Arauto da Consciência

Frase da semana (25-31/07)

Postado em 25/07/2010 à/s 23:09

"pq *** nao bate com a carro.. cai de moto..e quebra uma perna..
rompe algum ligamento.. o cruzado anterior ou o posterior.. ou os dois logo.
PQPPPPPPPPPPPPPPPPPPP e muito ruim!!!"
Torcedor de um time de futebol (time cujo nome não vou revelar), descarregando sua raiva no Orkut, furioso com um jogador (também cujo nome não revelo) atualmente muito execrado entre a torcida de seu time por estar jogando muito mal

É impressionante como um mero jogo de bola, como o futebol, consegue despertar tanta raiva, a tal ponto que um indivíduo torcedor passa a desejar todo o mal do mundo para um esportista em má fase.

De sua realidade original, como um divertido esporte onde atletas jogavam em clima de confraternização, com a torcida bem-vestida levando seus filhos e filhas, em jogos nos quais mesmo a maior goleada terminava em paz entre as torcidas e o sentimento nas mesmas de que "Que bom que meu time ganhou (ou que pena que o meu time perdeu), mas tudo bem, é só um jogo"...

...a uma transtornada realidade onde cada jogo desperta emoções enlouquecidas para o bem ou para o mal, onde o jogador que joga mal invoca na torcida as mais violentas imagens mentais, onde perder diversas vezes seguidas é considerado um crime hediondo e ser rebaixado de divisão (no campeonato estadual ou nacional) é uma tragédia quase comparável à morte.

Fala-se hoje de "jogo de vida ou morte", "jogadores guerreiros", "Batalha dos Aflitos" (a partida em que o Náutico perdeu para o Grêmio em 2005 e por isso permaneceu mais um ano na Série B), "guerra"... Tudo isso para um jogo de bola besta, mas com simbologias culturais extremamente infla(ma)das. E ainda tem gente que leva os jargões bélicos usados no futebol ao pé da letra, o que origina a violência entre torcidas, seja dentro, seja fora dos estádios.

O futebol deixou de ser um esporte de entretenimento e passou a ser um exaltador cultural de emoções explosivas. E isso infelizmente é parte integrante da sociedade brasileira (e de diversos outros países, até de europeus, onde há ou havia torcidas violentas como os hooligans ingleses e os racistas de alguns países de lá) de hoje.

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Frase da semana (21-27/06)

Postado em 21/06/2010 à/s 14:09

"Cada coisa desse tipo que vejo tenho mais vontade de fazer outra faculdade.Sou licenciada em biologia mas me arrependo muito por ter feito uma licenciatura.Trabalho os tres expedientes para conseguir uma faixa salarial de 2 mil reais como professora.Estou morrendo,me desgastando…pra mim é quase um martirio ir forçar a barra com aquelas criaturas que nao tem respeito nenhum por mim.Tenho nojo.Eu so tenho 27 anos porra!!!naum tenho filhos e ODEIO SER PROFESSORA COM TODAS AS MINHA FORÇAS…e o sistema educacional, eu nem preciso falar né? um fiasco!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!eu tenho fé que um dia professor va entrar em extinção!!!ninguem merece naum…sinceramente ainda tem doido que gosta dessa vida de semi escravidao!!!" Professora revoltada (e arrependida) comentando no Arauto da Consciência, expondo o calvário que é ser professor/a da educação básica no Brasil

O desabafo da mestre escancara a forma como o Brasil trata a profissão que considero a mais nobre da sociedade ocidental: com desrespeito, com ridicularização moral e salarial, com desprezo, com violência moral, psicológica e até física.

Cada pessoa deveria reservar, por um mínimo de cidadania, um momento para sentir a vergonha, o remorso de pertencer a uma sociedade que trata seus/suas mestres quase pior que bandid@s, a tal ponto que professoræs como a autora do comentário acima abandonam o amor à profissão, o orgulho de pertencer a uma classe profissional cuja função maior é formar cidadã/o/s, pensadoræs e cientistas (mais que entregar pessoas capacitadas para o mercado de trabalho, eticamente falando) e passam a sentir ódio e arrependimento por ter escolhido seguir tal profissão, tamanhos são os problemas e inconvenientes que nosso país impõe para quem tenta ensinar.

P.S: A burrice e malignidade que motivam este post estar rotulado na categoria de mesmo nome são não da professora revoltada, mas do Brasil que maltrata seus/suas professoræs.

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Livro infantil faz apologia ao aprisionamento de pássaros

Postado em 18/05/2010 à/s 13:05

Luciene Cardoso, colunista da ANDA, denuncia um livro infantil que faz apologia descarada ao aprisionamento de pássaros, dando a entender que pássaros podem ser felizes mesmo presos e um tratamento de bem-estar pode tornar aceitável o confinamento de aves em gaiolas.

