Arauto da Consciência

Frase da semana (25-31/07)

Postado em 25/07/2010 à/s 23:09

"pq *** nao bate com a carro.. cai de moto..e quebra uma perna..
rompe algum ligamento.. o cruzado anterior ou o posterior.. ou os dois logo.
PQPPPPPPPPPPPPPPPPPPP e muito ruim!!!"
Torcedor de um time de futebol (time cujo nome não vou revelar), descarregando sua raiva no Orkut, furioso com um jogador (também cujo nome não revelo) atualmente muito execrado entre a torcida de seu time por estar jogando muito mal

É impressionante como um mero jogo de bola, como o futebol, consegue despertar tanta raiva, a tal ponto que um indivíduo torcedor passa a desejar todo o mal do mundo para um esportista em má fase.

De sua realidade original, como um divertido esporte onde atletas jogavam em clima de confraternização, com a torcida bem-vestida levando seus filhos e filhas, em jogos nos quais mesmo a maior goleada terminava em paz entre as torcidas e o sentimento nas mesmas de que "Que bom que meu time ganhou (ou que pena que o meu time perdeu), mas tudo bem, é só um jogo"...

...a uma transtornada realidade onde cada jogo desperta emoções enlouquecidas para o bem ou para o mal, onde o jogador que joga mal invoca na torcida as mais violentas imagens mentais, onde perder diversas vezes seguidas é considerado um crime hediondo e ser rebaixado de divisão (no campeonato estadual ou nacional) é uma tragédia quase comparável à morte.

Fala-se hoje de "jogo de vida ou morte", "jogadores guerreiros", "Batalha dos Aflitos" (a partida em que o Náutico perdeu para o Grêmio em 2005 e por isso permaneceu mais um ano na Série B), "guerra"... Tudo isso para um jogo de bola besta, mas com simbologias culturais extremamente infla(ma)das. E ainda tem gente que leva os jargões bélicos usados no futebol ao pé da letra, o que origina a violência entre torcidas, seja dentro, seja fora dos estádios.

O futebol deixou de ser um esporte de entretenimento e passou a ser um exaltador cultural de emoções explosivas. E isso infelizmente é parte integrante da sociedade brasileira (e de diversos outros países, até de europeus, onde há ou havia torcidas violentas como os hooligans ingleses e os racistas de alguns países de lá) de hoje.

Bookmark e Compartilhe

Não desista do Brasil

Postado em 11/07/2010 à/s 9:00

Esta mensagem é para você que, vendo tantos problemas sociais e políticos no Brasil e sem saber se há solução para eles, afirma que gostaria muito de ir embora e morar num país menos problemático. Para você que afirma algo como “O Brasil não tem mais jeito. Não dá para viver direito aqui. Quero fugir pra um outro país e viver mais dignamente.”

Diante de um cenário de violência em alta, distribuição indecente de renda, corrupção, promessas eleitorais descumpridas, ensino público caindo aos pedaços etc., realmente é sedutora a imagem de morar no Canadá, ou na Inglaterra, ou na Austrália, ou na Alemanha... longe do caos sociopolítico que nos tem como cativos. Mas pergunto: será que isso realmente é o melhor a se fazer?

Penso que o que faria uma pessoa voltar atrás de sua vontade emigratória seria que o Brasil se tornasse uma nação livre de tantos problemas, ou pelo menos com esses defeitos em um grau muito menor. Creio que você esteja concordando comigo. Mas como você espera que isso aconteça, se um número insuficiente de pessoas se engaja em tentar consertar nosso país?

De fato vemos, de um lado, governos que não cumprem o papel de trabalhar pelo povo, de assegurar o cumprimento e respeito dos direitos sociais que temos. Governos ocupados por pessoas que buscam interesses próprios, não o bem comum, e para isso promovem atos de negligência social, corrupção e atendimento de lobbies escusos.

Do outro, há um povo dormindo em berço esplêndido, esquecendo o que nossa Constituição diz sobre a cidadania ser fundamento da República brasileira e todo o poder emanar do povo. Uma população que não tem como costume exigir justiça social dos governantes, ou protestar contra quem lhe faz mal, preferindo aceitar o estado de coisas enquanto ele não se torna absolutamente insuportável. Há exceções, gente que faz valer seu atributo de cidadãos, mas ainda assim é muito pouca para melhorar substancialmente o Brasil.

