Arauto da Consciência
8mar/100

Discutindo “o homem” no Dia Internacional da Mulher

Post comemorativo do Dia Internacional da Mulher de 2010. Postado originalmente às 7h

Neste dia que comemora a luta feminista, vale apontar algo que me deixa constrangido, embora eu seja um homem, nesse universo de desigualdades de gênero: a aceitação por parte de tantas pessoas, incluindo muitas mulheres(!), do milenar dogma de que o homem é o centro da humanidade, através do uso, sem questionamentos, da palavra “homem” como sinônimo de “ser humano”.

Afirmam que “homem”, embora defina seres humanos adultos do sexo masculino, tem originalmente o significado de “ser humano”, o qual perduraria até hoje. Não entendem, no entanto, que essa palavra, por ter sido masculinizada ao longo da história, tornou-se enviesada e ambígua demais, logo inadequada, para continuar representando uma entidade de gênero neutro (o ser humano genericamente falando).

É certo que as traduções que equivalem etimologicamente a “homem” originaram-se de fato significando “ser humano” (exemplos: “homo” no latim, “man” no inglês, “mann” no alemão), mas nem sempre significaram “humano adulto do sexo masculino”. Foi na Idade Média, consolidando um processo de centralização sociocultural da imagem da humanidade na figura masculina e consequente desuso dos termos que estritamente significavam “humano adulto do sexo masculino” (como “uir” no latim clássico e “wer” no inglês arcaico; essa palavra não existiu na língua portuguesa), provavelmente acelerado pelo cristianismo de raízes misóginas semitas e gregas, que “homem” passou a significar simultaneamente a humanidade e os seus machos, tornou-se uma palavra dúbia e excelentemente masculina.

A neutralidade original do “homem”, aliás, foi o manto que escondeu na Declaração de Independência dos Estados Unidos e na francesa Declaração Universal dos Direitos do Homem(sic) e do Cidadão que os direitos declarados só começariam a valer para os homens – as mulheres continuariam presas ao lar como servas domésticas, e privadas da maioria dos direitos humanos e políticos.

Bookmark e Compartilhe
6mar/100

Saiba isto sobre a Bíblia!

A partir de hoje, como parte do esforço de conscientizar, esclarecer e abrir os olhos, levando a luz da Razão e do livre-pensamento à escuridão da credulidade e submissão religiosa, vou de vez em quando trazer o conteúdo de alguns tópicos da comunidade Contradições da Bíblia no Orkut. Como faço com qualquer assunto que trago de outros sites, vou dizer as devidas referências.

Aposto que você não sabia isso sobre a Bìblia dita sagrada:

Saiba isto sobre a Bíblia
por Sky Kunde, da comunidade Contradições da Bìblia no Orkut

É comum em debates alguém dizer algo como "Mas no original da bíblia blábláblá... " Porém, não existem originais da bíblia, e sim cópias de cópias. Quando alguém diz "original" na verdade está se referindo aos manuscritos mais antigos disponíveis e não aos que foram escritos pelo punho do autor.

Diz na Sociedade Bíblica do Brasil:

"Todos os autógrafos, isto é, os livros originais, como foram escritos pelos seus autores, se perderam.

O mais antigo fragmento do Novo Testamento hoje conhecido é um pequeno pedaço de papiro escrito no início do Século II d.C. Nele estão contidas algumas palavras de João 18.31-33, além de outras referentes aos versículos 37 e 38.

O pergaminho de Isaías é o mais remoto trecho do Antigo Testamento em hebraico. Estima-se que foi escrito durante o Século II a.C."

Qual a relevância disso? Bom, o ponto em questão são as supostas profecias. Se não temos os originais anteriores aos eventos supostamente profetizados então não há como comprovar que realmente previram alguma coisa. Ou seja, as "profecias" podem ter sido inseridas após os fatos!

Exemplo: Jesus, em Mateus 24, diz que o templo seria destruído; o que realmente aconteceu. Mas não temos nenhum trecho de Mateus (ou de qualquer outro evangelho) anterior ao evento contendo tal "profecia".

O mesmo ocorre com outros livros onde são "preditas" várias desgraças contra Israel e os reinos próximos; como o Egito e a Babilônia. Um bom exemplo disso é o livro de Daniel, considerado uma obra do séc. VI a.C. Contudo, evidências internas demonstram tratar-se de uma fraude produzida séculos mais tarde; por volta do ano 165 a.C.!

Desse modo podemos considerar seriamente a ponderação do filósofo David Hume:

"Nenhum testemunho é suficiente para comprovar algo extraordinário a menos que o testemunho seja de um tipo tal que a sua falsidade (ou engano) fosse ainda mais extraordinária que o fato que tenta estabelecer." (citação adaptada)

Bookmark e Compartilhe
3mar/100

Frase da semana (28/02-06/03), e algumas surpreendentes passagens bíblicas

É uma frase minha mesmo.

"Se Deus é contra os midianitas, amalequitas, jebuzeus, amorreus etc., quem será por eles?" Eu no Twitter agora há pouco

É "fato" que o deus bíblico foi um senhor de guerra de dar inveja a muitos generais e autocratas genocidas e imperialistas da Idade do Ferro. Veja alguns exemplos bíblicos de como o mesmo Deus que @s cristã/o/s adoram hoje como senhor absoluto do amor e da bondade foi um dia (supondo que a mitologia bíblica fosse uma coletânea de fatos históricos comprovados) foi um lorde de derramamento de sangue, vingança, destruição e matança (o macabrismo divino rimou até):

