Arauto da Consciência

Resenha: Deus, um delírio

Postado em 07/05/2010 à/s 4:04

O livro Deus, um delírio, de Richard Dawkins, é um guia muito bom para aquelas pessoas que estão com suas crenças religiosas na corda-bamba, em dúvida sobre a existência de um deus pessoal. As explicações científicas expostas pelo “Rottweiler de Darwin”, também chamado pelas más línguas de “aiatolá dos ateus”, são a iluminação, no sentido mais iluminista possível, que lhes faltava para que chegassem logo à conclusão de que não faz sentido acreditar em Deus, seja lá por qual nome ele seja chamado.

Também é um compêndio de motivos que levam os chamados “neoateus” a afirmar que o mundo seria melhor sem religiões – pelo menos sem a tríade abraâmica, composta por cristianismo, islamismo e judaísmo. Muitas das explicações conscientizantes do livro, no entanto, devem ser lidas e analisadas com ponderação, uma vez que nelas podem estar sendo utilizados critérios cientificamente questionáveis para explicar alguns fenômenos relacionados a criações socioculturais, como a própria religião e a moral.

O próprio Dawkins afirma que religiosos convictos ou fanáticos sequer refletirão sobre qualquer ideia trazida por seu livro. Assim sendo, ele deixa claro que seu público-alvo é gente que teve, ao longo de sua vida ou nos últimos tempos, sua fé enfraquecida e fragilizada por desilusões e/ou eventos incitadores da Razão. Ateus convictos que querem fortalecer seus argumentos e adquirir ainda mais certeza de sua descrença, no entanto, também são seus mais potenciais leitores.

Todos estão bem servidos de informações abundantes sobre a debilidade dos argumentos de quem tenta defender filosófica e “cientificamente” a crença num deus. Diversos fatores são desmascarados, no capítulo 2, como as “provas” de Tomás de Aquino, alegações de experiências pessoais e o fato de existirem e terem existido cientistas religiosos.

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O conto bíblico de Jó e o desmatamento de Suape: uma percepção ética do ato de ceifar e substituir vidas em massa

Postado em 19/04/2010 à/s 2:52

Abaixo um texto de reflexão sobre o ecocídio de Suape, baseada no conto bíblico de Jó. Foto: Blog Ciência e Meio Ambiente do JC Online

O desmatamento histórico que o Governo de Pernambuco quer causar nas cercanias do Porto de Suape já é conhecido por grande parte da opinião pública. Vem sendo tanto defendido por quem quer progresso incondicional para Pernambuco como repudiado por quem quer a continuidade do verde e uma economia sustentável para o estado. Um ponto, no entanto, a que poucos se atentaram é a previsão de compensação ambiental nos Artigos 2º e 3º e no Anexo II do projeto de lei 1496/2010 (o PL do desmatamento). Mas será que vale deixar a destruição rolar contando-se com a promessa de plantar uma área de extensão igual ou maior?

Pensando – criticamente – no conto bíblico de Jó, no qual a atitude de Deus foi muito semelhante à atual do governo Eduardo Campos, podemos concluir que a tal compensação, mesmo com boas intenções e pretendendo replantar talvez o dobro de vegetação, não é mais preferível do que deixar os 1076 hectares de ecossistemas intactos, preservados.

A tal história de Jó, contada no livro bíblico homônimo, escreve que Jó era um homem muito rico, senhor de muitos servos e rebanhos (a Bíblia não hesita em tratar animais e escravos como propriedade humana) e pai de sete filhos e três filhas, sendo “maior do que todos os do oriente”. Era também “íntegro, reto e temente a Deus e desviava-se do mal”.

Então um dia Deus, na intenção de provar, perante Satanás, que a fidelidade de Jó a ele era incondicional e irredutível, permitiu que o Coisa-Ruim matasse todos os filhos e servos do inocente homem e desse um fim aos rebanhos dele através de hordas militares de outros povos e catástrofes naturais, além de lhe causar “úlceras malignas, desde a planta do pé até ao alto da cabeça”.

Jó manteve a fé em Deus mesmo em situação miserável, e no final o Divino “acrescentou, em dobro, a tudo quanto Jó antes possuía (sic)” e teve mais dez filhos (três meninas e sete meninos), além de, presumivelmente, ter curado as úlceras da pele.

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2 anos de blogagem

Postado em 11/04/2010 à/s 23:41

Com experiência nos blogs Consciência Efervescente e Arauto da Consciência, hoje fiz dois anos de blogueiro.

