Arauto da Consciência
5mar/104

A Cidade das Aflições onívoras contra a Segunda Sem Carne

Como explicado em outras épocas, a Cidade das Aflições é o capítulo do livro O Mundo Assombrado pelos Demônios, de Carl Sagan, em que ele põe uma lista de comentários das pessoas que se recusavam a entender um trabalho dele de ceticismo antiufológico publicado poucos anos antes do lançamento do livro -- e republicado em quase metade deste.

Vemos Cidades das Aflições em vários temas diferentes, onde as pessoas se manifestam, por exemplo, contra a homossexualidade (dando ataques de homofobia ou argumentos falaciosos contra a homossexualidade) e contra medidas econômicas contra a destruição da Amazônia.

Agora a mais nova Cidade milita contra uma proposta de trazer a ascendente campanha mundial de promoção da Segunda Sem Carne para Porto Alegre, divulgada na notícia abaixo:

Vereador propõe criação da “Segunda sem Carne”

O vereador Beto Moesch (PP) protocolou projeto de lei para instituir em Porto Alegre a “Segunda sem Carne”. Pela proposta, residências, restaurantes e demais estabelecimentos que comercializam gêneros alimentícios serão convidados a optar por refeições vegetarianas todas as segundas-feiras.

“O objetivo é promover mais reflexão e conscientização sobre o consumo excessivo de carne. A dieta vegetariana é ecológica, saudável, ética e compassiva. Precisamos disseminá-la o máximo possível entre a população”, defende o parlamentar.

A iniciativa conta com o apoio da Sociedade Vegetariana Brasileira, idealizadora da campanha nacional “Segunda sem Carne”, já adotada pelo governo de metrópoles como São Paulo.

A medida também procura promover o veganismo, filosofia de vida baseada nos direitos animais, cujos adeptos procuram não consumir produtos nem participar de atividades em que há exploração ou uso de bichos, excluindo os alimentos de origem animal.

A expansão da pecuária é uma das principais causas do desmatamento. Além disso, de acordo com pesquisa da Organização das Nações Unidas, cerca de 18% da emissão dos gases causadores do aquecimento global são gerados pela produção de carnes em larga escala.

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1mar/100

O terrível ecocâncer euamericano

(euamericano = estadunidense, dos Estados Unidos)

Se você está preocupad@ com a devastação da Amazônia, é porque não viu nada ainda em termos de varrer as florestas de um país inteiro.

Os Estados Unidos, ao lado da China, são atualmente o pior tumor do ecocâncer que adoece o planeta hoje. Não só pela enorme poluição que emite na atmosfera, como também pela destruição bestial de suas florestas virgens (que não sofreram perdas severas de vegetação nos últimos oito mil anos) que se deu durante seu expansionismo territorial e econômico que matou tantos indígenas e, como visto abaixo, ecossistemas.

A figura abaixo é uma demonstração de como a "civilização" industrializada tem sido um autêntico e devastador câncer a infectar e devastar tudo o que representa natureza no planeta.

"Area of virgin forest today" = Área de floresta virgem em 1992. Fonte: Wikipedia em inglês (http://en.wikipedia.org/wiki/Old-growth_forest)

E pensar que ainda existe gente que defende o desenvolvimento em detrimento do meio ambiente, vide a bancada pecuarista-latifundiária do Congresso brasileiro...

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1mar/100

A natureza insiste em respirar

Jacaré é capturado em quintal de residência no Jardim Jordão

Um jacaré com quase um metro de comprimento foi capturado no quintal de uma residência localizada na Rua do Progresso em Jardim Jordão, Jaboatão dos Guararapes, na manhã desta segunda-feira (1).

O animal é da espécie papo-amarelo. Segundo informações do Corpo de Bombeiros, os próprios moradores conseguiram amarrar a boca do réptil. Os bombeiros irão entregar o animal ao Ibama. Ninguém ficou ferido.

O Jardim Jordão é um bairro humilde de Jaboatão, mais uma de tantas localidades do Grande Recife (a metrópole, não o consórcio de ônibus) que nasceram da bestial destruição da mata atlântica dos morros próximos aos estuários centrais de Pernambuco e subsequente ocupação desordenada.