Josué 10: 28-42

28 E naquele mesmo dia tomou Josué a Maquedá, e feriu-a a fio de espada, bem como ao seu rei; totalmente a destruiu com todos que nela havia, sem nada deixar; e fez ao rei de Maquedá como fizera ao rei de Jericó.
29 Então Josué e todo o Israel com ele, passou de Maquedá a Libna e pelejou contra ela.
30 E também o SENHOR a deu na mão de Israel, a ela e a seu rei, e a feriu a fio de espada, a ela e a todos que nela estavam; sem nada deixar; e fez ao seu rei como fizera ao rei de Jericó.
31 Então Josué, e todo o Israel com ele, passou de Libna a Laquis; e a sitiou, e pelejou contra ela;
32 E o SENHOR deu a Laquis nas mãos de Israel, e tomou-a no dia seguinte e a feriu a fio de espada, a ela e a todos os que nela estavam, conforme a tudo o que fizera a Libna.
33 Então Horão, rei de Gezer, subiu a ajudar a Laquis, porém Josué o feriu, a ele e ao seu povo, até não lhe deixar nem sequer um.
34 E Josué, e todo o Israel com ele, passou de Laquis a Eglom, e a sitiaram, e pelejaram contra ela.
35 E no mesmo dia a tomaram, e a feriram a fio de espada; e a todos os que nela estavam, destruiu totalmente no mesmo dia, conforme a tudo o que fizera a Laquis.
36 Depois Josué, e todo o Israel com ele, subiu de Eglom a Hebrom, e pelejaram contra ela.
37 E a tomaram, e a feriram ao fio de espada, assim ao seu rei como a todas as suas cidades; e a todos os que nelas estavam, a ninguém deixou com vida, conforme a tudo o que fizera a Eglom; e a destruiu totalmente, a ela e a todos os que nela estavam.
38 Então Josué, e todo o Israel com ele, tornou a Debir, e pelejou contra ela.
39 E tomou-a com o seu rei, e a todas as suas cidades e as feriu a fio de espada, e a todos os que nelas estavam destruiu totalmente; nada deixou; como fizera a Hebrom, assim fez a Debir e ao seu rei, e como fizera a Libna e ao seu rei.
40 Assim feriu Josué toda aquela terra, as montanhas, o sul, e as campinas, e as descidas das águas, e a todos os seus reis; nada deixou; mas tudo o que tinha fôlego destruiu, como ordenara o SENHOR Deus de Israel.
41 E Josué os feriu desde Cades-Barnéia, até Gaza, como também toda a terra de Gósen, e até Gibeom.
42 E de uma vez tomou Josué todos estes reis, e as suas terras; porquanto o SENHOR Deus de Israel pelejava por Israel.

Bookmark e Compartilhe
26fev/100

Conformado com a mira

Artigo escrito em setembro de 2008, depois do sequestro e assassinato de Eloá Pimentel

O Brasil praticamente parou por causa da tragédia do seqüestro em Santo André, do mesmo jeito que no caso do ônibus 174 oito anos atrás. Mas infelizmente sei que mais uma vez a comoção generalizada novamente vai se reduzir à resignação e ao conformismo, como sempre. É um comportamento indesejavelmente freqüente no país esse ato de sentir pena e indignação temporárias e depois esquecer tudo como se nada tivesse acontecido.

É algo que, pode ter toda a certeza, nos põe como inferiores à população de diversos outros países nos quesitos cidadania, preocupação social e também respeito ao próximo e além do mais é uma das grandes causas de a criminalidade ter se consolidado tão solidamente por aqui.

Não gostaria de fazer comparação entre nações, mas me vejo obrigado a fazê-lo, e digo que é de causar vergonha do povo a que pertenço quando vejo na internet protestos no Canadá, na Argentina, na Finlândia e em outros cantos do mundo eclodindo quando mesmo casos isolados de atentado à vida e à segurança dos cidadãos acontecem.

Nesses países, basta que um episódio de violência (como a última chacina em escola na Finlândia) estampe os jornais ou as estatísticas de segurança pública apenas ameacem crescer (como em Buenos Aires em 2002) que o povo vai às ruas assegurar que a polícia não perca seu poder coercivo e o governo não amoleça nas políticas de bem-estar social. Ao seu modo, ora com cartazes e gritos ora com panelaços, o povo mostra que não se conforma quando sua liberdade e bem-estar são ameaçados e faz valer seu poder como senhor supremo de seu país.

Bookmark e Compartilhe
26fev/100

A história não é só do homem

Mulheres que nos ensinaram que a história não é só "o homem". Em sentido horário: Margaret Mead, Teodora de Constantinopla, Rainha Nzinga de Ndongo e Matamba (conhecida como Ana de Sousa Nzinga) e Betty Williams.

Artigo escrito em março de 2009. Escrito em dedicação às mulheres, em especial à minha mãe e às Erickas, colegas da antiga turma de Gestão Ambiental.

Ouvimos e lemos muito sobre a formação do homem, a ação do homem, as mais variadas questões relativas ao homem. Cita-se muito “o homem” na literatura e nos discursos. Enquanto para a maioria das pessoas falar do homem é normal, algumas pessoas notam de forma evidente um viés machista nessas expressões. O homem, ser humano macho, é (im)posto como o Homo sapiens padrão e nossa sociedade acostumou-se em assim considerar.

Muito embora a mulher seja coautora da história humana ao lado do homem, e não apenas uma colaboradora coadjuvante, seu papel torna-se ou parece tornar-se inconscientemente minimizado quando se enfatiza a palavra “homem” nos livros e nas falas daqueles que nos ensinam, mesmo que não seja essa a intenção de quem escreve, discursa e ensina. É visível que essa assinalação de uma humanidade de essência masculina reflete o machismo das sociedades ocidentais, ou ao menos das lusófonas.

Muito embora as sociedades patriarcais tenham, ao longo dos milênios, inibido severamente a capacidade e potencial das mulheres de construir os valores e estruturas sociais de seus povos, preferindo um caminho de dominação machista, com normas e valores que as trata(va)m como pessoas inferiores, à alternativa da construção sociocultural igualitária, é mais misoginia do que uma reconstituição fiel da realidade histórica humana atribuir à mulher um papel menor, “fora do padrão”, na história do ser humano a ponto de apenas “o homem” merecer ser citado.

Bookmark e Compartilhe
25fev/100

Leonardo Boff fala do absurdo da usina de Belo Monte

Leonardo Boff é uma entre tantas vozes contrárias à absurda construção da usina de Belo Monte, que, se construída, irá inundar uma enorme área de floresta e desalojar comunidades ribeirinhas e indígenas. E pensar que ainda falam que a energia hidrelétrica é limpa...

Belo Monte: a volta triunfante da ditadura militar?
por Leonardo Boff, para o Correio da Cidadania

O governo Lula possui méritos inegáveis na questão social. Mas na questão ambiental é de uma inconsciência e de um atraso palmar. Ao analisar o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) temos a impressão de sermos devolvidos ao século XIX. É a mesma mentalidade que vê a natureza como mera reserva de recursos, base para alavancar projetos faraônicos, levados avante a ferro e fogo, dentro de um modelo de crescimento ultrapassado que favorece as grandes empresas à custa da depredação da natureza e da criação de muita pobreza.

