos como o ser humano padrão, é porque ainda não damos  oportunidades suficientes à mulher para ela mostrar todo o seu  potencial. É porque nós, homens e mulheres, ainda inibimos as  capacidades femininas por seguirmos valores machistas e aceitarmos o  patriarcalismo nos mais diversos aspectos e estruturas sociais, como  política, religião, cultura e economia. Entre os hábitos  patriarcalizados, também está incluído chamar o humano de homem,  considerar o homem como o padrão humano em vez de apenas o ser humano  macho.</p>
<p style="text-align: justify;">Substituir nos livros e discursos o substantivo "homem" pela locução  "ser humano", quando não tratarmos dos machos especificamente, será um  grande favor para que formemos sociedades mais igualitárias em questões  de gênero. Para abolir o machismo e o ranço patriarcalista de nossa  sociedade, é enfaticamente necessário, praticamente uma obrigação  coletiva, começar pela linguagem, diferenciando o ser humano do homem  específico. História humana não é apenas história “do homem”.</p>
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		<title>Ética e ateísmo, por Bruno Müller</title>
		<link>http://consciencia.blog.br/2010/02/etica-e-ateismo-por-bruno-muller.html</link>
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		<pubDate>Wed, 24 Feb 2010 21:00:34 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Robson Fernando</dc:creator>
				<category><![CDATA[Ateísmo]]></category>
		<category><![CDATA[Contradições Humanas]]></category>
		<category><![CDATA[Filosofia]]></category>
		<category><![CDATA[História]]></category>
		<category><![CDATA[Posts e Atos de Conscientização]]></category>
		<category><![CDATA[Questionando a Religião]]></category>
		<category><![CDATA[Razão e Ceticismo]]></category>
		<category><![CDATA[Religião]]></category>
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		<category><![CDATA[Ética e Moral]]></category>

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<p>Sou fã dos artigos de Bruno Müller, dono do hoje  abandonado <a href="http://sereslivres.blogspot.com/">blog Seres Livres</a> e <a href="http://www.anda.jor.br/?cat=46">colunista da ANDA</a>. Como já  falei um tempo atrás, ele foi uma das pessoas que me inspiraram a  escrever artigos e a criar o Consciência Efervescente.</p>
<p>Concordo em muita coisa com ele, a não ser sobre anarquismo, sobre o  qual ainda não sei muito e nada li.</p>
<p>Com vocês, um ótimo artigo sobre ateísmo, religiões e ética.</p>
<p style="text-align: justify;"><big><a href="http://www.anda.jor.br/?p=33042"><strong>Ética e ateísmo</strong></a></big><br />
<em>por  Bruno Müller</em></p>
<p style="text-align: justify;">Certa vez conheci uma pessoa que me disse que, ao saber que eu era  ateu, sentiu-se receosa, mas que, com o tempo, percebeu que apesar disso  eu era uma boa pessoa – como se o ateísmo fosse um entrave para o  desenvolvimento ético de um ser humano. No entanto, essa mesma pessoa  era perversa, manipuladora, mentirosa, arrogante – para resumir, uma  hipócrita.</p>
<p style="text-align: justify;">Com o tempo, entendi que não havia uma contradição em sua  personalidade. Não que pessoas religiosas sejam necessariamente  hipócritas, mas aquelas mais fanáticas e que se consideram ungidas de  uma missão divina, como era o caso dela, frequentemente o são, mesmo sem  se dar conta. Isso porque é necessária uma boa dose de arrogância para  acreditar conhecer os segredos do universo, ter “linha direta” com um  deus e sentir-se apto a revelar – ou impor – esses segredos aos demais.</p>
<p style="text-align: justify;">Ainda jovem, quando a curiosidade me levou a frequentar alguns  cultos, entendi que o pecado que mais se observa nas igrejas e templos é  o do orgulho, da vaidade. O que há na fé que faz as pessoas se sentirem  melhores que as outras que não têm fé ou não têm a supracitada “linha  direta”? Não tenho resposta pronta para essa pergunta, mas esta leva a  uma outra questão, mais fácil de abordar: o sentimento de superioridade  lhes leva a supor que não há bondade fora da religião, que quem não tem  religião não possui estatura moral ou capacidade de praticar o bem e o  respeito ao próximo.<span id="more-2924"></span></p>
<p style="text-align: justify;">Diversas vezes ouvi, de forma direta ou velada, a opinião de que um  ateu não pode ser uma boa pessoa. Em 2007, uma pesquisa feita no Brasil  mostrou que os ateus são o grupo que seria mais amplamente rejeitado  pelos eleitores numa eleição presidencial: 84%  admitiriam votar num  negro, 57% numa mulher, 32% em um homossexual, e 13% num ateu; 57%  disseram que não votariam em um ateu em hipótese nenhuma [1]. Pesquisas  nos Estados Unidos têm resultados muito semelhantes.</p>
<p style="text-align: justify;">Frequentemente, quando se debate a diversidade e a tolerância  religiosa, é comum se ouvir a seguinte frase: “o que importa é que cada  um, a seu modo, está em busca de deus”. Se você não busca, então você  não conta, está aquém do resto da humanidade. Há também os que dizem que  o ateísmo é rebeldia adolescente e que, cedo ou tarde, o ser humano  aceita a ideia de um deus.</p>
<p style="text-align: justify;">Existe também batida máxima de que os ateus são pessoas amargas e  infelizes que adorariam acreditar em um deus ou apenas ainda não foram  “despertas”. O cronista Reinaldo Azevedo certa vez escreveu: “Tendo a  achar que, se dependesse da vontade, todo mundo acreditaria em Deus. Mas  há quem não consiga, ainda que queira.” [2]</p>
<p style="text-align: justify;">Deixei de acreditar em um deus aos 16 anos. Hoje, com 30, tenho cada  vez mais convicção da inexistência de um deus e cada vez mais antipatia  pelas religiões instituídas. Sou hoje, sendo adulto, mais ateu que há 14  anos. E sei que crer em um deus não me faria mais feliz nem mais  completo. Não é uma vontade mal-suprida, algo que “não consigo, ainda  que queira”.</p>
<p style="text-align: justify;">Pelo contrário: a ideia de um deus me gera angústia e tristeza, pois  simboliza hierarquia, superioridade, poder, enquanto eu acredito na  radicalidade da liberdade e da igualdade, e que somente pela consciência  damos valor aos nossos atos. Fazer o bem obrigado por deus é como fazer  o bem obrigado pelos pais ou pela lei: é uma ação moralmente neutra.</p>
<p style="text-align: justify;">Não tem valor intrínseco, pois não partiu da consciência, e sim de  uma coação externa. Podemos nos conformar à lei por conveniência ou  medo, mas apenas quando fazemos o que é certo por livre escolha somos  pessoas verdadeiramente conscientes – mesmo que isso vá contra a  conveniência, o benefício pessoal e a própria lei (pois, como sabemos, o  direito e a ética frequentemente não coincidem).</p>
<p style="text-align: justify;">Daí, na minha opinião, o elevado valor de optar por um estilo de vida  vegano. Não quer dizer que os veganos sejam automaticamente pessoas  boas, melhores ou superiores. A ética humana não é linear: pode-se ter  uma grande consciência ética num campo e uma grave falha de caráter  noutro.</p>
<p style="text-align: justify;">Eu bem sei que conheço alguns veganos completamente desprovidos de  caráter, da mesma forma que há onívoros com elevada consciência ética em  relação aos humanos, embora sejam todos deficientes éticos perante os  animais. Como disse Milan Kundera numa passagem que já citei, o  verdadeiro teste da bondade humana está perante aqueles que não podem  nos fazer nenhum mal, nem reagir ao mal que lhes infligimos, e contra  quem as injustiças praticadas não levam a algum tipo de punição. Estes  são os animais. E neste teste fundamental da bondade, a maioria dos  seres humanos falha miseravelmente.</p>
<p style="text-align: justify;">Outro caso: certa vez ouvi de uma católica fervorosa que não se  poderia afirmar com certeza que Gandhi teria sido aceito no paraíso.  Afinal, ele não professava a religião “correta”.</p>
