Retrospectiva 2011 do Consciencia.blog.br
Resolvi trazer a vocês leitoræs a retrospectiva do Consciencia.blog.br, com os fatos mais destacáveis de cada mês que foi descrito aqui ou aconteceu dentro do próprio blog.
Janeiro
- Protestos contra o aumento das passagens sacodem o centro do Recife (fotos de um dos protestos). Mas, com brigas internas e sectarismo dentro do movimento de oposição ao aumento, as manifestações não deram certo e perderam a força. Destaque para a forma manipulatória com que o Diario de Pernambuco tratou nossas manifestações.
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Lola: os argumentos circulares do racismo #ConsciênciaNegra
A princípio peço desculpas aos negros e negras por, mesmo hoje sendo o Dia da Consciência Negra, eu não ter trazido um post de minha autoria em homenagem a este dia. Eu venho me ocupando num livro que estou escrevendo, acelerando o ritmo depois de meses com a obra paralisada, e isso vem me tomando quase todas as horas do meu dia na frente do computador. Acabei tendo que pegar um texto de uma das minhas ídolas e irmãs de consciência, Lola Aronovich, para não deixar o dia de hoje passar em branco (neste contexto, este termo acaba sendo meio esdrúxulo).
O texto é antigo, de mais de dois anos atrás, mas mantém uma atualidade formidável. Daí eu trago-o aqui na íntegra (excepcionalmente, uma vez que atualmente eu venho divulgando apenas os trechos iniciais de textos reproduzidos de outros lugares, acrescidos do link para o artigo completo na fonte).
Argumentos circulares para continuar com o racismo
por Lola Aronovich
Um dos assuntos do momento nos EUA diz respeito à prisão de um professor universitário. Henry Louis Gates Jr, um negro de meia idade e professor de nada mais nada menos que Harvard, voltava ao seu lar após uma semana pesquisando na China. Encontrou a porta da sua casa emperrada, e tentou, com a ajuda de seu motorista, também negro, forçá-la um pouco para poder entrar. Nem preciso continuar contando o que aconteceu, né? O nosso conhecimento prévio já se encarrega de terminar.
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Atualizado em 28/10/11 às 21h45 com prints de 5 dos 7 comentários racistas
Denunciei no último post o estouro-de-boiada de comentários reacionários de defensores cegos do desenvolvimentismo contra o protesto de cidadãos de todas as raças (em especial indígenas) no canteiro de obras de Belo Monte. Mas naquele momento ficou sem destaque que diversos daqueles comentários são racistas, incidem em claro preconceito contra indígenas enquanto raça/conjunto étnico.
Exorto desde já os leitores a denunciarem os comentaristas racistas da Folha.com à Justiça. Abaixo o link dos comentários mais explicitamente racistas:
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Obs.: Este post pode estar carregado de muitos juízos de valor, embora eu tenha me abstido de expressar emoções revoltosas que emanaram de mim ao ler os comentários nele listados.
A manhã de hoje foi marcada pela ocupação do canteiro de obras da usina mais repudiada do mundo – Belo Monte – por cidadãos indígenas e urbano-rurais.
Não houve resistência dos seguranças da obra à entrada dos manifestantes, e os operários não apareceram para trabalhar. Com isso a obra(da) que ameaça prejudicar as culturas do Xingu e inundar mais de 500km² de floresta está parada.
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Leila Lopes: um lampejo de reação negra contra o brancocentrismo estético ocidental
Eu simplesmente adorei ver Leila Lopes, a linda Miss Angola, ter sido eleita Miss Universo 2011 e consagrado a beleza negra neste mundo ocidental tão dominado por padrões europeus de beleza. Foi um forte lampejo da reação negra nesta terra brasilis que, apesar de ser tão multirracial (brancos, negros, indígenas e imigrantes asiáticos) e contabilizar pretos (negros de fenótipo africano mais forte) e mulatos como quase metade da população brasileira, põe a mulher branca magra como padrão supremo de beleza a ser seguido e marginaliza a beleza negra e mulata.