Bookmark e Compartilhe

Veganos, esses chatos…

Postado em 30/06/2010 à/s 20:47

Muitas pessoas que não simpatizam com o veganismo e o acham uma “afronta à natureza” dizem que nós veganos somos chatos e pentelhos. Segundo elas, protestar contra a exploração animal é uma chatice comparável a uma onda de spam.

Não é necessário pregar o veg(etari)anismo como um religioso fundamentalista prega suas crenças como verdades absolutas – atitude que é injustamente generalizada pelo senso comum de muitos onívoros e enfaticamente condenada pelos veganos mais sensatos. Basta apenas que defendamos os animais, condenando em público as crueldades de quem, por exemplo, tortura e mata animais para comê-los. Só por isso somos chatos de galocha.

Em um vídeo brasileiro em que uma atriz, com uma naturalidade sádica, contava como torturou animais até a morte para comê-los em sua experiência como escoteira, um onívoro, diante de dezenas de protestos e repúdios contra a atitude da atriz, do entrevistador e do público que, de forma também sádica, gargalhava e aplaudia o depoimento, comentou: “hahahhaha esses vegans? são tão ou mais chatos que os crentes!”

A esse comentário, eu faço questão de responder: sim, somos chatos.

Somos tão chatos quanto os militantes negros antirracismo dos Estados Unidos das décadas de 1950 e 60. Aqueles indivíduos eram tão chatos que não deixavam os brancos de sua época humilharem os compatriotas afrodescendentes em paz! Que coisa insuportável deve ser uma pessoa ter questionado seu direito de agredir e segregar o próximo, não poder esculachar um indivíduo na rua por ser de cor diferente sem que venham sujeitos indignados lhe cobrando ética, respeito e vergonha na cara. Que chatos!

Somos tão chatos quanto Mahatma Gandhi e seus seguidores. Os ingleses não podiam mais impor sua dominação na Índia, arrogar soberania sobre um mosaico cultural milenar, torturar e matar nativos insubordinados, com sossego. Devia ser muita chatice os militares britânicos serem impedidos de continuar mantendo seu monopólio econômico, seu domínio firmado na base da violência neocolonialista, por causa daqueles pacifistas tolos que não tinham o que fazer e ficavam com suas pregações inúteis de resistência pacífica e desobediência civil. Não-violência? Pacifismo? Independência? Soberania? Que bando de insuportáveis! Pareciam os crentes pregadores de hoje de tão inconvenientes!

Bookmark e Compartilhe

Digressão sobre o mal chamado nacionalismo

Postado em 25/05/2010 à/s 19:22

No texto Veganismo na província, de Bruno Müller, publicado na ANDA, a parte inicial fala de forma brilhante sobre a perversão sociocultural que é o nacionalismo.

Com poucas edições para tornar o trecho sobre nacionalismo um texto standalone, eis a mais inteligente e incisiva digressão sobre o nacionalixo que li até hoje.

Breves notas sobre o nacionalismo
Por Bruno Müller, no artigo Veganismo na província

O nacionalismo é uma das ideologias mais absurdas, ridículas, irracionais, perigosas e desprezíveis do mundo. Não estou sozinho nessa opinião*. Atribui-se a Albert Einstein a seguinte frase: “o nacionalismo é uma doença infantil; é o sarampo da humanidade”. Como se vê, não é só a física quântica que define os gênios.

O tema do nacionalismo me fascina desde a adolescência. Deve ser pelo fato de ser tão difundido entre os brasileiros. Do nacional-desenvolvimentismo dos anos 1950 até o nacional-futebolismo de sempre, passando pelo integralismo protofascista e o nacionalismo de esquerda, parece ser a única ideologia que realmente “pegou” no Brasil. O que certamente diz muito sobre seu povo e sua classe dirigente. E me recorda uma teoria. No filme “As Invasões Bárbaras”, um dos personagens defende que a inteligência é um fenômeno coletivo. Na Florença de 1504, por exemplo, brilhavam Maquiavel na filosofia e política, Michelangelo e Leonardo da Vinci nas artes, tendo Rafael como discípulo. Quando a maioria de um povo partilha uma mesma ideologia, será que isso diz alguma coisa sobre a sua inteligência coletiva?

