Arauto da Consciência
3mar/100

Frase da semana (28/02-06/03), e algumas surpreendentes passagens bíblicas

É uma frase minha mesmo.

"Se Deus é contra os midianitas, amalequitas, jebuzeus, amorreus etc., quem será por eles?" Eu no Twitter agora há pouco

É "fato" que o deus bíblico foi um senhor de guerra de dar inveja a muitos generais e autocratas genocidas e imperialistas da Idade do Ferro. Veja alguns exemplos bíblicos de como o mesmo Deus que @s cristã/o/s adoram hoje como senhor absoluto do amor e da bondade foi um dia (supondo que a mitologia bíblica fosse uma coletânea de fatos históricos comprovados) foi um lorde de derramamento de sangue, vingança, destruição e matança (o macabrismo divino rimou até):

Josué 10: 28-42

28 E naquele mesmo dia tomou Josué a Maquedá, e feriu-a a fio de espada, bem como ao seu rei; totalmente a destruiu com todos que nela havia, sem nada deixar; e fez ao rei de Maquedá como fizera ao rei de Jericó.
29 Então Josué e todo o Israel com ele, passou de Maquedá a Libna e pelejou contra ela.
30 E também o SENHOR a deu na mão de Israel, a ela e a seu rei, e a feriu a fio de espada, a ela e a todos que nela estavam; sem nada deixar; e fez ao seu rei como fizera ao rei de Jericó.
31 Então Josué, e todo o Israel com ele, passou de Libna a Laquis; e a sitiou, e pelejou contra ela;
32 E o SENHOR deu a Laquis nas mãos de Israel, e tomou-a no dia seguinte e a feriu a fio de espada, a ela e a todos os que nela estavam, conforme a tudo o que fizera a Libna.
33 Então Horão, rei de Gezer, subiu a ajudar a Laquis, porém Josué o feriu, a ele e ao seu povo, até não lhe deixar nem sequer um.
34 E Josué, e todo o Israel com ele, passou de Laquis a Eglom, e a sitiaram, e pelejaram contra ela.
35 E no mesmo dia a tomaram, e a feriram a fio de espada; e a todos os que nela estavam, destruiu totalmente no mesmo dia, conforme a tudo o que fizera a Laquis.
36 Depois Josué, e todo o Israel com ele, subiu de Eglom a Hebrom, e pelejaram contra ela.
37 E a tomaram, e a feriram ao fio de espada, assim ao seu rei como a todas as suas cidades; e a todos os que nelas estavam, a ninguém deixou com vida, conforme a tudo o que fizera a Eglom; e a destruiu totalmente, a ela e a todos os que nela estavam.
38 Então Josué, e todo o Israel com ele, tornou a Debir, e pelejou contra ela.
39 E tomou-a com o seu rei, e a todas as suas cidades e as feriu a fio de espada, e a todos os que nelas estavam destruiu totalmente; nada deixou; como fizera a Hebrom, assim fez a Debir e ao seu rei, e como fizera a Libna e ao seu rei.
40 Assim feriu Josué toda aquela terra, as montanhas, o sul, e as campinas, e as descidas das águas, e a todos os seus reis; nada deixou; mas tudo o que tinha fôlego destruiu, como ordenara o SENHOR Deus de Israel.
41 E Josué os feriu desde Cades-Barnéia, até Gaza, como também toda a terra de Gósen, e até Gibeom.
42 E de uma vez tomou Josué todos estes reis, e as suas terras; porquanto o SENHOR Deus de Israel pelejava por Israel.

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3mar/100

A violência urbana e a perda do direito de trocar por bem o celular

Artigo escrito em junho de 2009

Uma curiosidade inquietante da vida urbana no Brasil é que é muito difícil que uma pessoa aposente seu velho número ou aparelho de celular por vontade própria. Não é tanto pela existência da portabilidade e do desbloqueio, os quais tornaram uma linha independente do celular que a incorpora, mas sim por algo muito indesejável: a violência dos assaltos.

“O celular! Bora, passa o celular!” Essa frase, gritada por um bandido armado com revólver, faca, canivete ou vidro quebrado disposto a matar por nada, tornou-se tão frequente hoje em dia que passou a ser a maior razão para o fim de um número móvel e a inutilização do dispositivo que o mantinha. A verdade é que a probabilidade de uma pessoa perder um telefone por violência tornou-se muito alta, bem maior que a de decidir trocar de número por uma razão pacífica e aproximando-se até da de trocar de aparelho por substituição livre.

A violência que devora celulares “popularizou” uma desconfortante situação, descrita a seguir.

Uma pessoa quer matar as saudades de um(a) conhecido(a) ou parente com quem há muito não tem contato. Procura o número dele(a) numas gavetas e encontra: é um celular que o outro indivíduo tinha naquela época, três anos atrás. Liga para ele(a) e, para sua surpresa, ouve a mensagem que indica que o telefone não funciona mais, não está recebendo chamadas. Liga para alguém próximo do(a) colega e a pessoa do outro lado da linha diz a verdade: aquele celular dele(a) foi roubado. Mais um aparelho somou-se às tão altas estatísticas dos assaltos.