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Concurso Miss Brasil 2011: nenhuma negra no páreo
O padrão brasileiro de beleza é uma prova escandalosa da cultura de racismo velado, da exclusão sociocultural de negr@s, vigente no Brasil. O Miss Brasil 2011 está aí para mostrar.
Dentre as 27 candidatas, nenhuma negra, nenhuma mulata. Todas branquinhas (exceto pequenas variações de pigmentação) como os brasileiros mais gostam.
Não estou aqui rebaixando a beleza branca, mas sim criticando exatamente a ausência total da beleza negra/mulata do que poderíamos chamar de elite da beleza feminina brasileira. Um owned nos Alis Kamels da vida que negam a cultura brasileira de priorização do homem branco como ser humano padrão e da mulher branca como ideal máximo de beleza.
É uma pena que Lola Aronovich esteja em viagem de férias neste momento, porque ela escreveria um petardo nesse sentido.
Lola: a eterna “parada” dos reacionários
O texto abaixo (abaixo está a parte inicial dele), de Lola Aronovich do Escreva Lola Escreva, diz diversas verdades sobre o falso orgulho de maioria usado por reacionários que tentam se opor ao orgulho de minorias (orgulho homossexual, orgulho negro, orgulho ateu etc.). Altamente recomendável, foi o texto do Dia do Orgulho LGBT, que foi ontem – não o divulguei aqui ontem por causa da abundância de posts que eu já havia trazido no mesmo dia.
A ETERNA PARADA DOS SEM NOÇÃO
por Lola Aronovich
Hoje é Dia Mundial do Orgulho LGBTTT. Parabéns, pessoal! (o título do post não tem a ver com a Parada Gay!). Tem que se orgulhar mesmo de ser o que é, apesar de o que somos (lésbicas, gays, transexuais, mulheres, negros, gordos, ateus, pessoas com necessidades especiais etc) ser constantemente massacrado pela sociedade através de violência, discursos de ódio, religiões, piadinhas, falta de representatividade, preconceitos, insultos, e até leis contra nós.
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Para quem diz que brancos não têm privilégios sobre negros
Achei no blog Escreva Lola Escreva uma lista interessante de fatos que são um tapa-na-cara de quem nega que exista racismo e desigualdade de tratamento entre branc@s e negr@s no Brasil. Mostre para aquelæ colega que acreditou no livro de Ali Kamel essa lista. São algumas características que dizem tudo – embora, segundo a própria Lola, seja uma lista incompleta – sobre as desigualdades de tratamento entre as raças no Brasil (considerando-se “negr@s” tod@s aquelæs que no IBGE estão categorizad@s como pret@s e pard@s, incluindo-se @s mestiç@s):
- Ninguém mudar de calçada ao me ver. Leia o post completo »
- É não me confundirem com o garçom/atendente/serviçal.
- É ter muito menos chance de ir pra cadeia.
- A primeira coisa que as pessoas reparam em mim não é a minha cor.
- Se um vizinho me vir pulando o muro da minha casa, porque esqueci a minha chave, ele provavelmente irá me ajudar, e não chamar a polícia.
- É poder usar o elevador que quiser sem que ninguém me olhe feio.
- Quando eu entro num supermercado ou numa loja, os seguranças não ficam de olho em mim.
- Se eu faço alguma coisa errada, as pessoas vão julgar que esse foi um erro individual, não um erro do meu grupo.
- A polícia não vai me parar a toda hora por eu ser um suspeito em potencial.
- É receber um salário mais alto que meu colega negro, ainda que desempenhando a mesma função.
- Meu cabelo é considerado sempre bom, mesmo quando eu estou num “bad hair day”.
- Posso dirigir um carrão que ninguém vai achar que eu o roubei.