Este modelo está sendo questionado no mundo inteiro por desestabilizar o planeta Terra como um todo e mesmo assim é assumido pelo PAC sem qualquer escrúpulo. A discussão com as populações afetadas e com a sociedade foi pífia. Impera a lógica autoritária; primeiro decide-se depois se convoca a audiência pública. Pois é exatamente isto que está ocorrendo com o projeto da construção da Usina Hidrelétrica de Belo Monte no rio Xingu, estado do Pará.

Tudo está sendo levado aos trambolhões, atropelando processos, ocultando o importante parecer 114/09 de dezembro de 2009, emitido pelo IBAMA (órgão que cuida das questões ambientais), contrário à construção da usina, e a opinião da maioria dos ambientalistas nacionais e internacionais que dizem ser este projeto um grave equívoco com conseqüências ambientais imprevisíveis.

O Ministério Público Federal que encaminhou processos de embargo, eventualmente levando a questão a foros internacionais, sofreu coação da Advocacia Geral da União (AGU), com o apoio público do presidente, de processar os procuradores e promotores destas ações por abuso de poder.

Bookmark e Compartilhe
24fev/100

Carta para quem está desistindo do Brasil e querendo ir embora

Artigo escrito em julho de 2009

Esta mensagem é para você que, algum dia num passado recente ou mais distante, já falou que queria se mudar “porque o Brasil não tem mais jeito” ou algo muito parecido. É para você que, ou cotidianamente ou numa hora de desespero, tem ou teve esse desejo sedutor de encontrar paz e justiça social em uma nação do chamado Primeiro Mundo por ter se cansado de viver num país que não lhe oferece condições de viver tranquilamente.

É para todos(as) que, por verem tanta insegurança, corrupção, caos urbano, miséria, educação pública ruim e tantos outros problemas nunca resolvidos, expressam verbalmente que não aguentam mais morar no Brasil e desejariam muito ir para um país melhor que os(as) acolhesse dignamente.

Você que diz desejar sumir deste país precário e desesperançoso tem razões para pensar assim que podem ser compreendidas. Mas tem certeza de que é o melhor a se fazer? A quem você estaria ajudando se algum dia realmente emigrasse de vez por esse motivo?

Pergunto também: o que deveria acontecer para você voltar atrás da “decisão” de se mudar? Ok, a resposta mais provável é “que o Brasil se tornasse um país minimamente decente em termos de lugar para se viver e justiça social”. Mas como você espera que isso aconteça, se as duas entidades que deveriam se encarregar de torná-lo melhor não trabalham como deveriam?

Bookmark e Compartilhe
24fev/100

Ética e ateísmo, por Bruno Müller

Sou fã dos artigos de Bruno Müller, dono do hoje abandonado blog Seres Livres e colunista da ANDA. Como já falei um tempo atrás, ele foi uma das pessoas que me inspiraram a escrever artigos e a criar o Consciência Efervescente.

Concordo em muita coisa com ele, a não ser sobre anarquismo, sobre o qual ainda não sei muito e nada li.

Com vocês, um ótimo artigo sobre ateísmo, religiões e ética.

Ética e ateísmo
por Bruno Müller

Certa vez conheci uma pessoa que me disse que, ao saber que eu era ateu, sentiu-se receosa, mas que, com o tempo, percebeu que apesar disso eu era uma boa pessoa – como se o ateísmo fosse um entrave para o desenvolvimento ético de um ser humano. No entanto, essa mesma pessoa era perversa, manipuladora, mentirosa, arrogante – para resumir, uma hipócrita.

Com o tempo, entendi que não havia uma contradição em sua personalidade. Não que pessoas religiosas sejam necessariamente hipócritas, mas aquelas mais fanáticas e que se consideram ungidas de uma missão divina, como era o caso dela, frequentemente o são, mesmo sem se dar conta. Isso porque é necessária uma boa dose de arrogância para acreditar conhecer os segredos do universo, ter “linha direta” com um deus e sentir-se apto a revelar – ou impor – esses segredos aos demais.

Ainda jovem, quando a curiosidade me levou a frequentar alguns cultos, entendi que o pecado que mais se observa nas igrejas e templos é o do orgulho, da vaidade. O que há na fé que faz as pessoas se sentirem melhores que as outras que não têm fé ou não têm a supracitada “linha direta”? Não tenho resposta pronta para essa pergunta, mas esta leva a uma outra questão, mais fácil de abordar: o sentimento de superioridade lhes leva a supor que não há bondade fora da religião, que quem não tem religião não possui estatura moral ou capacidade de praticar o bem e o respeito ao próximo.

Bookmark e Compartilhe
15fev/100

Para que servem mesmo os hinos nacionais?

Artigo escrito em fevereito de 2009

Obs.: Este artigo é dirigido não apenas para os brasileiros, mas para todos os países e povos do planeta. Traduzi-lo para outras línguas será de muito bom grado. Também não busca inferiorizar o Brasil ou qualquer outra nação em relação às demais, muito pelo contrário.

“Ouviram do Ipiranga as margens plácidas...” Quando ouço essa música, em vez de sentir “orgulho” do país, pensar na suposta superioridade ambiental do mesmo, imaginar o Brasil como potência geopolítica num futuro hipotético, começo a pensar: para que servem mesmo os hinos nacionais? Qual a contribuição deles para um mundo melhor e mais unido? A utilidade do hino, em meu pensamento, se faz fortemente questionada.

Mediante essas questões, me vem à mente a ideia de que os hinos são resquícios de uma época em que o nacionalismo, o sentimento de que seu país é superior a todos os demais, era tratado como uma virtude e um valor inquestionável – ou melhor, questionável apenas por anarquistas. Entretanto, quando se muda o ângulo da visão do mundo, da arrogância patriocêntrica à filosofia de união internacional, percebemos que os hinos nacionais são dispensáveis num mundo unido e igualitário que irreleve diferenças territoriais, étnicas e religiosas.

A opinião favorável ao hino patriótico afirma que ele é bom porque exalta os esforços, tradições e virtudes do povo, valoriza a riqueza ambiental do país e releva a identidade nacional. É muito bonita a intenção, mas e os outros povos, as outras nações? O que realmente faz tal pátria ter um povo mais esforçado e virtuoso e melhores tradições do que todas as outras? Por que temos que necessariamente crer que somos “melhores” em vez de tratar todos os povos e nações do planeta como igualmente dignos e lutadores?