<p style="text-align: justify;">Vindo daqueles que professam os pretensos altos valores morais de sua  fé, isso revela, ao contrário, o completo desprezo por eles: não  importa seu caráter ou a contribuição dada em vida para a paz, a  justiça, a liberdade. Importa apenas se você se curva diante do  “verdadeiro” deus. Não é apenas uma ideia como essa que é detestável.  Todo o sistema de crenças que lhe dá origem não pode ser senão um  completo equívoco.</p>
<p style="text-align: justify;">Alguns dos maiores crimes cometidos pela humanidade tiveram na  religião sua justificativa, senão seu motor principal. Dentre elas, as  religiões monoteístas abraâmicas – judaísmo, cristianismo e islamismo –  se mostraram particularmente sanguinolentas [3].</p>
<p style="text-align: justify;">O maior genocídio perpetrado em toda a história – o extermínio dos  povos nativos da América pelos conquistadores europeus – foi justificado  em nome do cristianismo, tanto católico quanto protestante. Cerca de  90% dos habitantes da América em 1492 foram exterminados num espaço de  poucas décadas [4].</p>
<p style="text-align: justify;">Também a maior migração forçada da história – de africanos para a  América – e o maior, mais recente e mais complexo sistema escravista que  a motivou vicejou e prosperou, em vez de minguar, sob os olhos  complacentes do cristianismo – de novo, tanto protestante quanto  católico.</p>
<p style="text-align: justify;">Cultuando a obediência e a hierarquia, defendendo o dever da expansão  da “verdadeira” palavra divina e inteligentemente utilizado pelos  conquistadores europeus, o cristianismo se revelou a ideologia perfeita  para o colonialismo. Você poderia matar, torturar, escravizar, explorar,  oprimir, e ainda alegar que estava promovendo e difundindo o bem.</p>
<p style="text-align: justify;">É absolutamente ocioso discutir se isso foi só uma  “instrumentalização” ou “distorção” da fé religiosa, por dois motivos:  primeiro, os colonizadores, em sua maioria, ainda que em grau maior ou  menor de fervor, eram sinceramente crédulos nas palavras da Bíblia;  segundo, as autoridades eclesiásticas, responsáveis pela salvaguarda da  doutrina, eram elas próprias coniventes com tais atrocidades e  corrompidas pela sede de poder e riqueza.</p>
<p style="text-align: justify;">Algumas das guerras mais sangrentas da história foram guerras  religiosas. Muito antes das Revoluções Francesa e Russa, antes do  nazismo e de sequer se imaginar a possibilidade de guerras mundiais ou  hecatombes nucleares, os indivíduos se matavam em nome de deus. O mais  prolongado conflito anterior ao século XX, a Guerra dos 30 Anos  (1618-1648), foi uma guerra religiosa.</p>
<p style="text-align: justify;">Em apenas um episódio, a Noite de São Bartolomeu, em 1572, milhares  de protestantes franceses foram massacrados pelos católicos. Proferir a  religião errada na Europa das Idades Medieval e Moderna era, se não um  terrível risco, como no caso da Inquisição, pelo menos um grande  inconveniente – que o digam os judeus, vítimas de leis discriminatórias e  violências sazonais (os chamados pogroms).</p>
<p style="text-align: justify;">Havia que se professar sua fé em silêncio e às escondidas para não  ser alvo de perseguição e violência. Quantos massacres não caíram no  esquecimento para que hoje a Igreja Católica possa projetar uma  autoridade moral da qual carece num mundo tão moralmente corrompido como  é o nosso?</p>
<p style="text-align: justify;">Isso para não mencionar os conflitos religiosos contemporâneos.  Fala-se muito de fundamentalismo islâmico hoje em dia, mas se esquece  que existe também um fundamentalismo cristão, sediado nos Estados Unidos  e que encontrou seu ápice no governo de George W. Bush, marcado por um  profundo desprezo pelo que não é judaico-cristão, um senso missionário  de exportação dos valores “americanos”, uma desconfiança e até  hostilidade à ciência e um forte conservadorismo de costumes.</p>
<p style="text-align: justify;">A repulsa pelo pensamento dissonante é tão profundo no cristianismo  que o maior pecado que pode cometer um cristão não é o assassinato, nem  mesmo o suicídio, mas o pecado da “heresia”. Séculos de discurso  religioso vendem ao termo “heresia” um sentido terrível. Na verdade,  porém, “heresia” é tão somente uma “distorção da fé”, isto é, uma  discordância e interpretação distinta da doutrina e do dogma religioso. É  precisamente isso que era o heliocentrismo: um pecado mortal contra a  doutrina religiosa, por afirmar que a Terra não era o centro do  universo.</p>
<p style="text-align: justify;">Por isso Galileu teve de se haver com a Inquisição. Se a verdade está  contra deus – pior para a verdade. Aliás, um axioma típico do  pensamento religioso. No filme Crimes e Pecados, de Woody Allen, um  personagem diz, a certa altura: “Se for necessário, eu sempre vou  escolher deus à verdade”.</p>
<p style="text-align: justify;">Não deveríamos temer a verdade. Mesmo a mais dolorosa verdade pode  nos libertar: conhecer a realidade é ter o poder de transformá-la. Em  outra passagem do filme, outro personagem diz: “o universo é um lugar  muito frio; somos nós que o investimos com nossos sentimentos”. Tal  passagem, aparentemente desoladora, de fato nos concede a autonomia  moral de optar o que vamos fazer de nossas vidas.</p>
<p style="text-align: justify;">Cabe somente a nós tomar as decisões corretas, optar se vamos  contribuir para o bem ou o sofrimento alheios. “Somos nós, em nossa  capacidade de amar, que atribuímos sentido ao universo indiferente”, por  fim, diz o mesmo personagem numa das últimas frases do filme.</p>
<p style="text-align: justify;">As chamadas religiões da “nova era” gostam de afirmar que deus está  em todas as coisas – o que nada mais é que uma versão pós-moderna do  deus onipotente, onipresente e onisciente. Porém, para acreditarmos que  existe uma conexão entre as consciências ou na energia que o corpo  humano emite, não precisamos chamar isso de deus nem muito menos crer em  deus.</p>
<p style="text-align: justify;">A energia é um fato físico cientificamente comprovado. Se não podemos  testar, reproduzir ou comprovar a existência de algum tipo de conexão  mental promovida pelo vínculo afetivo ou afinidade de ideias, isso não  significa que esse fato seja sobrenatural e não possa ser explicado um  dia – nem tampouco que existe uma inteligência superior que a tudo dá  sentido.</p>
<p style="text-align: justify;">Nossos pensamentos são ondas cerebrais. Como as ondas do rádio, é  possível que possamos “sintonizá-las” com outras mentes que operam na  mesma frequência. Se quisermos chamar essa sintonia de “deus”, isso se  deve tão somente à incapacidade de escapar da tradição judaico-cristã, e  não porque ela realmente manifeste a existência de um ser criador do  universo.</p>
<p style="text-align: justify;">De fato, creio que nem mesmo a possibilidade de vida após a morte  depende de um deus para ser válida. Por sinal, o budismo, que muitos  veem mais como uma filosofia que uma religião, aponta nesse sentido: um  universo que prescinde de deus, cujo objetivo é a evolução interior.  Afinal, se o universo depende de um criador, caímos num paradoxo: se há  um criador do universo, qual a origem do criador? Mistério insolúvel.</p>
<p style="text-align: justify;">Alegar que nossa limitação terrena impede a resposta, como afirmam os  religiosos, não soluciona o problema: se não podemos encontrar a  resposta para este dilema, então a hipótese de que não há criador em  absoluto é tão válida quanto a hipótese de que há – e esta os religiosos  não admitem.</p>
<p style="text-align: justify;">Por fim, quando me perguntam, então, por que não me mantenho aberto à  ideia da existência de um deus, me vejo forçado a afirmar: porque devo  estar disposto a aceitar o dogma judaico-cristão, e não o dogma hindu ou  das muitas outras religiões existentes no mundo?</p>