- Numa faculdade, as pessoas vão achar que estou lá porque estudei muito e mereci entrar, não porque uma lei me beneficiou.
- As pessoas não me descrevem apenas pela minha cor.
- Não tenho que fazer cirurgia plástica no meu nariz pra ele ser considerado adequado.
- Vou viver mais: minha expectativa de vida é maior que a de um negro.
- As pessoas que aparecem na TV e nos filmes são da minha cor.
- O padrão de beleza começa por ser branco (pelo menos essa vantagem eu já tenho).
- Quando eu era criança e brincava de boneca, as bonecas eram da minha cor.
- Cresci ouvindo que tudo que é branco é bom, e tudo que é preto é ruim. Isso afeta a minha autoestima.
- Raramente a família de alguém vai se opor a me ter como genro ou nora.
- Tenho muito mais chance de ingressar numa faculdade por ser branco (sim, apesar das cotas. É só ver as estatísticas. Por que as cotas foram criadas? Não pra atazanar a minha vida, mas porque há tão poucos negros nas universidades).
- Meus antepassados não foram escravizados (no caso dos negros) ou varridos da face da Terra (no caso dos índios).
- Tenho muito mais chance de me tornar um professor universitário.
- Pra eu ser preso, terei que cometer um crime hediondo.
- A maquiagem produzida pela indústria é feita pra pessoas da minha cor.
- Não associam a minha religião à macumba (esse é tema de outro privilégio, o religioso).
- Muitos defeitos meus são perdoados por causa da minha cor.
- Eu não pareço ameaçador para outras pessoas.
Dois abaixo-assinados precisam neste momento da adesão das pessoas de bem:
a) Luta contra os testes em animais e a vivissecção no Brasil
Prezado Ministro da Ciência e Tecnologia,
Prezados Senhores Membros do Congresso Nacional,
Em sua manifestação durante a abertura da 11ª Reunião Ordinária do Conselho Nacional de Controle da Experimentação Animal (Concea) em Brasília, o Ministro pronunciou-se de forma a incentivar a manutenção e expansão da experimentação em animais no Brasil como algo extremamente relevante para os interesses da população.
Tais declarações carecem de fundamentação científica e embasamento teórico e se encontram na contra mão absoluta da história do planeta. Isto porque, ao contrário das declarações feitas pelo Ministro, há muito que a ciência moderna reconhece as profundas limitações dos resultados obtidos nas pesquisas com animais.
Na transposição dos dados obtidos em experimentos com animais para a fisiologia humana, os erros necessariamente ocorrem e com muita frequência. Disto temos inúmeros exemplos, a começar pelos resultados obtidos com as primeiras vacinas anti-polio que, considerados seguras em animais, provocaram a morte de diversos sujeitos humanos que a receberam.
Desde então inúmeros são os exemplos de substâncias e fármacos considerados seguros em animais e que se revelaram nocivos ou mesmo letais para humanos; bem como, inversamente, de substâncias consideradas letais em animais que se revelaram surpreendentemente positivas para o tratamento humano.
Diante deste cenário – e esta é a REALIDADE, Sr. Ministro – os países do primeiro mundo vem adotando procedimentos que, além de ÉTICOS (por NÃO impor sofrimento extremo e desnecessário aos animais), produzem resultados cuja fidedignidade é imensamente maior: simulações em computador, testes em células humanas etc. A neurologia de ponta avança com o recurso de simuladores. A pesquisa do AIDS vem avançando sem o recurso a este expediente medieval.
A União Européia já caminhou na direção de PROIBIR experimentos em animais para cosméticos e produtos de limpeza.
O mundo começa a acompanhar os trabalhos de pesquisadores sérios que evidenciam a falta de fidedignidade dos resultados obtidos com esta vil experimentação.
As Universidades no Brasil deveriam ser IMPEDIDAS de recorrer à vivisecção, há muito já banida dos centros universitários de renome mundial, que optaram, com vantagem didática, ao uso de simuladores para efeitos de aprendizagem.
