Arauto da Consciência
15fev/100

Para que servem mesmo os hinos nacionais?

Artigo escrito em fevereito de 2009

Obs.: Este artigo é dirigido não apenas para os brasileiros, mas para todos os países e povos do planeta. Traduzi-lo para outras línguas será de muito bom grado. Também não busca inferiorizar o Brasil ou qualquer outra nação em relação às demais, muito pelo contrário.

“Ouviram do Ipiranga as margens plácidas...” Quando ouço essa música, em vez de sentir “orgulho” do país, pensar na suposta superioridade ambiental do mesmo, imaginar o Brasil como potência geopolítica num futuro hipotético, começo a pensar: para que servem mesmo os hinos nacionais? Qual a contribuição deles para um mundo melhor e mais unido? A utilidade do hino, em meu pensamento, se faz fortemente questionada.

Mediante essas questões, me vem à mente a ideia de que os hinos são resquícios de uma época em que o nacionalismo, o sentimento de que seu país é superior a todos os demais, era tratado como uma virtude e um valor inquestionável – ou melhor, questionável apenas por anarquistas. Entretanto, quando se muda o ângulo da visão do mundo, da arrogância patriocêntrica à filosofia de união internacional, percebemos que os hinos nacionais são dispensáveis num mundo unido e igualitário que irreleve diferenças territoriais, étnicas e religiosas.

A opinião favorável ao hino patriótico afirma que ele é bom porque exalta os esforços, tradições e virtudes do povo, valoriza a riqueza ambiental do país e releva a identidade nacional. É muito bonita a intenção, mas e os outros povos, as outras nações? O que realmente faz tal pátria ter um povo mais esforçado e virtuoso e melhores tradições do que todas as outras? Por que temos que necessariamente crer que somos “melhores” em vez de tratar todos os povos e nações do planeta como igualmente dignos e lutadores?

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22jan/100

Humanitarismo é a desculpa para o ensaio do Big Stick no Haiti

EUA preveem ter 20 mil soldados no Haiti e negam ocupação do país

O secretário de Estado adjunto para a América Latina, Arturo Valenzuela [Curiosidade inútil: quase um anagrama de Venezuela], afirmou nesta sexta-feira que os Estados Unidos "respeitam a soberania" do Haiti e que as críticas ao seu protagonismo no atendimento às vítimas do terremoto que devastou Porto Príncipe "são simplesmente erradas". Com previsão de ter 20 mil militares americanos no Haiti até o próximo domingo, ele disse que os EUA trabalham em colaboração com as forças das Nações Unidas e com o governo local.

"Os EUA respeitam a soberania do Haiti. Estamos ali porque os haitianos nos convidaram, nos pediram, e temos uma responsabilidade moral como comunidade internacional de ajudar esse país", disse Valenzuela à imprensa após um fórum organizado pela Câmara de Comércio americana.

Sem mencionar os países que também acusam os EUA de "invadir" o Haiti, Valenzuela indicou que se trata de uma "crítica simplesmente errada, que provavelmente ignora a realidade".

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10jan/100

Resenha: 1984

Aviso: esta resenha contém spoilers sobre o referido livro. Se você já o leu e quer ler a resenha ou ainda não leu o livro mas quer ter uma ideia prévia de como a trama se desenrola, clique em "Continue lendo..." caso este post não esteja sendo exibido numa página individual.

"1984" é um livro diferente da grande maioria das ficções: não tem um herói – embora tenha um protagonista – nem um final feliz. Nem um desfecho compreensível o livro chega a ter – sendo necessário, para muitos, a leitura de um spoiler depois de ter acabado todas as páginas para se saber o que realmente aconteceu com Winston, o protagonista que não consegue ser um herói, no final da história. Portanto, se você só gosta de livros com heróis ou heroínas lutando obstinadamente em favor de um final feliz que de fato aguarda os(as) leitores(as) nas últimas páginas, “1984” não é um livro recomendável.