Competência literária versus incompetência ética
por Luciene Cardoso, na ANDA

Desde que comecei a escrever para esta coluna, muitos livros infantis vêm cair em minhas mãos. Tenho na medida do possível analisado os livros para um possível comentário aqui. Dentre esses livros, me deparei com um que me pareceu especial. O que me chamou a atenção em primeiro lugar foi a autora. Trata-se de uma das maiores escritoras de livros infantis que conheço: Tatiana Belinky. Outra coisa que me fez atentar para ele foi a ilustração da capa: uma menina segurando uma gaiola, com um lindo passarinho amarelo dentro dela. Logo imaginei tratar-se de uma crítica às prisões que são impostas aos pobres pássaros privados de seu maior poder: o de voar.

O livro é Stanislau, publicado pela editora Ática, indicado, segundo a editora, para crianças a partir de quatro anos.

Comecei a ler o livro e meu julgamento inicial foi logo se desfazendo. Percebi como a genialidade de uma autora é capaz de envolver uma criança até para embutir nela conceitos errados.  A história começa apelando para a vontade de toda criança em ter um bichinho de estimação. A pequena Nica faz aniversário e ganha de sua tia Regina um lindo canário em uma gaiola. Nem precisa dizer que foi o presente de que a menina mais gostou. A partir daí Tatiana Belinky vai descrevendo com muita competência a relação de amizade entre os dois.

A menina trata muito bem seu novo amiguinho, limpa sua gaiola, troca a água do bebedouro, lhe dá vitamina e alpiste. Stanislau, que foi o nome escolhido pela menina, agradece todo esse carinho, cantando e se balançando no poleiro. E assim segue o livro contando como os dois são felizes juntos. Até que um dia uma vizinha implicante dá uma dura na menina dizendo que passarinho não é para ficar preso e que ele foi feito para voar livre. Nesse momento imaginei que o rumo da história mudaria e, enfim, o bom senso prevaleceria. Afinal uma autora que eu admiro tanto não poderia me decepcionar. Mas foi exatamente o que aconteceu. A fala da tal vizinha ficou na cabeça de Nica e ela até pensou que a mulher poderia ter razão. Foi então que o inesperado aconteceu.

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Desafio às mulheres

Postado em 10/03/2010 à/s 19:04

Na chamada Semana da Mulher, lanço um desafio àquelas que ainda falam ou escrevem, com naturalidade e sem nenhum constrangimento, "o homem" como sinônimo de ser humano ou humanidade. Na verdade são dois:

1. Desafio-as a, num discurso, falar "Nós, os homens, ..." ou "Nós homens ..."

2. Desafio-as a falar ou escrever sem nenhum constrangimento: Eu sou um homem!

Para quem estranhar: ué, vocês não consideram a palavra "homem" sinônimo de "ser humano"?

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Sensacionalixo (Parte 2: o tsunami do JC)

Postado em 09/03/2010 à/s 12:34

Pela segunda semana seguida um jornalão pernambucano traz uma quase-barriga (barriga é uma notícia não confirmada ou simplesmente falsa) extremamente sensacionalista assustando as pessoas. Depois da Folha de Pernambuco e as "extraordinárias" alterações na duração dos dias e no eixo da Terra, agora é a vez do Jornal do Commercio mandar um bicho-papão sensacionalista.

Nordeste não está livre de tsunami (link apenas para assinantes do JC)

O ano começou marcado por catástrofes naturais nos quatro cantos do planeta. Agora, como se não bastasse, cientistas fazem prognóstico de ondas gigantes na costa do País.

Enchentes em Angra dos Reis, São Paulo e Ilha da Madeira, terremotos no Haiti, Taiwan e Chile. Não bastasse tanta calamidade no início de 2010, agora pesquisadores anunciam um tsunami no Oceano Atlântico. O alvo brasileiro: Fernando de Noronha e a costa do Nordeste acima da Paraíba.

A formação da onda gigante depende da erupção do Cumbre Vieja, prevista pelo cientista americano Steven Ward, da Universidade da Califórnia. O vulcão, localizado na Ilha La Palma, no arquipélago das Ilhas Canárias, perto da costa africana, entrou em atividade pela última vez em meados do século 18. “E seu ciclo é de 250 anos”, avisa o especialista em riscos geológicos da Universidade Federal da Paraíba Paulo Roberto de Oliveira Rosa. Ou seja, o gigante adormecido está perto de acordar de novo.

Não seria só a lava, mas também as paredes do vulcão, a causa do cataclismo. É que na última erupção cientistas registraram o aparecimento de uma grande fissura na parte oeste da cratera vulcânica, que fica posicionada virada para o Atlântico.

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Ataque à Turma da Mônica, o maior owned articulístico da internet brasileira?

Postado em 08/03/2010 à/s 20:01

Me chamou muito a atenção um fato de poucos dias atrás, que vem repercutindo até este momento. Dioclécio Luz, cuja profissão desconheço, escreveu um texto que consistiu num verdadeiro petardo contra os gibis da Turma da Mônica. Suas críticas se direcionavam à suposta falta de profundidade na personalidade das personagens dos quadrinhos -- incluindo as principais --, às características dos mesmos interpretáveis como uma apologia ao bullying, às características peculiares de cada personagem focadas em seus defeitos físicos ou comportamentais e à comparação dessas personalidades brasileiras com as personalidades muito profundas de heróis dos quadrinhos euamericanos.