O nacionalismo tem várias facetas e vertentes e, longe de sinal de vigor e versatilidade, isso aponta para sua incontornável debilidade. O que define uma nação? Ninguém sabe dizer ao certo. Idioma, etnia, religião, concentração geográfica, histórica ligação política. Tudo depende do que as pessoas podem alegar para se definirem uma nação e se sentirem no direito de matar outras pessoas só por serem de outra “nação”. Contudo, o constante contato entre os povos torna seu idioma e cultura dinâmicos, em constante mutação, ao passo que a pureza étnica não passa de uma aspiração falsa, e ainda por cima racista.

Nenhum povo tem uma origem única. Na Europa antiga e medieval, seja pelas conquistas militares, seja pelos fluxos comerciais, povos de diferentes origens, diferentes idiomas, diferentes culturas, estavam em contato constante. Os grandes impérios da Europa moderna, como a Áustria, a Prússia e a Rússia, eram uma colcha de retalhos étnica. A miscigenação pode ser mais evidente quando envolve povos de diferentes fenótipos, como nos países da América, mas acreditem-me, suecos, alemães, russos, italianos e britânicos são resultados de tantas misturas quanto qualquer brasileiro.

Pior que a fragilidade da sua conceituação, só mesmo as suas implicações. A presunção de originalidade e de diferença, que rapidamente transmuta-se em presunção de superioridade, ideais de grandeza e aspiração de pureza. Grandeza, superioridade, pureza… soa familiar?

Bookmark e Compartilhe

Ótimo artigo sobre linguagem androcêntrica e desigualdades de gênero

Postado em 12/05/2010 à/s 21:31

Encontrei na internet esse ótimo ensaio, escrito por José Eustáquio Diniz Alves, que fala com riqueza de detalhes sobre a questão da linguagem androcêntrica e como ela reproduz e legitima as desigualdades de gênero existentes até hoje no Brasil.

Vale muito a pena ler. É muito bom também para professors colocarem para seus/suas aluns lerem e para discutirem em sala de aula -- como forma de nos aproximar de um zeitgeist moral limpo da desigualdade de tratamento entre os gêneros.

Só achei que algumas citações de ditos populares tiveram sua suposta conotação machista extrapolada, uma vez que não se explica como se chegou à conclusão de que aquelas frases foram realmente construídas com base androcêntrica.

Abaixo trago o link e o resumo do ensaio:

A linguagem e as representações da masculinidade
por José Eustáquio Diniz Alves

Este artigo tem por objetivo analisar como a linguagem corrente, os ditos populares e as piadas refletem e reforçam as representações assimétricas de gênero na sociedade. A linguagem e as representações da masculinidade e da feminilidade estão impregnadas de valores criados ao longo de séculos. O discurso masculino, construído no plano simbólico, busca tornar naturais as desigualdades sociais de gênero, legitimando as divisões sexual e social do trabalho, diferentes comportamentos sexuais e reprodutivos, bem como uma menor inserção social, cultural e política das mulheres na sociedade.

Bookmark e Compartilhe

Boa Viagem no passado: natureza, cidade e destruição

Postado em 03/05/2010 à/s 22:52

Com vocês, Boa Viagem e bairros a oeste nos anos 70:

Boa Viagem e bairros a oeste na década de 70. Destaque para: o grande alagadiço no centro da foto, com muito mangue e terras gramíneas; a destruição já em andamento, com o vasto aterro de terra bege avançando sobre o alagadiço; os bairros ao fundo, já configurando Recife como uma cidade destruidora do outrora glorioso estuário da Bacia do Capibaribe e da mata atlântica dos mares de morro; e o bairro de Boa Viagem em si, tendo obliterado todo o antigo formosíssimo coqueiral que existia antes do avanço do ecocâncer. Clique na foto se quiser vê-la maior.

Fonte: SkyscraperCity

É em momentos assim que me dá vergonha de pertencer à espécie humana...

Bookmark e Compartilhe

Novo artigo sobre o uso da palavra “homem” na Wikipédia em português

Postado em 02/05/2010 à/s 14:26

Escrevi agora um artigo na Wikipédia em português sobre o uso da palavra homem, curto mas didático e conscientizador.

Leia: Uso da palavra homem

Bookmark e Compartilhe

O artesão e a centelha: a força de quem fala e/ou escreve contra as injustiças e matanças

Postado em 17/04/2010 à/s 22:55

Como já afirmei algumas vezes no Consciência Efervescente e talvez aqui no Arauto, sou fã de Bruno Müller, escritor de artigos fantásticos sobre direitos animais -- melhor dizendo, direitos dos animais humanos e não-humanos.