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3mar/100

Poesia: Não vou

Escrita em dezembro de 2008

Não vou deixar para lá que fui roubado e que posso sê-lo de novo a qualquer dia.

Não vou esquecer que minha integridade física já foi ameaçada porque faltou segurança pública competente.

Não vou considerar isso normal.

Não vou atender quando alguém me disser “deixa isso pra lá”.

Não vou banalizar os assaltos e os assassinatos.

Não vou passar a pensar que ser assaltado, ameaçado, mirado por uma arma de fogo ou branca, é comum, normal e aceitável.

Não vou fazer brincadeira com algo sério como a ameaça que sofri de ser esfaqueado ou baleado caso não desse meu celular.

Não vou aceitar ser oficiosamente proibido de usar, numa democracia, num país livre, uma ferramenta de exercício de cidadania como um celular que tira fotos dos mais diversos problemas a que somos submetidos.

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26fev/100

Conformado com a mira

Artigo escrito em setembro de 2008, depois do sequestro e assassinato de Eloá Pimentel

O Brasil praticamente parou por causa da tragédia do seqüestro em Santo André, do mesmo jeito que no caso do ônibus 174 oito anos atrás. Mas infelizmente sei que mais uma vez a comoção generalizada novamente vai se reduzir à resignação e ao conformismo, como sempre. É um comportamento indesejavelmente freqüente no país esse ato de sentir pena e indignação temporárias e depois esquecer tudo como se nada tivesse acontecido.

É algo que, pode ter toda a certeza, nos põe como inferiores à população de diversos outros países nos quesitos cidadania, preocupação social e também respeito ao próximo e além do mais é uma das grandes causas de a criminalidade ter se consolidado tão solidamente por aqui.

Não gostaria de fazer comparação entre nações, mas me vejo obrigado a fazê-lo, e digo que é de causar vergonha do povo a que pertenço quando vejo na internet protestos no Canadá, na Argentina, na Finlândia e em outros cantos do mundo eclodindo quando mesmo casos isolados de atentado à vida e à segurança dos cidadãos acontecem.

Nesses países, basta que um episódio de violência (como a última chacina em escola na Finlândia) estampe os jornais ou as estatísticas de segurança pública apenas ameacem crescer (como em Buenos Aires em 2002) que o povo vai às ruas assegurar que a polícia não perca seu poder coercivo e o governo não amoleça nas políticas de bem-estar social. Ao seu modo, ora com cartazes e gritos ora com panelaços, o povo mostra que não se conforma quando sua liberdade e bem-estar são ameaçados e faz valer seu poder como senhor supremo de seu país.

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21fev/100

O caldeirão de ácido fervente que queima os impotentes

Artigo escrito em dezembro de 2008

Um mês como qualquer outro. Neste dezembro de 2008, notícias policiais e estatísticas de violência não faltaram. O que mais chamou a atenção foi a divulgação de dados revelando que em 2007 houve cerca de 35 mil homicídios no Brasil, bem mais do que a soma da maioria dos conflitos armados em andamento ao redor do mundo. E também, não vou esquecer, a nova mania dos arrastões nos bairros mais ricos de Recife. Tudo isso prova o quê? Que “a violência alcançou níveis ‘insuportáveis’”? Que “a polícia não evoluiu o bastante”? Que “está evidente a falta de uma política pública eficiente de segurança”? Pode até ser isso tudo sim, mas esse crescimento da violência prova outro fato bem menos óbvio aos olhos e mentes das pessoas: a alienação perante a realidade óbvia e a “impotência” que as vítimas de violência afirmam sentir estão tomando ares de calamidade pública e ajudando imprescindivelmente a criminalidade a crescer. Essa é a verdadeira conclusão a que cheguei.

A verdade é que só podia dar nisso. As estatísticas cresceram, o país ficou mais violento em quase todos os seus recantos, porque ninguém estava disposto a reclamar. Ou simplesmente desistiu de tentar lutar sozinho e aderiu à massa calada. E as coisas continuam piorando. O caldeirão de ácido fervente, já transbordando, está queimando cada vez mais pessoas. Afinal, elas não cobram como deviam das autoridades para que a ameaça do ácido do caldeirão seja detida. Preferem pensar em algum aspecto bem fútil de sua rotina de alienação para tentar esquecer que há uma poça crescente de ácido avançando em seus pés, queimando suas pernas e ameaçando matá-las.

Vagamente dizem algo parecido com “tenho um desejo muito grande (sic) de que os políticos tomem vergonha na cara e a violência diminua” ou “espero que 20__ seja um ano com mais paz e blábláblá”. Mas como é que isso vai acontecer? Como é que vamos ter um país seguro? Como as pessoas ainda acreditam que isso vai acontecer do zero, que as coisas vão melhorar sem que lutem por nada, sem que precisem cobrar nada?