Um trecho de seu artigo, que pode ser lido na íntegra aqui, diz:

O outro aspecto a se observar na Turma da Mônica é o abuso dos clichês. Pelo menos três personagens são clichês: Mônica, como se viu, a que resolve as coisas na porrada; Cascão, que odeia água; Magali, a comilona. Antes de tudo, note-se que são clichês negativos. Ninguém da turma é conhecido por ser inteligente, criativo, sensível, cuidadoso, gentil, amável, isto é, por qualidades humanas, por virtudes humanas. Na verdade, temos, mais uma vez, o incentivo ao bulling – esses três personagens trazem consigo motivos para discriminação e para serem agredidos pelos colegas.

O problema dos clichês nos personagens é que eles não existem fora disso. Cascão ou Magali (e a Mônica) não existem fora dessas suas "virtudes". As observações, as visões do mundo, as idéias, as sugestões, tudo isso que dá personalidade a um personagem, não existe na Turma da Mônica. A gente sabe que é Magali quando ela fala em comida; a gente sabe que é Cascão por seu ódio à água; a Mônica aparece quando é hora da porrada. Mas essas características de Cascão e Magali, como veremos mais adiante, não são exatamente traços de personalidade, e sim, desvios comportamentais. A violência da Mônica, sim, está mais próximo de um problema de personalidade.

Como se pode ver, praticamente uma versão brasileira do livro A sedução dos inocentes, que condenou os quadrinhos nos EUA na década de 50 e causou um bom dano na indústria dos gibis na época.

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Escola de idiotice

Postado em 06/03/2010 à/s 17:45

Diretora ensina Rebolation  a alunos e gera polêmica

Uma diretora causou polêmica ao ensinar a dança Rebolation para os alunos em uma escola estadual da cidade de Papagaio, no interior de Minas Gerais. As imagens foram gravadas por uma aluna da escola.

Pais e professores ficaram revoltados com a atitude da diretora da escola. Para eles, ela não estaria dando um bom exemplo aos alunos ao ensinar uma dança sensual às crianças.

O vídeo da baixaria "didática" está aqui:

Essa é mais uma da série "Professoras de Idiotice" -- a primeira foi a da professora que dançou para uma banda de swingueira (vôte!) no ano passado.

O pior é que a diretora parece ser de meia-idade, escapa do perfil de professoras jovens cuja juventude se deu nessa época de baixaria musical que vem desde os anos 90.

Pois é, essa é a educação que temos. Em vez de fazer o que deveria -- educar e ensinar valores éticos novos que despachem os atuais valores parasitas --, ajuda a perpetuar a fossa social, moral e política que foi cavada e mantida durante séculos.

A próxima vai ser um professor sendo flagrado ensinando seus/suas alun@s a promover pequenos atos de corrupção, como praticar pequenos furtos e subornar policiais.

P.S: Notaram que a Record põe notícias sobre educação numa seção chamada "Vestibulares e Concursos"? Muito bizarro. É como se a educação  servisse apenas para "formar" vestibuland@s e concursand@s.

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A evangelização traz a salvação moral?

Postado em 26/02/2010 à/s 21:46

Artigo escrito em janeiro de 2009

Esse é um fenômeno quase tão antigo quanto a primeira igreja evangélica e não é exclusivo do Brasil, mas percebi que hoje seus motivos estão fortes como há muito não estavam e tornou-se inevitável uma análise da situação ser feita. Trata-se da recorrência de muitas pessoas, de qualquer classe sócio-econômica, ao cristianismo pentecostal para se refugiar das falhas graves de moralidade que os provedores de cultura de massas vêm cometendo.

Quem ainda não conheceu um evangélico que demonstre manifestamente a rejeição às imoralidades mundanas contemporâneas? É de se notar, no entanto, por quem tem sobriedade intelectual, senso crítico e conhecimento suficiente de abusos religiosos, que, por mais que se espere no cristianismo e na igreja um Eldorado da retidão moral e dos chamados bons costumes, ele não o é e muitas vezes exerce um papel totalmente inverso, o de provedor de outras imoralidades e vícios.

Não é à toa que muitos ex-cristãos que hoje não têm mais religião concluem que, ao contrário do que o crescente número de evangélicos espera em seu novo padrão de comportamento, “aceitar Jesus” não é nem nunca foi garantia de se alcançar uma vida de salvação moral.

“Onde está essa tal decadência moral de que tanto falam?”, é necessário perguntar para querer compreender o ponto de vista cristão. Além daquelas tradicionais afirmações de que “as pessoas estão caindo cada vez mais facilmente na promiscuidade”, “não há mais respeito mútuo como antigamente(?)”, “os valores de hoje estão levando muitos às drogas, ao álcool, à autodestruição”, “o amor ao próximo está sendo desvalorizado” e outras que apontam, com ou sem razão, com ou sem vieses preconceituosos, a tendências de relaxamento do que chamam de “moral e bons costumes”, realmente são apontáveis diversos pontos em que os instrumentos que provêm cultura para as massas e influenciam decisivamente os seus hábitos estão atentando de fato contra a moralidade e agredindo diversos valores éticos sociais nos dias de hoje.