<p style="text-align: justify;">O agnosticismo assume uma postura subalterna diante do monoteísmo  abraâmico. Ou você já conheceu algum agnóstico que está aberto à ideia  da existência de Brahma, Vishnu e Shiva? Se estamos dispostos a admitir a  existência do deus abraâmico, por coerência, devemos admitir a  possibilidade de existência de outros deuses, pois não há nenhum fato  que demonstre que as religiões abraâmicas são as únicas que podem ser  “verdadeiras”.</p>
<p style="text-align: justify;">Adotar essa postura é por si só curvar-se ao monoteísmo abraâmico e  adotar uma postura etnocêntrica, ocidentalista e arrogante. Diversas  religiões já foram abandonadas e perdidas, seja voluntariamente ou por  imposição externa. Como não supor que issso também não possa ocorrer com  as religiões contemporâneas, inclusive as abraâmicas?</p>
<p style="text-align: justify;">Vejamos o caso do suicídio, que aludimos mais acima. Por que o  suicídio é particularmente condenado por todas as religiões? Os sinos da  Igreja não tocam por um suicida. Se ele for judeu, não pode ser  enterrado no cemitério judaico. Não há perdão ou compaixão para o  suicida – que deve ser justamente o ser humano mais necessitado de  ambos, devido ao estado de sofrimento que lhe faz abrir mão da própria  vida.</p>
<p style="text-align: justify;">Ora, os religiosos veem o suicídio (com razão, do seu ponto de vista)  como uma afronta a deus. Toda religião é baseada no medo da morte e na  necessidade de acreditar numa vida após a morte. Se o ser humano não  temer mais a morte, significa que não teme mais a deus. Por isso os  suicidas são os maiores inimigos das religiões: um exército de  “desgarrados” para quem deus não oferece mais nenhuma resposta.</p>
<p style="text-align: justify;">O que nos leva à própria relação inseparável entre religião e poder. O  antropólogo Pierre Clastres, em seu clássico A Sociedade contra o  Estado, levanta uma interessante hipótese: a de que o Estado surge não  pela propriedade, como afirmavam Rousseau e os marxistas, mas pela  autoridade religiosa.</p>
<p style="text-align: justify;">Nas sociedades tribais, bem como nas sociedades mais antigas de modo  geral, em que o conhecimento objetivo do universo não estava disponível  pelas limitações técnicas e científicas de suas épocas, e a  vulnerabilidade diante das intempéries da natureza era enorme, aqueles  indivíduos capazes de “interpretar” os sinais da natureza e  “intermediar” a relação do ser humano com o sobrenatural (o “divino”)  eram investidos de grande poder.</p>
<p style="text-align: justify;">Por isso, em todas as sociedades pré-modernas – incluída a Europa até  fins do século XVIII – as autoridades religiosas eram, senão as mais  poderosas, extremamente poderosas. Os soberanos políticos, não raro,  eram tidos como ungidos pela autoridade divina – como os reis da Europa –  ou divindades eles mesmos – como os faraós e o imperador azteca.</p>
<p style="text-align: justify;">E por que afinal os crentes supõem que um ateu não pode ser uma  pessoa boa? O que significa essa suposição? Significa dizer que o ser  humano é essencialmente mau e precisa de uma força externa para  comandá-lo a praticar o bem. Nesse caso, o bem não é praticado por  consciência, mas pelo medo da punição – o inferno, o karma ou coisa  parecida – ou, na melhor das hipóteses como “moeda” em troca de alguma  recompensa, uma “graça divina”. Existiria de fato alguma ética e bondade  no ser que age apenas movido pelo medo ou o interesse pessoal?</p>
<p style="text-align: justify;">Pelo contrário, a religião não nos ensina de fato sobre o bem e a  moral. A maioria dos seres humanos pode conjugar os dois fatores, mas na  verdade a ética é completamente autônoma da religião. Como afirmei no  último texto, o ser humano tem uma capacidade inata de distinguir entre o  certo e o errado.</p>
<p style="text-align: justify;">Essa capacidade pode ser estimulada e desenvolvida pela educação e a  vida social ou, ao contrário, distorcida e silenciada pela mesma, mas  está latente no ser humano por meio não só da razão vulgar, como dizia  Kant, mas também do sentimento de compaixão, como destacou Rousseau.</p>
<p style="text-align: justify;">Algumas questões complexas podem requerer o debate e a ajuda de um  especialista (diga-se, um estudioso da ética, e não uma autoridade  religiosa como costuma ser o caso), mas essas são as questões auxiliares  ou marginais, não as básicas. Todo ser humano SABE que é errado matar,  mentir, praticar agressão física, verbal ou moral, e assim por diante.</p>
<p style="text-align: justify;">Por tudo isso, tendo a concordar com Marx quando este disse, em A  Questão Judaica, que a verdadeira liberdade religiosa consiste em  libertar-se da religião. A religião não nos ensina sobre o bem não  apenas por conta da autonomia da ética, mas também porque frequentemente  males são praticados e justificados em nome da religião, como nos  inúmeros exemplos que dei ao longo do texto.</p>
<p style="text-align: justify;">Entretanto, não defendo, por isso, o ateísmo oficial ou a perseguição  religiosa como se viu nos regimes socialistas, dos quais sou  extremamente crítico, como sabe quem lê os meus textos. A busca da  espiritualidade responde a uma inclinação legítima do ser humano em  questionar-se sobre o sentido da vida e sua continuidade.</p>
<p style="text-align: justify;">Essa busca interior deve ser respeitada como parte da liberdade  individual de crença e de pensamento. Porém, embora muito frequentemente  os crentes acusem os ateus de querer impor a não-fé, são as religiões  institucionalizadas as que promovem perseguições e cruzadas religiosas,  recorrem à violência, à exclusão e ao autoritarismo para preservar seu  poder. Pois o controle que detêm da linguagem simbólica ainda hoje é  fonte de grande poder, justamente por esta inclinação natural do ser  humano à busca do sentido da sua existência.</p>
<p style="text-align: justify;">É por esta razão que sou, antes de tudo, opositor das religiões  institucionalizadas, que são forças opressoras e disciplinadoras do ser  humano. O pensamento religioso é deficiente para responder à questão dos  direitos fundamentais do ser humano, pois é todo fundado em dogmas. Ou  os aceitamos, ou somos excluídos. Nós, como indivíduos, é que não  deveríamos dar importância às opiniões das igrejas. Espero que um dia a  humanidade possa libertar-se dessas amarras.</p>
<p style="text-align: justify;">De qualquer modo, não vejo sentido, por exemplo, nesses movimentos  para que a Igreja Católica mude suas posições sobre celibato,  homossexuais, camisinha, aborto… Ainda que seja questionável o direito  da Igreja Católica de condenar o divórcio, o sexo com camisinha ou a  homossexualidade, pelo que essas opiniões absurdas podem acarretar em  termos de preconceito e violação de direitos, as igrejas, como qualquer  organização da sociedade civil, têm o direito de escolher seus membros e  opinar sobre as questões da sociedade.</p>
<p style="text-align: justify;">Diante da epidemia de AIDS, por exemplo, a condenação da camisinha  não é apenas um equívoco, é moralmente duvidoso. Quanto à questão do  aborto, deveria ser debatida sobre bases éticas, racionais e  científicas, jamais religiosas [5]. Ainda assim, se você não concorda,  tanto melhor sair da Igreja, ora! Para que frequentar um espaço que não  aceita sua personalidade ou suas opiniões? Em vez disso, escolha-se a  liberdade! Parafraseando Groucho Marx: eu não gostaria de entrar (ou  permanecer) num clube que não me aceitasse como sócio [6].</p>
<p style="text-align: justify;">Sempre que escrevo sobre religião sou criticado por intolerância e  perseguição. Os mais benevolentes sugerem que aceite deus em meu  coração. Pois bem… como disse acima, não tenho nada contra pessoas  religiosas. Tenho amigos religiosos e respeito suas opiniões.</p>