Desejamos assim solicitar que o Brasil se alinhe a uma perspectiva mais moderna e ética no campo da pesquisa e do ensino e que todos os fronts da ainda praticada pesquisa animal, não-ética e de baixa fidedignidade – sejam relegados, num futuro próximo, ao triste passado de ignorância deste País.
Remédios, substâncias, cosméticos e produtos de higiene e limpeza DISPENSAM estas práticas bárbaras de resultados duvidosos.
E mais, não há necessidade alguma de continuarmos duplicando aqui erros do passado, sobretudo ao custo de vidas de seres inocentes.
A melhor forma de promover o bem-estar da população implica necessariamente em INFORMAÇÃO.
Apenas decisões informadas e bem fundamentadas poderão produzir este resultado. Como todos bem sabemos, o recurso a experiências em animais tem sido o recurso BARATO de evitar o investimento em métodos didáticos mais modernos por parte das instituições de ensino.
Analogamente, o continuado recurso a estes experimentos por parte dos grandes laboratórios só tem servido para defender os interesses das grandes indústrias farmacêuticas com seu eterno pavor de processos por parte dos pacientes, os quais, é bom que se diga, efetivamente NÃO estão protegidos por este método de “pesquisa”. Se efetivamente desejam maior SEGURANÇA para os usuários de medicamentos, deveriam fazer investimentos – inexpressivos financeiramente, se comparados à enormidade do lucro que fazem – em métodos MODERNOS e de ACUIDADE comprovados, há muito tempo de conhecimento da comunidade científica internacional de renome.
b) Contra a propaganda racista e sexista da Cerveja Devassa (ver foto do anúncio)
Para: CONAR e órgãos de defesa dos direitos humanos
A Rede Nacional Feminista de Saúde Direitos Sexuais e Direitos Reprodutivos e demais entidades signatárias vem manifestar seu repúdio e exigir providências públicas cabíveis, somando-se ao Procon Municipal de Vitória (ES) que determinou a retirada da propaganda da Cerveja da marca “Devassa” de uma choperia, e que está publicada na Revista Rolling Stones (Número 51, dezembro de 2010, paginas 6 e 7) e cadernos especiais de jornais, a qual divulga a frase “É pelo corpo que se reconhece a verdadeira negra…Devassa negra encorpada. Estilo dark ale de alta fermentação. Cremosa com aroma de malte torrado”.
A referida frase, que vem acompanhada da imagem de uma mulher negra é explicitamente desrespeitosa em relação a essas mulheres, cujo processo de racismo e discriminação a que estão submetidas historicamente no Brasil é caracterizado, entre outras manifestações, pela veiculação de estereótipos e mitos sobre a sua sexualidade. Uma forma de manter barreiras ao seu processo de inclusão na cidadania como pessoas com iguais direitos.
Esta cultura foi legitimada e legitimadora da escravização a que foi submetido o povo negro trazido da África por quase 500 anos, quando as mulheres negras, desde meninas serviam de iniciação sexual dos brancos, afetando suas vidas, saúde, e violando a sua dignidade como pessoas. Discriminações racial e de gênero se somam tornando a luta das mulheres negras pela igualdade um desafio difícil de ser vencido.
O Brasil é detentor de legislação nacional que tipifica e criminaliza o racismo e as discriminações por gênero e raça, é signatário de documentos internacionais que vedam estas manifestações e protegem os direitos humanos.
Tendo em vista que esta publicidade viola os direitos humanos e a dignidade das mulheres negras, referindo-se ao seu corpo e sua sexualidade, e que a Cervejaria Devassa é reincidente na veiculação de publicidade em que trata mulheres a Rede Nacional Rede Nacional Feminista de Saúde Direitos Sexuais e Direitos Reprodutivos, apoiada amplamente pelo movimento de mulheres, expressa sua indignação e exige providências do Conselho Nacional de Auto-regulamentação da Publicidade – CONAR, assim como encaminha aos órgãos de defesa dos direitos humanos solicitação de medidas cabíveis.
