População do Recife é ambientalmente alienada, mostra pesquisa do Akatu
Atualização (08/03, 10:16): como visto aqui, a pesquisa não foi feita em conjunto com a Globo. A emissora só fez divulgar o resultado da pesquisa no Fantástico.
Obs.: Essa foi uma reportagem do lado bom e aproveitável do jornalismo da Globo, aquele que mostra fatos confiáveis e não promove manipulação sociopolítica. E só assisti à reportagem porque me chamaram para ver na TV, eu não vejo mais TV por conta própria, salvo pouquíssimos momentos excepcionais.
Umas semanas atrás, antes do Carnaval, eu estava na praia de Boa Viagem e fui surpreendido por um stand onde se divulgava um suposto projeto de edifício residencial que seria construído em cima da areia. A aberração se chamava "Exclusive Beach Boa Viagem", e teria atrações como piscina natural no mar com tela contra tubarões, seguranças em jet-ski e reserva de uma área da praia para divertimento particular.
Hoje confirmei que o projeto era mesmo uma pegadinha. Tratava-se de uma pesquisa sobre consciência ambiental popular, se a população aprovaria obras semelhantes que representassem agressão óbvia ao meio ambiente e ao patrimônio público.
Infelizmente a maior parte d@s recifenses entrevistad@s aprovou tal bestialidade imobiliária. Veja o trecho que falava de Recife na reportagem do Fantástico de hoje:
Brasileiros aceitam empreendimentos em cartões postais
(...)
No Recife, o prédio também foi projetado para uma praia. Seria erguido nas areias de Boa Viagem, com direito à piscina com água natural e com proteção contra tubarões. “Pra que ter vista da praia, se a gente pode morar na praia?”, diz o ator que se passa por vendedor. E, como no Guarujá, a maioria – 61% – aprovou o empreendimento.
Pequeno explicativo sobre o veganismo
Está circulando na internet (extraí de http://tweetphoto.com/11415975). Me parece uma camiseta estampada. Seja lá o que for, é um bom resumo sobre o que o veganismo é.
- Alimente @s famint@s.
- Salve os povos indígenas.
- Manifeste-se pelos direitos trabalhistas.
- Seja gentil com os animais.
- Pare as fazendas-fábrica.
- Salve 100 animais todos os anos.
- Acabe com o desmatamento por pastagem.
- Salve um acre (4047m²) de árvores
- Acabe com a pastagem em terras públicas.
- Diga à divisão de "serviços de vida selvagem" da USDA (Departamento de Agricultura dos Estados Unidos)...
- ...para parar de matar a vida selvagem em prol...
- ...dos lucros das corporações latifundiárias.
- Pare as guerras por recursos.
- Ajude a acabar com a dominação pelas corporações.
- Viva sua consciência.
- Salve nossos oceanos.
- Pare o poluidor número 1 das águas.
- Apoie um planeta sustentável.
- Pense no que há fora de si.
- Viva com compaixão.
- Pare a violência.
Por que o etanol não é a salvação
Artigo escrito em novembro de 2008
O álcool combustível nos últimos dois anos passou a ser tratado no Brasil como a grande panacéia da questão ambiental da energia. Quem ainda não viu Lula anunciando feito místico ascenso, ao largo do planeta, algo parecido com “ajoelhai-vos, países desenvolvidos, eu tenho vossa salvaçãããooo!” quando falava maravilhas do etanol por aí? É notável que há uma orientação muito passional nas enormes expectativas de “um mundo melhor por ser movido a um combustível limpo e renovável”, uma força de esperança pessoal bastante parecida com aquela que anima a vida de religiosos e crentes em curas pela fé, por também ser desprovida de ceticismo e encaração crítica. A verdade é que, embora a poluição vinda do cano de escape seja realmente bem menor, há uma contrapartida, um lado de porém, nociva o suficiente para levantar no mínimo questionamentos ríspidos ao caráter messiânico do álcool nos carros.