Sei que muitos blogs alcançam os milhares de visitas em poucas semanas ou meses e esse não foi o caso do Arauto nem do CE, uma vez que meu conteúdo não é de humor e entretenimento -- como o Porra Mauricio, hoje um fenômeno absoluto na blogosfera humorística brasileira -- nem eu sou uma personalidade já reconhecida -- tal como Pierre Lucena, um dos donos do blog Acerto de Contas, que já era um respeitadíssimo professor da UFPE, doutor e tudo, quando criou junto com Marco Bahé* aquele que é o mais importante blog de Pernambuco. Toda a experiência que eu tinha até 11 de abril de 2008 era pouco mais de seis meses de artigos de opinião e uma tentativa (frustrada) de escrever livro. Assim sendo, é esperado que, pelo menos enquanto não realizo alguma obra que me dê notoriedade e reconhecimento, o blog vá crescer aos pouquinhos, no conta-gotas.

Em comemoração a esses dois anos, posto acima deste post um depoimento de como me tornei vegetariano, deixando de consumir qualquer alimento de origem animal. Obs.: não inclui minha veganização.

Obrigado a tod@s que visitaram meu blog em busca de conhecimento e de algo que lhes desencadeie um despertar de consciência ou lhes corrobore a visão de mundo. Vocês, junto a mim, ajudam o nosso zeitgeist a progredir, tal como Richard Dawkins diria.

* André Raboni, se você também é um dos fundadores do Acerto, fale comigo que vou te inserir no post.

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Gripe ou “griphe” suína? Entenda quem é contra a vacinação e contra o Tamiflu

Postado em 10/04/2010 à/s 17:49

Antes de tudo, ignoro totalmente a baboseira de "Nova Ordem Mundial" e outras teorias folclóricas de conspiração. A questão aqui é relacionada a interesses econômicos de grandes laboratórios farmacêuticos em torno de uma ameaça de pandemia que não se consolidou -- mas foi exagerada pela mídia.

Primeiro, um vídeo legendado que mostra o esquema do Tamiflu e como a gripe suína não é tão "pandêmica" quanto a mídia alardeou durante meses (e já parou de alardear, só voltando a tocar no assunto depois que o governo brasileiro anunciou a vacinação em massa):

E, em seguida, abaixo estão uma postagem do blog Acerto de Contas mais uma notícia, do início deste ano, do Valor Econômico Online, ambas as quais vão fazer você ficar ainda mais pensativ@ sobre essa campanha.

Leia as duas notas abaixo, junte as informações com as do vídeo e tire suas conclusões.

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Frase da semana (28/03-03/04)

Postado em 01/04/2010 à/s 2:55

"Publicar gente que prega veganismo, vegetarianismo, abduções socio-econômicas e outros que tais? Tenha santa paciência…" Comentário (cuj@ don@ não vou identificar) encontrado em um blog multitemático (que, por motivo de bom senso, também não vou dizer qual foi, mas digo que não foi aqui)

Não vou criticar quem escreveu isso, até porque não é minha política criticar as pessoas. Mas sim faço uma reflexão sobre o pensamento que vigora em grande parte da população, a ridicularização da nova consciência.

Schopenhauer já dizia no século 19: "A verdade passa por três estágios: primeiro, é ridicularizada; segundo, sofre oposição violenta; terceiro, é aceita como autoevidente." E de fato ele estava certo. O veg(etari)anismo, os direitos animais, a utopia do terceiro sistema econômico, o não-teísmo (ateísmo e agnosticismo) cético, entre tantos outros valores e ideologias que são ainda novidades "esquisitas" para a população, vêm sendo tratadas com desdém por muita gente, seja na fase da ridicularização (direitos animais, veg[etari]anismo e outros), seja na da oposição violenta (ateísmo, alvo da intolerância de gente que não admite que existam pessoas que não compartilham de sua fé).

Não culpo as pessoas por isso. Elas são levadas a atos absurdos de reprovação de valores e ideias que destoem dos paradigmas vividos como padrão pela sociedade pela força do que Durkheim chama de fatos sociais. O onivorismo, a exploração animal, a religião não lúcida, o materialismo* capitalista, o padrão de comportamento masculino "se você não gosta de catar mulé uma atrás da outra, você é um pateta", todos esses fenômenos têm um poder de coerção tal que as pessoas se mobilizam para reprovar e reprimir quem pensa e age diferente.