Como alguma coisa vai melhorar se as vítimas de crimes dizem que se sentem impotentes, sem força nenhuma para mudar nada? Desde quando determinada situação social muda com um povo sem potência, sem força, sem moral, sem a convicção de que unidos nunca podem ser vencidos? Lembro dos protestos contra a reforma do direito do primeiro emprego na França em 2006. Ninguém ali pensou “me sinto impotente diante desse governo”, muito pelo contrário. Do mesmo jeito que na época das Diretas-já ninguém daquelas massas manifestantes, mesmo ainda dentro do período cronológico da ditadura, pensou em impotência.

Contra um povo que, além de se calar e prestar conivência a tudo que sofre e se comportar como se nada de grave estivesse acontecendo, ainda acha que não tem poder para mudar nada, é totalmente esperado que a violência continue crescendo além dos níveis de conflito armado. Uma população que subestima seus problemas sociais não é só vítima deles, figura na verdade como parte do problema, já que não há um impulso para as autoridades trabalharem. O caldeirão de ácido que vem transbordando e ameaçando a todos só vai secar se o espírito de alienação e impotência for abolido da mentalidade da maioria. Quero ver alguém dizer “sofri um assalto hoje e agora, mais do que nunca, sinto que preciso ajudar a melhorar essa realidade para não ter que sofrer tudo de novo outras vezes mais” em vez de “fui assaltado(a) hoje, me sinto tão impotente com essa realidade cruel...”. Só assim é que um mês violento como este não vai ser mais algo tão comum.

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21fev/100

Uso livre do celular, um direito que ninguém se incomodou em ter perdido

Artigo escrito em dezembro de 2008

É fato: não temos mais o direito de andar nas ruas das cidades brasileiras portando ao mesmo tempo tranqüilidade e um celular. Este é o produto de roubo preferido dos meliantes das ruas. Ninguém mais deixa de ouvir ou falar a frase “roubaram meu celular”. Esta já é uma das frases mais marcantes dos últimos tempos no país, ao lado de antigos e recentes dizeres populares da moda como “Créu!”, “Pede pra sair”, “Ah, eu tô maluco!”, “Oh coitado!” e “Chupa que é de uva”. Parece ter virado moda mesmo ser assaltado na rua, e ninguém demonstra estar verdadeiramente incomodado com isso.

É interessante o comportamento: dezenas de celulares – e também tocadores de mp3 e câmeras digitais – são roubados por dia em cada capital e quase nenhuma reclamação pública em prol de demonstrar incômodo generalizado é feita. Perdemos o direito de usufruir do que há de mais novo e moderno na tecnologia portátil, mas ninguém parece estar obviamente insatisfeito. O medo existe, mas é reduzido a um sentimento de foro íntimo, algo irreversível.

Culpa-se muito, muito mesmo, as autoridades por não haver mais essa liberdade tecnológica. Polícia e políticos são apedrejados em cada conversa de bar e de vizinhos ou reunião de família. Mas, esquisito é, poucos chegam neles para pedir melhorias. Como é que vamos esperar alguma mudança se não reclamamos para quem devemos? Dizemos muito: essa polícia é ineficiente, não protege, não é boa, é mal distribuída, não faz isso, não faz aquilo. Mas cadê alguém para enviar um ofício à PM e mostrar as necessidades de cada comunidade e clamores da população? Cadê as pessoas que, nas poucas vezes em que mandam um abaixo-assinado ou algo do tipo, não persistem na cobrança política de soluções?

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21fev/100

A armadura pesada do guerreiro covarde e nossa alienação

Artigo escrito em novembro de 2008

O bairro do Ipsep era bastante tranqüilo, se comparado com outros lugares de Recife. No passado, um carro antigo do meu pai amanhecia aberto e com a chave na ignição, intocado. Assaltos eram tão freqüentes quanto na Finlândia, respeitando-se a proporção de área territorial. Hoje vejo melancolicamente os conjuntos residenciais do bairro se tornando fortalezas gradeadas. Até pouco tempo atrás (considerando que hoje é novembro de 2008) eu tinha acesso fácil às paradas de ônibus mais próximas, graças aos atalhos que eram as ruas de terra entre os prédios-caixão desses condomínios. Agora eu tenho que arrudiar as esquinas porque tais atalhos foram fechados com grades e portões.

Se você mora no Brasil, não precisa pensar muito até ter noção de que isso foi promovido em razão do aumento da violência. Roubos de carro e assaltos de rua passaram a pipocar por esse bairro, piorando desde quatro anos e meio atrás. Percebamos com igual acurácia que está sendo desenrolada uma perversa tendência de comportamento: enquanto fortificamos os lugares onde moramos, com particularização de ruas, cercamento com grades e cercas elétricas e seguranças particulares, negamos com uma vergonhosa convicção a luta contra aqueles que nos obrigam a levantar tantas proteções domiciliares. Somos como um guerreiro covarde que veste a mais pesada das armaduras mas não quer ter sua espada, nem que seja uma curtinha.