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Carta para quem está desistindo do Brasil e querendo ir embora

Postado em 24/02/2010 à/s 20:00

Artigo escrito em julho de 2009

Esta mensagem é para você que, algum dia num passado recente ou mais distante, já falou que queria se mudar “porque o Brasil não tem mais jeito” ou algo muito parecido. É para você que, ou cotidianamente ou numa hora de desespero, tem ou teve esse desejo sedutor de encontrar paz e justiça social em uma nação do chamado Primeiro Mundo por ter se cansado de viver num país que não lhe oferece condições de viver tranquilamente.

É para todos(as) que, por verem tanta insegurança, corrupção, caos urbano, miséria, educação pública ruim e tantos outros problemas nunca resolvidos, expressam verbalmente que não aguentam mais morar no Brasil e desejariam muito ir para um país melhor que os(as) acolhesse dignamente.

Você que diz desejar sumir deste país precário e desesperançoso tem razões para pensar assim que podem ser compreendidas. Mas tem certeza de que é o melhor a se fazer? A quem você estaria ajudando se algum dia realmente emigrasse de vez por esse motivo?

Pergunto também: o que deveria acontecer para você voltar atrás da “decisão” de se mudar? Ok, a resposta mais provável é “que o Brasil se tornasse um país minimamente decente em termos de lugar para se viver e justiça social”. Mas como você espera que isso aconteça, se as duas entidades que deveriam se encarregar de torná-lo melhor não trabalham como deveriam?

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Poesia: Involução não é opção

Postado em 19/02/2010 à/s 13:25

Poesia escrita em março de 2009

Não adianta.
De nada adianta me pedirem para voltar a ser o que eu era antigamente
Onívoro, consumidor de refrigerante, religioso e conformado com a realidade
Garanto que isso não acontece por mais que me insistam

Não vou ser feliz tentando ser tudo aquilo de novo
Ser o contrário do que sou hoje
Pelo contrário, eu preferiria morrer a me degenerar
Sofrer tentando involuir por causa da argumentação tronxa
De quem tenta me convencer com emoção
De que estou errado

Digo isso porque sinto como é ser ocasionalmente pressionado
Por quem não entende esta consciência
Por quem acha que ser o que sou hoje
[é tolice, frescura e não adianta nada para o mundo

Já me sugeriram, em sessões de “aconselhamentos” passionais e tolos
Com argumentações sem argumentos
Que eu deixasse de ser vegano e amante de sucos
Que eu abandonasse a vontade de interferir
[nas injustiças que os antiéticos poderosos promovem contra nós
Que eu voltasse a crer num deus pessoal
[forjado por minhas necessidades psicológicas
Que eu voltasse a acreditar na mitologia de Jesus como se fosse fato real

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Um lado da educação em que a maioria dos candidatos políticos não pensa: o humano

Postado em 16/02/2010 à/s 14:39

Artigo escrito em junho de 2008

Campo de promessas mais freqüente em propagandas eleitorais ao lado da saúde, a educação tem sua importância quase que unanimemente reconhecida entre candidatos a vereador, deputado, prefeito, governador, senador e presidente. Todos que expõem promessas (ou, se preferir, “propostas”) no horário eleitoral, com exceções vacilantes, prometem adotar como um dos direcionamentos principais do seu mandato a resolução dos problemas da educação do Brasil, do estado ou da cidade.

É “investir em saúde e educação” para cá, “vou construir mais escolas” para lá, “vamos contratar mais professores” aqui, “meu objetivo é, até o fim do mandato, pôr todas as crianças na escola” lá, “toda escola tem que ter biblioteca e laboratório de informática” acolá... Ainda tem alguns que de vez em quando tocam no lado humano da coisa, ainda que superficialmente, quando falam em dar salários dignos aos professores e chamá-los a uma reciclagem pedagógica – que nem chega a ser descrita ou explicada na imensa maioria desses poucos candidatos que têm essa promessa. Entremos num YouTube® da vida ou esperemos a próxima época de propagandas eleitorais, aí relembraremos que essas promessas são de praxe.

Assistindo ou lembrando de uma amostra qualquer de propagandas eleitorais, vemos que muitos (aparentemente) se preocupam com a educação. Se tivéssemos todas essas promessas cumpridas de fato, veríamos, deixe-me ver... Muitas escolas, todas elas informatizadas e dotadas de biblioteca e com infra-estrutura impecável; bibliotecas faustosas e laboratórios de informática com computadores bem modernos; as escolas existentes todas limpinhas e com ar-condicionado nas salas; professores com bons salários; crianças e adolescentes lotando as salas, com evasão zero; universidades com boa qualidade e munidas de tudo aquilo que as faça serem boas, incluindo laboratórios de experimentação animal(!!!), contra os quais nenhuma boa alma candidata se posiciona contra; professores dando aulas de qualidade e recebendo reciclagens pedagógicas freqüentes – sendo a consistência destas últimas para o povo uma incógnita que só algum santo católico ou o Deus seu chefe saberá dizer em que consiste, já que quase nenhum candidato diz como acontecem. Tudo bonitinho, mas está faltando algo sério no sistema. É algo que seria talvez o mais importante de todos os aspectos acima.

