O apodrecido centro do Recife
Artigo publicado em julho de 2009
Recife tem muitas bonitas e elogiáveis atrações turísticas, como a praia de Boa Viagem, o Recife Antigo, o Carnaval e tantas outras. Mas seu centro, ao contrário, é definitivamente uma repulsão tanto para turistas como para habitantes da cidade. Juntamente com as inúmeras favelas, aquele lugar é uma das maiores vergonhas urbanas e sociais recifenses.
É basicamente nessas duas categorias de aspectos – urbanismo e questão social – que se dividem os inúmeros problemas do apodrecido velho centro. Em ambos os quesitos, os bairros da área padecem lamentavelmente e causam a vergonha dos(as) cidadã(o)s.
Andando pelas avenidas Dantas Barreto, Guararapes e Conde da Boa Vista e ruas adjacentes, vias mais importantes, é perceptível o estado de decadência física e social daquele ambiente.
Se chegamos à Avenida Dantas Barreto pela Avenida Sul, somos recebidos por construções sem manutenção, mal conservadas, consumidas pelo tempo. Muitas delas são antigas, dignas de se tornar parte do patrimônio histórico tombado, e nunca são revitalizadas. Também são marcantes a extrema desorganização do comércio ambulante, que o Camelódromo não conseguiu disciplinar. Também marcam aquela via a mendicância intensa e a enorme chance de aparecerem marginais, desde trombadinhas até gente armada, e beneficiados pela ausência da polícia e prontos para roubar dinheiro e objetos de valor dos(as) transeuntes.
Resenha: Febeapá – O Festival de Besteira que Assola o País
Para quem gosta de crônicas, humor politizado e história brasileira contemporânea, o livro de Stanislaw Ponte Preta (pseudônimo de Sérgio Porto) é um prato cheio e delicioso. Esse livro, escrito em plena ditadura militar – mas antes do AI-5 –, soube bem como tirar sarro dos atos mais estúpidos e arbitrários do regime autoritário em seus primeiros anos e também mostrar que a vida do povão na época, mesmo politicamente reprimida e controlada pelos militares, era em tantas ocasiões agitada e engraçada.
O livro inicia-se com 25 páginas contendo um sem-número de anedotas envolvendo trapalhadas crassas da polícia, da DOPS, das Forças Armadas e de políticos, expostas como verídicas. São fatos ocorridos entre 1964 e 1966, em que se destaca a polícia querendo prender Sófocles, morto em 406 A.E.C. e autor da peça teatral “Electra”. É um humor político bastante refinado, que não chegou a defender a restauração do governo civil mas estabeleceu críticas à atuação dos militares num nível que não despertasse a repressão à sua pessoa e obra.
Em seguida, é a vez das crônicas dirigidas à crítica humorística das autoridades políticas e policiais. Com extensão de duas páginas cada, elas novamente nos levam a rir muito daquele poder público autoritário, tão raivoso mas tão patético. Novamente Stanislaw leva o lado risível do poder público da época às últimas consequências: a risada intensa de quem lê. Mesmo hoje, mais de 40 anos depois da publicação do Febeapá, continuamos rindo muito, e vemos como o caráter paquidérmico dos nossos governos federais e estaduais vêm desde muito tempo atrás.
Nessa primeira parte, que abrange as anedotas e as crônicas das autoridades, os comportamentos mais atacados foram a mania da população de chamar uns aos outros de “subversivos” e “comunistas” quando algo que não gostavam acontecesse; obsessão repressiva da DOPS e da polícia militar, que queriam prender autores teatrais que já haviam morrido muitos anos antes, apreendiam até liquidificadores e fechavam até creches sob acusação de subversão; e o moralismo extremo que tentava impedir a popularização das liberdades femininas em usar minissaias, vestidos decotados, exibir as pernas e outros hábitos novos.
Na segunda parte, entra em cena a vida cotidiana do povão brasileiro, de todas as regiões do país. Os 40 contos abordam fatos também anunciados como reais e a maioria deles, pelo que podemos notar, dá alguma cutucada na autoridade política da época com rápidas referências a pessoas ou entidades de poder. É uma comédia da vida privada o que Stanislaw mostra.
O humor é constante até o antepenúltimo conto. Os dois últimos são sérios: um fala de reservar o “coração suplementar”, invento médico-tecnológico da época, para os problemas cotidianos enquanto nosso coração principal fosse reservado aos sentimentos e o último narra uma tragédia em que um mendigo afronta a polícia repressora e moralista e acaba morto. É um protesto contra o moralismo exacerbado que podia até matar e a coerção estatal que desrespeitava completamente os direitos individuais e liberdades das pessoas.