Da antiga área de mata atlântica hoje ocupada pelo Jordão, a natureza ainda dá felizes pingos de existência, como esse jacaré que apareceu.

É um pequeno feixe de luz furando as trevas do ecocâncer. Uma pequena mensagem nos mostrando que ainda há esperança, ainda podemos salvar a natureza remanescente que o ecocâncer, causado pela bestialidade coletiva humana ao longo de séculos, ainda não destruiu.

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1mar/100

Ambientalismo e Direitos Animais: uma simbiose fraternal

Artigo escrito em junho de 2009

Presenciamos anualmente muitas ações de organismos ambientalistas estatais (IBAMA, Ministério do Meio Ambiente, secretarias estaduais ambientais etc.) e não-governamentais (Greenpeace, WWF, Sea Shepherd etc.) direcionadas ao combate de crimes ambientais que envolvem opressão de animais não-humanos. Tais atuações vêm comprovando e apontando uma verdade essencial que se aproxima cada vez mais do óbvio dia após dia: ambientalismo e Direitos Animais são movimentos irmãos, possuem uma associação perfeita e inquebrantável, e tentar vê-los ou praticá-los de forma separada será uma encaração sempre incompleta e limitada.

Essa associação é muito rica e, mais que uma relação de causa e efeito entre a exploração animal e crimes ambientais, é uma constatação lógica e uma visão ecológica bem mais abrangente e completa. As duas causas completam-se entre si de tal modo que ações de um lado que deem menor importância ao outro serão apenas enxugamento de gelo.

O primeiro ponto principal que torna ambientalismo e Direitos Animais inseparáveis surge na convergência de ambos em zelar pela fauna. O primeiro vê os animais como parte essencial da biosfera ao lado da flora, dos micro-organismos e dos elementos abióticos e o segundo defende que sua integração à natureza como seres livres e íntegros lhes é um direito inalienável, juntando-se numa proteção excelentemente justificada.

O ambientalismo, quando livre das limitações impostas por visões naturalistas e antropocêntricas, inclui todo o Reino Animal em sua esfera de proteção, passando a abranger também os animais domésticos e os humanos, tendo nesse ponto um importantíssimo respaldo dos Direitos Animais e até fundindo-se com este.

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26fev/100

BR-408 sim, Linha Norte não, e menos mata na Zona da Mata

Artigo escrito em outubro de 2009. Fala de um fato ainda corrente, que não perdeu a atualidade.

Foi lançado há algumas semanas [outubro de 2009] o EIA/Rima da duplicação parcial da rodovia BR-408, uma das principais vias da Zona da Mata Norte de Pernambuco. Com ele, um lamentável anúncio: uma área considerável de mata atlântica de municípios como São Lourenço e Paudalho será derrubada para dar lugar à segunda faixa da estrada e às suas margens.

Esse verdadeiro ecocídio poderia ser evitado se, em vez de mais asfalto, fosse reconstruída a velha ferrovia Linha Norte e/ou uma linha férrea paralela para passageiros, mas, como era de se imaginar, dessa ideia ninguém quis chegar perto.

44,71 hectares* de vegetação frondosa e biodiversa serão postos abaixo com a obra, afirma o EIA/Rima. E é de se considerar que todo governo vê como evidente o fato de que toda rodovia que cruza áreas florestais inevitavelmente causará desmatamento direta e indiretamente ao ser pavimentada ou duplicada. Mas isso não está impedindo o governo de levar adiante o empreendimento.

Havia a alternativa de, ou fazer uma Parceria Público-Privada com a Transnordestina S/A para criar na ferrovia Linha Norte uma linha de trens de passageiros – caso fosse possível a empresa trabalhar com passageiros –, ou construir uma ferrovia estatal paralela com o fim de transporte de pessoas. Para o transporte de cargas, a Transnordestina S/A poderia construir estações modernas na velha linha – depois da devida restauração dos trilhos – para se abastecer as indústrias da região.

