Rodeio, tragédia para os dois lados
O do touro, explorado e torturado, e também o do peão, que corre o risco de morte por ser eventualmente pisoteado por um touro sofredor.
Peão morre pisoteado por boi no sul de Minas
Um peão supostamente embriagado morreu na noite de domingo (7) após cair e ser pisoteado por um boi em um rodeio amador na cidade de Camanducaia, no sul de Minas Gerais.
De acordo com a informações preliminares da polícia, o pedreiro Márcio Antonio de Paula, de 30 anos, foi arremessado e pisoteado pelo animal. Ele foi encaminhado à Santa Casa da cidade, mas já chegou morto.
O evento foi realizado sem autorização da prefeitura. O caso está sendo investigado pela polícia local.
Ao contrário de muit@s defensoræs animais, não comemoro essa morte. Mas sim relevo que o rodeio é uma tragédia, assim como qualquer outra forma de exploração de animais. É fato: exploração animal é tragédia para os dois lados -- não-humanos e humanos --, seja na pecuária, seja em pseudoesportes, seja na vivissecção, seja na matança de animais silvestres...
Também não comemoro a morte do peão porque não é com violência ou morte que pessoas ignorantes se tornam pessoas esclarecidas. Mais que o sadismo que muita gente afirma que os peões e vaqueiros têm, o defeito maior dessa gente, normalmente pouco instruída, é a ignorância perante a ética de respeito aos bichos -- e, por mais que relutemos em aceitar, não é simplesmente culpa deles.
Desafio às mulheres
Na chamada Semana da Mulher, lanço um desafio àquelas que ainda falam ou escrevem, com naturalidade e sem nenhum constrangimento, "o homem" como sinônimo de ser humano ou humanidade. Na verdade são dois:
1. Desafio-as a, num discurso, falar "Nós, os homens, ..." ou "Nós homens ..."
2. Desafio-as a falar ou escrever sem nenhum constrangimento: Eu sou um homem!
Para quem estranhar: ué, vocês não consideram a palavra "homem" sinônimo de "ser humano"?
Discutindo “o homem” no Dia Internacional da Mulher
Post comemorativo do Dia Internacional da Mulher de 2010. Postado originalmente às 7h
Neste dia que comemora a luta feminista, vale apontar algo que me deixa constrangido, embora eu seja um homem, nesse universo de desigualdades de gênero: a aceitação por parte de tantas pessoas, incluindo muitas mulheres(!), do milenar dogma de que o homem é o centro da humanidade, através do uso, sem questionamentos, da palavra “homem” como sinônimo de “ser humano”.
Afirmam que “homem”, embora defina seres humanos adultos do sexo masculino, tem originalmente o significado de “ser humano”, o qual perduraria até hoje. Não entendem, no entanto, que essa palavra, por ter sido masculinizada ao longo da história, tornou-se enviesada e ambígua demais, logo inadequada, para continuar representando uma entidade de gênero neutro (o ser humano genericamente falando).
É certo que as traduções que equivalem etimologicamente a “homem” originaram-se de fato significando “ser humano” (exemplos: “homo” no latim, “man” no inglês, “mann” no alemão), mas nem sempre significaram “humano adulto do sexo masculino”. Foi na Idade Média, consolidando um processo de centralização sociocultural da imagem da humanidade na figura masculina e consequente desuso dos termos que estritamente significavam “humano adulto do sexo masculino” (como “uir” no latim clássico e “wer” no inglês arcaico; essa palavra não existiu na língua portuguesa), provavelmente acelerado pelo cristianismo de raízes misóginas semitas e gregas, que “homem” passou a significar simultaneamente a humanidade e os seus machos, tornou-se uma palavra dúbia e excelentemente masculina.
A neutralidade original do “homem”, aliás, foi o manto que escondeu na Declaração de Independência dos Estados Unidos e na francesa Declaração Universal dos Direitos do Homem(sic) e do Cidadão que os direitos declarados só começariam a valer para os homens – as mulheres continuariam presas ao lar como servas domésticas, e privadas da maioria dos direitos humanos e políticos.
O que Jesus não fez
Criado pelo NonStampCollector, um genial canal de desenhos esclarecedores no YouTube, o vídeo "O que Jesus não faria", dublado por Alessandro Magno e postado no blog Bule Voador, mostra o que Jesus deixou de fazer, coisas que poderiam confirmar a existência do deus cristão para toda a humanidade e, de quebra, melhorar ao extremo a vida da humanidade.
Se você tiver cerca de 9 minutos livres, assista e reflita. O desenho é muito inteligente.