Tem o porém de que seus artigos são grandes e isso desencoraja leitoræs mais preguiços@s. Entretanto, quem os lê sai de "alma" lavada.

Assim sendo, tenho o prazer de trazer mais um texto dele.

O artesão e a centelha
por Bruno Müller, para a ANDA

Um lugar comum da vida dos escritores profissionais, particularmente aqueles dos quais se exige grande prolixidade, como cronistas e colunistas de jornal, é a falta de assunto. Sobre o que escrever? O leitor (e o empregador) não quer saber se lhe faltam ideias ou notícias a comentar naquele determinado dia. Há que mostrar produtividade. É difícil manter um padrão de qualidade, de relevância e profundidade quando nos permitem tão pouco (uma lauda, com sorte) e nos exigem tanto (um texto por dia, e nem quero começar a pensar nos blogueiros profissionais, que precisam atualizar o conteúdo quase que de hora em hora).

Mas, afinal, do que estou reclamando? Em primeiro lugar, não sou escritor profissional. Em segundo lugar, não tenho uma coluna diária num jornal ou página de internet. Por fim, assunto é o que não me falta. Há tanta injustiça ocorrendo cotidiana e simultaneamente no mundo, que é humanamente impossível dar conta de tudo, mesmo que tenhamos apenas um dia para nos prepararmos. Pois a injustiça não descansa, não tira férias e não dá trégua.

Nos jornais de 25 de fevereiro de 2010 podemos ler: morreu, em decorrência de uma greve de fome , o dissidente cubano Orlando Zapata, perseguido político, condenado por “desobediência”, “desordem pública” e “resistência” [1], isto é: condenado e em última instância morto por confrontar um regime desumano – pois desumano é um regime que persegue seus oponentes e lhes deixa morrer de fome por intolerância e intransigência, não importando com quais fantasmas, reais ou imaginários, ele se bata, nem que propósitos, torpes ou sublimes, ele alegue ter. Seu funeral se deu sob estrita vigilância e algumas dezenas de subcidadãos cubanos foram detidos “preventivamente” [2].

Os políticos latino-americanos, que se dizem tão sensíveis às injustiças, silenciaram de forma vergonhosa, inclusive dois dos mais loquazes, que gostam de dar palpite em tudo, e que visitaram Cuba no mesmo dia: os presidentes do Brasil, Luís Inácio Lula da Silva, e da Venezuela, Hugo Chávez [3]. Cúmplices de um crime. Nenhuma lágrima será vertida por esse infeliz na casta de intelectuais e ativistas europeus e latino-americanos que dizem lutar por um mundo mais “justo e igualitário”. Não admira que um dos seus símbolos seja o globo terrestre invertido: eles não querem o fim da opressão, e sim a troca de papel entre opressores e oprimidos.

Bookmark e Compartilhe

Megadesmatamento em Suape: um ecocídio em nome do progresso

Postado em 01/04/2010 à/s 2:57

Publicado originalmente em 30/03/10, às 13:21

Uma verdade estabeleceu-se nesses últimos dias: quem tem medo de Blairo Maggi e da bancada ruralista é porque não conhece Eduardo Campos.

Segundo o blog de meio ambiente do JC Online noticiou semana passada e o site da Assembleia Legislativa de Pernambuco confirma, o governador quer destruir nada menos que 1.076 hectares de vegetação nos arredores de Suape com o fim de “ampliação e modernização” do porto, além da instalação de novos empreendimentos, numa investida típica da velha tradição de destruir verde em prol de um progresso cinzento.

Pelo visto, fez lógica a secretária de Ciência, Tecnologia e Meio Ambiente Luciana Santos não ter respondido às minhas perguntas sobre desmatamento no bate-papo no blog Acerto de Contas. Ela evidentemente sabe que seu governo não dá a mínima para o meio ambiente, pelo menos em termos de desmatamento em prol do “progresso”, só não quis confessar isso abertamente, já que não tinha respostas para justificar ou capacidade de discordar da política do governo que integra.