<p style="text-align: justify;">Ao escrever sobre ateísmo exerço tão somente minhas liberdades:  liberdade de pensamento, liberdade de expressão e… liberdade religiosa!  Pois tanto quanto um religioso tem o direito de ser respeitado pela sua  fé, praticá-la e expor suas opiniões, nós, ateus, temos o direito de  sermos respeitados pela nossa ausência de fé na religião e em um deus, e  também de expressarmos nossas opiniões.</p>
<p style="text-align: justify;">O ateísmo não representa, como muitos desejam, a ausência de  moralidade. Um ateu pode ser imoral, antiético e sem caráter como  qualquer outro indivíduo, mas isso nada tem a ver com o ateísmo em si. A  maioria da humanidade é religiosa, de modo que, se ética e religião  fossem realmente irmãs siamesas, já viveríamos no “paraíso”. Por outro  lado, não existe ética mais elevada do que aquela originada tão somente  da consciência individual, motivada pelo senso desinteressado do dever e  do respeito, e não pelo medo da punição ou desejo de recompensa.</p>
<p style="text-align: justify;">Por isso, a verdadeira ética não existe em ninguém apesar do ateísmo.  Pelo contrário, a ética pura, embora possa conviver e coabitar com a fé  religiosa, prescinde em si mesma, e por completo, de qualquer deus ou  religião, e só pode estar baseada na autonomia e consciência morais do  indivíduo.</p>
<p style="text-align: justify;">
<p style="text-align: justify;">[1] Fonte: Revista Veja. “Como a Fé Resiste à Descrença”. 26 de  dezembro de 2006, edição 2040, pp. 70-7. Os dados da pesquisa estão na  página 72.</p>
<p style="text-align: justify;">[2] Fonte:  http://veja.abril.com.br/blog/reinaldo/geral/veja-5-so-13-dos-brasileiros-votariam-num-ateu-para-presidente/</p>
<p style="text-align: justify;">[3] Adota-se essa terminologia porque as três grandes religiões  monoteístas têm a origem comum no patriarca Abraão.</p>
<p style="text-align: justify;">[4] Cf. TODOROV, Tzvetan. A Conquista da América. A Questão do Outro.  São Paulo: Martins Fontes, 1996, especialmente p. 123 e ss. Os dados  sobre o genocídio dos nativos americanos encontram-se na página 129.</p>
<p style="text-align: justify;">[5] Pessoalmente tenho objeções éticas ao aborto na maioria dos  casos, pelo direito à vida que o feto tem a partir do momento em que é  senciente.</p>
<p style="text-align: justify;">[6] A frase original do comediante, para quem não sabe, é: “eu não  entraria num clube que me aceitasse como sócio”.</p>
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		<title>O analfabetismo político no Brasil</title>
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		<pubDate>Fri, 19 Feb 2010 21:32:21 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Robson Fernando</dc:creator>
				<category><![CDATA[Alienação e Conformismo]]></category>
		<category><![CDATA[Artigo]]></category>
		<category><![CDATA[Cidadania e Mobilização]]></category>
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		<description><![CDATA[Artigo escrito em fevereiro de 2009 Já dizia Bertold Brecht*, em seu poema que criticou tão pesadamente aqueles que dizem ter orgulho de se alienar de conversas sobre política, que essa mesma gente é quem origina o mal social. Notamos sua razão quando olhamos para dentro do Brasil, cujo povo, em sua maioria, tem horror [...]


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<p style="text-align: justify;"><em>Artigo escrito em fevereiro de 2009</em></p>
<p style="text-align: justify;">Já dizia Bertold Brecht*, em seu poema que criticou tão pesadamente aqueles que dizem ter orgulho de se alienar de conversas sobre política, que essa mesma gente é quem origina o mal social. Notamos sua razão quando olhamos para dentro do Brasil, cujo povo, em sua maioria, tem horror a falar sobre o que acontece em Brasília, exceto falar o popular “dogma” de que “político é tudo ladrão”.</p>
<p style="text-align: justify;">Os hábitos políticos do brasileiro médio, notavelmente, restringem-se a repetir a citada “verdade” e, estritamente em épocas eleitorais, a debater quem é o menos pior candidato. É notável a quase generalizada aversão a se falar do que acontece em Brasília.</p>
<p style="text-align: justify;">Não se fala nas mesas de bar e vizinhanças sobre a votação dos projetos de lei, sobre as manobras limpas ou sujas nas relações de poder, sobre as estratégias políticas, sobre como os parlamentares e chefes do Poder Executivo deveriam proceder em relação a estratégias políticas.</p>
<p style="text-align: justify;">Queira o povo ou não, esse assunto é extremamente importante e ignorá-lo é um delito contra a integridade do país onde vivem, é rejeitar a democracia. Reiterando o que Brecht disse, é desse comportamento que vêm “a prostituta, o menor abandonado e (...) o político vigarista”. Deixar a política de lado, além de ser um não da pessoa à democracia, permite que os tais vigaristas ajam livremente sem a oposição do povo e impede que os políticos mais honrados e que mantêm os laços com seus eleitores – sim, eles existem, queira você ou não – tenham em mãos um maior variedade de estratégias de manobrar sua influência política e conseguir apoio a suas leis.<span id="more-2825"></span></p>
<p style="text-align: justify;">Por mais que a política no Brasil venha decepcionando, mais válido do que desistir de falar dela é discutir como substituir a corja que domina as casas legislativas dos municípios, dos estados e do País. É um engodo a frase popular que diz que “política não se discute”. Discute-se sim, desde que a simpatia manifestada pela pessoa a determinada corrente política exista mais por racionalidade e menos por sentimentos de fé de que tal corrente irá “revolucionar”.</p>
<p style="text-align: justify;">Discutir a postura de determinado homem/mulher público(a) e estratégias políticas que ele(a) pode adotar não é muito distinto de debater como determinado time de futebol deve agir. Por exemplo, palpitar como Jarbas Vasconcelos deve atuar em seu mandato de senador, desde que haja conhecimento de sua pessoa política, não é tão diferente assim de pensar em que táticas e disposições de jogadores o Sport deve utilizar mais na Taça Libertadores.</p>
<p style="text-align: justify;">Entretanto, é algo que requer um conhecimento aprofundado sobre política, com conhecimento da vida política do sujeito, observação de seu comportamento e um pouco de conhecimento de teoria política. No Brasil, infelizmente, essas características são atributos de poucos, já que a maioria dos brasileiros não gosta de ler e, como está dito aqui, é analfabeta política.</p>
<p style="text-align: justify;">O analfabetismo político, assim como a alienação social, é extremamente nocivo ao País e compromete a sua existência como democracia. É extraordinariamente necessário educar a população para pensar em como ser pode mudar a política, estendendo a atenção aos homens/mulheres públicos(as) para muito além da época eleitoral, e não em se afastar dela.</p>
<p style="text-align: justify;">
<p style="text-align: justify;">*Já ouvi dizer que essa poesia não seria de autoria dele.</p>
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		<title>Reflexão sobre o duplipensar moral onívoro</title>
		<link>http://consciencia.blog.br/2010/02/reflexao-sobre-o-duplipensar-moral-onivoro-2.html</link>
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		<pubDate>Tue, 16 Feb 2010 11:07:42 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Robson Fernando</dc:creator>
				<category><![CDATA[Animais Tratados como Propriedade]]></category>
		<category><![CDATA[Artigo]]></category>
		<category><![CDATA[Assassinato e Matança de Animais]]></category>
		<category><![CDATA[Carne]]></category>
		<category><![CDATA[Como os Animais São Vistos]]></category>
		<category><![CDATA[Direitos Animais]]></category>
		<category><![CDATA[Especismo e Arrogância Humana]]></category>