Mais um emblema da exploração trabalhista e ambiental chinesa
Após "iPobre" e HiPhone, chineses lançam SpeedPad
Quando a Apple lançou o iPod, eles responderam com o "iPobre". Daí surgiu o iPhone. E eles rebateram com HiPhone. Pois não é agora, com o anúncio do iPad, que os chineses vão deixar a peteca cair. Digam olá ao SpeedPad, tablet genérico que deve infestar pontos de compras populares como a rua Santa Ifigênia (centro de São Paulo) nos próximos meses.
O modelo PWS700HA, da companhia HiVision, foi apresentado na feira alemã de tecnologia Cebit, a maior do mundo. O produto está em exposição no "Golden Mall", área reservada a empreendedores asiáticos. No corredor do SpeedPad, também é possível encontrar pendrives e enfeites para celulares.
Prendam a respiração, porque chegou a hora da descrição técnica.
O tablet chinês tem um magro processador Samsung 6410 (800 MHz), exíguos 2G[b] para armazenamento de arquivos e memória RAM de 256 MB.
Na placa informativa, os anunciantes prometem rodar "Andriod", o que só pode ser o sistema operacional aberto do Google para dispositivos móveis, Android. No tópico "software", a empresa chinesa garante "web browser, e-mail, Google, mapa e clima".
Sua tela tem resolução de 800x480 pixels. É sensível ao toque às custas de uma tecnologia ultrapassada (resistiva). O display é menos preciso e mais barato do que o empregado no iPhone (capacitivo). A bateria dura 6 horas, mas o tempo de vida do aparelho não é informado. Em todo caso, é melhor não se apegar.
Já podem soltar o ar. O trunfo deste portátil, afinal, não é sua configuração, mas o custo. O SpeedPad deve ser lançado com preço semelhante ao do laptop da Xuxa --entre US$ 90 e US$ 100, segundo os expositores que vieram à feira. O difícil vai ser decidir com qual ficar.
Mais uma máquina precária, malfeita e barateira, provavelmente composta de produtos tóxicos, vinda das mãos de operári@s mal-pag@s e recursos naturais extraídos de forma predatória. De trabalhadoræs sob exploração intensa e descarada e empresas que desconhecem termos como ISO9001 e gestão ambiental, jamais espere máquinas de qualidade.
E, pelo visto, o regime totalitário chinês adora isso (sem ironia), uma vez que é sua indústria nacional que, às custas de ferrenha exploração trabalhista e ambiental, se propaga ao mundo, atraindo consumidoræs alienad@s que, sem querer saber da procedência, dão preferência total àquilo que custa pouco e mandam às favas os direitos humanos e trabalhistas, o meio ambiente e qualquer exigência de qualidade.
Uma coisa é verdade: se você comprar máquinas fuleiras como esse HiVision PWS700HA, estará, em prol de preço baixo, mancomunando-se com tudo o que não presta em termos de exploração trabalhista, opressão, totalitarismo e destruição ambiental.
Se e impossível boicotar a China nos dias de hoje, pelo menos é possível evitar comprar esse tipo de quinquilharia que vem a preços baratos demais. Já sabemos que foram mãos exploradas e oprimidas e produtos tóxicos e poluentes que fabricaram esse tipo de máquina barateira e sem qualidade.
É festa de rodeio! (Parte 2)
Mais um vídeo de bestas bárbaras agredindo animais num rodeio do interior de São Paulo.
Leonardo Boff fala do absurdo da usina de Belo Monte
Leonardo Boff é uma entre tantas vozes contrárias à absurda construção da usina de Belo Monte, que, se construída, irá inundar uma enorme área de floresta e desalojar comunidades ribeirinhas e indígenas. E pensar que ainda falam que a energia hidrelétrica é limpa...
Belo Monte: a volta triunfante da ditadura militar?
por Leonardo Boff, para o Correio da Cidadania
O governo Lula possui méritos inegáveis na questão social. Mas na questão ambiental é de uma inconsciência e de um atraso palmar. Ao analisar o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) temos a impressão de sermos devolvidos ao século XIX. É a mesma mentalidade que vê a natureza como mera reserva de recursos, base para alavancar projetos faraônicos, levados avante a ferro e fogo, dentro de um modelo de crescimento ultrapassado que favorece as grandes empresas à custa da depredação da natureza e da criação de muita pobreza.
Este modelo está sendo questionado no mundo inteiro por desestabilizar o planeta Terra como um todo e mesmo assim é assumido pelo PAC sem qualquer escrúpulo. A discussão com as populações afetadas e com a sociedade foi pífia. Impera a lógica autoritária; primeiro decide-se depois se convoca a audiência pública. Pois é exatamente isto que está ocorrendo com o projeto da construção da Usina Hidrelétrica de Belo Monte no rio Xingu, estado do Pará.