São mais de mil campos de futebol de vegetação, no que pode ser o maior desmatamento da história pernambucana moderna. Não bastou para o governo Eduardo Campos destruir mata atlântica para duplicar a BR-408, destruir mangue no Rio Jaboatão para construir uma ponte, pemitir a construção de grandes resorts por cima de vegetação litorânea no litoral sul e ser conivente com o desmatamento em Aldeia, Porto de Galinhas e Maracaípe. Ele quer desmatar mais e mais, quer dar progressão ao triste e nada orgulhoso histórico pernambucano de destruição ambiental o qual reduziu a mata atlântica do estado a cerca de 5% de sua cobertura original e vem derrubando a caatinga.

É nessas horas que entra o dilema da questão do progresso. Será que realmente vale a pena destruir a natureza de forma tão implacável, violando o direito do meio ambiente de existir e ser preservado, em prol de um progresso econômico que, embora supostamente melhore a vida de muitas pessoas, tem uma altíssima probabilidade de provocar a própria morte da humanidade – e de grande parte da biosfera – num futuro não tão próximo mas não tão distante?

É ético que, numa época em que se discute arduamente o paradigma do desenvolvimento sustentável e a elevação à supremacia da necessidade de se preservar o que ainda temos hoje de ecossistemas e áreas verdes, Eduardo Campos e seu governo insistam em ir na contramão da história e, para desalento dos ambientalistas, promover esse verdadeiro ecocídio?

Para os defensores do progresso incondicional, a expansão de Suape é uma maravilha inquestionável. Para os mais respeitadores do meio ambiente, por outro lado, começa a se tornar preocupante. Não apenas pela presença da refinaria, cujo anúncio foi em sua época uma verdadeira ode ao desenvolvimento movido a energia suja, mas também pelo que o governo está intencionando fazer contra a natureza para que o porto e seu complexo industrial sejam ampliados.

Os jornais exclamam que Pernambuco está em vias de se tornar o “Tigre Asiático” Brasileiro, mas estamos começando a ver o preço desse salto: a destruição massiva de diversos ecossistemas – em especial manguezais, que são berçários de muitas formas de vida. Vale mesmo a pena que a nova “Cingapura Brasileira” seja inaugurada a todo custo mesmo que todo o verde seja varrido do mapa? Ou deveria-se discutir como essa “cingapurização” deveria respeitar o meio ambiente em sua integridade, num esforço de transformar Suape em referência de economia sustentável e gestão ambiental?

A hora é essa de discutirmos a urgência de se rever os planos de transformar Suape num centro de referência desenvolvimentista, de modo que deixe de ser um vetor de desmatamento e passe a respeitar a integridade do já rarefeito ambiente natural. A verdade é que não podemos tolerar o jeito que as coisas estão andando.

Precisamos unir os blogs pernambucanos, as ONGs ambientalistas, os políticos que ainda têm algum respeito pelo meio ambiente e a população para que esse verdadeiro ecocídio histórico não aconteça e os planos de ampliar Suape, em vez de causar essa tragédia, sejam repensados de modo que sejam adaptados ao paradigma da sustentabilidade e da valorização ética do verde.

Bookmark e Compartilhe

Governo Eduardo Campos quer destruir toda a vegetação em torno de Suape e se tornar o maior ecocida da história pernambucana moderna

Postado em 27/03/2010 à/s 13:05

Quem tem medo de Blairo Maggi e da bancada ruralista é porque não conhece Eduardo Campos.

Projeto de lei em tramitação na Assembleia prevê desmatamento de 1.076 hectares de vegetação nativa

Está em tramitação na Assembleia Legislativa projeto de lei enviado pelo governo do Estado que prevê o desmatamento, de uma só vez , de 1.076 hectares de vegetação nativa no Porto de Suape.

São  893,4 ha de mangue, 17,03 ha de mata atlântica e 166,06 ha de restinga.

O objetivo é a ampliação da área do complexo portuário, entre Ipojuca e Cabo de Santo Agostinho, no Grande Recife, para a implantação de um estaleiro.

É o maior, asseguram ambientalistas, desmatamento de mangue já realizado no Brasil. Para se ter uma ideia da abrangência da devastação, a área que será suprimida equivale a mais de 1.000 campos de futebol. É que um campo corresponde a quase um hectare (10 mil metros quadrados).

Bookmark e Compartilhe

Bancada ruralista maior e mais poderosa? Diga NÃO!

Postado em 22/03/2010 à/s 12:46

Bancada ruralista pretende dobrar de tamanho com doações de cooperativas

por Mauro Zanatta
do Valor Econômico

Um exército de 2 milhões de produtores ligados a sindicatos rurais, federações de agricultura e cooperativas iniciou um amplo movimento político de mobilização para dobrar o tamanho da influente bancada ruralista no Congresso Nacional.