Falo de alguns problemas, dois ambientais e dois sociais, por sinal muito sérios e que devem ser encarados com muita sobriedade, pé no chão e atenção. Todos envolvem os lugares de onde saem a “promessa”, os imensos latifúndios de cana-de-açúcar e sua expansão, e denunciam a extrema fragilidade, ou mesmo a quebra, do triângulo da sustentabilidade – Ambiental/Econômico/Social.
O primeiro fator ambiental é o nosso “amigo” desmatamento. Lembrem-se, o Nordeste só tem sua economia sustentada pela cana desde a época colonial porque a Mata Atlântica foi quase totalmente varrida da região pelos latifundiários, foi reduzida a frágeis pinguinhos onde árvores frondosas ainda se aglomeram. O mesmo serve para São Paulo, atual maior estado canavieiro do país, onde os canaviais tomaram muito do lugar dos cafezais da República Velha. Dali o cerrado foi banido e a floresta tropical foi dizimada a menos de 8% da área original. Analisando com seriedade, percebemos que só foram possíveis a criação do Proálcool nos anos 70, a proliferação dos carros flex na década atual e os discursos encantados de Lula porque nossos ecossistemas foram mutilados sem piedade e sobrepostos por “desertos verdes” que se perdem no horizonte.
Resenha do filme Fast Food Nation
Chocante e escancarador. Um copo de ácido jogado no hambúrguer. Assim é o filme Fast Food Nation (2006), que, sob o disfarce da ficção, disseca a indústria do fast-food e exibe toda a podridão nela existente: carne contaminada com fezes, relações humanas deterioradas do matadouro até a lanchonete, anti-higiene na montagem do hambúrguer, acidentes de trabalho mais que terríveis... e, acima de tudo, o banho de sangue e sofrimento que é o abate dos bois cuja carne será comida por quem nem sonha com a verdadeira história do seu aparentemente inocente sanduíche.
O nome “Mickey’s”, da empresa central da trama – ao lado da IMP, que abate animais e processa e empacota as carnes –, você pode substituir livremente pelo de qualquer corporação cujos lanches você talvez coma. Na falta de evidências em contrário vindas de cada empresa, a realidade é genericamente identificável com qualquer fast-food, ou pelo menos é assustadoramente provável que a grande empresa cujos hambúrgueres você come tenha uma realidade interna semelhante à retratada no filme.
Paralelamente, é retratado um pouco da vida atordoante de mexicanos que emigram ilegalmente para os Estados Unidos, como é andar quilômetros num deserto, ser carregado num furgão, viver sob as ordens e até ameaças dos “coiotes”. Aliás, o que o filme mostra serve para qualquer pessoa do mundo inteiro que esteja iniciando uma emigração ilegal através da fronteira mexicana-estadunidense. Essa subtrama se liga ao fast-food do filme pela empregação (e exploração) de alguns desses imigrantes na IMP.
As outras duas subtramas centram-se em Don Anderson, alto-executivo da Mickey’s e criador do bem-sucedido hambúrguer “Big One” (“Grandão” na dublagem brasileira), investigando os processos do matadouro-frigorífico da IMP, ciente de que há traços significativos de fezes misturados na carne; e em Amber, adolescente que trabalha em uma lanchonete da Mickey’s.
Consumo ético não é só selo verde
Artigo escrito em fevereiro de 2009
Vem-se falando muito, cada vez mais, de “consumo ético”, “consumo responsável”. Entretanto, pode-se notar que a compra de produtos ecologicamente corretos vem sendo tratada como a quase totalidade dessa abordagem ética, como se para consumir com responsabilidade fosse necessário apenas e simplesmente começar a comprar “itens verdes”. A verdade é que a ética do consumo vai muito além, transcende enormemente essa visão limitada e engloba assuntos bem menos tratados nas discussões.
Me refiro a questões como direitos trabalhistas, direitos animais e empresas inimigas do meio ambiente. Nessa visão liberta do reducionismo “só consumo verde”, uma empresa que, por exemplo, explora e desrespeita seus empregados não passará a ser ética se começar a vender produtos ambientalmente amigáveis mas continuar maltratando seus subordinados. E uma companhia tal, por mais princípios “verdes” que adote, não passará ao lado ético se não deixar de testar seus produtos em animais.