Tudo está sendo levado aos trambolhões, atropelando processos, ocultando o importante parecer 114/09 de dezembro de 2009, emitido pelo IBAMA (órgão que cuida das questões ambientais), contrário à construção da usina, e a opinião da maioria dos ambientalistas nacionais e internacionais que dizem ser este projeto um grave equívoco com conseqüências ambientais imprevisíveis.
O Ministério Público Federal que encaminhou processos de embargo, eventualmente levando a questão a foros internacionais, sofreu coação da Advocacia Geral da União (AGU), com o apoio público do presidente, de processar os procuradores e promotores destas ações por abuso de poder.
Carta para quem está desistindo do Brasil e querendo ir embora
Artigo escrito em julho de 2009
Esta mensagem é para você que, algum dia num passado recente ou mais distante, já falou que queria se mudar “porque o Brasil não tem mais jeito” ou algo muito parecido. É para você que, ou cotidianamente ou numa hora de desespero, tem ou teve esse desejo sedutor de encontrar paz e justiça social em uma nação do chamado Primeiro Mundo por ter se cansado de viver num país que não lhe oferece condições de viver tranquilamente.
É para todos(as) que, por verem tanta insegurança, corrupção, caos urbano, miséria, educação pública ruim e tantos outros problemas nunca resolvidos, expressam verbalmente que não aguentam mais morar no Brasil e desejariam muito ir para um país melhor que os(as) acolhesse dignamente.
Você que diz desejar sumir deste país precário e desesperançoso tem razões para pensar assim que podem ser compreendidas. Mas tem certeza de que é o melhor a se fazer? A quem você estaria ajudando se algum dia realmente emigrasse de vez por esse motivo?
Pergunto também: o que deveria acontecer para você voltar atrás da “decisão” de se mudar? Ok, a resposta mais provável é “que o Brasil se tornasse um país minimamente decente em termos de lugar para se viver e justiça social”. Mas como você espera que isso aconteça, se as duas entidades que deveriam se encarregar de torná-lo melhor não trabalham como deveriam?
Os interesses do mal (e a questão em aberto de como derrotá-los)
Artigo escrito em junho de 2009
Quem nunca ouviu falar dos “interesses de gente poderosa” que há por trás de cada uma da maioria das desgraças de origem humana? Expostos em notícias, artigos, debates e conversas como a causa de grande parte dos problemas de ordem socioambiental e animal, sua existência é inquestionável e, como são sempre nocivos ao extremo, debater formas de enfrentá-los é muito necessário apesar de difícil.
Para quase qualquer problema que for abordado numa argumentação, eles aparecerão: há “poderosos interesses políticos e econômicos” na perpetuação da miséria nos sertões do Brasil, na destruição desimpedida de ecossistemas, na manutenção de uma cultura de tortura de animais para fins de entretenimento ou científicos, no não-questionamento da ilegalidade da maconha, nas guerras que sustentam o mercado de armas, na inépcia dos mais diversos órgãos governamentais de fiscalização, no controle psicossocial promovido por igrejas e mesquitas, na manutenção da alienação sociopolítica do povo, na implantação (ou continuidade) de um controle policial na internet, na não-reforma das instituições governamentais, na precariedade da educação... Interesses que sempre levam para um mundo pior.
Eles possuem um poder de duplo sentido: enchem e/ou murcham a consciência das pessoas – podendo ser ou não as mesmas. Ora podem indignar ora paralisar todos que deles ouvem falar. Tanto levantam vozes de exortação à luta como rebaixam cidadãos efervescentes à sensação de impotência. Atraem gritos de “Basta!” e lamentos de “Não podemos fazer nada!”.
Isso acontece pelo fato de serem simultaneamente tão malignos e tão poderosos. A maldade do fato de existirem humanos interessados em que, por exemplo, tantas pessoas continuem miseráveis, famintas e mergulhadas em sofrimento indigna qualquer um que tome conhecimento da existência de tais seres. Por outro lado, quando se constata que estes possuem um vasto poder político e econômico, muitos dos indignados já desistem de lutar contra a situação adversa, alegando “impotência”, “falta de poder” e até medo.
O que a China quer dos EUA?
China diz que reunião de Obama com dalai-lama prejudica relações bilaterais
O Ministério de Relações Exteriores da China afirmou nesta sexta-feira que o encontro na véspera entre o presidente americano, Barack Obama, e o líder espiritual tibetano, dalai-lama, "prejudica gravemente" as relações entre Washington e Pequim.
Pequim também convocou o embaixador dos Estados Unidos para apresentar um protesto formal, segundo a agência oficial Xinhua.