Não vá entender essa espada como uma convocação à reação a assaltos, mas como a luta popular contra o problema da violência. É essa luta que praticamente não existe hoje no Brasil. Ou será que você chama essas inúteis “caminhadas pela paz” de protestos convincentes?

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15fev/100

Os limites da coerção policial numa sociedade sem tratamento

Artigo escrito em janeiro de 2009

Com a Lei Seca, que pune com rigor motoristas que misturam álcool e direção, levantou-se um debate notável sobre o choque entre coerção e cultura, quando uma lei rigorosa se choca com os costumes viciados da sociedade. Duas perguntas oportunas são lançadas nessa discussão. A primeira é: uma norma que passe por cima de um vício cultural sem que este tenha sido devidamente remediado pela conscientização coletiva consegue cumprir o seu objetivo? E a segunda reflete uma outra preocupação de enorme importância, com muito em comum com a outra questão: até que ponto o poder policial consegue forçar a inibição da delinquência e da violência sem que as raízes sociais delas sejam devidamente tratadas?

Gerou-se o aperto do costume alcoólico com a proibição total do álcool no sangue do motorista. Enquanto há fiscalização nas estradas, todos estão pensando duas vezes antes de “abastecer” o corpo com etanol. Mas bastou um relaxamento no rigor fiscal que os acidentes causados pela embriaguez no volante voltaram a crescer significativamente. A verdade escancarada é que, por não ter sido antecedida por um esforço de conscientização cultural de longo prazo, a Lei Seca só vem funcionando quando os corpos de polícia de trânsito apertam. É o mesmo efeito de uma seringa entupida contendo ar: o aperto, equivalente à coerção, só reduz o objeto a ser tratado por compressão forçada, nunca por diminuição do conteúdo. A mentalidade da sociedade não muda, só é forçada a se comportar dentro do limite. O combate policial à ebriedade dos motoristas pode continuar e até tornar-se mais eficiente com a investida de mais policiais, viaturas e delegacias móveis, mas será sempre limitado a forçar a compressão dos hábitos viciados, nunca sua redução consciente.

Assim a primeira pergunta encontra sua resposta: o objetivo da norma coerciva não antecipada pelo trabalho da consciência coletiva é atingido sim, mas só enquanto há fiscalização rígida. Não conseguirá nunca converter o costume popular viciado em responsabilidade autocultivada, mas só lhe impor volume menor.

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13fev/100

O apodrecido centro do Recife

Artigo publicado em julho de 2009

Recife tem muitas bonitas e elogiáveis atrações turísticas, como a praia de Boa Viagem, o Recife Antigo, o Carnaval e tantas outras. Mas seu centro, ao contrário, é definitivamente uma repulsão tanto para turistas como para habitantes da cidade. Juntamente com as inúmeras favelas, aquele lugar é uma das maiores vergonhas urbanas e sociais recifenses.

É basicamente nessas duas categorias de aspectos – urbanismo e questão social – que se dividem os inúmeros problemas do apodrecido velho centro. Em ambos os quesitos, os bairros da área padecem lamentavelmente e causam a vergonha dos(as) cidadã(o)s.

Andando pelas avenidas Dantas Barreto, Guararapes e Conde da Boa Vista e ruas adjacentes, vias mais importantes, é perceptível o estado de decadência física e social daquele ambiente.

Se chegamos à Avenida Dantas Barreto pela Avenida Sul, somos recebidos por construções sem manutenção, mal conservadas, consumidas pelo tempo. Muitas delas são antigas, dignas de se tornar parte do patrimônio histórico tombado, e nunca são revitalizadas. Também são marcantes a extrema desorganização do comércio ambulante, que o Camelódromo não conseguiu disciplinar. Também marcam aquela via a mendicância intensa e a enorme chance de aparecerem marginais, desde trombadinhas até gente armada, e beneficiados pela ausência da polícia e prontos para roubar dinheiro e objetos de valor dos(as) transeuntes.

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11fev/100

Caminhada para lugar nenhum

Mais uma caminhada inútil.

Artigo escrito em novembro de 2008. O evento anunciado repete-se todos os anos.

Vem aí em Recife – próximo dia 30 – mais uma caminhada para lugar nenhum. É assim que considero as tais “caminhadas pela paz”, algo muitas vezes considerado pelas pessoas comuns desesperadas como a “única” ou “melhor” oportunidade de reivindicar o direito à paz civil plena e à segurança pública consolidada. A experiência coletiva da realidade mostrou que a única função desses eventos é extravasar emoções, tendo elas efeito zero nas estatísticas de segurança e na sensação de perigo (ou de sua ausência).

No próximo domingo (30/11) será a nona edição da caminhada municipal. Em nove edições, a primeira em 2000, tudo o que vimos foi o crescimento generalizado da violência urbana na cidade. Considerando dados de fevereiro de 2007, que absolutamente nada na prática mostra ter mudado para melhor, sete caminhadas (2000-2006) apoiadas pela Prefeitura do Recife, sem contar várias outras organizadas por outros grupos, em nadíssima adiantaram para tornar a cidade mais segura, tanto que nessa época Recife estava figurado como a capital mais violenta do Brasil.