A estrada-de-ferro, mesmo que tenha trechos construídos dentro de florestas, possui um impacto ambiental muitíssimo menor do que rodovias. Não fomenta a ocupação humana à beira dela e concentra toda a pressão urbana em torno das estações. Os trens, mesmo se passam de meia em meia hora numa linha de longa distância, poluem muito menos do que o enorme fluxo de carros, ônibus e caminhões de uma estrada de asfalto.

Mas como ferrovia é palavrão e tabu para nossos governos, essa opção, ao que parece, nunca foi vislumbrada como alternativa à desmatadora duplicação rodoviária. É preferível destruir um pedaço grande da já escassa mata atlântica a recorrer à solução ferroviária.

A duplicação da BR-408, julgo eu, está na mesma categoria de obras ambientalmente polêmicas em que se inclui a Via Mangue no Recife, por exaltar o uso do carro numa realidade de aquecimento global e exaustão de recursos naturais, causar impactos fortes e muito relevantes na vegetação ao redor, reafirmar a falta de preferência pelo transporte sobre trilhos (trens e VLTs) e favorecer os interesses de indústrias petrolíferas, automotivas e de pneus e empresas de ônibus – no caso da rodovia, de média e longa distância.

Está sendo dado um mau exemplo de como lidar com o meio ambiente ao se optar pelo desmatamento em vez de se estudar alternativas de transporte. A verdade é que, enquanto nossos governos continuarem desprezando os trilhos como modal de grande eficiência e ambientalmente amigável – mais ainda para passageiros –, o Brasil permanecerá sendo um país que não sabe conciliar seus meios de transporte e o meio ambiente.

BR-408, BR-101 nordestina, BR-319 na Amazônia... O governo sabe como estradas são vetores de desmatamento e que a opção ferroviária existe como alternativa, mas insiste em glorificar as primeiras e ignorar a última. Continuaremos lamentando a perda de muitos pedaços de florestas, cerrado, caatinga e outros biomas graças à atitude de valorizar apenas as rodovias.

*”A Área de Influência Direta do empreendimento comporta atualmente 157,34 ha de Mata Atlântica, sendo que os fragmentos contidos na área compreendida pela faixa de servidão do empreendimento (40m de largura) ocupam 39,20ha e na área compreendida pelas faixas de rolamento e de segurança do empreendimento (12,20m de largura) comporta 5,51ha do bioma.” (total de 44,71ha) Fonte: http://www.slideshare.net/vfalcao/rima-br-408-2184416

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25fev/100

Leonardo Boff fala do absurdo da usina de Belo Monte

Leonardo Boff é uma entre tantas vozes contrárias à absurda construção da usina de Belo Monte, que, se construída, irá inundar uma enorme área de floresta e desalojar comunidades ribeirinhas e indígenas. E pensar que ainda falam que a energia hidrelétrica é limpa...

Belo Monte: a volta triunfante da ditadura militar?
por Leonardo Boff, para o Correio da Cidadania

O governo Lula possui méritos inegáveis na questão social. Mas na questão ambiental é de uma inconsciência e de um atraso palmar. Ao analisar o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) temos a impressão de sermos devolvidos ao século XIX. É a mesma mentalidade que vê a natureza como mera reserva de recursos, base para alavancar projetos faraônicos, levados avante a ferro e fogo, dentro de um modelo de crescimento ultrapassado que favorece as grandes empresas à custa da depredação da natureza e da criação de muita pobreza.

Este modelo está sendo questionado no mundo inteiro por desestabilizar o planeta Terra como um todo e mesmo assim é assumido pelo PAC sem qualquer escrúpulo. A discussão com as populações afetadas e com a sociedade foi pífia. Impera a lógica autoritária; primeiro decide-se depois se convoca a audiência pública. Pois é exatamente isto que está ocorrendo com o projeto da construção da Usina Hidrelétrica de Belo Monte no rio Xingu, estado do Pará.

