Resenha: Hagakure
Hagakure é um ótimo livro em que se pesquisar, mas bastante ruim para se ler e se aprender algo. Tem uma boa temática que aborda tudo ou quase tudo sobre o pensamento e a vida de um samurai, mas, pelo menos na edição da Conrad Livros, deixa de ser interessante e atraente até para quem quer aprender como viver como um samurai por causa da tosca distribuição dos ensinamentos pelas páginas.
A secular obra de Yamamoto Tsunetomo (ou, na disposição ocidental de nome e sobrenome, Tsunetomo Yamamoto) expõe centenas de curiosidades sobre como viver e pensar como samurai, como bons modos, o costume de beber chá e a homossexualidade entre tantas outras questões.
Três pontos que merecem destaque maior por terem uma abordagem em mais passagens são a devoção incondicional do guerreiro, com quê de submissão, ao seu mestre; a disposição que o indivíduo deveria ter para morrer “a qualquer momento” – viver sempre preparado para a morte – e a atitude de racionar palavras – em grande parte das situações cotidianas, procurar falar pouco e às vezes ser lacônico ou ficar calado.
Aparecem também instantes filosóficos em que Tsunetomo fala sobre, por exemplo, o nada e as formas dos seres – vivos e inanimados.
Grande parte dos ditados desse samurai que se tornou monge são dele mesmo, enquanto tantos outros ele mesmo diz que “dizia o senhor fulano”, vindos de homens como o Mestre Ittei, o Sacerdote Tannen e personalidades da história japonesa.
Um ponto negativo dos ensinamentos de Tsunetomo – ou da cultura japonesa, se considerarmos que ele estava apenas descrevendo costumes do Japão de sua época – é a forte misoginia expressa em passagens que pregam, por exemplo, a submissão da mulher ao seu marido e as proibições específicas de gênero impostas a ela. O machismo descrito em Hagakure mostra que a filosofia do Bushido era algo reservado apenas para homens.
Também chamam a atenção curtas passagens que são narrações de situações acontecidas com certos samurais, como a perseguição de um assassino, uma reunião de deliberações sobre criminosos e a discussão sobre a promoção de um samurai.
Tsunetomo preocupou-se, pelo que se pode deduzir, não em escrever uma autoajuda, mas em dar recomendações sobre o Bushido a quem lesse seu livro. Na introdução, diz-se que ele queria queimá-lo, mas não se sabe se essa atitude era uma mentira dita em atitude de protesto ou uma intenção.
Hagakure pode servir como uma ótima fonte para estudos etnológicos sobre o Japão feudal e, como repositório de preceitos da cultura desse lugar e época, não deve ser inteiramente levado ao pé da letra como ensinamento contemporaneamente adequado. Várias passagens são úteis hoje, mas outras devem ser observadas como amostras dos costumes e valores daquela sociedade.
Não sei sobre edições publicadas por outras editoras, mas a da Conrad Livros dispôs uma estrutura que nos convida a abandonar a leitura após passar do primeiro capítulo. Os tópicos são dispostos aleatoriamente pelos onze capítulos. Ensinamentos assim dispersos e tão curtos são muito difíceis de ser assimilados, uma vez que abordam apenas superficialmente as questões presentes e bruscamente somos remetidos a um assunto totalmente diferente depois de terminar uma passagem. Assim sendo, o livro não se faz de grande ajuda para o leitor – dificilmente a leitora – que deseja alinhar certos pontos de sua vida à antiga disciplina do samurai, e quem tem um outro livro na fila pode parar a leitura da obra na metade sem relevante prejuízo na aquisição de conhecimento.
Hagakure é útil como fonte de estudo sobre como o samurai vivia e pensava, mas sua leitura seria muito mais recomendável se houvesse uma organização nos tópicos abordados. Mesmo que subvertesse a disposição original do que Tsunetomo escreveu, uma nova edição que priorizasse a divisão das passagens por tema seria bem mais adequada e fácil de ser lida.