Bookmark e Compartilhe
12fev/100

Recife, cidade inimiga do verde

Recife visto do satélite pelo Google Earth. As áreas de vegetação são muito reduzidas, em contraste com a vastidão das cores cinzentas e avermelhadas dos tetos das casas e edifícios. Essa é uma das partes mais notáveis de nossa "inimizade" com o verde.

O verde – áreas de proteção ambiental, arborização e presença de grama – em Recife é algo muito ralo. Entre as cidades mais populosas do Brasil, somos evidentemente uma que tem as menores taxas de cobertura vegetal. Esse problema, contudo, não vem sendo consistentemente considerado pelas sucessivas gestões da prefeitura local. Esta denúncia escancara como somos uma cidade que histórica e estruturalmente recusa e esnoba as bênçãos do meio ambiente e ainda ousa continuar maltratando-o.

Tomemos como um exemplo inicial o bairro do Ipsep. Percebamos que essa é uma localidade ainda bastante arborizada em comparação a outras do município, mas não deixa de escancarar seriamente o referido problema.

Ali ainda temos praças pequenas, médias e grandes com bastantes árvores. Mas a grama nelas está em extinção e predomina ora o chão de terra batida ora o coberto de placas de concreto. Todas estão em estado de conservação de razoável a mau. O chão da Praça do Sargento, a maior do bairro, é dominada por concreto, piche, areia, solo batido e lama, estando a cobertura gramínea esparsa e deteriorada. Já nas ruas entre as casas, a arborização é muito rara, predominando o clima de calor e desconforto.

Na área que abrange esse bairro e o pedaço da Imbiribeira situado entre a avenida Mascarenhas de Morais e o Canal da Mauriceia, há uma única área de proteção ambiental, um manguezal, que se encontra muito reduzido, tendo sido mutilado ao longo das últimas décadas por desmatamentos que abriram espaço à construção de estabelecimentos como casas, pátio de veículos e o extinto shopping Boa Viagem Outlet.

Se essa localidade ainda é uma das mais verdes do Recife, imaginemos como estão deteriorados os domínios da clorofila em toda a cidade.

Bookmark e Compartilhe
8fev/100

Androcentrismo

Artigo escrito em junho de 2009

É impossível que alguém nunca tenha se deparado em sua vida com livros e discursos orais em que se cita o homem como sendo o ser humano como um todo. Com poucas exceções, o homem é sempre exibido como o representante “por excelência” da sua espécie – “evolução do homem”, “ciências do homem”, “Deus e os homens”, “os animais e o homem”, “direitos do homem”, “os homens são pecadores”, “melhores amigos do homem”... O macho torna-se sua espécie inteira.

Para muitos, falar do ser humano pela palavra “homem(ns)” é algo inocente que nada de ruim representa. Mas uma visão que prime pela igualdade de gêneros perceberá que é de fato uma atitude perniciosa. Trata-se de androcentrismo: a humanidade centrada na figura do homem, do humano macho. Nessa visão, ele tem a prerrogativa de representar o ser humano quando este engloba todos os gêneros. O ser humano pode ser chamado de “o homem”. Os seres humanos podem ser chamados de “os homens”, mesmo sabendo-se que há mulheres no conjunto. Ele representa ele mesmo e também ele e ela simultaneamente. Eles são ele e ela, ou eles e elas, ou eles e ela, ou – ainda pior – ele e elas. É como um gene dominante.

Já a mulher, não. Ela é sempre apenas uma fração secundária de sua espécie. Nunca se chama o ser humano de “a mulher”. Ela só pode representar ela mesma, nunca ele e ela juntos. Elas só podem ser elas, nunca ele(s) mais ela(s). A mulher é sempre o segundo sexo, enquanto o homem é o primeiro. É como um gene recessivo.

O androcentrismo é parte da dominação patriarcalista, do homem sobre a mulher, que perdura entre nós desde a Idade do Cobre (entre o Neolítico e a Idade do Bronze), foi legitimada explicitamente pelas duas religiões mais seguidas do mundo – o cristianismo e o islamismo – e tornou-se titanicamente majoritário no mundo depois do avanço islâmico e da dominação colonialista europeia. O comportamento androcêntrico de quem fala do “homem” como se fosse o ser humano em sua totalidade é uma naturalização do patriarcalismo.

Entre os “centrismos” da discriminação e da segregação, soma-se ao antropocentrismo, ao etnocentrismo e ao brancocentrismo racista (hegemonia dos brancos sobre outras raças). Para todos esses, há uma categoria “melhor” que todas as outras. No androcentrismo, o homem é tão superior que é confundido – ou convertido – com a soma de todos os gêneros.

Bookmark e Compartilhe
22jan/100

E o Chade?

Os noticiários estão falando adoidado sobre o Haiti, falaram até um tempo atrás sobre a guerra civil de Darfur, incidem no assunto do Afeganistão e do Iraque e hipotetizam mais calamidades bélicas com o agravamento do aquecimento global. Mas um país, tão entalado no poço fundo quanto essas outras nações, está sendo tristemente ignorado: o Chade.

Nos últimos 45 anos, passaram por nada menos que quatro guerras civis e no momento uma ainda está em andamento desde 2005, ligada a Darfur.

Se você entende inglês, dê uma olhada na Wikipedia de língua inglesa:
http://en.wikipedia.org/wiki/Chadian_Civil_War
http://en.wikipedia.org/wiki/Civil_war_in_Chad_(2005%E2%80%93present)

Até hoje não vi nenhum apelo internacional de ONGs de direitos humanos e pacifismo clamando o compadecimento do mundo perante o Chade. Mesmo se apelos existirem hoje, nenhum chegou ao meu alcance.

Bookmark e Compartilhe
20jan/100

Perguntas indiscretas (Parte 11, sobre o Haiti)

Minhas perguntas que não querem calar do momento são:

- O Haiti pode entrar na ONU com pedido de indenização contra os países que o boicotaram no século 19?
- Pode cobrar da França a devolução, corrigida para valores atuais, da criminosa "indenização" que lhe foi cobrada no mesmo século (e que se destinava a ressarcir senhores de escravos e latifundiários)?

Se a resposta for sim, fazer isso tornaria o Haiti um pouco mais digno perante o mundo e a sua história.