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Amy, a Louca, apronta mais uma vez

Postado em 13/02/2010 à/s 10:30

Amy Winehouse é conhecida por promover o showbusiness da estupidez. Não satisfeita em fazer fama com suas músicas, investiu-se em destruir sua própria "alma", acreditando (infelizmente com razão) que muit@s de seus/suas fãs seriam idiotas o suficiente para admirá-la ainda mais por ser, hum... "polêmica". Drogas pesadas, atos de violência e vandalismo, internamentos, comportamentos ridículos... É um exemplo negativo de popstar, uma amostra de como alguém pode terminar à beira da insanidade por não saber lidar com a fama. Eu até lhe reservei umas boas críticas, exibindo-a como exemplo de celebridade a ser boicotada e repudiada, no extenso artigo Os 15 mandamentos do consumidor ético e consciente.

Pois ontem ou hoje ela deu mais uma amostra de que luta para morrer ostentando o título de cantora mais imbecil da história da música pop:

Amy Winehouse embarca para a Jamaica e doa seus gatos para abrigo

Amy Winehouse embarcou para Jamaica, onde deve trabalhar em seu terceiro álbum, mas antes de partir a cantora decidiu se desfazer de seus onze gatinhos de estimação.

De acordo com o jornal The Sun, Amy deu dois dos bichanos para a afilhada, Dionne Bromfield, e pediu que um abrigo de animais fosse buscar os outros bichos. [Como se abrigos de animais domésticos já não tivessem problemas o bastante com superlotação e dificuldades de arcar com as enormes despesas.]

Eu acho que, para ela, só falta mesmo matar um bicho ou uma pessoa para o seu showbusiness da estupidez atingir o auge e ela se sentir glorificada.

Está mais que certa a nota da redação que a ANDA reservou a essa nota:

Nota da Redação: Os gatos não deveriam ser assim tão estimados pela cantora. Pois, assim como um filho não se descarta nem se doa para um vizinho, o mesmo se sucede com os animais criados e cuidados por nós: cria-se um elo, e não é uma viagem que vai impedir que continuem conosco. Essa e outras histórias são puro pretexto para justificarem o abandono. Um péssimo exemplo. Quem sofre são os animais.

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Caminhada para lugar nenhum

Postado em 11/02/2010 à/s 19:58

Mais uma caminhada inútil.

Artigo escrito em novembro de 2008. O evento anunciado repete-se todos os anos.

Vem aí em Recife – próximo dia 30 – mais uma caminhada para lugar nenhum. É assim que considero as tais “caminhadas pela paz”, algo muitas vezes considerado pelas pessoas comuns desesperadas como a “única” ou “melhor” oportunidade de reivindicar o direito à paz civil plena e à segurança pública consolidada. A experiência coletiva da realidade mostrou que a única função desses eventos é extravasar emoções, tendo elas efeito zero nas estatísticas de segurança e na sensação de perigo (ou de sua ausência).

No próximo domingo (30/11) será a nona edição da caminhada municipal. Em nove edições, a primeira em 2000, tudo o que vimos foi o crescimento generalizado da violência urbana na cidade. Considerando dados de fevereiro de 2007, que absolutamente nada na prática mostra ter mudado para melhor, sete caminhadas (2000-2006) apoiadas pela Prefeitura do Recife, sem contar várias outras organizadas por outros grupos, em nadíssima adiantaram para tornar a cidade mais segura, tanto que nessa época Recife estava figurado como a capital mais violenta do Brasil.

Questiono diante disso para que servem essas andanças. Pelo menos o senso comum diz que é para “dar um basta à violência”. A realidade comprova que não são para mostrar soluções, o que seria a melhor função possível para uma manifestação contra a criminalidade, mas sim apenas como um meio de extravasar as emoções das pessoas que se sentem cercadas e intimidadas pela quase livre ação dos bandidos. Ao contrário de como as pessoas mais lúcidas em sua visão social gostariam que fosse, não estão em jogo nessas passeatas de gente vestida de branco proposições, estratégias e abaixo-assinados massivos em prol de melhorias na política de segurança pública, mas sim apenas desabafo, indignação inibida, desejos apaixonados de uma cidade e país utopicamente livres do crime, fé religiosa – crença de que um deus supostamente onipotente irá pelos apelos dos humanos sair de sua inatividade prática e começar a imunizá-los milagrosamente contra a violência urbana – e, se muito, cobranças vagas de mais polícia.

Lembremos um movimento efêmero que tentou marcar a sociedade brasileira, um chamado “Basta! Eu Quero Paz!”. Tentou bombar no país em 2000, com caminhadas branquinhas nas capitais, participação de celebridades, canalização dos desejos de todo o país de menos criminalidade, etc., e tudo o que conseguiu foi o desprezo prático dos governos federal e estaduais e o derradeiro esquecimento por todos, se não considerarmos também o “alívio” ilusório que seus participantes sentiram na época.