A obra maior de George Orwell é uma distopia cruelmente pessimista sobre como seria a Inglaterra e o mundo num ano de 1984 dominado por regimes totalitários pancontinentais. A Inglaterra não é mais Inglaterra, e sim a Oceania, um megapaís que abrangeria grande parte das terras emersas do planeta. Está em uma guerra perpétua em que ela e as meganações Eurásia e Lestásia revezam através do conflito o controle parcial da calota polar ártica e de parte da África e da Ásia.

A história de Winston antes de sua prisão pela Polícia do Pensamento – corpo policial que prende todo(a) aquele(a) que ousa pensar diferente do que o Partido manda que se pense – é inspiradora, uma vez que ele é identificável com quem adota uma visão de mundo mais esclarecida que destoe da alienação sociopolítica da sociedade. É a parcela menos pessimista do livro.

Ao contrário do que demonstra a população que trabalha com o Partido, ele mantém pensamentos destoantes do que o governo totalitário prega. Consegue manter-se seguro (apenas aparentemente, visto o que O’Brien, o personagem que se exibe como o maior antagonista, revela nos capítulos da tortura), mantendo discrição em casa e no trabalho – o Ministério da Verdade.

Esse ministério, aliás, é um dos órgãos de um sistema estatal cuja dominação deve ser descrita: é um domínio ultratotalitário em que a população da “Oceania” – especialmente os seis milhões de membros do chamado Partido Externo – é vigiada por aparatos como a Polícia do Pensamento e teletelas, um misto de televisor com câmera que vigia o comportamento das pessoas dentro de suas casas e em locais públicos e transmite propaganda governamental.

O Partido vangloria-se divulgando mentiras em suas propagandas e boletins e mantém o poder pelo controle psicológico dos(as) seus/suas filiados(as) através de estratégias de manipulação de pensamento como o duplipensar – capacidade de acreditar simultaneamente que, por exemplo, o céu é azul e é verde – e o crimedeter – rejeição psicológica imediata a qualquer pensamento subversivo que tente aflorar do cérebro.

A política existente impede até a manifestação dos instintos, emoções e virtudes humanas, como o amor – que deveria ser dedicado exclusivamente ao Grande Irmão, o líder governamental que talvez nem exista –, a libido e a amizade. Tornava as pessoas marionetes indefesas.

Voltando a Winston, ele corajosamente alimenta pensamentos de dúvida sobre o que o Partido faz com um terço da humanidade da ficção. Certo dia, Júlia, uma mulher que ele frequentemente via nos corredores do Ministério da Verdade, consegue que ele fale com ela e arquiteta com ele encontros em lugares diversos, onde os dois formam um casal e descobrem o censurado prazer de amar um ao outro.

Encontram no andar superior de uma antiga igreja, habitada pelo Sr. Charrington, um refúgio livre da vigilância da Polícia do Pensamento. Pelo menos era o que acreditavam.

O’Brien, que finge em suas feições ser outro “camarada” secretamente descontente com o governo totalitário e pertencer à Fraternidade, um grupo rebelde cuja existência é uma crença não comentada entre os membros do Partido Externo, marca de forma codificada um encontro com eles em seu apartamento, onde tem noção da inimizade do casal dirigida à entidade política. Distribui a eles, por intermédio de um estranho, “O Livro”, presumivelmente escrito por Emmanuel Goldstein, o líder da rebelde Fraternidade.

“O Livro” é a parte mais interessante de “1984”. É um momento em que George Orwell ensaia uma ficção sociológica e explica o passado verídico da humanidade e o presente distópico surgido nas revoluções que deram origem às três meganações do planeta. Conta o funcionamento da guerra perpétua que sustenta a economia delas e a estagnação de toda a arte, ciência e outras habilidades intelectuais, entre outros detalhes fundamentais para a compreensão de grande parte da obra.