Bookmark e Compartilhe
10jan/100

Resenha: 1984

Aviso: esta resenha contém spoilers sobre o referido livro. Se você já o leu e quer ler a resenha ou ainda não leu o livro mas quer ter uma ideia prévia de como a trama se desenrola, clique em "Continue lendo..." caso este post não esteja sendo exibido numa página individual.

"1984" é um livro diferente da grande maioria das ficções: não tem um herói – embora tenha um protagonista – nem um final feliz. Nem um desfecho compreensível o livro chega a ter – sendo necessário, para muitos, a leitura de um spoiler depois de ter acabado todas as páginas para se saber o que realmente aconteceu com Winston, o protagonista que não consegue ser um herói, no final da história. Portanto, se você só gosta de livros com heróis ou heroínas lutando obstinadamente em favor de um final feliz que de fato aguarda os(as) leitores(as) nas últimas páginas, “1984” não é um livro recomendável.

A obra maior de George Orwell é uma distopia cruelmente pessimista sobre como seria a Inglaterra e o mundo num ano de 1984 dominado por regimes totalitários pancontinentais. A Inglaterra não é mais Inglaterra, e sim a Oceania, um megapaís que abrangeria grande parte das terras emersas do planeta. Está em uma guerra perpétua em que ela e as meganações Eurásia e Lestásia revezam através do conflito o controle parcial da calota polar ártica e de parte da África e da Ásia.

A história de Winston antes de sua prisão pela Polícia do Pensamento – corpo policial que prende todo(a) aquele(a) que ousa pensar diferente do que o Partido manda que se pense – é inspiradora, uma vez que ele é identificável com quem adota uma visão de mundo mais esclarecida que destoe da alienação sociopolítica da sociedade. É a parcela menos pessimista do livro.

Ao contrário do que demonstra a população que trabalha com o Partido, ele mantém pensamentos destoantes do que o governo totalitário prega. Consegue manter-se seguro (apenas aparentemente, visto o que O’Brien, o personagem que se exibe como o maior antagonista, revela nos capítulos da tortura), mantendo discrição em casa e no trabalho – o Ministério da Verdade.

Esse ministério, aliás, é um dos órgãos de um sistema estatal cuja dominação deve ser descrita: é um domínio ultratotalitário em que a população da “Oceania” – especialmente os seis milhões de membros do chamado Partido Externo – é vigiada por aparatos como a Polícia do Pensamento e teletelas, um misto de televisor com câmera que vigia o comportamento das pessoas dentro de suas casas e em locais públicos e transmite propaganda governamental.

O Partido vangloria-se divulgando mentiras em suas propagandas e boletins e mantém o poder pelo controle psicológico dos(as) seus/suas filiados(as) através de estratégias de manipulação de pensamento como o duplipensar – capacidade de acreditar simultaneamente que, por exemplo, o céu é azul e é verde – e o crimedeter – rejeição psicológica imediata a qualquer pensamento subversivo que tente aflorar do cérebro.

A política existente impede até a manifestação dos instintos, emoções e virtudes humanas, como o amor – que deveria ser dedicado exclusivamente ao Grande Irmão, o líder governamental que talvez nem exista –, a libido e a amizade. Tornava as pessoas marionetes indefesas.

Voltando a Winston, ele corajosamente alimenta pensamentos de dúvida sobre o que o Partido faz com um terço da humanidade da ficção. Certo dia, Júlia, uma mulher que ele frequentemente via nos corredores do Ministério da Verdade, consegue que ele fale com ela e arquiteta com ele encontros em lugares diversos, onde os dois formam um casal e descobrem o censurado prazer de amar um ao outro.

Encontram no andar superior de uma antiga igreja, habitada pelo Sr. Charrington, um refúgio livre da vigilância da Polícia do Pensamento. Pelo menos era o que acreditavam.

O’Brien, que finge em suas feições ser outro “camarada” secretamente descontente com o governo totalitário e pertencer à Fraternidade, um grupo rebelde cuja existência é uma crença não comentada entre os membros do Partido Externo, marca de forma codificada um encontro com eles em seu apartamento, onde tem noção da inimizade do casal dirigida à entidade política. Distribui a eles, por intermédio de um estranho, “O Livro”, presumivelmente escrito por Emmanuel Goldstein, o líder da rebelde Fraternidade.

“O Livro” é a parte mais interessante de “1984”. É um momento em que George Orwell ensaia uma ficção sociológica e explica o passado verídico da humanidade e o presente distópico surgido nas revoluções que deram origem às três meganações do planeta. Conta o funcionamento da guerra perpétua que sustenta a economia delas e a estagnação de toda a arte, ciência e outras habilidades intelectuais, entre outros detalhes fundamentais para a compreensão de grande parte da obra.

No dia em que Winston lê para Júlia o livro, a surpresa fatal: a antiga igreja tinha uma teletela e Sr. Charrington era um agente disfarçado da Polícia do Pensamento. A voz metálica da tela anuncia a prisão e guardas de uniforme negro prendem os dois. O casal é violentamente separado e encaminhado para a cadeia do Ministério do Amor. Seu crime era a “crimideia”, o delito de pensar diferente do que o Partido dizia.

Winston vê o terror da prisão onde eram confinados presos políticos e criminosos. Em seguida, O’Brien, revelando-se um capacho leal do Partido e torturador profissional, chega na cela e o encaminha a uma sala onde é espancado brutalmente por cruéis soldados. O protagonista em seguida é submetido a outras torturas dolorosas em outra sala. É forçado a fazer confissões reais e imaginárias.

Nos antepenúltimo capítulo, Winston trava um diálogo com O’Brien, no qual é gritante o contraste entre a fraqueza do protagonista e o poder do antagonista, que podia torturá-lo novamente a qualquer momento. É revelada a verdadeira natureza da dominação totalitária estabelecida: baseia-se no ódio em vez do zelo à população, busca a manutenção do poder acima de qualquer outro objetivo, não intenciona a melhoria da sociedade, almeja esmagar qualquer traço de emoção que não seja devotado ao Partido e ao Grande Irmão. Enfim, realmente quer que a população da Oceania seja um conjunto de marionetes sob rígido controle.