REDE NACIONAL FEMINISTA DE SAÚDE, DIREITOS SEXUAIS E DIREITOS REPRODUTIVOS
Os signatários
Rei e Rainha do Carnaval do Recife: amostra de brancocentrismo
As fotos da seleção do Rei e Rainha do Carnaval 2011 do Recife não deixam o movimento negro mentir: nossa sociedade é brancocêntrica, se não literalmente racista. E não precisa xingar negr@s na rua para comprovar isso.
Repare que os negros e as negras são os “pontos estranhos” no meio de um farto conjunto de brancos e brancas. São exceções raras. Nada surpreendente quando lembramos que o padrão de beleza vigente no Brasil é branco, sendo a negritude esteticamente considerada um desvio.
Algo muito e muito parecido é visto na mídia – televisão e propagandas em geral. @s negr@s são escassas exceções, os atores e atrizes negr@s de destaque podem ser contad@s nas mãos quando post@s no hall de celebridades brasileiras.
Pense bem: quem são os atores e atrizes negr@s que você se lembra ter se destacado na Globo? Eu pessoalmente lembro de Taís Araújo (que deslanchou à fama no papel da escrava Xica da Silva), Lázaro Ramos, Ronnie Marruda (que já fez papel de bandido uns anos atrás), Milton Gonçalves e o falecido Norton Nascimento. E só.
E atores e atrizes branc@s de destaque? Na minha memória, há dezenas e dezenas de nomes que eu posso pôr aqui! Desde @s históric@s (como o veterano casal Tarcísio Meira e Glória Menezes) até @s mais recentes (Thaila Ayala, Monique Alfradique, Cauã Reymond etc.)
Enfim, o resultado parcial do concurso de Rei e Rainha do Carnaval recifense é um espelho do racismo que existe na nossa sociedade. Não (necessariamente) aquele racismo de xingar a pessoa por causa de sua cor, mas o brancocentrismo.
A cor da tragédia no Rio, por Eduardo Guimarães
Eduardo Guimarães, do Blog da Cidadania, um dos que entrevistaram Lula essa semana, se indignou com o preconceito racial de certas pessoas e aproveitou para fazer uma breve reflexão sobre a tragédia social que muit@s negr@s vivem diariamente.
A cor da tragédia no Rio
por Eduardo Guimarães, do Blog da Cidadania
Sábado, fim da manhã, dou uma escapada do escritório. Fui trabalhar em um dia que costumo dedicar ao descanso porque precisava “preparar” a viagem de negócios que começo a fazer no dia seguinte.
Preciso almoçar. Café e cigarros, ininterruptamente – consumo um e outro sem perceber, quando trabalho ou escrevo –, fizeram-me cair a pressão.
O bar serve uma das feijoadas mais honestas da região da Vila Mariana. De carro, chego lá em 5 minutos. Gasto mais cinco esperando pela comida e mais dez para comer. Antes da uma estarei de volta.
Meu escritório está na região há quase 15 anos. Vários conhecidos freqüentam o estabelecimento em que matarei a fome. Ao chegar lá, cumprimentam-me e me convidam a sentar à mesa repleta de garrafas de cerveja vazias.
Hesito. São pessoas que têm por costume fazer comentários que me desagradam. A educação, porém, fala mais alto e aceito. Encaro a turma que têm os olhos injetados pelo álcool.
Alguns dos homens, estando todos na mesma faixa etária que eu, mencionam a entrevista com Lula e começam a fazer piadinhas próprias da mentalidade política e ideológica que infesta a parte de São Paulo em que vivo.
Permaneço impassível e calado. Percebem que não estou achando graça. Um deles, menos grosseiro, resolve mudar de assunto:
– E o Rio, hein! Que tragédia!