Além disso, as autoridades do país asiático pressionaram Washington a reparar os danos produzidos pelo que chamaram de "grosseira violação das normas internacionais".
"A ação americana é uma séria interferência nos assuntos internos chineses, fere seriamente os sentimentos do povo chinês e prejudica gravemente as relações China-EUA", afirma um comunicado ministerial.
O tom duro já era esperado e refletiu as declarações de alerta antes do encontro. A China disse ainda que os EUA são responsáveis por consertar os danos nas relações.
"Os EUA devem tomar passos imediatamente para erradicar os efeitos malignos. Usar ações concretas para promover o desenvolvimento saudável e estável das relações sino-americanas", diz o texto.
Assine, contra a Lei das Religiões
O projeto de lei 160/2009, que institui a Lei das Religiões, promete tornar as coisas muito mais fáceis para pastores corruptos e para religios@s interessad@s em calar as críticas a suas igrejas e crenças.
Transcrevo o que a página do abaixo-assinado fala para você ter ideia do que estou falando:
Vimos por meio desta protestar contra o Projeto de Lei 160/2009 (Lei das Religiões), por acreditarmos que este fere diversos princípios constitucionais, entre eles a laicidade estatal e a proibição de distinções ou preferências entre brasileiros, além da isonomia. Nossos principais motivos para pedir a rejeição do projeto são os que seguem:
- O Art. 7 º, que prevê reserva de áreas no Plano Diretor dos Municípios, para que templos sejam erguidos. Consideramos que isso afronta o Art. 19, I, da Constituição, que veda a subvenção estatal de cultos religiosos ou igrejas. Subvencionar culto é concorrer de qualquer forma para que se exerça a atividade religiosa, e acreditamos que não há dúvidas de que reservar áreas do Município, portanto bens públicos, para que locais de culto sejam construídos, constitui subvenção inconstitucional de culto religioso.
Consideramos também que o dispositivo implica em profundas complicações práticas, pelo extenso número de áreas a ser reservadas para contemplar todas as religiões presentes em um Município (principalmente quando se considera que algumas denominações evangélicas necessitariam de locais próprios, por apresentarem grandes divergências entre si). Seria necessário estabelecer se o tamanho ou número de áreas seria igual para todos, ou proporcional ao número de fiéis na cidade, além do risco de gerar o entendimento de que as áreas reservadas para aquele templo seriam as únicas que eles estariam autorizados a ocupar.- O Art. 6 º, §1º, tem uma redação extremamente confusa, quando diz que '"nenhum edifício, dependência ou objeto afeto aos cultos religiosos, observando a função social da propriedade e a legislação própria, pode ser demolido,ocupado, penhorado, transportado, sujeito a obras ou destinado pelo Estado e entidades públicas a outro fim, salvo por utilidade pública ou por interesse social, na forma da lei.''
Analisando-se só a primeira parte, é um artigo redundante. Isso porque, ' 'observada a fun ção social da propriedade e a legislação vigente ' ' , nenhum bem pode ser alienado, penhorado, etc, sem a concordância de seu proprietário. Já o vocábulo salvo na segunda parte pode dar a entender que as únicas hip óteses que autorizam a alienação, penhora, etc, são a utilidade pública e o interesse social.
Interpretado dessa forma, ele é inconstitucional, pois fere o princípio da isonomia e a proibição de criar distinções ou preferencias entre brasileiros...pois impossibilitaria intervenções estatais na propriedade como a penhora em execução fiscal, e poderia eventualmente (embora consideremos improvável) gerar discussão em relação à desapropriação, já que persiste a distinção doutrinária entre utilidade pública e necessidade pública, uma hip ótese que não está expressamente mencionada no artigo. Em suma, o artigo é mal escrito, confuso, na melhor das hipóteses é desnecessário e na melhor delas é inconstitucional.
Para que servem mesmo os hinos nacionais?
Artigo escrito em fevereito de 2009
Obs.: Este artigo é dirigido não apenas para os brasileiros, mas para todos os países e povos do planeta. Traduzi-lo para outras línguas será de muito bom grado. Também não busca inferiorizar o Brasil ou qualquer outra nação em relação às demais, muito pelo contrário.
“Ouviram do Ipiranga as margens plácidas...” Quando ouço essa música, em vez de sentir “orgulho” do país, pensar na suposta superioridade ambiental do mesmo, imaginar o Brasil como potência geopolítica num futuro hipotético, começo a pensar: para que servem mesmo os hinos nacionais? Qual a contribuição deles para um mundo melhor e mais unido? A utilidade do hino, em meu pensamento, se faz fortemente questionada.