Não digo que eu mesmo poderia ridicularizar o vegetarianismo em outras épocas porque sempre tive, desde criança, uma suscetibilidade a ser mexido por ideias "forasteiras" plausíveis. Mas, digamos, fui cristão até a adolescência, e eu poderia muito bem criticar algum/a colega ateu/ateia, convidando-@ a "aceitar Jesus" ou tentando convencê-l@ de que o ateísmo seria perigoso (pela lógica da Aposta de Pascal). Enfim, eu cristão e as pessoas que seguem os comportamentos e valores nocivos esta(áva)mos pres@s na Caverna de Platão, atad@s a crenças e valores nada saudáveis e resistentes a ver a luz do mundo real. Não posso culpar @s pres@s por seu encarceramento numa caverna que só lhes mostra ilusões e preconceitos sobre o que é bom e ruim para o mundo, a natureza e os seres sencientes.

Saber como tirar essas pessoas dessa caverna das ilusões, fazê-las começar a pensar racionalmente em seus comportamentos, é um desafio que anima @s sociólog@s, e essa é uma das maiores motivações para eu estar no curso de Ciências Sociais.

A saber, sempre que enfatizam que eu e o Arauto defendemos o veg(etari)anismo, somos verdes e descrentes, defendemos ideias muito diferentes do que a sociedade hoje "pensa", tais colocações me caem como um elogio.

*O materialismo a que me refiro é o comportamento capitalista de apego máximo a bens materiais cuja obtenção e posse se tornam objetivos de vida.

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Experiência da “senciência vegetal” refutada

Postado em 09/03/2010 à/s 17:16

É abundante em sites pseudocientíficos e nos argumentos onívoros a tal "experiência de Backster" em que plantas reagiriam de forma senciente e sentimental a estímulos humanos e ambientais. Por outro lado, pouco é divulgado que os "sentimentos vegetais" já foram refutados. A refutação veio no site The Skeptics Dictionary e está disponível em português.

Reproduzo o texto abaixo e saiba por que a ética pela vida senciente do vegetarianismo e do veganismo não abrange a vida vegetal -- considerando uma moral de respeito ao ser como fim em si mesmo e dotado de interesse de continuar vivendo.

Percepção vegetal (também conhecida como percepção primária ou Efeito Backster)
por Robert Todd Carroll, retirado do site The Skeptics Dictionary

As plantas são seres vivos que possuem paredes celulares de celulose, desprovidos de órgãos nervosos ou sensoriais. Os animais não têm células com paredes de celulose, mas possuem os referidos órgãos.

Jamais ocorreria a um fisiologista de animais ou plantas testar se estas possuem consciência ou ESP, pois seu conhecimento seria suficiente para descartar a possibilidade de que elas tivessem percepções ou sentimentos semelhantes aos humanos. Em termos leigos, plantas não têm cérebro, nem nada semelhante a um cérebro.

No entanto, uma pessoa completamente ignorante a respeito de ciências vegetais e animais não só pesquisou percepções e sentimentos em plantas, como afirma ter provas científicas de que elas experimentam uma ampla gama de emoções e pensamentos. Chama-se Cleve Backster e publicou suas pesquisas em 1968 no International Journal of Parapsychology ("Evidence of a Primary Perception in Plant Life" [Indícios de uma Percepção Primária em Vida Vegetal] 10, 1968).

As alegações de Backster foram refutadas por Horowitz, Lewis e Gasteiger (1975) e Kmetz (1977). Este resumiu os argumentos contra Backster em um artigo para a Skeptical Inquirer em 1978. Backster não tinha utilizado controles adequados em seu estudo. Quando foram aplicados controles, não se detectou nenhuma reação a pensamentos ou ameaças. Esses pesquisadores descobriram que os contornos registrados no polígrafo poderiam ter sido causados por numerosos fatores, entre os quais a eletricidade estática, movimentos na sala, alterações na umidade, etc.

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Ética e ateísmo, por Bruno Müller

Postado em 24/02/2010 à/s 18:00

Sou fã dos artigos de Bruno Müller, dono do hoje abandonado blog Seres Livres e colunista da ANDA. Como já falei um tempo atrás, ele foi uma das pessoas que me inspiraram a escrever artigos e a criar o Consciência Efervescente.

Concordo em muita coisa com ele, a não ser sobre anarquismo, sobre o qual ainda não sei muito e nada li.

Com vocês, um ótimo artigo sobre ateísmo, religiões e ética.

Ética e ateísmo
por Bruno Müller

Certa vez conheci uma pessoa que me disse que, ao saber que eu era ateu, sentiu-se receosa, mas que, com o tempo, percebeu que apesar disso eu era uma boa pessoa – como se o ateísmo fosse um entrave para o desenvolvimento ético de um ser humano. No entanto, essa mesma pessoa era perversa, manipuladora, mentirosa, arrogante – para resumir, uma hipócrita.