Está provado por A mais B que esse tipo de manifestação só funciona se tiver como única função o extravasamento de paixões, esperanças e desejos coletivos normalmente reprimidos pelos marginais. Se a intenção for uma tentar botar as autoridades contra a parede e mostrar projetos e planos concretos de como garantir a segurança nas áreas do município ou do estado, a estratégia atual está completamente errada. Se essas passeatas forem atualizadas para movimentos de protesto firme e de apresentação de propostas policiais e sociais analisadas e assinadas pela população, aí sim começarão a caminhar realmente para algum lugar.

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Resenha do documentário Jesus Camp

Postado em 21/01/2010 à/s 10:30

Quem assiste ao documentário Jesus Camp (2006) adquire a convicção de que o ministério cristão Kids on Fire, presidido pela pastora Becky Fischer, é um perigoso Talibã cristão criador de fanáticos/as religiosos/as. O vídeo mostra, embora num ponto de vista tendente à neutralidade, uma das formas como as igrejas evangélicas mais fundamentalistas dos Estados Unidos estão recrutando fiéis. Escancara todo o processo de lavagem cerebral e fanatização intensiva de crianças sob controle de ministérios extremistas.

Centrados no cotidiano das crianças Levi, Tory e Rachael, Jesus Camp relata como o acampamento de férias da Kids on Fire transformava crianças em fanáticos/as de guerra. Eram crianças treinadas desde cedo a seguirem cegamente o cristianismo, “aprendendo” a crença criacionista por livro de “ciência”, sendo induzidas a acreditar que filmes como os de Harry Potter são demoníacos, tendo sua mente bombardeada por insistentes pregações religiosas, sendo doutrinadas que o aborto tem que ser banido de seu país.

Segundo a pastora Fischer, é nessa idade, entre 5 e 8 anos, que as crianças absorvem algo que ficará em suas cabeças pelo resto da vida. Embora o filme não intencione a denúncia explícita como os documentários de Michael Moore fazem, a abordagem de cada detalhe do verdadeiro abuso psicológico daquela meninada nos leva à indignação diante de tanto absurdo. As crianças choram pela emoção induzida pela fé, têm sensações praticamente psiquiátricas de que estão sendo “abençoadas” pelo deus cristão, gritam por Jesus, são mentalmente levadas a pregar e prestar juramento à sua religião, repetem obsessivamente a si mesmas a convicção religiosa...

Nos cerca de 80 minutos do documentário, aprendemos como as igrejas fundamentalistas estadunidenses estabelecem, de forma muito covarde, um controle cerebral sobre mentes tão tenras e imaturas; como a lavagem cerebral que aplicam é tão sofisticada; como estão criando extremistas que se põem em guerra, terroristas em nome de Jesus.

George W. Bush, um dos presidentes mais malignos da história estadunidense, é abençoado pelas crianças do acampamento fundamentalista. Nos momentos em que ele e o juiz Samuel Alito são citados, percebemos como seu governo representou tudo que não prestava. Não bastasse ser um senhor da guerra e inimigo do meio ambiente, Bush também favoreceu o fundamentalismo cristão, segundo as próprias personalidades principais do ministério Kids on Fire.

Depois de terminamos de assistir a Jesus Camp, entramos num processo de reflexão: como essa gente é capaz de fazer tudo isso com meninos e meninas que mal tiveram a oportunidade de aprender a pensar? Pensamos também que, se essa atitude de doutrinar crianças para o fanatismo religioso se proliferar nos EUA, a situação futura daquele país será muito desconfortável, vislumbrando-se para o futuro a violação do laicismo do Estado, a expansão e radicalização da população ultraconservadora e os prejuízos às mulheres e às minorias, ambas as quais serão oprimidas por sombrios governos orientados pelo fundamentalismo cristão tal como foi o mandato duplo de Bush.

Jesus Camp nos dá um alerta: se esse processo de fanatização crescer por lá, se a população estadunidense se deparar com mais pastores/as do tipo de Becky Fischer, a coisa lá vai ficar ainda mais feia, e, em última análise, o mundo sofrerá ainda mais do que sofreu na era Bush.

Mas felizmente o acampamento do fanatismo foi brecado: em novembro de 2006, graças às reações indignadas da parte esclarecida e lúcida da população estadunidense, a colônia cristã infantil do documentário foi fechado e não há mais planos de novas concentrações de crianças cristãs por parte da pastora até o momento em que esta resenha foi escrita. Esperemos que a militância antifundamentalista se fortaleça de modo que cânceres religiosos como o ministério Kids on Fire não tenham mais vez por lá.

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Resenha do documentário Super Size Me: a dieta do palhaço

Postado em 21/01/2010 à/s 10:00

A experiência de Morgan Spurlock com os 30 dias de refeições de tamanho até “Super Size” no seu documentário Super Size Me foi algo quase suicida. E muito corajoso também. Ele debilitou seu corpo com um mês de dietas nada saudáveis para denunciar como o fast-food estraga o organismo e vem provocando um crescimento epidêmico da obesidade na população dos Estados Unidos – e também do mundo, se considerarmos a clientela global das empresas multinacionais de comida rápida.