Mediante essas questões, me vem à mente a ideia de que os hinos são resquícios de uma época em que o nacionalismo, o sentimento de que seu país é superior a todos os demais, era tratado como uma virtude e um valor inquestionável – ou melhor, questionável apenas por anarquistas. Entretanto, quando se muda o ângulo da visão do mundo, da arrogância patriocêntrica à filosofia de união internacional, percebemos que os hinos nacionais são dispensáveis num mundo unido e igualitário que irreleve diferenças territoriais, étnicas e religiosas.
A opinião favorável ao hino patriótico afirma que ele é bom porque exalta os esforços, tradições e virtudes do povo, valoriza a riqueza ambiental do país e releva a identidade nacional. É muito bonita a intenção, mas e os outros povos, as outras nações? O que realmente faz tal pátria ter um povo mais esforçado e virtuoso e melhores tradições do que todas as outras? Por que temos que necessariamente crer que somos “melhores” em vez de tratar todos os povos e nações do planeta como igualmente dignos e lutadores?
Más-vindas ao Brasil
Artigo escrito em junho de 2009
Uma triste mania de muitos brasileiros é responder aos relatos de pessoas que sofreram o primeiro assalto em suas vidas, o pior engarrafamento por elas já enfrentado ou a quebra de seu carro numa estrada esburacada com as frases “Seja bem-vindo ao Brasil!” ou “Fulano, Brasil. Brasil, Fulano”. Demonstra como a população, tomada pelo conformismo, enxerga de forma banal um estado de coisas que lhe priva de direitos e até ameaça suas vidas.
Me obrigo a fazer um questionamento, cordial mas muito crítico, dessa atitude. São perguntas que soam como retóricas mas demandam explicações, esclarecimentos, respostas bem-explicadas do povo. Eis minhas perguntas então.
Por que, em vez de “boas-vindas” irônicas, não podemos ter acesso ao prazer de dar saudações sinceras a um país receptivo que trata bem seus habitantes? Por que as únicas boas-vindas que nada escondem da realidade brasileira têm que ser uma ironia, têm que ser “más-vindas” invertidas?
Quando relatei oralmente, em 2008, o primeiro assalto que sofri na vida, acontecido pouco tempo antes, me disseram “bem-vindo ao Brasil”. A essas pessoas, pergunto: bem-vindo aonde? A um país em que ninguém fora pessoas engajadas em turismo pode dar sinceras saudações a quem não sentiu na pele o “custo Brasil” da vida urbana? A um lugar onde os direitos à vida e à segurança corporal e material não são inalienáveis na prática?
Por que, aliás, se dá essas “boas vindas”? Por que temos que ironizar com nossa situação? A resposta mais provável é que esse seria uma ironia carregada de crítica ao estado de coisas do país, mas o dizer parece mais uma demonstração de conformismo e um atestado de que a violência, a miséria e o caos são inerentes à existência – ou à essência – do Brasil e por isso irreversíveis.
Por que "Bem-vindo ao Brasil" tem que ser necessariamente "Bem-vindo à realidade cheia de violência, miséria, descaso e alienação"? É para o Brasil ser assim mesmo, um país violento incapaz de tutelar com dignidade seus habitantes e de dar boas-vindas sinceras a turistas? Se é, por quê? Se não é, por que não se muda a situação?
As respostas mais frequentes dadas à última pergunta acusam a inépcia do governo e a paralisia da maioria das políticas públicas sociais pela corrupção que corrói as verbas a elas destinadas. Mas essa não é uma resposta total. O povo que me desculpe, mas grande parte da culpa está também nele mesmo.
Pergunto: por que você, ó povo, não se empenha? Por que, embora lance mão de tal ironia para criticar a situação de seu país, não pensa em mudá-la? Por que exterioriza apenas críticas e desejos verbalizados, quase nunca ações? Aliás, por que tais críticas não se transformam em protestos?
Há muitas perguntas mais a serem feitas à população sobre o porquê de dizer “Bem-vindo ao Brasil”. Talvez tantas quanto num Novo ENEM. Respostas serão muito bem-vindas, mas a preferência maior, retificando o que falei no segundo parágrafo, é que haja reflexões seguidas de ações. Porque um país que me dá “boas vindas” porque fui assaltado não está demonstrando decência e está sim requerendo conserto. Um conserto que não vai acontecer só com gente dando a pessoas desafortunadas essas “más-vindas” ao Brasil.
Humanitarismo é a desculpa para o ensaio do Big Stick no Haiti
EUA preveem ter 20 mil soldados no Haiti e negam ocupação do país
O secretário de Estado adjunto para a América Latina, Arturo Valenzuela [Curiosidade inútil: quase um anagrama de Venezuela], afirmou nesta sexta-feira que os Estados Unidos "respeitam a soberania" do Haiti e que as críticas ao seu protagonismo no atendimento às vítimas do terremoto que devastou Porto Príncipe "são simplesmente erradas". Com previsão de ter 20 mil militares americanos no Haiti até o próximo domingo, ele disse que os EUA trabalham em colaboração com as forças das Nações Unidas e com o governo local.