Nos penúltimo capítulo, Winston passa a conhecer o que é a tão terrível Sala 101: um lugar onde as pessoas dão de cara com seus piores pesadelos. Ele se obriga a pedir que “façam isso com Júlia”, para só assim ser livrado da gaiola de ratos que poderiam devorar sua cabeça. O último é uma quebra de coesão em relação ao anterior, uma vez que mostra um Winston de cérebro lavado, enfim submisso ao sistema comandado pelo Partido, sem mais nenhuma emoção para com uma Júlia também lavada. Presume-se que ele deveria ser finalmente morto, mas até o fim da trama ele não o é.

E o mundo viveu triste e condenado para sempre. Um trágico final.

Para quem acaba o livro esperando reações heroicas e ação eletrizante em nome da libertação, o livro decepciona. Quem termina de lê-lo, fecha-o entristecido, por não ter encontrado nada que desse um pingo de esperança para a detenção da crudelíssima ação do Partido, e até assustado e temeroso pelo futuro da humanidade, uma vez que George Orwell dá à obra um aspecto assustadoramente verossímil. Pergunta-se: será que o mundo realmente corre o risco de um futuro tão trágico e terrível?

O consolo é enxergar o contexto histórico em que ele publicou o livro. O ano de publicação era 1949, uma quente época da Guerra Fria, em que Estados Unidos e União Soviética disputavam o domínio econômico do planeta e a hegemonia militar. Não havia muito motivo para otimismo político na época.

Hoje, com exceção da China e seu realíssimo Partido “Comunista” que vem ascendendo no panorama geopolítico mundial e adotando alguns dos fundamentos da ditadura do Grande Irmão, vemos que muito da estrutura que possibilitaria a realização da ameaça distópica foi desmontado com a queda da União Soviética e o enfraquecimento geopolítico dos Estados Unidos.

O livro não deixa mensagens encorajadoras ou esperançosas para quem o lê, não dá uma “moral da história” que inspire as pessoas – e por isso pode ser uma leitura muito frustrante para alguns/mas –, mas consegue despertar a curiosidade de muitos(as) para a política e para o estudo das formas de como ditaduras como a chinesa e as africanas se mantêm no poder. Inspira de forma indireta quem quer elaborar formas de levantar a conscientização política da população antes que se configurem perigos reais de golpe de Estado facilitados pela alienação sociopolítica popular.

A obra de Orwell é mais recomendável para quem já tem um gosto por livros de política, enquanto não o é para quem só gosta de obras com lutas travadas em prol da justiça e finais felizes. Elogio-a por levantar utilíssimos debates políticos, mas critico-o por semear pessimismo e desesperança quanto ao futuro da humanidade.

Bookmark e Compartilhe
10jan/101

Resenha: Hagakure

Hagakure é um ótimo livro em que se pesquisar, mas bastante ruim para se ler e se aprender algo. Tem uma boa temática que aborda tudo ou quase tudo sobre o pensamento e a vida de um samurai, mas, pelo menos na edição da Conrad Livros, deixa de ser interessante e atraente até para quem quer aprender como viver como um samurai por causa da tosca distribuição dos ensinamentos pelas páginas.

A secular obra de Yamamoto Tsunetomo (ou, na disposição ocidental de nome e sobrenome, Tsunetomo Yamamoto) expõe centenas de curiosidades sobre como viver e pensar como samurai, como bons modos, o costume de beber chá e a homossexualidade entre tantas outras questões.

Três pontos que merecem destaque maior por terem uma abordagem em mais passagens são a devoção incondicional do guerreiro, com quê de submissão, ao seu mestre; a disposição que o indivíduo deveria ter para morrer “a qualquer momento” – viver sempre preparado para a morte – e a atitude de racionar palavras – em grande parte das situações cotidianas, procurar falar pouco e às vezes ser lacônico ou ficar calado.

Aparecem também instantes filosóficos em que Tsunetomo fala sobre, por exemplo, o nada e as formas dos seres – vivos e inanimados.

Grande parte dos ditados desse samurai que se tornou monge são dele mesmo, enquanto tantos outros ele mesmo diz que “dizia o senhor fulano”, vindos de homens como o Mestre Ittei, o Sacerdote Tannen e personalidades da história japonesa.

Um ponto negativo dos ensinamentos de Tsunetomo – ou da cultura japonesa, se considerarmos que ele estava apenas descrevendo costumes do Japão de sua época – é a forte misoginia expressa em passagens que pregam, por exemplo, a submissão da mulher ao seu marido e as proibições específicas de gênero impostas a ela. O machismo descrito em Hagakure mostra que a filosofia do Bushido era algo reservado apenas para homens.

Também chamam a atenção curtas passagens que são narrações de situações acontecidas com certos samurais, como a perseguição de um assassino, uma reunião de deliberações sobre criminosos e a discussão sobre a promoção de um samurai.

Tsunetomo preocupou-se, pelo que se pode deduzir, não em escrever uma autoajuda, mas em dar recomendações sobre o Bushido a quem lesse seu livro. Na introdução, diz-se que ele queria queimá-lo, mas não se sabe se essa atitude era uma mentira dita em atitude de protesto ou uma intenção.

Hagakure pode servir como uma ótima fonte para estudos etnológicos sobre o Japão feudal e, como repositório de preceitos da cultura desse lugar e época, não deve ser inteiramente levado ao pé da letra como ensinamento contemporaneamente adequado. Várias passagens são úteis hoje, mas outras devem ser observadas como amostras dos costumes e valores daquela sociedade.

Não sei sobre edições publicadas por outras editoras, mas a da Conrad Livros dispôs uma estrutura que nos convida a abandonar a leitura após passar do primeiro capítulo. Os tópicos são dispostos aleatoriamente pelos onze capítulos. Ensinamentos assim dispersos e tão curtos são muito difíceis de ser assimilados, uma vez que abordam apenas superficialmente as questões presentes e bruscamente somos remetidos a um assunto totalmente diferente depois de terminar uma passagem. Assim sendo, o livro não se faz de grande ajuda para o leitor – dificilmente a leitora – que deseja alinhar certos pontos de sua vida à antiga disciplina do samurai, e quem tem um outro livro na fila pode parar a leitura da obra na metade sem relevante prejuízo na aquisição de conhecimento.

Hagakure é útil como fonte de estudo sobre como o samurai vivia e pensava, mas sua leitura seria muito mais recomendável se houvesse uma organização nos tópicos abordados. Mesmo que subvertesse a disposição original do que Tsunetomo escreveu, uma nova edição que priorizasse a divisão das passagens por tema seria bem mais adequada e fácil de ser lida.