Releva-se também, para esse entendimento ético mais abrangente, a opção do boicote. Muito além de priorizar certos produtos, o consumidor consciente evita outros que, opostamente à proambientalidade ou à neutralidade ecológica, tenham sido fabricados por empresas comprovadamente envolvidas com a destruição ambiental.
Para melhor entendimento, vale descrever essas “novas” frentes éticas, exemplificando as três citadas e indicando outras não menos relevantes.
Resenha do documentário Super Size Me: a dieta do palhaço
A experiência de Morgan Spurlock com os 30 dias de refeições de tamanho até “Super Size” no seu documentário Super Size Me foi algo quase suicida. E muito corajoso também. Ele debilitou seu corpo com um mês de dietas nada saudáveis para denunciar como o fast-food estraga o organismo e vem provocando um crescimento epidêmico da obesidade na população dos Estados Unidos – e também do mundo, se considerarmos a clientela global das empresas multinacionais de comida rápida.
Ele resolveu se jogar na aventura perigosíssima de comer durante trinta longos dias três refeições diárias só com alimentos provenientes da McDonald’s, escolhida por ser a maior corporação de fast-food dos EUA. Aceitaria sempre as porções de tamanho “super size” quando fossem oferecidas. Viajaria por várias cidades norteamericanas para testar o serviço das lanchonetes da empresa.
Antes da experiência, era um homem muito saudável, com todas as taxas fisiológicas e desempenhos físicos “fora de série” de acordo com os muitos exames feitos. Era vegetariano assim como sua esposa, mas resolveu fazer como o Jesus bíblico – sacrificar a si mesmo, assim como o seu vegetarianismo, pela iniciativa de salvar as pessoas.
Esteve ligado a vários/as doutores/as para verificar como sua saúde passaria os trinta dias de tormenta alimentar. Em cada dia ele vai mostrando à câmera o que come e bebe. Paralelamente, o documentário mostra os podres da indústria de fast-food e as aberrações corporativas cometidas.
Entre esses podres e aberrações, o lobby da indústria alimentícia não-saudável, a quantidade de propagandas de alimentos ruins comparada às dos saudáveis, a invasão do fast-food nas escolas, a omissão de exibir os valores nutricionais do que se serve nas lanchonetes... Também são denunciados os problemas de saúde e socioculturais – neste caso, a autodepreciação que garotas obesas vivem quando se deparam com propagandas e programas de TV com mulheres magras – que a epidemia de obesidade veio acarretando.
Ele também tentava entrar em contato com alguém da McDonald’s para pedir esclarecimentos sobre a antinutritividade dos alimentos oferecidos, mas as pessoas responsáveis eram quase incomunicáveis, dando desculpas atrás de desculpas para não atenderem às ligações.
Durante o filme, ele foi surpreendido pelo fechamento da clínica Hælth, onde ele fazia alguns de seus exames, uma amostra, segundo ele, de que a saúde não era valorizada nos EUA – o que Michael Moore confirmaria no documentário Sicko anos depois.
A cada dia, Morgan sentia os sintomas da deterioração de sua saúde. Sentia estufamento, momentos de depressão, falta de fôlego, formigamentos, falta de ar, dores internas, entre vários outros problemas. Seu peso aumentava vários quilos em poucos dias. Seu fígado estava a caminho da deterioração, um fenômeno que nem mesmo um dos doutores que ele estava consultando havia visto antes. Estava ficando impotente sexualmente. Adquiriu um princípio de vício de hambúrgueres e refrigerantes. Ele poderia morrer se persistisse com a dieta suicida por mais tempo.
Quem assiste ao documentário torce para que os trinta dias de sofrimento de Morgan acabem logo. A pessoa pode ficar um pouco nervosa, enquanto assiste ao filme, na espera pelo fim da aventura sacrificante dele, compadecendo do princípio de doença que ele estava sofrendo.
No 30º e último dia do terrível hábito alimentar, o/a telespectador/a sente um alívio: enfim Morgan encerrou sua dieta patológica! Em seguida, ele mostra como sua saúde se deteriorou tão fortemente. Descobrimos que ele ingeriu quantidades bombásticas de açúcar (quase 14kg somados) e gordura (mais de 5kg no total) no mês da “dieta do palhaço”.