"Os EUA respeitam a soberania do Haiti. Estamos ali porque os haitianos nos convidaram, nos pediram, e temos uma responsabilidade moral como comunidade internacional de ajudar esse país", disse Valenzuela à imprensa após um fórum organizado pela Câmara de Comércio americana.
Sem mencionar os países que também acusam os EUA de "invadir" o Haiti, Valenzuela indicou que se trata de uma "crítica simplesmente errada, que provavelmente ignora a realidade".
Perguntas indiscretas (Parte 11, sobre o Haiti)
Minhas perguntas que não querem calar do momento são:
- O Haiti pode entrar na ONU com pedido de indenização contra os países que o boicotaram no século 19?
- Pode cobrar da França a devolução, corrigida para valores atuais, da criminosa "indenização" que lhe foi cobrada no mesmo século (e que se destinava a ressarcir senhores de escravos e latifundiários)?
Se a resposta for sim, fazer isso tornaria o Haiti um pouco mais digno perante o mundo e a sua história.
Resenha: Febeapá – O Festival de Besteira que Assola o País
Para quem gosta de crônicas, humor politizado e história brasileira contemporânea, o livro de Stanislaw Ponte Preta (pseudônimo de Sérgio Porto) é um prato cheio e delicioso. Esse livro, escrito em plena ditadura militar – mas antes do AI-5 –, soube bem como tirar sarro dos atos mais estúpidos e arbitrários do regime autoritário em seus primeiros anos e também mostrar que a vida do povão na época, mesmo politicamente reprimida e controlada pelos militares, era em tantas ocasiões agitada e engraçada.
O livro inicia-se com 25 páginas contendo um sem-número de anedotas envolvendo trapalhadas crassas da polícia, da DOPS, das Forças Armadas e de políticos, expostas como verídicas. São fatos ocorridos entre 1964 e 1966, em que se destaca a polícia querendo prender Sófocles, morto em 406 A.E.C. e autor da peça teatral “Electra”. É um humor político bastante refinado, que não chegou a defender a restauração do governo civil mas estabeleceu críticas à atuação dos militares num nível que não despertasse a repressão à sua pessoa e obra.
Em seguida, é a vez das crônicas dirigidas à crítica humorística das autoridades políticas e policiais. Com extensão de duas páginas cada, elas novamente nos levam a rir muito daquele poder público autoritário, tão raivoso mas tão patético. Novamente Stanislaw leva o lado risível do poder público da época às últimas consequências: a risada intensa de quem lê. Mesmo hoje, mais de 40 anos depois da publicação do Febeapá, continuamos rindo muito, e vemos como o caráter paquidérmico dos nossos governos federais e estaduais vêm desde muito tempo atrás.
Nessa primeira parte, que abrange as anedotas e as crônicas das autoridades, os comportamentos mais atacados foram a mania da população de chamar uns aos outros de “subversivos” e “comunistas” quando algo que não gostavam acontecesse; obsessão repressiva da DOPS e da polícia militar, que queriam prender autores teatrais que já haviam morrido muitos anos antes, apreendiam até liquidificadores e fechavam até creches sob acusação de subversão; e o moralismo extremo que tentava impedir a popularização das liberdades femininas em usar minissaias, vestidos decotados, exibir as pernas e outros hábitos novos.
Na segunda parte, entra em cena a vida cotidiana do povão brasileiro, de todas as regiões do país. Os 40 contos abordam fatos também anunciados como reais e a maioria deles, pelo que podemos notar, dá alguma cutucada na autoridade política da época com rápidas referências a pessoas ou entidades de poder. É uma comédia da vida privada o que Stanislaw mostra.
O humor é constante até o antepenúltimo conto. Os dois últimos são sérios: um fala de reservar o “coração suplementar”, invento médico-tecnológico da época, para os problemas cotidianos enquanto nosso coração principal fosse reservado aos sentimentos e o último narra uma tragédia em que um mendigo afronta a polícia repressora e moralista e acaba morto. É um protesto contra o moralismo exacerbado que podia até matar e a coerção estatal que desrespeitava completamente os direitos individuais e liberdades das pessoas.
O Febeapá é uma das obras literárias que melhor escancaram o “país da piada pronta” que o Brasil é pelo menos desde a distante década de 60. Para quem quer um humor histórico, sociológico e político, o livro é excelente, e ainda torna-se mais valoroso pela coragem que Stanislaw manifestou em escrevê-lo cheio de críticas ao risível poder ditatorial opressor que dominava o Brasil em sua época. É uma pena que ele faleceria não muito tempo depois, deixando saudades enormes no humor brasileiro.