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		<category><![CDATA[Pecuária]]></category>
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<p style="text-align: justify;"><em>Artigo escrito em dezembro de 2009</em></p>
<p style="text-align: justify;">Israel, século 8 A.E.C.; Roma, século 1 A.E.C.; Arábia, século 6; Brasil, século 17. Escravos... Sendo de etnia ou nacionalidade dominada, eram tratados como propriedades. Sua existência era praticamente atrelada a seus senhores ou “donos”. Eram obrigados a lhes prover mão-de-obra, recebendo durante a vida apenas alimentação e algumas roupas em troca.</p>
<p style="text-align: justify;">Como eram propriedades, seus senhores se viam livres para lhes causar violências diversas, que variavam de acordo com o país e época: marcação a ferro quente, gritos de ordem, espancamentos no caso de demonstração de rebeldia. A liberdade era palavra proibida. Não viviam mais como fins em si mesmos, por suas necessidades, anseios, prazeres e interesses próprios, mas estritamente para os interesses do senhor que os tinha como propriedade. Eram seres dotados de sentimentos, desejos, anseios e capacidade de sofrer, mas seus “donos” não se importavam com isso.</p>
<p style="text-align: justify;">Qualquer lugar do mundo, século 21. Animais rurais... Sendo de espécie dominada, são tratados como propriedades. Sua existência é. na prática, atrelada a seus senhores ou “donos”. São obrigados a lhes fornecer matéria-prima, recebendo durante a vida apenas alimentação em troca.</p>
<p style="text-align: justify;">Como são propriedades, seus senhores se veem livres para lhes causar violências diversas: marcação a ferro quente, fustigações como ordens, espancamentos no caso de demonstração de rebeldia. A liberdade é palavra proibida, um absurdo aos olhos da espécie dominante. Não vivem como fins em si mesmos, por suas necessidades, anseios, prazeres e interesses próprios, mas estritamente para os interesses do senhor que os tem como propriedade. São seres dotados de sentimentos, desejos, anseios e capacidade de sofrer, mas seus “donos” não se importam com isso.<span id="more-2789"></span></p>
<p style="text-align: justify;">Apesar de tantas semelhanças, enquanto a realidade descrita no primeiro parágrafo desta reflexão é hoje algo visto como abominável, desejando-se que nunca mais se repita, a do segundo parágrafo é largamente consentido, aceito e até defendido hoje em dia sem nenhum pudor ou peso na consciência. É aceitável ainda hoje que os animais sejam tratados da mesma forma que os escravos de antigamente, em nome da nossa alimentação e de outros interesses materiais humanos.</p>
<p style="text-align: justify;">Convido você a refletir: por que isso acontece hoje? Por que, em nome de necessidades já ultrapassadas, ainda nos vemos autorizados a negar qualquer traço de respeito, empatia e compaixão às mais diversas espécies de animais rurais ou aquáticos? Por que, enquanto reprovamos o cárcere e assassinato de humanos, aprovamos o cárcere e assassinato de animais? Por que nossa moral proíbe que usemos, confinemos e matemos seres humanos para nossos interesses mas nos deixa livre para usar, confinar e matar animais de acordo com nossa vontade e conveniência? Por que dois pesos e duas medidas?</p>
<p style="text-align: justify;">Será que vale mesmo que, em nome de nosso paladar, vejamos e tratemos bilhões de animais sem nenhum respeito ou empatia, nos arroguemos no direito de lhes cercear a liberdade e impor um sentido da vida baseado na exploração? Por que resistimos a admitir e aceitar que podemos mudar, nos libertar do duplipensar ético e passar a nos alimentar eticamente, sem sermos cúmplices da crueldade dos pastos, confinamentos e matadouros?</p>
<p style="text-align: justify;">Costumamos ser (ou dizer ser) bons e generosos com o nosso próximo humano. Mas, com os animais rurais que abatemos ou exploramos e os aquáticos que levamos da água para a morte, não estamos sendo nada bons quando optamos por continuar comendo suas carnes e ovos e bebendo seus leites, quando pagamos para que continuem matando-os e roubando-lhes suas secreções alimentares.</p>
<p style="text-align: justify;">Enquanto repudiamos os costumes escravocratas dos senhores de escravos do passado, damos apoio aos costumes zooescravocratas dos senhores de animais do presente. Enquanto defendemos e contemplamos os direitos humanos e esperamos para o futuro o fim dos abusos contra mulheres e homens, ignoramos ou negamos os direitos animais e aceitamos para o mesmo futuro a continuidade de todos os abusos e violações éticas do sistema pecuário e pesqueiro. Isso de certa forma nos torna amorais, distantes da nossa autocontemplação como seres morais.</p>
<p style="text-align: justify;">Um argumento comum para aceitarmos a exploração e matança de bichos no meio rural é que nós somos onívoros por natureza e só a pecuária e a pesca em grande escala podem fornecer alimentos para uma parcela mais larga da humanidade. De fato o onivorismo foi a única opção alimentar conveniente para o ser humano por muito tempo, quando ele não tinha conhecimentos avançados de nutrição nem acesso a uma diversidade suficiente de vegetais cultivados em sua região de morada.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas hoje é diferente: ao contrário dessa época, temos hoje capacidade mais que suficiente para, sem nenhum ônus nutricional, substituir alimentos de origem animal e nos libertar da característica onívora que acompanhou nossa evolução biológica e neurológica por milênios. Assim sendo, a desculpa do determinismo biológico já não serve como antigamente.</p>
<p style="text-align: justify;">Depois de defender acima por que a pecuária e a pesca não são eticamente convenientes e são dispensáveis graças à existência de alternativa alimentar ética válida, apresento a você duas pílulas.</p>
<p style="text-align: justify;">Tomando a pílula vermelha (cor do sangue derramado em abatedouros), você ignorará que seu paladar está, independente de quanto você diz respeitar a ética e gostar de animais, implicando aprisionamento, exploração, sofrimento e morte violenta para um sem-número de animais que poderiam estar sendo poupados de nascer para uma vida miserável e sofrida. Viverá ignorando o sangue e a dor que são o custo de uma alimentação onívora.</p>
<p style="text-align: justify;">Tomando a pílula verde (cor da exuberância vegetal), estará optando por aceitar que uma vida livre de implicações cruéis a outras vidas sencientes é possível. Viverá em comunhão com os direitos de seus irmãos de vida. Passará a ver os animais como seres que possuem tanto direito a viver e ser livres quanto nós. Não estará mais incidindo em evidentes contradições éticas.</p>
<p style="text-align: justify;">A escolha é sua. Saiba melhor sobre o que o vegetarianismo oferece de melhor em ética, saúde e culinária e, em seguida, tome sua decisão.</p>
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		<title>Em defesa de Yu-Gi-Oh!: por que os ataques cristãos ao desenho e ao jogo são absurdos</title>
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		<pubDate>Tue, 09 Feb 2010 00:57:16 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Robson Fernando</dc:creator>
				<category><![CDATA[Artigo]]></category>
		<category><![CDATA[Cristianismo]]></category>
		<category><![CDATA[Cultura]]></category>
		<category><![CDATA[Etnocentrismo]]></category>
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		<category><![CDATA[Questionando a Religião]]></category>
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		<description><![CDATA[Artigo escrito em setembro de 2008. Hoje a época é de Yu-Gi-Oh GX e 5D's, mas o texto não perde a atualidade pelo fato de ainda existirem ataques a jogos e animes de temáticas que afrontam o etnocentrismo cristão. Em 2008, numa nostalgia de lembrar a adolescência, resolvi rever episódios do anime Yu-Gi-Oh!, que tem [...]