Questiono diante disso para que servem essas andanças. Pelo menos o senso comum diz que é para “dar um basta à violência”. A realidade comprova que não são para mostrar soluções, o que seria a melhor função possível para uma manifestação contra a criminalidade, mas sim apenas como um meio de extravasar as emoções das pessoas que se sentem cercadas e intimidadas pela quase livre ação dos bandidos. Ao contrário de como as pessoas mais lúcidas em sua visão social gostariam que fosse, não estão em jogo nessas passeatas de gente vestida de branco proposições, estratégias e abaixo-assinados massivos em prol de melhorias na política de segurança pública, mas sim apenas desabafo, indignação inibida, desejos apaixonados de uma cidade e país utopicamente livres do crime, fé religiosa – crença de que um deus supostamente onipotente irá pelos apelos dos humanos sair de sua inatividade prática e começar a imunizá-los milagrosamente contra a violência urbana – e, se muito, cobranças vagas de mais polícia.

Lembremos um movimento efêmero que tentou marcar a sociedade brasileira, um chamado “Basta! Eu Quero Paz!”. Tentou bombar no país em 2000, com caminhadas branquinhas nas capitais, participação de celebridades, canalização dos desejos de todo o país de menos criminalidade, etc., e tudo o que conseguiu foi o desprezo prático dos governos federal e estaduais e o derradeiro esquecimento por todos, se não considerarmos também o “alívio” ilusório que seus participantes sentiram na época.

Está provado por A mais B que esse tipo de manifestação só funciona se tiver como única função o extravasamento de paixões, esperanças e desejos coletivos normalmente reprimidos pelos marginais. Se a intenção for uma tentar botar as autoridades contra a parede e mostrar projetos e planos concretos de como garantir a segurança nas áreas do município ou do estado, a estratégia atual está completamente errada. Se essas passeatas forem atualizadas para movimentos de protesto firme e de apresentação de propostas policiais e sociais analisadas e assinadas pela população, aí sim começarão a caminhar realmente para algum lugar.

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11fev/100

Más-vindas ao Brasil

Artigo escrito em junho de 2009

Uma triste mania de muitos brasileiros é responder aos relatos de pessoas que sofreram o primeiro assalto em suas vidas, o pior engarrafamento por elas já enfrentado ou a quebra de seu carro numa estrada esburacada com as frases “Seja bem-vindo ao Brasil!” ou “Fulano, Brasil. Brasil, Fulano”. Demonstra como a população, tomada pelo conformismo, enxerga de forma banal um estado de coisas que lhe priva de direitos e até ameaça suas vidas.

Me obrigo a fazer um questionamento, cordial mas muito crítico, dessa atitude. São perguntas que soam como retóricas mas demandam explicações, esclarecimentos, respostas bem-explicadas do povo. Eis minhas perguntas então.

Por que, em vez de “boas-vindas” irônicas, não podemos ter acesso ao prazer de dar saudações sinceras a um país receptivo que trata bem seus habitantes? Por que as únicas boas-vindas que nada escondem da realidade brasileira têm que ser uma ironia, têm que ser “más-vindas” invertidas?

Quando relatei oralmente, em 2008, o primeiro assalto que sofri na vida, acontecido pouco tempo antes, me disseram “bem-vindo ao Brasil”. A essas pessoas, pergunto: bem-vindo aonde? A um país em que ninguém fora pessoas engajadas em turismo pode dar sinceras saudações a quem não sentiu na pele o “custo Brasil” da vida urbana? A um lugar onde os direitos à vida e à segurança corporal e material não são inalienáveis na prática?

Por que, aliás, se dá essas “boas vindas”? Por que temos que ironizar com nossa situação? A resposta mais provável é que esse seria uma ironia carregada de crítica ao estado de coisas do país, mas o dizer parece mais uma demonstração de conformismo e um atestado de que a violência, a miséria e o caos são inerentes à existência – ou à essência – do Brasil e por isso irreversíveis.

Por que "Bem-vindo ao Brasil" tem que ser necessariamente "Bem-vindo à realidade cheia de violência, miséria, descaso e alienação"? É para o Brasil ser assim mesmo, um país violento incapaz de tutelar com dignidade seus habitantes e de dar boas-vindas sinceras a turistas? Se é, por quê? Se não é, por que não se muda a situação?

As respostas mais frequentes dadas à última pergunta acusam a inépcia do governo e a paralisia da maioria das políticas públicas sociais pela corrupção que corrói as verbas a elas destinadas. Mas essa não é uma resposta total. O povo que me desculpe, mas grande parte da culpa está também nele mesmo.

Pergunto: por que você, ó povo, não se empenha? Por que, embora lance mão de tal ironia para criticar a situação de seu país, não pensa em mudá-la? Por que exterioriza apenas críticas e desejos verbalizados, quase nunca ações? Aliás, por que tais críticas não se transformam em protestos?