Bookmark e Compartilhe
10jan/100

Resenha: Febeapá – O Festival de Besteira que Assola o País

Para quem gosta de crônicas, humor politizado e história brasileira contemporânea, o livro de Stanislaw Ponte Preta (pseudônimo de Sérgio Porto) é um prato cheio e delicioso. Esse livro, escrito em plena ditadura militar – mas antes do AI-5 –, soube bem como tirar sarro dos atos mais estúpidos e arbitrários do regime autoritário em seus primeiros anos e também mostrar que a vida do povão na época, mesmo politicamente reprimida e controlada pelos militares, era em tantas ocasiões agitada e engraçada.

O livro inicia-se com 25 páginas contendo um sem-número de anedotas envolvendo trapalhadas crassas da polícia, da DOPS, das Forças Armadas e de políticos, expostas como verídicas. São fatos ocorridos entre 1964 e 1966, em que se destaca a polícia querendo prender Sófocles, morto em 406 A.E.C. e autor da peça teatral “Electra”. É um humor político bastante refinado, que não chegou a defender a restauração do governo civil mas estabeleceu críticas à atuação dos militares num nível que não despertasse a repressão à sua pessoa e obra.

Em seguida, é a vez das crônicas dirigidas à crítica humorística das autoridades políticas e policiais. Com extensão de duas páginas cada, elas novamente nos levam a rir muito daquele poder público autoritário, tão raivoso mas tão patético. Novamente Stanislaw leva o lado risível do poder público da época às últimas consequências: a risada intensa de quem lê. Mesmo hoje, mais de 40 anos depois da publicação do Febeapá, continuamos rindo muito, e vemos como o caráter paquidérmico dos nossos governos federais e estaduais vêm desde muito tempo atrás.

Nessa primeira parte, que abrange as anedotas e as crônicas das autoridades, os comportamentos mais atacados foram a mania da população de chamar uns aos outros de “subversivos” e “comunistas” quando algo que não gostavam acontecesse; obsessão repressiva da DOPS e da polícia militar, que queriam prender autores teatrais que já haviam morrido muitos anos antes, apreendiam até liquidificadores e fechavam até creches sob acusação de subversão; e o moralismo extremo que tentava impedir a popularização das liberdades femininas em usar minissaias, vestidos decotados, exibir as pernas e outros hábitos novos.

Na segunda parte, entra em cena a vida cotidiana do povão brasileiro, de todas as regiões do país. Os 40 contos abordam fatos também anunciados como reais e a maioria deles, pelo que podemos notar, dá alguma cutucada na autoridade política da época com rápidas referências a pessoas ou entidades de poder. É uma comédia da vida privada o que Stanislaw mostra.

O humor é constante até o antepenúltimo conto. Os dois últimos são sérios: um fala de reservar o “coração suplementar”, invento médico-tecnológico da época, para os problemas cotidianos enquanto nosso coração principal fosse reservado aos sentimentos e o último narra uma tragédia em que um mendigo afronta a polícia repressora e moralista e acaba morto. É um protesto contra o moralismo exacerbado que podia até matar e a coerção estatal que desrespeitava completamente os direitos individuais e liberdades das pessoas.

O Febeapá é uma das obras literárias que melhor escancaram o “país da piada pronta” que o Brasil é pelo menos desde a distante década de 60. Para quem quer um humor histórico, sociológico e político, o livro é excelente, e ainda torna-se mais valoroso pela coragem que Stanislaw manifestou em escrevê-lo cheio de críticas ao risível poder ditatorial opressor que dominava o Brasil em sua época. É uma pena que ele faleceria não muito tempo depois, deixando saudades enormes no humor brasileiro.

Bookmark e Compartilhe
10jan/102

Resenha do documentário The Corporation

The Corporation (2003) cumpriu bem seu papel de alertar os olhos dos telespectadores quanto ao papel vilânico exercido por grande parte das maiores empresas multinacionais do mundo. Desmascarou os monstros – ou melhor, as entidades psicopatas, como o documentário “diagnostica” – escondidos atrás dos(as) simpáticos(as) garotos(as)-propaganda. Entretanto, tropeçou ao limitar a abordagem de certos assuntos críticos, ao deixar de abordar mais profundamente esperanças e soluções e ao direcionar os sentimentos da audiência com uma habilidade limitada e falha.

Para quem não assistiu ainda ou quer se lembrar “do que é que falava mesmo”, o filme se divide em vários blocos que contam tópicos como:
- a história do poder abusivo das corporações, quando aproveitou a 14ª emenda da Constituição norteamericana para adquirir direitos de pessoa física;
- a imoralidade ou amoralidade do exercício do poder empresarial, a falta de ética;
- os baixíssimos salários oferecidos a empregados em países pobres;
- as indenizações que foram obrigadas a pagar e o fato de as mesmas serem tratadas como custos adicionais que podem ser arcados;
- o uso de substâncias tóxicas na pecuária;
- os danos ambientais de muitos empreendimentos;
- as tentativas – muitas bem-sucedidas – de apoderamento do “direito” de obter patente em cima de espécies de seres vivos transgênicos;
- o mau-caratismo das estratégias de incremento da preferência consumista infantil;
- a hipocrisia da (suposta) responsabilidade social;
- o poder sedutor da propaganda;
- a venda de valores sociais e de desejos;
- o poder de manipulação política, incluindo a superação do poder aos próprios políticos;
- as intimidações aos meios de comunicação e a quem quer denunciar os abusos corporativos;
- a aliança empresarial com governos totalitários;
- a tentativa de golpe de Estado contra Franklin Roosevelt;
- as tentativas de privatizar recursos naturais e o direito ao usufruto dos mesmos em outros países.

The Corporation mexe muito, muito mesmo, com os sentimentos de quem assiste, desde os iniciantes no pensamento consciente, que querem deixar a alienação que marcava suas vidas até pouco tempo atrás, até os mais ativistas. As reações são variadas: embora em alguns poucos momentos lance mão de cenas que fazem rir por uns segundos, o caráter alarmista provoca desde a desilusão com muitas marcas muito consumidas até o mórbido desejo de que os CEOs e diretores das gigaempresas fossem todos mortos.

Como denunciante do inferno que existe atrás da fachada “celestial” da publicidade, como flagrante das inúmeras atrocidades cometidas em nome do lucro alto, o filme cumpre bem a função. Abre os olhos de muitas pessoas que até certo momento nutriam sonhos capitalistas, sonhos de consumo, sonhos de um futuro como gigaempresário(a). Revela que produtos de muitas marcas têm crime, morte e destruição entre seus ingredientes.