Autorizadas pela nova lei eleitoral a doar recursos para campanhas, as cooperativas já preparam listas de candidatos que devem ser eleitos em outubro. “Vamos apoiar gente de todos os partidos. Não interessa a cor, mas o credo na doutrina cooperativista”, resume o presidente da Organização das Cooperativas Brasileiras (OCB), Márcio Lopes de Freitas. Aprovada em setembro de 2009, a Lei nº 12.034 permitiu a doação de até 2% do faturamento bruto desse grupos a campanhas eleitorais. “Porque uma empresa podia e uma cooperativa não?”, questiona Freitas.

Em São Paulo, as cooperativas farão, nesta semana, três seminários estaduais para pregar o voto em candidatos do segmento. “Mais do que doação financeira, nossa força estará nos votos”, diz o presidente da Ocesp, Edivaldo Del Grande. “Temos que fazer o lobby saudável e eleger uma bancada com os nove milhões de votos potenciais de que dispomos”. Na Assembleia Legislativa, 14 dos 94 deputados fazem parte da bancada cooperativista. No Congresso, 26 dos 70 deputados federais são ligados ao setor.

Dona de uma base composta por mais de um milhão de produtores, a Confederação da Agricultura e Pecuária (CNA) incorporou a meta de apoiar e buscar doações a campanhas de parlamentares ligados ao setor. “É lobby, sim. Mas é lobby positivo. Vamos nos organizar financeiramente para que nossos candidatos sejam apoiados”, diz a presidente da CNA, senadora Kátia Abreu (DEM-TO), pré-candidata ao governo estadual [Se a Sarah Palin Brasileira for eleita lá, os ecossistemas de Tocantins estarão sob situação tão desesperadora quanto os de Mato Grosso sob Blairo Maggi, o Máquina de Free Willy Brasileiro]. “Como não podemos doar, as empresas do agronegócio serão procuradas para contribuir com os candidatos do setor”.

Bookmark e Compartilhe

“Forró” eletrônico e seus inconvenientes

Postado em 13/03/2010 à/s 8:00

Artigo escrito em junho de 2009

O chamado “forró” eletrônico ou estilizado (entre aspas por vários motivos que o tornam um não-forró) divide opiniões em todo o Nordeste. Tendo seu auge na segunda metade da década de 2000, esse ritmo ora é apreciado por jovens como um incentivo à curtição oba-oba, desregrada e desinibida da juventude ora é pesadamente criticado por incentivo à promiscuidade e perversão sexuais, banalização da traição, apologia do alcoolismo, coisificação feminina e louvor a um hedonismo irresponsável.

Cabe mostrar aqui por que tanta gente reclama do estilo e de sua popularidade e deseja tanto o fim de sua hegemonia na música nordestina. Esse que, por conveniência, chamarei aqui de FF – Falso Forró – merece muito mais debate do que há hoje e necessita de abordagens éticas, educacionais, sociológicas e antropológicas. Textos como este contribuem para a incitação dessa discussão entre a sociedade.

Os ouvidos dos nordestinos, ao longo dos últimos anos, vêm sendo sacudidos, desejada ou indesejadamente, por versos de efeito-chiclete como “Chupa, chupa, chupa que é de uva”, “Abre, abre, abre-abre-abre”, “Piri-piri, piri-piri, vamo beber, vamo beber”. Muitos adoram e celebram os prazeres sexuais da juventude que por tanto tempo foram reprimidos pela tradição católica nordestina e liberados pela superação das velhas normas sociais repressivas.

Por outro lado, tantos odeiam o ritmo, por uma série de motivos que fazem dele um veículo de comportamentos libertinos e até nocivos. Vale descrever os pontos mais criticados do FF:

a) Apelo sexual e apologia ao sexo irresponsável
Seja pelas letras de pornografia implícita ou escancarada – em que são exaltadas as delícias do sexo e posições sexuais como sexo oral, abertura de pernas e até a penetração –, pelo figurino sumário das dançarinas, vestidas com “pedaços de pano” que por pouco não deixam de cobrir suas partes íntimas, ou mesmo pelo comportamento dos cantores no palco, o tema pornográfico é muito frequente. É, aliás, um dos pilares temáticos do FF. São corriqueiras também as danças sensuais e os gemidos eróticos de vocalistas femininas.