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<p style="text-align: justify;"><em>Artigo escrito em setembro de 2008. Hoje a época é de Yu-Gi-Oh GX e 5D's, mas o texto não perde a atualidade pelo fato de ainda existirem ataques a jogos e animes de temáticas que afrontam o etnocentrismo cristão.</em></p>
<p style="text-align: justify;">Em 2008, numa nostalgia de lembrar a adolescência, resolvi rever episódios do anime Yu-Gi-Oh!, que tem o menino Yugi Moto (escrito ao redor do mundo como Yugi Muto ou Mutou) e o espírito do Faraó Yami/Atem que incorpora o primeiro como protagonistas. Como era de se esperar, me lembrei das inúmeras “críticas” (eufemismo de condenações) vindas de denominações cristãs ora contra o desenho ora contra o jogo de cartas que deu origem a ele.</p>
<p style="text-align: justify;">Algo muito esperado vindo de uma religião intolerante e antipagã “por excelência” – ainda que ironicamente recheada de muitos aspectos assimilados de várias culturas pagãs situadas pelos domínios do antigo Império Romano e suas vizinhanças – que, para tentar desqualificar as religiões não-monoteístas, tacham as entidades divinas delas de “demônios” e os rituais sagrados delas de “satânicos”, passando pela obtusidade de falar de forma caluniosa que os espíritos malignos contra os quais essas crenças alheias sempre se posicionaram são seus aliados também.</p>
<p style="text-align: justify;">Nessa nostalgia pessoal e me aproveitando de minha posição de defesa à harmonia e respeito mútuo entre as crenças e descrenças – o que, a saber, não exclui o direito de levantar críticas baseadas em argumentação racional, objetiva e honesta –, entro em defesa a Yu-Gi-Oh!, incluindo eu o jogo de cartas e o anime que se baseia nele. Manejo minha argumentação ao melhor estilo “Monstros de Duelo”, com conhecimento de causa, cabeça fria e senso de saber onde me defender e (contra-)atacar. Então, é hora do duelo, cristãos.<span id="more-2695"></span></p>
<p style="text-align: justify;">Começo pelo ponto maior presente em todos os sites referidos: a malignização do jogo Monstros de Duelo (também conhecido como Magic and Wizards) pela presença de demônios, magias e entidades relacionadas à(s) mitologia(s) ocultista(s). Entro logo falando do jogo em si, o anime será defendido numa abordagem bem maior e já sem o ônus dos “demônios das cartas”.</p>
<p style="text-align: justify;">Primeiro, deve ser reconhecido que o conceito de divisão entre entidades do bem e do mal como os cristãos conhecem não existe no jogo. O conflito dualista característico do cristianismo – e de religiões anteriores como o zoroastrismo – dá lugar ao equilíbrio Yin-Yang, em que “bem” e “mal” se completam. O jogo não diz que umas entidades são benignas e outras são malignas, bem pelo contrário. Feiticeiros, demônios, dragões, animais, guerreiros de armadura, máquinas de guerra, fadas e até santos (como a Santa Joana usada por Serenity no episódio 107 do anime) e deuses (os três “deuses egípcios”, exclusivos do anime) fazem parte de um só conjunto onde a dualidade diametral “bem X mal” não existe.</p>
<p style="text-align: justify;">O mesmo se aplica a cartas de rituais de magia branca ou negra, usadas em grande parte das vezes para invocação de monstros mais poderosos ou ressuscitados. Em suma, não é um jogo voltado à malignidade, mas sim a uma visão diferente de Mitologia, consistida no equilíbrio entre elementos opostos. Mas, como é de se esperar, sacerdotes cristãos têm horror e até ódio a visões de Filosofia Mitológica diferentes da sua e incumbem-se incansavelmente a crucificá-las na lógica “se não condiz com minha religião, é logo automaticamente maligno”, muito similar às lógicas etnocêntricas da xenofobia e do nazismo.</p>
<p style="text-align: justify;">E, já que há uma categoria de demônios dentro de um acervo dezenas de vezes maior de entidades e uma classe de cartas de magia escura dentro de uma variedade também muito grande de cartas mágicas, o fogo cristão é mais intensificado ainda contra o jogo de Yugi Moto. Esta contra-argumentação também serve para defesa da presença de cartas com elementos da mitologia egípcia, até porque há cartas que lembram tantas mitologias quanto você se lembrar agora, incluindo um pouco da cristã.</p>
<p style="text-align: justify;">Agora a parte que me anima mais a escrever este artigo: o anime. Posto no mesmo saco de desenhos e jogos violentos, Yu-Gi-Oh! é igualmente crucificado de maneira impiedosa pelos sites cristãos. Uma das páginas que visitei (<a href="http://igrejadegraus.com.br/ebooks/paraquemcriamosmossosfilhos.pdf">http://igrejadegraus.com.br/ebooks/paraquemcriamosmossosfilhos.pdf</a>) dá uma singela lista de supostas perversidades trazidas pelo desenho, como se ele fosse um propagador de:</p>
<p style="text-align: justify;">1) reencarnação ou possessão de espíritos<br />
2) dupla personalidade<br />
3) evocação de mortos ou espíritos malignos<br />
4) a magia presente na forma de busca do além ou de almas do outro mundo para conseguir o seu objetivo<br />
5) a ligação do vocabulário espiritual<br />
6) ligação com personagens violentos que geralmente são ligados a espíritos malignos ou demônios<br />
7) convite para que seres espirituais malignos entrem em seu lar<br />
8) desrespeito ao próximo<br />
9) banalização da violência</p>
<p style="text-align: justify;">Vamos desmascarar um por um, pela ordem.</p>
<p style="text-align: justify;">1) Primeiro, a “reencarnação ou possessão” refere-se a Yugi Moto como receptáculo do faraó Yami/Atem, sendo portador do Enigma do Milênio, e a personagens antagonistas como Bakura e Marik. Devo relevar ao máximo duas questões:</p>
<p style="text-align: justify;">a) Atem/Yami Yugi, a “versão faraó” de Yugi, é um personagem benigno, que sempre lutou pelo bem da humanidade. Vendo o desenho e a atuação do faraó, que mal podemos identificar nele? Posso falar de duas analogias no próprio cristianismo a respeito desse tipo de incorporação: cristãos podem crer que estão se deparando com a orientação mental ou espiritual de um anjo ou mesmo incorporando o Espírito Santo, que é parte do próprio Deus. Atem não é um deus (não é no desenho, uma vez que Atem, na mitologia do Egito real, era o nome alternativo de um deus egípcio chamado Atum) nem um anjo, mas está extremamente longe de ser um “espírito possessor do mal”.</p>
<p style="text-align: justify;">Fica o dilema: se a pessoa sentir um anjo ou o ES incorporando é algo bom, por que não o é a incorporação de um rei que é o herói da história? E ainda há outro detalhe que oblitera qualquer crítica demonizante contra Yugi: o aprendizado mútuo entre as duas personalidades, algo inexistente nas possessões “denunciadas” ao largo do mundo cristão. Yugi e Yami, com uma admirável freqüência, demonstram que aprenderam inúmeros valores e virtudes um com o outro. Ainda não entendo o que há de tão desgraçado e condenável no “Yugi 2 em 1”.</p>
<p style="text-align: justify;">b) Bakura e Marik: são os malignamente possessos da história. Note que o enredo de Yu-Gi-Oh! não faz de suas versões do mal pessoas adoradas, muito pelo contrário. Yugi e seus amigos combatem essas entidades, até que, ao melhor estilo de exorcismo e luta do bem contra o mal, os expulsam e os banem do corpo dos vitimados. Inclusive Marik consegue, com a ajuda dos recém-amigos, expulsar de seu corpo a personalidade perversa. Se as aventuras de Yugi, Atem e cia. consistem em grande parte na luta contra males possessos, por que insistir em dizer exatamente o contrário, que o anime está exaltando a possessão ruim como algo bom?</p>
<p style="text-align: justify;">2) Repito os argumentos que falei agora sobre Yugi e Yami e adiciono um detalhe que termina invalidando o temor cristão pela dupla personalidade do corpo de Yugi Moto: a ausência de dualidade entre o(s) protagonista(s). A dupla é o bem somado ao bem! Se o desenho mostrasse um Yugi de estilo “Smeagol &amp; Gollum”, com um lado bom e um ruim, em vez do herói duplo, e exaltasse isso como sendo “o máximo”, aí sim haveria um motivo válido de os adultos se preocuparem com a influência exercida pelo desenho nas crianças. Poderia ser uma situação delicada ver o filho criança dizer que tem uma personalidade boa e uma ruim e que aprendeu isso no “desenho das cartas”.</p>