Tudo está sendo levado aos trambolhões, atropelando processos, ocultando o importante parecer 114/09 de dezembro de 2009, emitido pelo IBAMA (órgão que cuida das questões ambientais), contrário à construção da usina, e a opinião da maioria dos ambientalistas nacionais e internacionais que dizem ser este projeto um grave equívoco com conseqüências ambientais imprevisíveis.

O Ministério Público Federal que encaminhou processos de embargo, eventualmente levando a questão a foros internacionais, sofreu coação da Advocacia Geral da União (AGU), com o apoio público do presidente, de processar os procuradores e promotores destas ações por abuso de poder.

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20fev/102

Pequeno explicativo sobre o veganismo

Está circulando na internet (extraí de http://tweetphoto.com/11415975). Me parece uma camiseta estampada. Seja lá o que for, é um bom resumo sobre o que o veganismo é.

Tradução abaixo de "VEGAN":

- Alimente @s famint@s.
- Salve os povos indígenas.
- Manifeste-se pelos direitos trabalhistas.

- Seja gentil com os animais.
- Pare as fazendas-fábrica.
- Salve 100 animais todos os anos.

- Acabe com o desmatamento por pastagem.
- Salve um acre (4047m²) de árvores
- Acabe com a pastagem em terras públicas.

- Diga à divisão de "serviços de vida selvagem" da USDA (Departamento de Agricultura dos Estados Unidos)...
- ...para parar de matar a vida selvagem em prol...
- ...dos lucros das corporações latifundiárias.

- Pare as guerras por recursos.
- Ajude a acabar com a dominação pelas corporações.
- Viva sua consciência.

- Salve nossos oceanos.
- Pare o poluidor número 1 das águas.
- Apoie um planeta sustentável.

- Pense no que há fora de si.
- Viva com compaixão.
- Pare a violência.

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20fev/100

Por que o etanol não é a salvação

Artigo escrito em novembro de 2008

O álcool combustível nos últimos dois anos passou a ser tratado no Brasil como a grande panacéia da questão ambiental da energia. Quem ainda não viu Lula anunciando feito místico ascenso, ao largo do planeta, algo parecido com “ajoelhai-vos, países desenvolvidos, eu tenho vossa salvaçãããooo!” quando falava maravilhas do etanol por aí? É notável que há uma orientação muito passional nas enormes expectativas de “um mundo melhor por ser movido a um combustível limpo e renovável”, uma força de esperança pessoal bastante parecida com aquela que anima a vida de religiosos e crentes em curas pela fé, por também ser desprovida de ceticismo e encaração crítica. A verdade é que, embora a poluição vinda do cano de escape seja realmente bem menor, há uma contrapartida, um lado de porém, nociva o suficiente para levantar no mínimo questionamentos ríspidos ao caráter messiânico do álcool nos carros.

Falo de alguns problemas, dois ambientais e dois sociais, por sinal muito sérios e que devem ser encarados com muita sobriedade, pé no chão e atenção. Todos envolvem os lugares de onde saem a “promessa”, os imensos latifúndios de cana-de-açúcar e sua expansão, e denunciam a extrema fragilidade, ou mesmo a quebra, do triângulo da sustentabilidade – Ambiental/Econômico/Social.

O primeiro fator ambiental é o nosso “amigo” desmatamento. Lembrem-se, o Nordeste só tem sua economia sustentada pela cana desde a época colonial porque a Mata Atlântica foi quase totalmente varrida da região pelos latifundiários, foi reduzida a frágeis pinguinhos onde árvores frondosas ainda se aglomeram. O mesmo serve para São Paulo, atual maior estado canavieiro do país, onde os canaviais tomaram muito do lugar dos cafezais da República Velha. Dali o cerrado foi banido e a floresta tropical foi dizimada a menos de 8% da área original. Analisando com seriedade, percebemos que só foram possíveis a criação do Proálcool nos anos 70, a proliferação dos carros flex na década atual e os discursos encantados de Lula porque nossos ecossistemas foram mutilados sem piedade e sobrepostos por “desertos verdes” que se perdem no horizonte.