No dia em que Winston lê para Júlia o livro, a surpresa fatal: a antiga igreja tinha uma teletela e Sr. Charrington era um agente disfarçado da Polícia do Pensamento. A voz metálica da tela anuncia a prisão e guardas de uniforme negro prendem os dois. O casal é violentamente separado e encaminhado para a cadeia do Ministério do Amor. Seu crime era a “crimideia”, o delito de pensar diferente do que o Partido dizia.

Winston vê o terror da prisão onde eram confinados presos políticos e criminosos. Em seguida, O’Brien, revelando-se um capacho leal do Partido e torturador profissional, chega na cela e o encaminha a uma sala onde é espancado brutalmente por cruéis soldados. O protagonista em seguida é submetido a outras torturas dolorosas em outra sala. É forçado a fazer confissões reais e imaginárias.

Nos antepenúltimo capítulo, Winston trava um diálogo com O’Brien, no qual é gritante o contraste entre a fraqueza do protagonista e o poder do antagonista, que podia torturá-lo novamente a qualquer momento. É revelada a verdadeira natureza da dominação totalitária estabelecida: baseia-se no ódio em vez do zelo à população, busca a manutenção do poder acima de qualquer outro objetivo, não intenciona a melhoria da sociedade, almeja esmagar qualquer traço de emoção que não seja devotado ao Partido e ao Grande Irmão. Enfim, realmente quer que a população da Oceania seja um conjunto de marionetes sob rígido controle.

Nos penúltimo capítulo, Winston passa a conhecer o que é a tão terrível Sala 101: um lugar onde as pessoas dão de cara com seus piores pesadelos. Ele se obriga a pedir que “façam isso com Júlia”, para só assim ser livrado da gaiola de ratos que poderiam devorar sua cabeça. O último é uma quebra de coesão em relação ao anterior, uma vez que mostra um Winston de cérebro lavado, enfim submisso ao sistema comandado pelo Partido, sem mais nenhuma emoção para com uma Júlia também lavada. Presume-se que ele deveria ser finalmente morto, mas até o fim da trama ele não o é.

E o mundo viveu triste e condenado para sempre. Um trágico final.

Para quem acaba o livro esperando reações heroicas e ação eletrizante em nome da libertação, o livro decepciona. Quem termina de lê-lo, fecha-o entristecido, por não ter encontrado nada que desse um pingo de esperança para a detenção da crudelíssima ação do Partido, e até assustado e temeroso pelo futuro da humanidade, uma vez que George Orwell dá à obra um aspecto assustadoramente verossímil. Pergunta-se: será que o mundo realmente corre o risco de um futuro tão trágico e terrível?

O consolo é enxergar o contexto histórico em que ele publicou o livro. O ano de publicação era 1949, uma quente época da Guerra Fria, em que Estados Unidos e União Soviética disputavam o domínio econômico do planeta e a hegemonia militar. Não havia muito motivo para otimismo político na época.

Hoje, com exceção da China e seu realíssimo Partido “Comunista” que vem ascendendo no panorama geopolítico mundial e adotando alguns dos fundamentos da ditadura do Grande Irmão, vemos que muito da estrutura que possibilitaria a realização da ameaça distópica foi desmontado com a queda da União Soviética e o enfraquecimento geopolítico dos Estados Unidos.

O livro não deixa mensagens encorajadoras ou esperançosas para quem o lê, não dá uma “moral da história” que inspire as pessoas – e por isso pode ser uma leitura muito frustrante para alguns/mas –, mas consegue despertar a curiosidade de muitos(as) para a política e para o estudo das formas de como ditaduras como a chinesa e as africanas se mantêm no poder. Inspira de forma indireta quem quer elaborar formas de levantar a conscientização política da população antes que se configurem perigos reais de golpe de Estado facilitados pela alienação sociopolítica popular.

A obra de Orwell é mais recomendável para quem já tem um gosto por livros de política, enquanto não o é para quem só gosta de obras com lutas travadas em prol da justiça e finais felizes. Elogio-a por levantar utilíssimos debates políticos, mas critico-o por semear pessimismo e desesperança quanto ao futuro da humanidade.

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