No final, antes dos créditos, os desfechos: ele recuperou sua saúde em poucas semanas, embora até a conclusão do filme ele ainda estivesse perdendo o peso; o McDonald’s decidiu retirar do mercado os alimentos de tamanho “super size”, lançar pratos (questionavelmente) saudáveis e passou a patrocinar eventos esportivos – negando, no entanto, a influência do documentário sobre essas decisões –; o representante do lobby alimentício já não estava mais no cargo; Morgan, por motivos não esclarecidos, deixou o vegetarianismo – o único desfecho triste da história.
Duas citações são mais marcantes no filme: “[Você] precisa pensar que, se acredita que o sistema [de que você desfruta] é corrupto, imoral, errado e agressivo, você estará fazendo parte dele”, segundo Alexandra Jamieson, a namorada de Morgan; “Mas por que as empresas mudariam? A lealdade delas não é com você, e sim com os acionistas. A verdade é que isso é um negócio, não importa o que digam”, segundo o próprio Morgan.
Partindo para a análise crítica, não há praticamente nada do que reclamar do Super Size Me. O filme atinge seus objetivos e cumpre o que se habilitou a fazer: denunciar como o fast-food de hoje é imprestável em termos de saúde e nutrição e como seu empresariado não tem compromisso nenhum com o bem-estar humano – muito menos animal, visto a matança de animais que a pecuária promove, embora isso não tenha sido abordado no documentário.
Denúncias como a persuasão infantil ao mau hábito alimentar, a invasão do fast-food nas escolas, o lobby que inibe providências governamentais de combate à má alimentação e, mais notável, a epidemia de obesidade sem precedentes – todas referentes aos EUA, mas que, com o tempo, poderão contaminar outros países – são gravíssimas e o Super Size Me escancarou-as competentemente.
Morgan Spurlock, com seu documentário, juntou-se a Michael Moore no hall de cineastas corajosos que dão a cara à tapa – e, dependendo da perversidade dos denunciados, o corpo às balas – para mostrar que desgraças certas categorias políticas e econômicas do seu país são capazes de causar em prol de interesses escusos.
Bom seria se no Brasil tivéssemos gente do tipo deles, cineastas e escritores/as que conscientizam ludicamente a população, abrindo seus olhos para os problemas do país. É um dos melhores estilos de filme existentes: documentários educativos, que servem, com eficiência e competência, de apoio para as escolas e as campanhas de conscientização.
Super Size Me merece palmas, e Morgan, encorajamento para fazer mais documentários. Os EUA precisam de mais filmes do estilo. Depois de assistir ao filme, é de se duvidar que a pessoa vá continuar comendo regularmente fast-food. As pessoas menos resistentes a conscientizações vão muito provavelmente jurar nunca mais pôr os pés na McDonald’s, Bob’s, Burger King ou qualquer lanchonete do gênero. Obrigado, Morgan Spurlock, por ter dado uma de Jesus bíblico.
Resenha do documentário The Corporation
The Corporation (2003) cumpriu bem seu papel de alertar os olhos dos telespectadores quanto ao papel vilânico exercido por grande parte das maiores empresas multinacionais do mundo. Desmascarou os monstros – ou melhor, as entidades psicopatas, como o documentário “diagnostica” – escondidos atrás dos(as) simpáticos(as) garotos(as)-propaganda. Entretanto, tropeçou ao limitar a abordagem de certos assuntos críticos, ao deixar de abordar mais profundamente esperanças e soluções e ao direcionar os sentimentos da audiência com uma habilidade limitada e falha.