<p style="text-align: justify;">3) Para este argumento, reitero tudo o que disse na defesa ao jogo Monstros de Duelo, isso já é o suficiente. Em outras palavras, na “mitologia yugiana” não existe monstro intrinsecamente benigno ou maligno. Apenas os personagens que os utilizam nos duelos o são.</p>
<p style="text-align: justify;">4 e 5) A rixa cristã contra essa parte é justificada mais pelo asco dessa religião a rituais, liturgias e cerimônias presentes em outras religiões do que pelo caráter supostamente maligno das invocações nas partidas.</p>
<p style="text-align: justify;">6) Esta o caluniador de Yu-Gi-Oh! tem que especificar melhor, porque a informação está muito vaga. Caso seja uma referência aos monstros-mascote de cada personagem, notamos ao ver o desenho que isso não é verdade, uma vez que harpias (as Harpias de Mai Valentine), feiticeiros (o Mago Negro de Yugi e a Maga da Fé de Téa) e dragões (os dragões de Joey e Seto Kaiba) estão longe de poderem ser considerados demônios, a não ser na obtusa visão cristã de malignizar todos aqueles que não pertencem ao lado celestial da mitologia bíblica. Reitero também o contra-argumento de neutralidade e equilíbrio do parágrafo que defendeu o jogo Monstros de Duelo.</p>
<p style="text-align: justify;">7) Ao vermos o anime, percebemos facilmente que, no lado dos protagonistas, simplesmente não existe nenhum “convite para a entrada de seres malignos”. É verdade que não há nenhuma alusão ao deus cristão no desenho, mas isso não torna o contrário verdadeiro. Um conhecimento de causa faria muito bem, não é, senhor(a) caluniador(a) de Yu-Gi-Oh! e de animes afins?</p>
<p style="text-align: justify;">8) Esse ponto eu faço questão de explicar mais abaixo, depois dessa lista de contra-argumentos.</p>
<p style="text-align: justify;">9) A 4Kids Entertainment teve todo o cuidado de suprimir referências consideradas violentas quando adaptou Yu-Gi-Oh! para a televisão infantil americana – e brasileira, por tabela. Cenas com presença de sangue e agressões foram cortadas e a imagem de monstros com alusões a armas de fogo foi alterada de modo a suprimir estas. Pode-se dizer muita coisa de Yu-Gi-Oh!, mas nunca que é um desenho baseado na violência e pancadaria.</p>
<p style="text-align: justify;">Ainda mais considerando que na trama tudo, tudo mesmo, é disputado nas partidas de duelo, até mesmo o destino da humanidade. A versão japonesa, feita para adolescentes, contém algumas cenas violentas, mas na versão transmitida para o Brasil elas quase não existem.</p>
<p style="text-align: justify;">Enquanto igrejas espalham aos quatro ventos que Yu-Gi-Oh! tem mil e uma características que influenciam perversamente as crianças, venho me posicionar na corrente exatamente contrária. Posso dizer que esse anime é em certos momentos um verdadeiro veículo de educação para os jovens sobre Relações Humanas, contendo valiosíssimos ensinamentos sobre:</p>
<p style="text-align: justify;">- o valor da amizade e do amor;<br />
- o despertar de sentimentos de apego total aos amigos;<br />
- a superação de medos;<br />
- o triunfo das virtudes sobre o modo revoltado de viver;<br />
- a determinação e persistência;<br />
- o desejo de proteger o mundo;<br />
- a forma certa de se lidar com a vitória e com a derrota;<br />
- a valorização das lições do passado, por mais repulsivo que este tenha parecido ser;<br />
- o amor entre irmãos;<br />
- a conversão de personalidades corruptas para uma vida virtuosa e em contínua evolução;<br />
- a fé (isso mesmo, a fé, religiosa ou não!);<br />
- a não-compensação de sentimentos negativos;<br />
- a não-compensação do ceticismo quando adotado por mera rebeldia e sem fundamentos;<br />
- a firmeza dos sentimentos e virtudes perante as piores provações da vida;<br />
- e muitos outros.</p>
<p style="text-align: justify;">Relevemos o andamento da trama. Joey e Tristan eram no início de tudo mal-encarados, verdadeiras “almas sebosas”, até que Yugi os salvou de um rapaz brigão. Aquilo já mudaria permanentemente a relação dos dois com o personagem principal do anime. Ao longo do tempo, todos aprenderam mais e mais na vida que levavam juntos. Joey chegou ao ponto de pular do navio para resgatar algumas cartas de duelo de Yugi que um vilão jogou no mar. Conheceram Mai, que também se tornou uma ótima amiga.</p>
<p style="text-align: justify;">Quase todos os duelos eram marcados por lições de amizade, honra, honestidade, amor, cooperação e trabalho em equipe. Sem falar no exaustivamente pregado “coração das cartas”, que é uma espécie de fé secular que exerce um papel muito semelhante ao da fé cristã, o de não entregar totalmente a vida aos ditames do acaso. Até ex-inimigos, como Duke Devlin, Noah Kaiba e Marik Ishtar, terminaram entrando para o lado do bem.</p>
<p style="text-align: justify;">Até Seto Kaiba, depois de muitas lições, entrou para o lado dos protagonistas, ainda que não deixando totalmente seu lado rebelde. Pergunto depois de tudo isso aos sites que insistem em caluniar o desenho e o jogo e pô-los nos piores poços de lixo cultural: por que Yu-Gi-Oh! não presta, mesmo quando relevamos seu caráter profundamente benigno e até educativo?</p>
<p style="text-align: justify;">Como forma de negar influências perversas dos meios de comunicação, os cristãos lançam mão da recomendação bíblica de Provérbios 22:6 – “Educa a criança no caminho em que deve andar; e até quando envelhecer não se desviará dele” – e às vezes pregam a Bíblia como um instrumento educativo completo.</p>
<p style="text-align: justify;">Sinto em desapontá-los, mas um livro que contém passagens como I Samuel 15¹, Deuteronômio 28² e um Apocalipse repleto de demônios, monstros e bestas mitológicas que deixam os do jogo Monstros de Duelo “no chinelo” não parece ser uma influência realmente positiva para crianças. Menos ainda quando sabemos que esse mesmo livro prega a homofobia, a intolerância religiosa e a subjugação despótica dos animais e da Natureza perante o ser humano como comportamentos essencialmente corretos.</p>
<p style="text-align: justify;">Seria prudente para os religiosos que, antes de levantarem uma polvorosa nas suas igrejas sobre os supostos malefícios comportamentais de um desenho animado, jogo ou filme, tomassem conhecimento de causa sobre o que criticam, analisando aos olhos da Filosofia aquilo que consideram perverso e condenável e verificando os verdadeiros valores que são transmitidos.</p>
<p style="text-align: justify;">Rebaixar desenhos como Yu-Gi-Oh! à classe pária da cultura juvenil só por causa da presença de elementos mitológicos sem malignidade intrínseca ou objetivamente atribuída, ignorando totalmente tudo aquilo de bom que é provido por eles, é uma atitude obtusa, desonesta e desrespeitosa. Do mesmo jeito que o é chamar uma entidade benigna da mitologia alheia de demônio ou tachar um ritual pagão de maligno.</p>
<p style="text-align: justify;">¹ Uma brutal narrativa sobre a destruição de Amaleque e de seu rei Agague.<br />
² Este capítulo contém, em contraste com 12 versículos de bênçãos para pessoas obedientes a Deus, nada menos que 49 versículos com maldições para quem “não der ouvidos à voz do Senhor”.</p>
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		<title>Resenha: 1984</title>
		<link>http://consciencia.blog.br/2010/01/resenha-1984.html</link>
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		<pubDate>Thu, 21 Jan 2010 12:30:00 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Robson Fernando</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Aviso: esta resenha contém spoilers sobre o referido livro. Se você já o leu e quer ler a resenha ou ainda não leu o livro mas quer ter uma ideia prévia de como a trama se desenrola, clique em "Continue lendo..." caso este post não esteja sendo exibido numa página individual. "1984" é um livro [...]