Também destaca-se a irresponsabilidade da forma como o sexo é abordado no FF, com a falta de dedicação à segurança da camisinha e a cativação de um público adolescente que ainda está aprendendo suas primeiras noções sexuais. Os efeitos esperados da pornografia musical do ritmo são uma maior ferveção juvenil por sexo e um grande aumento da suscetibilidade de adolescentes à maternidade/paternidade indesejada e à transmissão de doenças sexualmente transmissíveis.

A sexualidade do FF não seria um problema preocupante se o estilo não tivesse grande parte de uma geração adolescente como público-alvo e não induzisse tantos jovens na flor da idade (entre 13 e 24 anos) ao sexo irresponsável e inconsequente que gera filhos(as) indesejados(as) e propaga patologias.

Bookmark e Compartilhe

Discutindo “o homem” no Dia Internacional da Mulher

Postado em 08/03/2010 à/s 20:02

Post comemorativo do Dia Internacional da Mulher de 2010. Postado originalmente às 7h

Neste dia que comemora a luta feminista, vale apontar algo que me deixa constrangido, embora eu seja um homem, nesse universo de desigualdades de gênero: a aceitação por parte de tantas pessoas, incluindo muitas mulheres(!), do milenar dogma de que o homem é o centro da humanidade, através do uso, sem questionamentos, da palavra “homem” como sinônimo de “ser humano”.

Afirmam que “homem”, embora defina seres humanos adultos do sexo masculino, tem originalmente o significado de “ser humano”, o qual perduraria até hoje. Não entendem, no entanto, que essa palavra, por ter sido masculinizada ao longo da história, tornou-se enviesada e ambígua demais, logo inadequada, para continuar representando uma entidade de gênero neutro (o ser humano genericamente falando).

É certo que as traduções que equivalem etimologicamente a “homem” originaram-se de fato significando “ser humano” (exemplos: “homo” no latim, “man” no inglês, “mann” no alemão), mas nem sempre significaram “humano adulto do sexo masculino”. Foi na Idade Média, consolidando um processo de centralização sociocultural da imagem da humanidade na figura masculina e consequente desuso dos termos que estritamente significavam “humano adulto do sexo masculino” (como “uir” no latim clássico e “wer” no inglês arcaico; essa palavra não existiu na língua portuguesa), provavelmente acelerado pelo cristianismo de raízes misóginas semitas e gregas, que “homem” passou a significar simultaneamente a humanidade e os seus machos, tornou-se uma palavra dúbia e excelentemente masculina.

A neutralidade original do “homem”, aliás, foi o manto que escondeu na Declaração de Independência dos Estados Unidos e na francesa Declaração Universal dos Direitos do Homem(sic) e do Cidadão que os direitos declarados só começariam a valer para os homens – as mulheres continuariam presas ao lar como servas domésticas, e privadas da maioria dos direitos humanos e políticos.

Bookmark e Compartilhe

Conformado com a mira

Postado em 26/02/2010 à/s 21:38

Artigo escrito em setembro de 2008, depois do sequestro e assassinato de Eloá Pimentel

O Brasil praticamente parou por causa da tragédia do seqüestro em Santo André, do mesmo jeito que no caso do ônibus 174 oito anos atrás. Mas infelizmente sei que mais uma vez a comoção generalizada novamente vai se reduzir à resignação e ao conformismo, como sempre. É um comportamento indesejavelmente freqüente no país esse ato de sentir pena e indignação temporárias e depois esquecer tudo como se nada tivesse acontecido.

É algo que, pode ter toda a certeza, nos põe como inferiores à população de diversos outros países nos quesitos cidadania, preocupação social e também respeito ao próximo e além do mais é uma das grandes causas de a criminalidade ter se consolidado tão solidamente por aqui.

Não gostaria de fazer comparação entre nações, mas me vejo obrigado a fazê-lo, e digo que é de causar vergonha do povo a que pertenço quando vejo na internet protestos no Canadá, na Argentina, na Finlândia e em outros cantos do mundo eclodindo quando mesmo casos isolados de atentado à vida e à segurança dos cidadãos acontecem.