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15fev/100

O animal irracional que destrói o próprio ambiente

Onde não há cercas protegendo a área natural, a "besta civilizada" certamente invadirá e destruirá.

Artigo escrito em fevereiro de 2009

Não são raras as vezes em que o ser humano, supostamente o único animal racional, tem um comportamento muito mais bruto e bestial do que qualquer outro animal, vistos os banhos de sangue, agressões contra animais, destruição de patrimônios públicos e muitas outras selvagerias que comete. Entre essas outras, tornou-se óbvio que o meio ambiente é outro complexo de seres – vivos ou não – que vem sofrendo horrores com a incapacidade de muitos humanos de pensar em fazer o bem e seguir uma conduta condizente com a tão arrogada racionalidade de sua espécie.

Antigamente os cercados envolviam aglomerações humanas protegendo as pessoas da bestialidade predadora dos animais selvagens. Já hoje, reparemos que as áreas menores de preservação ambiental são quase todas cercadas por muros ou cercas. Estes existem porque protegem os ecossistemas restantes da fúria selvagem dos... humanos. Sem o cercamento, invariavelmente haverá uma severa invasão e destruição da área natural pela ação humana.

Pelos mais diversos motivos, desde uma necessidade de usufruir dos recursos naturais locais até pura maldade, a maioria dos humanos ditos civilizados não demonstra capacidade de usufruir de forma saudável e sustentável os bens que um trecho de ecossistema pode fornecer. Para deter e controlar esse ímpeto destruidor, fizeram-se necessários aparatos socioantropológicos que determinassem o respeito ao ambiente como valor supremo – leia-se religiões sacralizadoras da natureza, que muitas vezes considera(va)m-na um(a) deus(a) – e, mais modernamente, barreiras físicas artificiais entre o território humano e o espaço natural.

O mais interessante é que essa relação irracional da humanidade com a natureza tem sido marcada por uma razão-e-proporção absurda e contraditória: o nível tecnológico de uma civilização é inversamente proporcional ao respeito ao meio ambiente e diretamente proporcional à destruição causada. Tornar-se “civilizado” e “avançado”, ao invés de trazer evolução na relação humano-ambiente, recrudesceu os maus instintos dos humanos, tanto individual como coletivamente.

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12fev/100

Recife, cidade inimiga do verde

Recife visto do satélite pelo Google Earth. As áreas de vegetação são muito reduzidas, em contraste com a vastidão das cores cinzentas e avermelhadas dos tetos das casas e edifícios. Essa é uma das partes mais notáveis de nossa "inimizade" com o verde.

O verde – áreas de proteção ambiental, arborização e presença de grama – em Recife é algo muito ralo. Entre as cidades mais populosas do Brasil, somos evidentemente uma que tem as menores taxas de cobertura vegetal. Esse problema, contudo, não vem sendo consistentemente considerado pelas sucessivas gestões da prefeitura local. Esta denúncia escancara como somos uma cidade que histórica e estruturalmente recusa e esnoba as bênçãos do meio ambiente e ainda ousa continuar maltratando-o.

Tomemos como um exemplo inicial o bairro do Ipsep. Percebamos que essa é uma localidade ainda bastante arborizada em comparação a outras do município, mas não deixa de escancarar seriamente o referido problema.

Ali ainda temos praças pequenas, médias e grandes com bastantes árvores. Mas a grama nelas está em extinção e predomina ora o chão de terra batida ora o coberto de placas de concreto. Todas estão em estado de conservação de razoável a mau. O chão da Praça do Sargento, a maior do bairro, é dominada por concreto, piche, areia, solo batido e lama, estando a cobertura gramínea esparsa e deteriorada. Já nas ruas entre as casas, a arborização é muito rara, predominando o clima de calor e desconforto.

Na área que abrange esse bairro e o pedaço da Imbiribeira situado entre a avenida Mascarenhas de Morais e o Canal da Mauriceia, há uma única área de proteção ambiental, um manguezal, que se encontra muito reduzido, tendo sido mutilado ao longo das últimas décadas por desmatamentos que abriram espaço à construção de estabelecimentos como casas, pátio de veículos e o extinto shopping Boa Viagem Outlet.