Com o tempo, entendi que não havia uma contradição em sua personalidade. Não que pessoas religiosas sejam necessariamente hipócritas, mas aquelas mais fanáticas e que se consideram ungidas de uma missão divina, como era o caso dela, frequentemente o são, mesmo sem se dar conta. Isso porque é necessária uma boa dose de arrogância para acreditar conhecer os segredos do universo, ter “linha direta” com um deus e sentir-se apto a revelar – ou impor – esses segredos aos demais.

Ainda jovem, quando a curiosidade me levou a frequentar alguns cultos, entendi que o pecado que mais se observa nas igrejas e templos é o do orgulho, da vaidade. O que há na fé que faz as pessoas se sentirem melhores que as outras que não têm fé ou não têm a supracitada “linha direta”? Não tenho resposta pronta para essa pergunta, mas esta leva a uma outra questão, mais fácil de abordar: o sentimento de superioridade lhes leva a supor que não há bondade fora da religião, que quem não tem religião não possui estatura moral ou capacidade de praticar o bem e o respeito ao próximo.

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Poesia: Involução não é opção

Postado em 19/02/2010 à/s 13:25

Poesia escrita em março de 2009

Não adianta.
De nada adianta me pedirem para voltar a ser o que eu era antigamente
Onívoro, consumidor de refrigerante, religioso e conformado com a realidade
Garanto que isso não acontece por mais que me insistam

Não vou ser feliz tentando ser tudo aquilo de novo
Ser o contrário do que sou hoje
Pelo contrário, eu preferiria morrer a me degenerar
Sofrer tentando involuir por causa da argumentação tronxa
De quem tenta me convencer com emoção
De que estou errado

Digo isso porque sinto como é ser ocasionalmente pressionado
Por quem não entende esta consciência
Por quem acha que ser o que sou hoje
[é tolice, frescura e não adianta nada para o mundo

Já me sugeriram, em sessões de “aconselhamentos” passionais e tolos
Com argumentações sem argumentos
Que eu deixasse de ser vegano e amante de sucos
Que eu abandonasse a vontade de interferir
[nas injustiças que os antiéticos poderosos promovem contra nós
Que eu voltasse a crer num deus pessoal
[forjado por minhas necessidades psicológicas
Que eu voltasse a acreditar na mitologia de Jesus como se fosse fato real

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Resenha: O Mundo Assombrado pelos Demônios: a ciência vista como uma vela no escuro

Postado em 21/01/2010 à/s 6:30

Bem que Carl Sagan, n’O Mundo Assombrado pelos Demônios, podia ter investido ainda mais contra a pseudociência, a superstição, a crendice e a religiosidade bitolada, mas seus esforços pela promoção da ciência e do ceticismo são enormemente bem vindos. Ele fez um ótimo trabalho na tentativa de promover esses dois perante a humanidade que ainda se deixa levar pela tendência a cair em crendices emocionadas, embora eu ache que ele poderia ter ido mais longe no combate frontal ao que não deveria ser acreditado e que reservou espaço demais para a crença em ETs seqüestradores.

O primeiro capítulo anuncia bem o que Carl pretendeu defender e combater: as conseqüências da não-valorização da ciência, alguns benefícios desta para a humanidade os episódios em que a mesma foi e é usada para o mal e as peripécias desvairadas da pseudociência (e as tragédias proporcionadas por ela). O segundo faz uma intensa propaganda da ciência, algo do tipo “como é gostoso viver a ciência”, inclusive mostrando-a como niveladora de egos – pela refutação de idéias não-comprovadas de seja lá quem for. Nada mal para introduzir o leitor ao gosto pelo pensamento científico, algo que é retomado muitos capítulos depois.

O terceiro já muda o foco, para a pareidolia, embora esse vocábulo não esteja presente ao menos na edição que li. Explora questões como o monte chamado de “A Face em Marte”, a “cratera da carinha sorridente” na Lua e aparições da Maria bíblica. Foi uma boa abordagem para começar o desmonte de crendices.

A partir do quarto, até o capítulo 11, 127 páginas de ETs atrás de ETs. O leitor tem a impressão de que os “demônios” do título do livro são na verdade uma metáfora para os alienígenas, que Carl mostra serem parte apenas do imaginário folclórico. As questões mais detalhadamente abordadas foram as (falsas) memórias das pessoas que dizem ter sido raptadas por ETs, levadas para discos voadores e vitimadas por vivissecção, as “provas” da presença de áliens vigiando a Terra e o suposto trabalho dos governos em esconder a “verdade” de que “eles” estão nos olhando, fazendo experimentos tecnologicamente rudimentares com humanos e cavando “sinais” em plantações. Questões de ceticismo religioso como os “julgamentos” da Inquisição e as visões alucinadas medievais de demônios ou santos aparecem, mas com pouca expressividade. Foi uma pena que o ET de Varginha e a febre das supostas aparições extraterrestres no Brasil não entraram no livro, até porque aconteceram na mesma época do lançamento do mesmo, leia-se 1996.