Há muitas perguntas mais a serem feitas à população sobre o porquê de dizer “Bem-vindo ao Brasil”. Talvez tantas quanto num Novo ENEM. Respostas serão muito bem-vindas, mas a preferência maior, retificando o que falei no segundo parágrafo, é que haja reflexões seguidas de ações. Porque um país que me dá “boas vindas” porque fui assaltado não está demonstrando decência e está sim requerendo conserto. Um conserto que não vai acontecer só com gente dando a pessoas desafortunadas essas “más-vindas” ao Brasil.

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8fev/101

Vídeo para refletir: Alcides, a vontade derrotada pela realidade

Apesar de ser da Globo, o vídeo cai muito bem em mostrar à sociedade a que ponto chegamos: pessoas sonhadoras valentíssimas terminam mortas por causa da criminalidade insuportável que existe no Brasil.

Fica a pergunta: por que o povo NÃO reage? Por que o carnaval e o Big Besteirol Brasil estão sendo mais importantes do que qualquer problema social deste país?

Leia mais no blog Acerto de Contas: Alcides, a derrota da vontade sobre a realidade

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29jan/102

Viver a pancadaria (Parte 2)

Anteontem fui obrigado pelas circunstâncias (como sempre, familiares vendo televisão) a ouvir (e ver alguns poucos instantes) mais uma das tantas brigas que marcam a novela Viver a Vida. Entre quais personagens, não me interessa.

Pensando em mais esse momento de baixaria das novelas das nove da Globo, dei uma procurada no Google News sobre brigas nessa novela.

Vejam o resultado e tirem suas conclusões: http://news.google.com.br/news/search?pz=1&cf=all&ned=pt-BR_br&hl=pt-BR&q=viver+a+vida+briga

Essa novela está mais para Viver a Pancadaria. É lamentável como a Globo gosta de incitar a baixaria como valor sociocultural.

Tenho saudades daquela campanha que, dez anos atrás, estava surgindo, a Quem financia a baixaria é contra a cidadania. E a Globo é evidentemente contra a cidadania -- em diversos sentidos, da cidadania da mobilização à cidadania das relações humanas civilizadas.

Novamente digo: é uma pena que tanta gente tenha a TV ligada na Globo como principal diversão de seu dia-a-dia.

Fica a mensagem, que faço questão de repetir:

desligue a tv

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10jan/100

Resenha: 1984

Aviso: esta resenha contém spoilers sobre o referido livro. Se você já o leu e quer ler a resenha ou ainda não leu o livro mas quer ter uma ideia prévia de como a trama se desenrola, clique em "Continue lendo..." caso este post não esteja sendo exibido numa página individual.

"1984" é um livro diferente da grande maioria das ficções: não tem um herói – embora tenha um protagonista – nem um final feliz. Nem um desfecho compreensível o livro chega a ter – sendo necessário, para muitos, a leitura de um spoiler depois de ter acabado todas as páginas para se saber o que realmente aconteceu com Winston, o protagonista que não consegue ser um herói, no final da história. Portanto, se você só gosta de livros com heróis ou heroínas lutando obstinadamente em favor de um final feliz que de fato aguarda os(as) leitores(as) nas últimas páginas, “1984” não é um livro recomendável.

A obra maior de George Orwell é uma distopia cruelmente pessimista sobre como seria a Inglaterra e o mundo num ano de 1984 dominado por regimes totalitários pancontinentais. A Inglaterra não é mais Inglaterra, e sim a Oceania, um megapaís que abrangeria grande parte das terras emersas do planeta. Está em uma guerra perpétua em que ela e as meganações Eurásia e Lestásia revezam através do conflito o controle parcial da calota polar ártica e de parte da África e da Ásia.

A história de Winston antes de sua prisão pela Polícia do Pensamento – corpo policial que prende todo(a) aquele(a) que ousa pensar diferente do que o Partido manda que se pense – é inspiradora, uma vez que ele é identificável com quem adota uma visão de mundo mais esclarecida que destoe da alienação sociopolítica da sociedade. É a parcela menos pessimista do livro.

Ao contrário do que demonstra a população que trabalha com o Partido, ele mantém pensamentos destoantes do que o governo totalitário prega. Consegue manter-se seguro (apenas aparentemente, visto o que O’Brien, o personagem que se exibe como o maior antagonista, revela nos capítulos da tortura), mantendo discrição em casa e no trabalho – o Ministério da Verdade.

Esse ministério, aliás, é um dos órgãos de um sistema estatal cuja dominação deve ser descrita: é um domínio ultratotalitário em que a população da “Oceania” – especialmente os seis milhões de membros do chamado Partido Externo – é vigiada por aparatos como a Polícia do Pensamento e teletelas, um misto de televisor com câmera que vigia o comportamento das pessoas dentro de suas casas e em locais públicos e transmite propaganda governamental.