Ele resolveu se jogar na aventura perigosíssima de comer durante trinta longos dias três refeições diárias só com alimentos provenientes da McDonald’s, escolhida por ser a maior corporação de fast-food dos EUA. Aceitaria sempre as porções de tamanho “super size” quando fossem oferecidas. Viajaria por várias cidades norteamericanas para testar o serviço das lanchonetes da empresa.

Antes da experiência, era um homem muito saudável, com todas as taxas fisiológicas e desempenhos físicos “fora de série” de acordo com os muitos exames feitos. Era vegetariano assim como sua esposa, mas resolveu fazer como o Jesus bíblico – sacrificar a si mesmo, assim como o seu vegetarianismo, pela iniciativa de salvar as pessoas.

Esteve ligado a vários/as doutores/as para verificar como sua saúde passaria os trinta dias de tormenta alimentar. Em cada dia ele vai mostrando à câmera o que come e bebe. Paralelamente, o documentário mostra os podres da indústria de fast-food e as aberrações corporativas cometidas.

Entre esses podres e aberrações, o lobby da indústria alimentícia não-saudável, a quantidade de propagandas de alimentos ruins comparada às dos saudáveis, a invasão do fast-food nas escolas, a omissão de exibir os valores nutricionais do que se serve nas lanchonetes... Também são denunciados os problemas de saúde e socioculturais – neste caso, a autodepreciação que garotas obesas vivem quando se deparam com propagandas e programas de TV com mulheres magras – que a epidemia de obesidade veio acarretando.

Ele também tentava entrar em contato com alguém da McDonald’s para pedir esclarecimentos sobre a antinutritividade dos alimentos oferecidos, mas as pessoas responsáveis eram quase incomunicáveis, dando desculpas atrás de desculpas para não atenderem às ligações.

Durante o filme, ele foi surpreendido pelo fechamento da clínica Hælth, onde ele fazia alguns de seus exames, uma amostra, segundo ele, de que a saúde não era valorizada nos EUA – o que Michael Moore confirmaria no documentário Sicko anos depois.

A cada dia, Morgan sentia os sintomas da deterioração de sua saúde. Sentia estufamento, momentos de depressão, falta de fôlego, formigamentos, falta de ar, dores internas, entre vários outros problemas. Seu peso aumentava vários quilos em poucos dias. Seu fígado estava a caminho da deterioração, um fenômeno que nem mesmo um dos doutores que ele estava consultando havia visto antes. Estava ficando impotente sexualmente. Adquiriu um princípio de vício de hambúrgueres e refrigerantes. Ele poderia morrer se persistisse com a dieta suicida por mais tempo.

Quem assiste ao documentário torce para que os trinta dias de sofrimento de Morgan acabem logo. A pessoa pode ficar um pouco nervosa, enquanto assiste ao filme, na espera pelo fim da aventura sacrificante dele, compadecendo do princípio de doença que ele estava sofrendo.

No 30º e último dia do terrível hábito alimentar, o/a telespectador/a sente um alívio: enfim Morgan encerrou sua dieta patológica! Em seguida, ele mostra como sua saúde se deteriorou tão fortemente. Descobrimos que ele ingeriu quantidades bombásticas de açúcar (quase 14kg somados) e gordura (mais de 5kg no total) no mês da “dieta do palhaço”.

No final, antes dos créditos, os desfechos: ele recuperou sua saúde em poucas semanas, embora até a conclusão do filme ele ainda estivesse perdendo o peso; o McDonald’s decidiu retirar do mercado os alimentos de tamanho “super size”, lançar pratos (questionavelmente) saudáveis e passou a patrocinar eventos esportivos – negando, no entanto, a influência do documentário sobre essas decisões –; o representante do lobby alimentício já não estava mais no cargo; Morgan, por motivos não esclarecidos, deixou o vegetarianismo – o único desfecho triste da história.

Duas citações são mais marcantes no filme: “[Você] precisa pensar que, se acredita que o sistema [de que você desfruta] é corrupto, imoral, errado e agressivo, você estará fazendo parte dele”, segundo Alexandra Jamieson, a namorada de Morgan; “Mas por que as empresas mudariam? A lealdade delas não é com você, e sim com os acionistas. A verdade é que isso é um negócio, não importa o que digam”, segundo o próprio Morgan.

Partindo para a análise crítica, não há praticamente nada do que reclamar do Super Size Me. O filme atinge seus objetivos e cumpre o que se habilitou a fazer: denunciar como o fast-food de hoje é imprestável em termos de saúde e nutrição e como seu empresariado não tem compromisso nenhum com o bem-estar humano – muito menos animal, visto a matança de animais que a pecuária promove, embora isso não tenha sido abordado no documentário.

Denúncias como a persuasão infantil ao mau hábito alimentar, a invasão do fast-food nas escolas, o lobby que inibe providências governamentais de combate à má alimentação e, mais notável, a epidemia de obesidade sem precedentes – todas referentes aos EUA, mas que, com o tempo, poderão contaminar outros países – são gravíssimas e o Super Size Me escancarou-as competentemente.