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<p align="justify"><i>Aviso: esta resenha contém spoilers sobre o referido livro. Se você já o leu e quer ler a resenha ou ainda não leu o livro mas quer ter uma ideia prévia de como a trama se desenrola, clique em "Continue lendo..." caso este post não esteja sendo exibido numa página individual.</i></p>
<p><span id="fullpost"></p>
<p>"1984" é um livro diferente da grande maioria das ficções: não tem um herói – embora tenha um protagonista – nem um final feliz. Nem um desfecho compreensível o livro chega a ter – sendo necessário, para muitos, a leitura de um spoiler depois de ter acabado todas as páginas para se saber o que realmente aconteceu com Winston, o protagonista que não consegue ser um herói, no final da história. Portanto, se você só gosta de livros com heróis ou heroínas lutando obstinadamente em favor de um final feliz que de fato aguarda os(as) leitores(as) nas últimas páginas, “1984” não é um livro recomendável.</p>
<p>A obra maior de George Orwell é uma distopia cruelmente pessimista sobre como seria a Inglaterra e o mundo num ano de 1984 dominado por regimes totalitários pancontinentais. A Inglaterra não é mais Inglaterra, e sim a Oceania, um megapaís que abrangeria grande parte das terras emersas do planeta. Está em uma guerra perpétua em que ela e as meganações Eurásia e Lestásia revezam através do conflito o controle parcial da calota polar ártica e de parte da África e da Ásia.</p>
<p>A história de Winston antes de sua prisão pela Polícia do Pensamento – corpo policial que prende todo(a) aquele(a) que ousa pensar diferente do que o Partido manda que se pense – é inspiradora, uma vez que ele é identificável com quem adota uma visão de mundo mais esclarecida que destoe da alienação sociopolítica da sociedade. É a parcela menos pessimista do livro.</p>
<p>Ao contrário do que demonstra a população que trabalha com o Partido, ele mantém pensamentos destoantes do que o governo totalitário prega. Consegue manter-se seguro (apenas aparentemente, visto o que O’Brien, o personagem que se exibe como o maior antagonista, revela nos capítulos da tortura), mantendo discrição em casa e no trabalho – o Ministério da Verdade.</p>
<p>Esse ministério, aliás, é um dos órgãos de um sistema estatal cuja dominação deve ser descrita: é um domínio ultratotalitário em que a população da “Oceania” – especialmente os seis milhões de membros do chamado Partido Externo – é vigiada por aparatos como a Polícia do Pensamento e teletelas, um misto de televisor com câmera que vigia o comportamento das pessoas dentro de suas casas e em locais públicos e transmite propaganda governamental.</p>
<p>O Partido vangloria-se divulgando mentiras em suas propagandas e boletins e mantém o poder pelo controle psicológico dos(as) seus/suas filiados(as) através de estratégias de manipulação de pensamento como o duplipensar – capacidade de acreditar simultaneamente que, por exemplo, o céu é azul e é verde – e o crimedeter – rejeição psicológica imediata a qualquer pensamento subversivo que tente aflorar do cérebro.</p>
<p>A política existente impede até a manifestação dos instintos, emoções e virtudes humanas, como o amor – que deveria ser dedicado exclusivamente ao Grande Irmão, o líder governamental que talvez nem exista –, a libido e a amizade. Tornava as pessoas marionetes indefesas.</p>
<p>Voltando a Winston, ele corajosamente alimenta pensamentos de dúvida sobre o que o Partido faz com um terço da humanidade da ficção. Certo dia, Júlia, uma mulher que ele frequentemente via nos corredores do Ministério da Verdade, consegue que ele fale com ela e arquiteta com ele encontros em lugares diversos, onde os dois formam um casal e descobrem o censurado prazer de amar um ao outro.</p>
<p>Encontram no andar superior de uma antiga igreja, habitada pelo Sr. Charrington, um refúgio livre da vigilância da Polícia do Pensamento. Pelo menos era o que acreditavam.</p>
<p>O’Brien, que finge em suas feições ser outro “camarada” secretamente descontente com o governo totalitário e pertencer à Fraternidade, um grupo rebelde cuja existência é uma crença não comentada entre os membros do Partido Externo, marca de forma codificada um encontro com eles em seu apartamento, onde tem noção da inimizade do casal dirigida à entidade política. Distribui a eles, por intermédio de um estranho, “O Livro”, presumivelmente escrito por Emmanuel Goldstein, o líder da rebelde Fraternidade.</p>
<p>“O Livro” é a parte mais interessante de “1984”. É um momento em que George Orwell ensaia uma ficção sociológica e explica o passado verídico da humanidade e o presente distópico surgido nas revoluções que deram origem às três meganações do planeta. Conta o funcionamento da guerra perpétua que sustenta a economia delas e a estagnação de toda a arte, ciência e outras habilidades intelectuais, entre outros detalhes fundamentais para a compreensão de grande parte da obra.</p>
<p>No dia em que Winston lê para Júlia o livro, a surpresa fatal: a antiga igreja tinha uma teletela e Sr. Charrington era um agente disfarçado da Polícia do Pensamento. A voz metálica da tela anuncia a prisão e guardas de uniforme negro prendem os dois. O casal é violentamente separado e encaminhado para a cadeia do Ministério do Amor. Seu crime era a “crimideia”, o delito de pensar diferente do que o Partido dizia.</p>
<p>Winston vê o terror da prisão onde eram confinados presos políticos e criminosos. Em seguida, O’Brien, revelando-se um capacho leal do Partido e torturador profissional, chega na cela e o encaminha a uma sala onde é espancado brutalmente por cruéis soldados. O protagonista em seguida é submetido a outras torturas dolorosas em outra sala. É forçado a fazer confissões reais e imaginárias.</p>
<p>Nos antepenúltimo capítulo, Winston trava um diálogo com O’Brien, no qual é gritante o contraste entre a fraqueza do protagonista e o poder do antagonista, que podia torturá-lo novamente a qualquer momento. É revelada a verdadeira natureza da dominação totalitária estabelecida: baseia-se no ódio em vez do zelo à população, busca a manutenção do poder acima de qualquer outro objetivo, não intenciona a melhoria da sociedade, almeja esmagar qualquer traço de emoção que não seja devotado ao Partido e ao Grande Irmão. Enfim, realmente quer que a população da Oceania seja um conjunto de marionetes sob rígido controle.</p>
<p>Nos penúltimo capítulo, Winston passa a conhecer o que é a tão terrível Sala 101: um lugar onde as pessoas dão de cara com seus piores pesadelos. Ele se obriga a pedir que “façam isso com Júlia”, para só assim ser livrado da gaiola de ratos que poderiam devorar sua cabeça. O último é uma quebra de coesão em relação ao anterior, uma vez que mostra um Winston de cérebro lavado, enfim submisso ao sistema comandado pelo Partido, sem mais nenhuma emoção para com uma Júlia também lavada. Presume-se que ele deveria ser finalmente morto, mas até o fim da trama ele não o é.</p>
<p>E o mundo viveu triste e condenado para sempre. Um trágico final.</p>
<p>Para quem acaba o livro esperando reações heroicas e ação eletrizante em nome da libertação, o livro decepciona. Quem termina de lê-lo, fecha-o entristecido, por não ter encontrado nada que desse um pingo de esperança para a detenção da crudelíssima ação do Partido, e até assustado e temeroso pelo futuro da humanidade, uma vez que George Orwell dá à obra um aspecto assustadoramente verossímil. Pergunta-se: será que o mundo realmente corre o risco de um futuro tão trágico e terrível?</p>
<p>O consolo é enxergar o contexto histórico em que ele publicou o livro. O ano de publicação era 1949, uma quente época da Guerra Fria, em que Estados Unidos e União Soviética disputavam o domínio econômico do planeta e a hegemonia militar. Não havia muito motivo para otimismo político na época.</p>
<p>Hoje, com exceção da China e seu realíssimo Partido “Comunista” que vem ascendendo no panorama geopolítico mundial e adotando alguns dos fundamentos da ditadura do Grande Irmão, vemos que muito da estrutura que possibilitaria a realização da ameaça distópica foi desmontado com a queda da União Soviética e o enfraquecimento geopolítico dos Estados Unidos.</p>
<p>O livro não deixa mensagens encorajadoras ou esperançosas para quem o lê, não dá uma “moral da história” que inspire as pessoas – e por isso pode ser uma leitura muito frustrante para alguns/mas –, mas consegue despertar a curiosidade de muitos(as) para a política e para o estudo das formas de como ditaduras como a chinesa e as africanas se mantêm no poder. Inspira de forma indireta quem quer elaborar formas de levantar a conscientização política da população antes que se configurem perigos reais de golpe de Estado facilitados pela alienação sociopolítica popular.</p>
<p>A obra de Orwell é mais recomendável para quem já tem um gosto por livros de política, enquanto não o é para quem só gosta de obras com lutas travadas em prol da justiça e finais felizes. Elogio-a por levantar utilíssimos debates políticos, mas critico-o por semear pessimismo e desesperança quanto ao futuro da humanidade.</span></p>
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