O Febeapá é uma das obras literárias que melhor escancaram o “país da piada pronta” que o Brasil é pelo menos desde a distante década de 60. Para quem quer um humor histórico, sociológico e político, o livro é excelente, e ainda torna-se mais valoroso pela coragem que Stanislaw manifestou em escrevê-lo cheio de críticas ao risível poder ditatorial opressor que dominava o Brasil em sua época. É uma pena que ele faleceria não muito tempo depois, deixando saudades enormes no humor brasileiro.
Resenha do documentário The Corporation
The Corporation (2003) cumpriu bem seu papel de alertar os olhos dos telespectadores quanto ao papel vilânico exercido por grande parte das maiores empresas multinacionais do mundo. Desmascarou os monstros – ou melhor, as entidades psicopatas, como o documentário “diagnostica” – escondidos atrás dos(as) simpáticos(as) garotos(as)-propaganda. Entretanto, tropeçou ao limitar a abordagem de certos assuntos críticos, ao deixar de abordar mais profundamente esperanças e soluções e ao direcionar os sentimentos da audiência com uma habilidade limitada e falha.
Para quem não assistiu ainda ou quer se lembrar “do que é que falava mesmo”, o filme se divide em vários blocos que contam tópicos como:
- a história do poder abusivo das corporações, quando aproveitou a 14ª emenda da Constituição norteamericana para adquirir direitos de pessoa física;
- a imoralidade ou amoralidade do exercício do poder empresarial, a falta de ética;
- os baixíssimos salários oferecidos a empregados em países pobres;
- as indenizações que foram obrigadas a pagar e o fato de as mesmas serem tratadas como custos adicionais que podem ser arcados;
- o uso de substâncias tóxicas na pecuária;
- os danos ambientais de muitos empreendimentos;
- as tentativas – muitas bem-sucedidas – de apoderamento do “direito” de obter patente em cima de espécies de seres vivos transgênicos;
- o mau-caratismo das estratégias de incremento da preferência consumista infantil;
- a hipocrisia da (suposta) responsabilidade social;
- o poder sedutor da propaganda;
- a venda de valores sociais e de desejos;
- o poder de manipulação política, incluindo a superação do poder aos próprios políticos;
- as intimidações aos meios de comunicação e a quem quer denunciar os abusos corporativos;
- a aliança empresarial com governos totalitários;
- a tentativa de golpe de Estado contra Franklin Roosevelt;
- as tentativas de privatizar recursos naturais e o direito ao usufruto dos mesmos em outros países.
The Corporation mexe muito, muito mesmo, com os sentimentos de quem assiste, desde os iniciantes no pensamento consciente, que querem deixar a alienação que marcava suas vidas até pouco tempo atrás, até os mais ativistas. As reações são variadas: embora em alguns poucos momentos lance mão de cenas que fazem rir por uns segundos, o caráter alarmista provoca desde a desilusão com muitas marcas muito consumidas até o mórbido desejo de que os CEOs e diretores das gigaempresas fossem todos mortos.
Como denunciante do inferno que existe atrás da fachada “celestial” da publicidade, como flagrante das inúmeras atrocidades cometidas em nome do lucro alto, o filme cumpre bem a função. Abre os olhos de muitas pessoas que até certo momento nutriam sonhos capitalistas, sonhos de consumo, sonhos de um futuro como gigaempresário(a). Revela que produtos de muitas marcas têm crime, morte e destruição entre seus ingredientes.
Cumpre seu objetivo, mas a strictu sensu. Exerce mal a segunda parte do processo de conscientização anticorporativa: mostrar soluções e como cada pessoa pode proceder, individual ou coletivamente, para derrubar os superpoderes malignos das corporações.
Restringe-se a mostrar de forma vaga que “um mundo melhor, sem o mal corporativo, é possível”, num discurso que lembra mais os sonhos de um adolescente de 17 anos que tenta uma vaga numa faculdade de jornalismo do que o levantamento de possibilidades claras e estratégias consistentes de como, por exemplo, consumir eticamente e contribuir para que o megaempresariado passe a pensar duas vezes antes de agir como demônios.
Embora tivesse feito (breves) referências a questões como defesa da democracia, manifestações, boicotes, união popular e prestação de contas, várias perguntas ficaram em aberto para quem, após o filme, passou a interessar-se mais pela luta por um mundo livre de corporações “demoníacas”: Como organizar campanhas de boicote? Como acordar uma parte significativa da população urbana regional ou nacional de modo que haja possibilidade de haver ativismo anticorporativo em massa? Como impedir uma decisão política que, por exemplo, determine uma privatização absurda? Como impedir que uma empresa nacional em ascensão, prestes a alcançar a multinacionalidade, saia da linha e se torne mais uma “corporação do mal”? Como se opor a abusos éticos como o patenteamento sobre seres vivos ou códigos genéticos? Como contribuir individualmente para ajudar a derrubar a crueldade capitalista?