Cumpre seu objetivo, mas a strictu sensu. Exerce mal a segunda parte do processo de conscientização anticorporativa: mostrar soluções e como cada pessoa pode proceder, individual ou coletivamente, para derrubar os superpoderes malignos das corporações.

Restringe-se a mostrar de forma vaga que “um mundo melhor, sem o mal corporativo, é possível”, num discurso que lembra mais os sonhos de um adolescente de 17 anos que tenta uma vaga numa faculdade de jornalismo do que o levantamento de possibilidades claras e estratégias consistentes de como, por exemplo, consumir eticamente e contribuir para que o megaempresariado passe a pensar duas vezes antes de agir como demônios.

Embora tivesse feito (breves) referências a questões como defesa da democracia, manifestações, boicotes, união popular e prestação de contas, várias perguntas ficaram em aberto para quem, após o filme, passou a interessar-se mais pela luta por um mundo livre de corporações “demoníacas”: Como organizar campanhas de boicote? Como acordar uma parte significativa da população urbana regional ou nacional de modo que haja possibilidade de haver ativismo anticorporativo em massa? Como impedir uma decisão política que, por exemplo, determine uma privatização absurda? Como impedir que uma empresa nacional em ascensão, prestes a alcançar a multinacionalidade, saia da linha e se torne mais uma “corporação do mal”? Como se opor a abusos éticos como o patenteamento sobre seres vivos ou códigos genéticos? Como contribuir individualmente para ajudar a derrubar a crueldade capitalista?

Exemplos como a oposição dos agricultores indianos à patente imposta ao arroz basmati ainda foram dados, mas no geral faltou uma maior ênfase em casos bem-sucedidos das mais variadas formas de oposição aos abusos capitalistas – faltando inclusive exemplificar campanhas de boicote que alcançaram sucesso.

E, acima de tudo, faltou a proposição de um debate global sobre como suplantar a estrutura capitalista-corporativa atual e lançar um sistema econômico sustentável, ético, respeitável e socialmente conveniente. Nos mais marxistas, essa falta de alternativa sistemática acirra o desejo de promover um estouro revolucionário socialista, proposta que a História já comprovou ser um fracasso.

Essa limitação no apontamento de soluções terminou causando um atropelo nos sentimentos das pessoas que guardavam esperanças de que o filme apontasse soluções de forma pragmática e desse o pontapé para que se começassem articulações de militância.

Considerando que em certo momento, antes dessa fraca exposição de saídas, foi dada a impressão de que as corporações venceram definitivamente, que não há mais soluções para salvar o planeta, que tentativas de ativismo serão vãs e que o mundo está perto de entrar em colapso irreversível, houve uma condução um tanto atrapalhada das emoções dos telespectadores. O mais provável foi que esse fortíssimo toque passional não havia sido previsto pelos produtores do documentário.

Essa falha na canalização emocional, ao ver de alguns, tem potencial de despertar em algumas pessoas de pensamento ideológico mais passional uma explosão psicológica de revolta, desespero por encaração de um problema sem soluções definitivas à vista e até ímpetos coléricos de revolucionismo para quem ainda vê o ideal comunista como única “alternativa” à crueldade capitalista.

Outra falha importante foi a exclusão de alguns assuntos fundamentais, no mínimo dois: os Direitos Animais e o poder da educação. A questão animal ficou limitada à exposição do problema dos hormônios e drogas aplicados em vacas e na intoxicação do leite, aliás, uma abordagem muito bem-estarista, restrita à denúncia dos danos bioquímicos ao organismo daqueles animais. A vivissecção ficou como promessa descumprida.

Não houve debates sobre as muitas outras crueldades praticadas pela pecuária ou pela prática de testes de produtos em bichos, nem uma abordagem ética da coisificação e comercialização de animais não-humanos. O veganismo, visto e compreendido por um número crescente de cidadã(o)s como uma das atitudes mais praticáveis e eficientes de oposição a abusos corporativos no que tange à ética animal e ao meio ambiente, sequer foi mencionado no filme.

A educação também quase não entrou na história. Aliás, foi ainda menos perceptível do que os animais. Ficamos sem saber se as “corporações do mal” também estão interferindo na educação escolar ao redor do mundo e se/como as escolas estão lidando com a perversão consumista induzida nas crianças. Uma das grandes esperanças de salvação para as sociedades mundiais, a formação estudantil de pessoas conscientes e resistentes à tentação publicitária, terminou esquecida.

Passando da época do The Corporation, primeira metade da década de 2000, a hoje, final da década, nos vemos no desejo necessitado de assistir a um “The Corporation 2”. O mesmo poderia abranger questões como o agronegócio e suas implicações catastróficas no meio ambiente, a situação da China e do Sudeste Asiático, onde uma versão ainda mais monstruosa do capitalismo encontrou moradia, e enfim a ética animal, além de observar o impacto da crise econômica global de 2008-2009, que aconteceu como uma explosão no sistema capitalista-corporativo mundial, analisar se houve algo de bom nesse quase-quebra-quebra.

E também, a sugerida continuação poderia abordar muitíssimo melhor as soluções possíveis para derrubar o poder megalomaníaco e cruel das corporações. Que venha falando de boicotes que deram certo, do movimento vegano, de manifestações que proporcionaram a expulsão de uma ou mais megaempresas de determinado(s) país(es), etc. Que analise se a ascensão de governos como o de Evo Morales – eleito na mesma Bolívia onde outrora tentaram privatizar a água – é algo positivo para a humanidade, para as esperanças de reação contra os poderes abusivos das multinacionais.

Se eu desse uma nota ao documentário, daria 6 – passaria de ano ainda, ainda que “na agulha” –, vistas as limitações e ausências descritas mais acima e a consequente incompletude do trabalho de conscientização. Não adianta gritar: “Ei! As corporações são monstruosas e o capitalismo é cruel! Abram os olhos!” e não dar soluções claras ou ao menos uma convocação geral a um debate global. O filme cumpriu o objetivo principal, mas de forma muito limitada. Que venha um “The Corporation 2” para terminar o serviço, que, convenhamos, foi muito nobre e bem-intencionado apesar das faltas.

Bookmark e Compartilhe