Para quem não assistiu ainda ou quer se lembrar “do que é que falava mesmo”, o filme se divide em vários blocos que contam tópicos como:
- a história do poder abusivo das corporações, quando aproveitou a 14ª emenda da Constituição norteamericana para adquirir direitos de pessoa física;
- a imoralidade ou amoralidade do exercício do poder empresarial, a falta de ética;
- os baixíssimos salários oferecidos a empregados em países pobres;
- as indenizações que foram obrigadas a pagar e o fato de as mesmas serem tratadas como custos adicionais que podem ser arcados;
- o uso de substâncias tóxicas na pecuária;
- os danos ambientais de muitos empreendimentos;
- as tentativas – muitas bem-sucedidas – de apoderamento do “direito” de obter patente em cima de espécies de seres vivos transgênicos;
- o mau-caratismo das estratégias de incremento da preferência consumista infantil;
- a hipocrisia da (suposta) responsabilidade social;
- o poder sedutor da propaganda;
- a venda de valores sociais e de desejos;
- o poder de manipulação política, incluindo a superação do poder aos próprios políticos;
- as intimidações aos meios de comunicação e a quem quer denunciar os abusos corporativos;
- a aliança empresarial com governos totalitários;
- a tentativa de golpe de Estado contra Franklin Roosevelt;
- as tentativas de privatizar recursos naturais e o direito ao usufruto dos mesmos em outros países.
The Corporation mexe muito, muito mesmo, com os sentimentos de quem assiste, desde os iniciantes no pensamento consciente, que querem deixar a alienação que marcava suas vidas até pouco tempo atrás, até os mais ativistas. As reações são variadas: embora em alguns poucos momentos lance mão de cenas que fazem rir por uns segundos, o caráter alarmista provoca desde a desilusão com muitas marcas muito consumidas até o mórbido desejo de que os CEOs e diretores das gigaempresas fossem todos mortos.
Como denunciante do inferno que existe atrás da fachada “celestial” da publicidade, como flagrante das inúmeras atrocidades cometidas em nome do lucro alto, o filme cumpre bem a função. Abre os olhos de muitas pessoas que até certo momento nutriam sonhos capitalistas, sonhos de consumo, sonhos de um futuro como gigaempresário(a). Revela que produtos de muitas marcas têm crime, morte e destruição entre seus ingredientes.
Cumpre seu objetivo, mas a strictu sensu. Exerce mal a segunda parte do processo de conscientização anticorporativa: mostrar soluções e como cada pessoa pode proceder, individual ou coletivamente, para derrubar os superpoderes malignos das corporações.
Restringe-se a mostrar de forma vaga que “um mundo melhor, sem o mal corporativo, é possível”, num discurso que lembra mais os sonhos de um adolescente de 17 anos que tenta uma vaga numa faculdade de jornalismo do que o levantamento de possibilidades claras e estratégias consistentes de como, por exemplo, consumir eticamente e contribuir para que o megaempresariado passe a pensar duas vezes antes de agir como demônios.
Embora tivesse feito (breves) referências a questões como defesa da democracia, manifestações, boicotes, união popular e prestação de contas, várias perguntas ficaram em aberto para quem, após o filme, passou a interessar-se mais pela luta por um mundo livre de corporações “demoníacas”: Como organizar campanhas de boicote? Como acordar uma parte significativa da população urbana regional ou nacional de modo que haja possibilidade de haver ativismo anticorporativo em massa? Como impedir uma decisão política que, por exemplo, determine uma privatização absurda? Como impedir que uma empresa nacional em ascensão, prestes a alcançar a multinacionalidade, saia da linha e se torne mais uma “corporação do mal”? Como se opor a abusos éticos como o patenteamento sobre seres vivos ou códigos genéticos? Como contribuir individualmente para ajudar a derrubar a crueldade capitalista?
Exemplos como a oposição dos agricultores indianos à patente imposta ao arroz basmati ainda foram dados, mas no geral faltou uma maior ênfase em casos bem-sucedidos das mais variadas formas de oposição aos abusos capitalistas – faltando inclusive exemplificar campanhas de boicote que alcançaram sucesso.
E, acima de tudo, faltou a proposição de um debate global sobre como suplantar a estrutura capitalista-corporativa atual e lançar um sistema econômico sustentável, ético, respeitável e socialmente conveniente. Nos mais marxistas, essa falta de alternativa sistemática acirra o desejo de promover um estouro revolucionário socialista, proposta que a História já comprovou ser um fracasso.