Resenha do documentário The Corporation
The Corporation (2003) cumpriu bem seu papel de alertar os olhos dos telespectadores quanto ao papel vilânico exercido por grande parte das maiores empresas multinacionais do mundo. Desmascarou os monstros – ou melhor, as entidades psicopatas, como o documentário “diagnostica” – escondidos atrás dos(as) simpáticos(as) garotos(as)-propaganda. Entretanto, tropeçou ao limitar a abordagem de certos assuntos críticos, ao deixar de abordar mais profundamente esperanças e soluções e ao direcionar os sentimentos da audiência com uma habilidade limitada e falha.
Para quem não assistiu ainda ou quer se lembrar “do que é que falava mesmo”, o filme se divide em vários blocos que contam tópicos como:
- a história do poder abusivo das corporações, quando aproveitou a 14ª emenda da Constituição norteamericana para adquirir direitos de pessoa física;
- a imoralidade ou amoralidade do exercício do poder empresarial, a falta de ética;
- os baixíssimos salários oferecidos a empregados em países pobres;
- as indenizações que foram obrigadas a pagar e o fato de as mesmas serem tratadas como custos adicionais que podem ser arcados;
- o uso de substâncias tóxicas na pecuária;
- os danos ambientais de muitos empreendimentos;
- as tentativas – muitas bem-sucedidas – de apoderamento do “direito” de obter patente em cima de espécies de seres vivos transgênicos;
- o mau-caratismo das estratégias de incremento da preferência consumista infantil;
- a hipocrisia da (suposta) responsabilidade social;
- o poder sedutor da propaganda;
- a venda de valores sociais e de desejos;
- o poder de manipulação política, incluindo a superação do poder aos próprios políticos;
- as intimidações aos meios de comunicação e a quem quer denunciar os abusos corporativos;
- a aliança empresarial com governos totalitários;
- a tentativa de golpe de Estado contra Franklin Roosevelt;
- as tentativas de privatizar recursos naturais e o direito ao usufruto dos mesmos em outros países.
The Corporation mexe muito, muito mesmo, com os sentimentos de quem assiste, desde os iniciantes no pensamento consciente, que querem deixar a alienação que marcava suas vidas até pouco tempo atrás, até os mais ativistas. As reações são variadas: embora em alguns poucos momentos lance mão de cenas que fazem rir por uns segundos, o caráter alarmista provoca desde a desilusão com muitas marcas muito consumidas até o mórbido desejo de que os CEOs e diretores das gigaempresas fossem todos mortos.
Como denunciante do inferno que existe atrás da fachada “celestial” da publicidade, como flagrante das inúmeras atrocidades cometidas em nome do lucro alto, o filme cumpre bem a função. Abre os olhos de muitas pessoas que até certo momento nutriam sonhos capitalistas, sonhos de consumo, sonhos de um futuro como gigaempresário(a). Revela que produtos de muitas marcas têm crime, morte e destruição entre seus ingredientes.
Cumpre seu objetivo, mas a strictu sensu. Exerce mal a segunda parte do processo de conscientização anticorporativa: mostrar soluções e como cada pessoa pode proceder, individual ou coletivamente, para derrubar os superpoderes malignos das corporações.
Restringe-se a mostrar de forma vaga que “um mundo melhor, sem o mal corporativo, é possível”, num discurso que lembra mais os sonhos de um adolescente de 17 anos que tenta uma vaga numa faculdade de jornalismo do que o levantamento de possibilidades claras e estratégias consistentes de como, por exemplo, consumir eticamente e contribuir para que o megaempresariado passe a pensar duas vezes antes de agir como demônios.
Embora tivesse feito (breves) referências a questões como defesa da democracia, manifestações, boicotes, união popular e prestação de contas, várias perguntas ficaram em aberto para quem, após o filme, passou a interessar-se mais pela luta por um mundo livre de corporações “demoníacas”: Como organizar campanhas de boicote? Como acordar uma parte significativa da população urbana regional ou nacional de modo que haja possibilidade de haver ativismo anticorporativo em massa? Como impedir uma decisão política que, por exemplo, determine uma privatização absurda? Como impedir que uma empresa nacional em ascensão, prestes a alcançar a multinacionalidade, saia da linha e se torne mais uma “corporação do mal”? Como se opor a abusos éticos como o patenteamento sobre seres vivos ou códigos genéticos? Como contribuir individualmente para ajudar a derrubar a crueldade capitalista?