Percebo que é outro tema que não vai prestar e me abstenho de comentários. Dedico-me à excelente batidinha de limão que servem ali.
Um outro decide escancarar a bocona: “Sabe qual é o problema do Rio?”. Percebendo que vem pedrada, mas já começando a me irritar, pergunto qual seria o “problema do Rio”.
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Quando o futebol usa a linguagem da violência
O texto abaixo é um comentário feito ao post ANT: uma voz contra a elitização do futebol, no blog de Rodrigo Vianna, o Escrevinhador. Descreve com muito boa acurácia no que transformaram o futebol no Brasil: de espetáculo de entretenimento lúdico, prazeroso e familiar a um wrestling de brigas de arena regadas a violência quase militar.
Vamos tratar de parar com essa bobagem. Primeiro, nos últimos anos a cultura sul-americana invadiu o futebol, ou seja. As pessoas não gostam de futebol, gostam do seu clube. Se para ser campeão tiver que quebrar a perna ou romper os ligamentos de um craque adversário, a torcida irá vibrar como um gol. Estamos na cultura da vitória a qualquer custo. As faixas nos estádios são o retrato disso, “Treino é jogo, jogo é Guerra”, “Deixem o sangue no campo, que deixamos a vida na arquibancada”.
Aliás, a grande culpada disso foi a torcida do Grêmio FBPA (Nem sou gaúcho para me acusarem de algo), que extinguiu a cultura brasileira dos estádios e importou um misto do pior dos “barras” argentinos e dos “hooligans” europeus. A torcida do Grêmio não se fruta de cantar hinos racistas (os torcedores do S.C. Internacional são cantados como macacos e a torcida do Grêmio tradicionalmente lincha um boneco de macaco, como se fazia no sul dos Estados Unidos antes dos direitos civis). Um núcleo nazista já foi detectado pela Polícia Civil e pelo MP do RS dentro da torcida do Grêmio. Tudo é batalha, guerra, combate.
Sobre a elitização. Os clubes agora não querem meros torcedores, querem sócios. Novamente falo do sul, o S.C. Internacional tem mais de 100.000 sócios, o Grêmio FBPA, tem 60.000 e fechou novas filiações por absoluta falta de infraestrutura. O Estatuto do Torcedor obrigou os lugares marcados e sentados, que convenhamos, alguém aqui senta no lugar que está escrito no seu ingresso? Ao mesmo tempo o Estatuto do Torcedor tornou os clubes responsáveis pelo bem estar dos torcedores nos estádios, nada mais natural. Mas aí fica o dilema, como manter a segurança de torcedores de pé, amontoados, correndo nos setores dos estádios? É preciso repensar o Estatuto do Torcedor.
Nossas canções são horríveis. 10% são realmente belas, o resto são apelos por sangue, morte e destruição. Não basta vencer o adversário, é necessário aniquilar o “inimigo”. Nossas músicas são racistas(macacos), homofóbicas(bambis, “marias”, gazelas), socialmente discriminatórias(gambás, favelados).
O futebol brasileiro perdeu o aspecto lúdico, popular, do samba, da malandragem(no bom sentido), a alegria. Queremos a vitória a qualquer custo, nossos torcedores viraram soldados, os jogadores gladiadores hiper-preparados fisicamente, técnicos generais mais preocupados em não perder, do que prestigiar a maior manifestação cultural brasileira, junto com o carnaval.
O torcedor brasileiro virou cliente, e cliente quer resultado, não interessa a maneira, não interessa a forma.
Num único aspecto discordo totalmente de você [em referência ao post]. Os estádios brasileiros são verdadeiros CURRAIS humanos. Sujos, desconfortáveis, desorganizados, contruídos em grande parte por políticos populistas. Depósitos de gente.
A primeira mudança da cultura para um torcedor alegre, feliz com o espetáculo do FUTEBOL é tratar o torcedor com dignidade, não feito GADO sendo espancado pela polícia.
Um grande abraço e saudações
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