O Partido vangloria-se divulgando mentiras em suas propagandas e boletins e mantém o poder pelo controle psicológico dos(as) seus/suas filiados(as) através de estratégias de manipulação de pensamento como o duplipensar – capacidade de acreditar simultaneamente que, por exemplo, o céu é azul e é verde – e o crimedeter – rejeição psicológica imediata a qualquer pensamento subversivo que tente aflorar do cérebro.

A política existente impede até a manifestação dos instintos, emoções e virtudes humanas, como o amor – que deveria ser dedicado exclusivamente ao Grande Irmão, o líder governamental que talvez nem exista –, a libido e a amizade. Tornava as pessoas marionetes indefesas.

Voltando a Winston, ele corajosamente alimenta pensamentos de dúvida sobre o que o Partido faz com um terço da humanidade da ficção. Certo dia, Júlia, uma mulher que ele frequentemente via nos corredores do Ministério da Verdade, consegue que ele fale com ela e arquiteta com ele encontros em lugares diversos, onde os dois formam um casal e descobrem o censurado prazer de amar um ao outro.

Encontram no andar superior de uma antiga igreja, habitada pelo Sr. Charrington, um refúgio livre da vigilância da Polícia do Pensamento. Pelo menos era o que acreditavam.

O’Brien, que finge em suas feições ser outro “camarada” secretamente descontente com o governo totalitário e pertencer à Fraternidade, um grupo rebelde cuja existência é uma crença não comentada entre os membros do Partido Externo, marca de forma codificada um encontro com eles em seu apartamento, onde tem noção da inimizade do casal dirigida à entidade política. Distribui a eles, por intermédio de um estranho, “O Livro”, presumivelmente escrito por Emmanuel Goldstein, o líder da rebelde Fraternidade.

“O Livro” é a parte mais interessante de “1984”. É um momento em que George Orwell ensaia uma ficção sociológica e explica o passado verídico da humanidade e o presente distópico surgido nas revoluções que deram origem às três meganações do planeta. Conta o funcionamento da guerra perpétua que sustenta a economia delas e a estagnação de toda a arte, ciência e outras habilidades intelectuais, entre outros detalhes fundamentais para a compreensão de grande parte da obra.

No dia em que Winston lê para Júlia o livro, a surpresa fatal: a antiga igreja tinha uma teletela e Sr. Charrington era um agente disfarçado da Polícia do Pensamento. A voz metálica da tela anuncia a prisão e guardas de uniforme negro prendem os dois. O casal é violentamente separado e encaminhado para a cadeia do Ministério do Amor. Seu crime era a “crimideia”, o delito de pensar diferente do que o Partido dizia.

Winston vê o terror da prisão onde eram confinados presos políticos e criminosos. Em seguida, O’Brien, revelando-se um capacho leal do Partido e torturador profissional, chega na cela e o encaminha a uma sala onde é espancado brutalmente por cruéis soldados. O protagonista em seguida é submetido a outras torturas dolorosas em outra sala. É forçado a fazer confissões reais e imaginárias.

Nos antepenúltimo capítulo, Winston trava um diálogo com O’Brien, no qual é gritante o contraste entre a fraqueza do protagonista e o poder do antagonista, que podia torturá-lo novamente a qualquer momento. É revelada a verdadeira natureza da dominação totalitária estabelecida: baseia-se no ódio em vez do zelo à população, busca a manutenção do poder acima de qualquer outro objetivo, não intenciona a melhoria da sociedade, almeja esmagar qualquer traço de emoção que não seja devotado ao Partido e ao Grande Irmão. Enfim, realmente quer que a população da Oceania seja um conjunto de marionetes sob rígido controle.

Nos penúltimo capítulo, Winston passa a conhecer o que é a tão terrível Sala 101: um lugar onde as pessoas dão de cara com seus piores pesadelos. Ele se obriga a pedir que “façam isso com Júlia”, para só assim ser livrado da gaiola de ratos que poderiam devorar sua cabeça. O último é uma quebra de coesão em relação ao anterior, uma vez que mostra um Winston de cérebro lavado, enfim submisso ao sistema comandado pelo Partido, sem mais nenhuma emoção para com uma Júlia também lavada. Presume-se que ele deveria ser finalmente morto, mas até o fim da trama ele não o é.

E o mundo viveu triste e condenado para sempre. Um trágico final.

Para quem acaba o livro esperando reações heroicas e ação eletrizante em nome da libertação, o livro decepciona. Quem termina de lê-lo, fecha-o entristecido, por não ter encontrado nada que desse um pingo de esperança para a detenção da crudelíssima ação do Partido, e até assustado e temeroso pelo futuro da humanidade, uma vez que George Orwell dá à obra um aspecto assustadoramente verossímil. Pergunta-se: será que o mundo realmente corre o risco de um futuro tão trágico e terrível?