Exemplos como a oposição dos agricultores indianos à patente imposta ao arroz basmati ainda foram dados, mas no geral faltou uma maior ênfase em casos bem-sucedidos das mais variadas formas de oposição aos abusos capitalistas – faltando inclusive exemplificar campanhas de boicote que alcançaram sucesso.
E, acima de tudo, faltou a proposição de um debate global sobre como suplantar a estrutura capitalista-corporativa atual e lançar um sistema econômico sustentável, ético, respeitável e socialmente conveniente. Nos mais marxistas, essa falta de alternativa sistemática acirra o desejo de promover um estouro revolucionário socialista, proposta que a História já comprovou ser um fracasso.
Essa limitação no apontamento de soluções terminou causando um atropelo nos sentimentos das pessoas que guardavam esperanças de que o filme apontasse soluções de forma pragmática e desse o pontapé para que se começassem articulações de militância.
Considerando que em certo momento, antes dessa fraca exposição de saídas, foi dada a impressão de que as corporações venceram definitivamente, que não há mais soluções para salvar o planeta, que tentativas de ativismo serão vãs e que o mundo está perto de entrar em colapso irreversível, houve uma condução um tanto atrapalhada das emoções dos telespectadores. O mais provável foi que esse fortíssimo toque passional não havia sido previsto pelos produtores do documentário.
Essa falha na canalização emocional, ao ver de alguns, tem potencial de despertar em algumas pessoas de pensamento ideológico mais passional uma explosão psicológica de revolta, desespero por encaração de um problema sem soluções definitivas à vista e até ímpetos coléricos de revolucionismo para quem ainda vê o ideal comunista como única “alternativa” à crueldade capitalista.
Outra falha importante foi a exclusão de alguns assuntos fundamentais, no mínimo dois: os Direitos Animais e o poder da educação. A questão animal ficou limitada à exposição do problema dos hormônios e drogas aplicados em vacas e na intoxicação do leite, aliás, uma abordagem muito bem-estarista, restrita à denúncia dos danos bioquímicos ao organismo daqueles animais. A vivissecção ficou como promessa descumprida.
Não houve debates sobre as muitas outras crueldades praticadas pela pecuária ou pela prática de testes de produtos em bichos, nem uma abordagem ética da coisificação e comercialização de animais não-humanos. O veganismo, visto e compreendido por um número crescente de cidadã(o)s como uma das atitudes mais praticáveis e eficientes de oposição a abusos corporativos no que tange à ética animal e ao meio ambiente, sequer foi mencionado no filme.
A educação também quase não entrou na história. Aliás, foi ainda menos perceptível do que os animais. Ficamos sem saber se as “corporações do mal” também estão interferindo na educação escolar ao redor do mundo e se/como as escolas estão lidando com a perversão consumista induzida nas crianças. Uma das grandes esperanças de salvação para as sociedades mundiais, a formação estudantil de pessoas conscientes e resistentes à tentação publicitária, terminou esquecida.
Passando da época do The Corporation, primeira metade da década de 2000, a hoje, final da década, nos vemos no desejo necessitado de assistir a um “The Corporation 2”. O mesmo poderia abranger questões como o agronegócio e suas implicações catastróficas no meio ambiente, a situação da China e do Sudeste Asiático, onde uma versão ainda mais monstruosa do capitalismo encontrou moradia, e enfim a ética animal, além de observar o impacto da crise econômica global de 2008-2009, que aconteceu como uma explosão no sistema capitalista-corporativo mundial, analisar se houve algo de bom nesse quase-quebra-quebra.
E também, a sugerida continuação poderia abordar muitíssimo melhor as soluções possíveis para derrubar o poder megalomaníaco e cruel das corporações. Que venha falando de boicotes que deram certo, do movimento vegano, de manifestações que proporcionaram a expulsão de uma ou mais megaempresas de determinado(s) país(es), etc. Que analise se a ascensão de governos como o de Evo Morales – eleito na mesma Bolívia onde outrora tentaram privatizar a água – é algo positivo para a humanidade, para as esperanças de reação contra os poderes abusivos das multinacionais.
Se eu desse uma nota ao documentário, daria 6 – passaria de ano ainda, ainda que “na agulha” –, vistas as limitações e ausências descritas mais acima e a consequente incompletude do trabalho de conscientização. Não adianta gritar: “Ei! As corporações são monstruosas e o capitalismo é cruel! Abram os olhos!” e não dar soluções claras ou ao menos uma convocação geral a um debate global. O filme cumpriu o objetivo principal, mas de forma muito limitada. Que venha um “The Corporation 2” para terminar o serviço, que, convenhamos, foi muito nobre e bem-intencionado apesar das faltas.