A partir do capítulo “A arte refinada de detectar mentiras”, o ceticismo e a pseudociência são abordados com vigor. É quando o leitor pensa – e com razão – “poxa, finalmente o livro começou a mostrar para que veio!” Tem destaque meu o “caso Carlos”, que foi a forja da incorporação de um jovem de descendência latina por um espírito, esquema montado pelo “mago do ceticismo” James Randi, e o breve desmascaramento de picaretagens como cirurgias mediúnicas e curas de doenças pela força da fé. Porém, eu acho que Carl Sagan ainda pegou muito leve com a pseudociência e a superstição. Poderia ter ido muito mais longe e abordado mais casos específicos de quando a picaretagem hipnotiza as mentes crédulas.

Mais adiante, a propaganda da ciência é retomada com muita força. Carl tem todo o meu apoio nessa parte. As mais variadas questões da ciência são abordadas, incluindo um pouco de antropologia – quando fala da tribo africana !Kung San e cita as semelhanças entre povos humanos pré-letrados ou da Pré-História, como a crença em deuses e/ou espíritos e o uso de tecnologia – e o alerta para o perigo do uso maligno da ciência, tendo destaque a história de Edward Teller, o pai da bomba H e defensor visceral das armas de destruição em massa. Entretanto, faltou totalmente uma importante denúncia do mau uso da ciência: as torturas da vivissecção animal.

Em seguida, a educação científica dos Estados Unidos é diagnosticada como tendo sérios problemas. Foi obviamente uma análise bem mais comportada do que aquele dossiê educacional também americano que Michael Moore levantaria no livro Stupid White Men, lançado cerca de cinco anos depois d’O Mundo Assombrado Pelos Demônios. As deficiências apontadas são denunciadas como causas da decadência da dedicação científica naquele país e sua retração na corrida dos países desenvolvidos pela excelência do tratamento acadêmico da pesquisa científica. Reconheço muita nobreza na postura de Carl Sagan em defender melhorias na educação americana e a valorização da heterodoxia pedagógica, aquela(s) forma(s) de ensinar que apaixonam os estudantes. E quanto ao “nerdismo” dos cientistas e pretendentes a cientistas, ele entrou na apaixonada defesa daqueles que são taxados de “nerds” por sua preferência às ciências exatas e naturais, citando o exemplo de James Clerk Maxwell, o pioneiro do eletromagnetismo.

Nos dois capítulos finais, a ciência e a atitude cético-científica é transformada em cetro da democracia, da liberdade e dos direitos humanos. Foi uma abordagem muito digna e inspiradora, ainda mais por ter enfrentado o comportamento de alienação social. Segundo Carl, o verdadeiro patriota tem um comportamento que questiona e não aceita qualquer porcaria política, servindo o último capítulo idealmente para os brasileiros, embora ele não tenha falado diretamente ao Brasil.

Ao longo da obra, houve questionamentos muito comportados e limitados à religião. Aliás, Carl demonstra um respeito um tanto medroso pela mesma, evitando lançar ataques condenatórios e críticas pesadas do tipo daqueles que Richard Dawkins direciona quando pratica o que chamam de pensamento neo-ateísta. Creio que ele tinha muitos amigos religiosos fervorosos e o medo de machucar a fé deles inibiu O Mundo Assombrado pelos Demônios de atacar a religião explicitamente. Pelo contrário, em alguns momentos Carl defende a “religião honesta” que estimula o pensamento filosófico e questionador, embora comprovemos no dia-a-dia que tal atitude comportamental é bastante rara na população se vinda de crentes comuns não engajados em profissões requerentes do exercício do pensamento. Também não podemos contar com o livro como priorizador da Razão sobre a emoção humana, embora a ciência tão defendida esteja diretamente ligada àquela, até porque falta uma apologia consolidada à racionalidade na obra.

O Mundo Assombrado pelos Demônios é uma obra nobre porque enobrece a ciência e o ato de pensar cientificamente. E, como Carl Sagan, todos devemos perceber que é esse o pensamento que pode proporcionar um mundo melhor, em vez da imaginação crédula e inocente e da alienação educacional.

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