O consolo é enxergar o contexto histórico em que ele publicou o livro. O ano de publicação era 1949, uma quente época da Guerra Fria, em que Estados Unidos e União Soviética disputavam o domínio econômico do planeta e a hegemonia militar. Não havia muito motivo para otimismo político na época.

Hoje, com exceção da China e seu realíssimo Partido “Comunista” que vem ascendendo no panorama geopolítico mundial e adotando alguns dos fundamentos da ditadura do Grande Irmão, vemos que muito da estrutura que possibilitaria a realização da ameaça distópica foi desmontado com a queda da União Soviética e o enfraquecimento geopolítico dos Estados Unidos.

O livro não deixa mensagens encorajadoras ou esperançosas para quem o lê, não dá uma “moral da história” que inspire as pessoas – e por isso pode ser uma leitura muito frustrante para alguns/mas –, mas consegue despertar a curiosidade de muitos(as) para a política e para o estudo das formas de como ditaduras como a chinesa e as africanas se mantêm no poder. Inspira de forma indireta quem quer elaborar formas de levantar a conscientização política da população antes que se configurem perigos reais de golpe de Estado facilitados pela alienação sociopolítica popular.

A obra de Orwell é mais recomendável para quem já tem um gosto por livros de política, enquanto não o é para quem só gosta de obras com lutas travadas em prol da justiça e finais felizes. Elogio-a por levantar utilíssimos debates políticos, mas critico-o por semear pessimismo e desesperança quanto ao futuro da humanidade.

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10jan/100

Resenha: Febeapá – O Festival de Besteira que Assola o País

Para quem gosta de crônicas, humor politizado e história brasileira contemporânea, o livro de Stanislaw Ponte Preta (pseudônimo de Sérgio Porto) é um prato cheio e delicioso. Esse livro, escrito em plena ditadura militar – mas antes do AI-5 –, soube bem como tirar sarro dos atos mais estúpidos e arbitrários do regime autoritário em seus primeiros anos e também mostrar que a vida do povão na época, mesmo politicamente reprimida e controlada pelos militares, era em tantas ocasiões agitada e engraçada.

O livro inicia-se com 25 páginas contendo um sem-número de anedotas envolvendo trapalhadas crassas da polícia, da DOPS, das Forças Armadas e de políticos, expostas como verídicas. São fatos ocorridos entre 1964 e 1966, em que se destaca a polícia querendo prender Sófocles, morto em 406 A.E.C. e autor da peça teatral “Electra”. É um humor político bastante refinado, que não chegou a defender a restauração do governo civil mas estabeleceu críticas à atuação dos militares num nível que não despertasse a repressão à sua pessoa e obra.

Em seguida, é a vez das crônicas dirigidas à crítica humorística das autoridades políticas e policiais. Com extensão de duas páginas cada, elas novamente nos levam a rir muito daquele poder público autoritário, tão raivoso mas tão patético. Novamente Stanislaw leva o lado risível do poder público da época às últimas consequências: a risada intensa de quem lê. Mesmo hoje, mais de 40 anos depois da publicação do Febeapá, continuamos rindo muito, e vemos como o caráter paquidérmico dos nossos governos federais e estaduais vêm desde muito tempo atrás.

Nessa primeira parte, que abrange as anedotas e as crônicas das autoridades, os comportamentos mais atacados foram a mania da população de chamar uns aos outros de “subversivos” e “comunistas” quando algo que não gostavam acontecesse; obsessão repressiva da DOPS e da polícia militar, que queriam prender autores teatrais que já haviam morrido muitos anos antes, apreendiam até liquidificadores e fechavam até creches sob acusação de subversão; e o moralismo extremo que tentava impedir a popularização das liberdades femininas em usar minissaias, vestidos decotados, exibir as pernas e outros hábitos novos.

Na segunda parte, entra em cena a vida cotidiana do povão brasileiro, de todas as regiões do país. Os 40 contos abordam fatos também anunciados como reais e a maioria deles, pelo que podemos notar, dá alguma cutucada na autoridade política da época com rápidas referências a pessoas ou entidades de poder. É uma comédia da vida privada o que Stanislaw mostra.

O humor é constante até o antepenúltimo conto. Os dois últimos são sérios: um fala de reservar o “coração suplementar”, invento médico-tecnológico da época, para os problemas cotidianos enquanto nosso coração principal fosse reservado aos sentimentos e o último narra uma tragédia em que um mendigo afronta a polícia repressora e moralista e acaba morto. É um protesto contra o moralismo exacerbado que podia até matar e a coerção estatal que desrespeitava completamente os direitos individuais e liberdades das pessoas.

O Febeapá é uma das obras literárias que melhor escancaram o “país da piada pronta” que o Brasil é pelo menos desde a distante década de 60. Para quem quer um humor histórico, sociológico e político, o livro é excelente, e ainda torna-se mais valoroso pela coragem que Stanislaw manifestou em escrevê-lo cheio de críticas ao risível poder ditatorial opressor que dominava o Brasil em sua época. É uma pena que ele faleceria não muito tempo depois, deixando saudades enormes no humor brasileiro.

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