Morgan Spurlock, com seu documentário, juntou-se a Michael Moore no hall de cineastas corajosos que dão a cara à tapa – e, dependendo da perversidade dos denunciados, o corpo às balas – para mostrar que desgraças certas categorias políticas e econômicas do seu país são capazes de causar em prol de interesses escusos.

Bom seria se no Brasil tivéssemos gente do tipo deles, cineastas e escritores/as que conscientizam ludicamente a população, abrindo seus olhos para os problemas do país. É um dos melhores estilos de filme existentes: documentários educativos, que servem, com eficiência e competência, de apoio para as escolas e as campanhas de conscientização.

Super Size Me merece palmas, e Morgan, encorajamento para fazer mais documentários. Os EUA precisam de mais filmes do estilo. Depois de assistir ao filme, é de se duvidar que a pessoa vá continuar comendo regularmente fast-food. As pessoas menos resistentes a conscientizações vão muito provavelmente jurar nunca mais pôr os pés na McDonald’s, Bob’s, Burger King ou qualquer lanchonete do gênero. Obrigado, Morgan Spurlock, por ter dado uma de Jesus bíblico.

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Resenha: Hagakure

Postado em 21/01/2010 à/s 8:30

Hagakure é um ótimo livro em que se pesquisar, mas bastante ruim para se ler e se aprender algo. Tem uma boa temática que aborda tudo ou quase tudo sobre o pensamento e a vida de um samurai, mas, pelo menos na edição da Conrad Livros, deixa de ser interessante e atraente até para quem quer aprender como viver como um samurai por causa da tosca distribuição dos ensinamentos pelas páginas.

A secular obra de Yamamoto Tsunetomo (ou, na disposição ocidental de nome e sobrenome, Tsunetomo Yamamoto) expõe centenas de curiosidades sobre como viver e pensar como samurai, como bons modos, o costume de beber chá e a homossexualidade entre tantas outras questões.

Três pontos que merecem destaque maior por terem uma abordagem em mais passagens são a devoção incondicional do guerreiro, com quê de submissão, ao seu mestre; a disposição que o indivíduo deveria ter para morrer “a qualquer momento” – viver sempre preparado para a morte – e a atitude de racionar palavras – em grande parte das situações cotidianas, procurar falar pouco e às vezes ser lacônico ou ficar calado.

Aparecem também instantes filosóficos em que Tsunetomo fala sobre, por exemplo, o nada e as formas dos seres – vivos e inanimados.

Grande parte dos ditados desse samurai que se tornou monge são dele mesmo, enquanto tantos outros ele mesmo diz que “dizia o senhor fulano”, vindos de homens como o Mestre Ittei, o Sacerdote Tannen e personalidades da história japonesa.

Um ponto negativo dos ensinamentos de Tsunetomo – ou da cultura japonesa, se considerarmos que ele estava apenas descrevendo costumes do Japão de sua época – é a forte misoginia expressa em passagens que pregam, por exemplo, a submissão da mulher ao seu marido e as proibições específicas de gênero impostas a ela. O machismo descrito em Hagakure mostra que a filosofia do Bushido era algo reservado apenas para homens.

Também chamam a atenção curtas passagens que são narrações de situações acontecidas com certos samurais, como a perseguição de um assassino, uma reunião de deliberações sobre criminosos e a discussão sobre a promoção de um samurai.

Tsunetomo preocupou-se, pelo que se pode deduzir, não em escrever uma autoajuda, mas em dar recomendações sobre o Bushido a quem lesse seu livro. Na introdução, diz-se que ele queria queimá-lo, mas não se sabe se essa atitude era uma mentira dita em atitude de protesto ou uma intenção.

Hagakure pode servir como uma ótima fonte para estudos etnológicos sobre o Japão feudal e, como repositório de preceitos da cultura desse lugar e época, não deve ser inteiramente levado ao pé da letra como ensinamento contemporaneamente adequado. Várias passagens são úteis hoje, mas outras devem ser observadas como amostras dos costumes e valores daquela sociedade.

Não sei sobre edições publicadas por outras editoras, mas a da Conrad Livros dispôs uma estrutura que nos convida a abandonar a leitura após passar do primeiro capítulo. Os tópicos são dispostos aleatoriamente pelos onze capítulos. Ensinamentos assim dispersos e tão curtos são muito difíceis de ser assimilados, uma vez que abordam apenas superficialmente as questões presentes e bruscamente somos remetidos a um assunto totalmente diferente depois de terminar uma passagem. Assim sendo, o livro não se faz de grande ajuda para o leitor – dificilmente a leitora – que deseja alinhar certos pontos de sua vida à antiga disciplina do samurai, e quem tem um outro livro na fila pode parar a leitura da obra na metade sem relevante prejuízo na aquisição de conhecimento.

Hagakure é útil como fonte de estudo sobre como o samurai vivia e pensava, mas sua leitura seria muito mais recomendável se houvesse uma organização nos tópicos abordados. Mesmo que subvertesse a disposição original do que Tsunetomo escreveu, uma nova edição que priorizasse a divisão das passagens por tema seria bem mais adequada e fácil de ser lida.

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