Exemplos como a oposição dos agricultores indianos à patente imposta ao arroz basmati ainda foram dados, mas no geral faltou uma maior ênfase em casos bem-sucedidos das mais variadas formas de oposição aos abusos capitalistas – faltando inclusive exemplificar campanhas de boicote que alcançaram sucesso.
E, acima de tudo, faltou a proposição de um debate global sobre como suplantar a estrutura capitalista-corporativa atual e lançar um sistema econômico sustentável, ético, respeitável e socialmente conveniente. Nos mais marxistas, essa falta de alternativa sistemática acirra o desejo de promover um estouro revolucionário socialista, proposta que a História já comprovou ser um fracasso.
Essa limitação no apontamento de soluções terminou causando um atropelo nos sentimentos das pessoas que guardavam esperanças de que o filme apontasse soluções de forma pragmática e desse o pontapé para que se começassem articulações de militância.
Considerando que em certo momento, antes dessa fraca exposição de saídas, foi dada a impressão de que as corporações venceram definitivamente, que não há mais soluções para salvar o planeta, que tentativas de ativismo serão vãs e que o mundo está perto de entrar em colapso irreversível, houve uma condução um tanto atrapalhada das emoções dos telespectadores. O mais provável foi que esse fortíssimo toque passional não havia sido previsto pelos produtores do documentário.
Essa falha na canalização emocional, ao ver de alguns, tem potencial de despertar em algumas pessoas de pensamento ideológico mais passional uma explosão psicológica de revolta, desespero por encaração de um problema sem soluções definitivas à vista e até ímpetos coléricos de revolucionismo para quem ainda vê o ideal comunista como única “alternativa” à crueldade capitalista.
Outra falha importante foi a exclusão de alguns assuntos fundamentais, no mínimo dois: os Direitos Animais e o poder da educação. A questão animal ficou limitada à exposição do problema dos hormônios e drogas aplicados em vacas e na intoxicação do leite, aliás, uma abordagem muito bem-estarista, restrita à denúncia dos danos bioquímicos ao organismo daqueles animais. A vivissecção ficou como promessa descumprida.
Não houve debates sobre as muitas outras crueldades praticadas pela pecuária ou pela prática de testes de produtos em bichos, nem uma abordagem ética da coisificação e comercialização de animais não-humanos. O veganismo, visto e compreendido por um número crescente de cidadã(o)s como uma das atitudes mais praticáveis e eficientes de oposição a abusos corporativos no que tange à ética animal e ao meio ambiente, sequer foi mencionado no filme.
A educação também quase não entrou na história. Aliás, foi ainda menos perceptível do que os animais. Ficamos sem saber se as “corporações do mal” também estão interferindo na educação escolar ao redor do mundo e se/como as escolas estão lidando com a perversão consumista induzida nas crianças. Uma das grandes esperanças de salvação para as sociedades mundiais, a formação estudantil de pessoas conscientes e resistentes à tentação publicitária, terminou esquecida.
Passando da época do The Corporation, primeira metade da década de 2000, a hoje, final da década, nos vemos no desejo necessitado de assistir a um “The Corporation 2”. O mesmo poderia abranger questões como o agronegócio e suas implicações catastróficas no meio ambiente, a situação da China e do Sudeste Asiático, onde uma versão ainda mais monstruosa do capitalismo encontrou moradia, e enfim a ética animal, além de observar o impacto da crise econômica global de 2008-2009, que aconteceu como uma explosão no sistema capitalista-corporativo mundial, analisar se houve algo de bom nesse quase-quebra-quebra.
E também, a sugerida continuação poderia abordar muitíssimo melhor as soluções possíveis para derrubar o poder megalomaníaco e cruel das corporações. Que venha falando de boicotes que deram certo, do movimento vegano, de manifestações que proporcionaram a expulsão de uma ou mais megaempresas de determinado(s) país(es), etc. Que analise se a ascensão de governos como o de Evo Morales – eleito na mesma Bolívia onde outrora tentaram privatizar a água – é algo positivo para a humanidade, para as esperanças de reação contra os poderes abusivos das multinacionais.
Se eu desse uma nota ao documentário, daria 6 – passaria de ano ainda, ainda que “na agulha” –, vistas as limitações e ausências descritas mais acima e a consequente incompletude do trabalho de conscientização. Não adianta gritar: “Ei! As corporações são monstruosas e o capitalismo é cruel! Abram os olhos!” e não dar soluções claras ou ao menos uma convocação geral a um debate global. O filme cumpriu o objetivo principal, mas de forma muito limitada. Que venha um “The Corporation 2” para terminar o serviço, que, convenhamos, foi muito nobre e bem-intencionado apesar das faltas.