Nesses países, basta que um episódio de violência (como a última chacina em escola na Finlândia) estampe os jornais ou as estatísticas de segurança pública apenas ameacem crescer (como em Buenos Aires em 2002) que o povo vai às ruas assegurar que a polícia não perca seu poder coercivo e o governo não amoleça nas políticas de bem-estar social. Ao seu modo, ora com cartazes e gritos ora com panelaços, o povo mostra que não se conforma quando sua liberdade e bem-estar são ameaçados e faz valer seu poder como senhor supremo de seu país.

Bookmark e Compartilhe

A história não é só do homem

Postado em 26/02/2010 à/s 14:37

Mulheres que nos ensinaram que a história não é só "o homem". Em sentido horário: Margaret Mead, Teodora de Constantinopla, Rainha Nzinga de Ndongo e Matamba (conhecida como Ana de Sousa Nzinga) e Betty Williams.

Artigo escrito em março de 2009. Escrito em dedicação às mulheres, em especial à minha mãe e às Erickas, colegas da antiga turma de Gestão Ambiental.

Ouvimos e lemos muito sobre a formação do homem, a ação do homem, as mais variadas questões relativas ao homem. Cita-se muito “o homem” na literatura e nos discursos. Enquanto para a maioria das pessoas falar do homem é normal, algumas pessoas notam de forma evidente um viés machista nessas expressões. O homem, ser humano macho, é (im)posto como o Homo sapiens padrão e nossa sociedade acostumou-se em assim considerar.

Muito embora a mulher seja coautora da história humana ao lado do homem, e não apenas uma colaboradora coadjuvante, seu papel torna-se ou parece tornar-se inconscientemente minimizado quando se enfatiza a palavra “homem” nos livros e nas falas daqueles que nos ensinam, mesmo que não seja essa a intenção de quem escreve, discursa e ensina. É visível que essa assinalação de uma humanidade de essência masculina reflete o machismo das sociedades ocidentais, ou ao menos das lusófonas.

Muito embora as sociedades patriarcais tenham, ao longo dos milênios, inibido severamente a capacidade e potencial das mulheres de construir os valores e estruturas sociais de seus povos, preferindo um caminho de dominação machista, com normas e valores que as trata(va)m como pessoas inferiores, à alternativa da construção sociocultural igualitária, é mais misoginia do que uma reconstituição fiel da realidade histórica humana atribuir à mulher um papel menor, “fora do padrão”, na história do ser humano a ponto de apenas “o homem” merecer ser citado.

Bookmark e Compartilhe

Leonardo Boff fala do absurdo da usina de Belo Monte

Postado em 25/02/2010 à/s 20:46

Leonardo Boff é uma entre tantas vozes contrárias à absurda construção da usina de Belo Monte, que, se construída, irá inundar uma enorme área de floresta e desalojar comunidades ribeirinhas e indígenas. E pensar que ainda falam que a energia hidrelétrica é limpa...

Belo Monte: a volta triunfante da ditadura militar?
por Leonardo Boff, para o Correio da Cidadania

O governo Lula possui méritos inegáveis na questão social. Mas na questão ambiental é de uma inconsciência e de um atraso palmar. Ao analisar o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) temos a impressão de sermos devolvidos ao século XIX. É a mesma mentalidade que vê a natureza como mera reserva de recursos, base para alavancar projetos faraônicos, levados avante a ferro e fogo, dentro de um modelo de crescimento ultrapassado que favorece as grandes empresas à custa da depredação da natureza e da criação de muita pobreza.

Este modelo está sendo questionado no mundo inteiro por desestabilizar o planeta Terra como um todo e mesmo assim é assumido pelo PAC sem qualquer escrúpulo. A discussão com as populações afetadas e com a sociedade foi pífia. Impera a lógica autoritária; primeiro decide-se depois se convoca a audiência pública. Pois é exatamente isto que está ocorrendo com o projeto da construção da Usina Hidrelétrica de Belo Monte no rio Xingu, estado do Pará.

Tudo está sendo levado aos trambolhões, atropelando processos, ocultando o importante parecer 114/09 de dezembro de 2009, emitido pelo IBAMA (órgão que cuida das questões ambientais), contrário à construção da usina, e a opinião da maioria dos ambientalistas nacionais e internacionais que dizem ser este projeto um grave equívoco com conseqüências ambientais imprevisíveis.

O Ministério Público Federal que encaminhou processos de embargo, eventualmente levando a questão a foros internacionais, sofreu coação da Advocacia Geral da União (AGU), com o apoio público do presidente, de processar os procuradores e promotores destas ações por abuso de poder.

Bookmark e Compartilhe