Essa limitação no apontamento de soluções terminou causando um atropelo nos sentimentos das pessoas que guardavam esperanças de que o filme apontasse soluções de forma pragmática e desse o pontapé para que se começassem articulações de militância.
Considerando que em certo momento, antes dessa fraca exposição de saídas, foi dada a impressão de que as corporações venceram definitivamente, que não há mais soluções para salvar o planeta, que tentativas de ativismo serão vãs e que o mundo está perto de entrar em colapso irreversível, houve uma condução um tanto atrapalhada das emoções dos telespectadores. O mais provável foi que esse fortíssimo toque passional não havia sido previsto pelos produtores do documentário.
Essa falha na canalização emocional, ao ver de alguns, tem potencial de despertar em algumas pessoas de pensamento ideológico mais passional uma explosão psicológica de revolta, desespero por encaração de um problema sem soluções definitivas à vista e até ímpetos coléricos de revolucionismo para quem ainda vê o ideal comunista como única “alternativa” à crueldade capitalista.
Outra falha importante foi a exclusão de alguns assuntos fundamentais, no mínimo dois: os Direitos Animais e o poder da educação. A questão animal ficou limitada à exposição do problema dos hormônios e drogas aplicados em vacas e na intoxicação do leite, aliás, uma abordagem muito bem-estarista, restrita à denúncia dos danos bioquímicos ao organismo daqueles animais. A vivissecção ficou como promessa descumprida.
Não houve debates sobre as muitas outras crueldades praticadas pela pecuária ou pela prática de testes de produtos em bichos, nem uma abordagem ética da coisificação e comercialização de animais não-humanos. O veganismo, visto e compreendido por um número crescente de cidadã(o)s como uma das atitudes mais praticáveis e eficientes de oposição a abusos corporativos no que tange à ética animal e ao meio ambiente, sequer foi mencionado no filme.
A educação também quase não entrou na história. Aliás, foi ainda menos perceptível do que os animais. Ficamos sem saber se as “corporações do mal” também estão interferindo na educação escolar ao redor do mundo e se/como as escolas estão lidando com a perversão consumista induzida nas crianças. Uma das grandes esperanças de salvação para as sociedades mundiais, a formação estudantil de pessoas conscientes e resistentes à tentação publicitária, terminou esquecida.
Passando da época do The Corporation, primeira metade da década de 2000, a hoje, final da década, nos vemos no desejo necessitado de assistir a um “The Corporation 2”. O mesmo poderia abranger questões como o agronegócio e suas implicações catastróficas no meio ambiente, a situação da China e do Sudeste Asiático, onde uma versão ainda mais monstruosa do capitalismo encontrou moradia, e enfim a ética animal, além de observar o impacto da crise econômica global de 2008-2009, que aconteceu como uma explosão no sistema capitalista-corporativo mundial, analisar se houve algo de bom nesse quase-quebra-quebra.
E também, a sugerida continuação poderia abordar muitíssimo melhor as soluções possíveis para derrubar o poder megalomaníaco e cruel das corporações. Que venha falando de boicotes que deram certo, do movimento vegano, de manifestações que proporcionaram a expulsão de uma ou mais megaempresas de determinado(s) país(es), etc. Que analise se a ascensão de governos como o de Evo Morales – eleito na mesma Bolívia onde outrora tentaram privatizar a água – é algo positivo para a humanidade, para as esperanças de reação contra os poderes abusivos das multinacionais.
Se eu desse uma nota ao documentário, daria 6 – passaria de ano ainda, ainda que “na agulha” –, vistas as limitações e ausências descritas mais acima e a consequente incompletude do trabalho de conscientização. Não adianta gritar: “Ei! As corporações são monstruosas e o capitalismo é cruel! Abram os olhos!” e não dar soluções claras ou ao menos uma convocação geral a um debate global. O filme cumpriu o objetivo principal, mas de forma muito limitada. Que venha um “The Corporation 2” para terminar o serviço, que, convenhamos, foi muito nobre e bem-intencionado apesar das faltas.