Se essa localidade ainda é uma das mais verdes do Recife, imaginemos como estão deteriorados os domínios da clorofila em toda a cidade.

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9fev/100

Os verdadeiros Strogg somos nós

Imagem muito boa preparada por Fabio Chaves do Vista-se. Valeu, Fabio!

Artigo escrito em novembro de 2008

AVISO: Este artigo pode conter spoilers sobre Quake 2 e 4. Se você não quer saber o que vai enfrentar caso queira jogá-los, leia este artigo só depois que chegar em determinadas partes da ação.

(Strogg: raça de semi-cyborgs alienígenas inimigos dos humanos, nos jogos Quake 2 e Quake 4. Habitam o planeta Stroggos e seus processos de manipulação de prisioneiros terráqueos são de extrema crueldade, incluindo processamento de corpos esquartejados e conversão em cyborgs orgânicos com amputação de pernas e injeção de controles cerebrais. Só conhecendo esses jogos mesmo para ter noção de tudo de que eles são capazes.)

Convido todo aquele que sabe quem são os Strogg (acima um pequeno explicativo) a pensar em como nós nos equiparamos a eles quando o assunto é nossa relação com o restante do Reino Animal. Se ligarmos os pontos corretamente, perceberemos que somos tão cruéis como esses extraterrestres que controlam, mutilam, torturam ou esquartejam seus prisioneiros. Porque, afinal, também controlamos suas vidas, os mutilamos, promovemos tortura e esquartejamos seus corpos depois de tudo. Só não instalamos ainda membros cibernéticos nem bebemos corpos moídos em liquidificador. Por enquanto.

Nosso sistema equivalente ao planeta Stroggos é composto de centros de pesquisa científica mais as fazendas, granjas e matadouros onde condenamos de milhões a bilhões de animais a vidas miseráveis e breves. Abaixo eu faço uma comparação que, em última análise, dá a idéia de que a idealização da raça Strogg e seus feitos diabólicos pode ter sido inspirada no lado brutal e antiético da própria humanidade.

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8fev/100

Consumo ético não é só selo verde

Artigo escrito em fevereiro de 2009

Vem-se falando muito, cada vez mais, de “consumo ético”, “consumo responsável”. Entretanto, pode-se notar que a compra de produtos ecologicamente corretos vem sendo tratada como a quase totalidade dessa abordagem ética, como se para consumir com responsabilidade fosse necessário apenas e simplesmente começar a comprar “itens verdes”. A verdade é que a ética do consumo vai muito além, transcende enormemente essa visão limitada e engloba assuntos bem menos tratados nas discussões.

Me refiro a questões como direitos trabalhistas, direitos animais e empresas inimigas do meio ambiente. Nessa visão liberta do reducionismo “só consumo verde”, uma empresa que, por exemplo, explora e desrespeita seus empregados não passará a ser ética se começar a vender produtos ambientalmente amigáveis mas continuar maltratando seus subordinados. E uma companhia tal, por mais princípios “verdes” que adote, não passará ao lado ético se não deixar de testar seus produtos em animais.

Releva-se também, para esse entendimento ético mais abrangente, a opção do boicote. Muito além de priorizar certos produtos, o consumidor consciente evita outros que, opostamente à proambientalidade ou à neutralidade ecológica, tenham sido fabricados por empresas comprovadamente envolvidas com a destruição ambiental.

Para melhor entendimento, vale descrever essas “novas” frentes éticas, exemplificando as três citadas e indicando outras não menos relevantes.

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3fev/100

Desmatamento: o governo de Pernambuco deve satisfação

Agora há pouco, estava acontecendo no blog irmão de consciência Acerto de Contas um chat com a secretária pernambucana de Ciência, Tecnologia e Meio Ambiente Luciana Santos. Como cheguei em casa em torno de meio-dia, deu tempo de fazer apenas uma pergunta. Mas essa pergunta foi, posso dizer, ácida:

Olá, Luciana. O governo de Eduardo Campos vem tendo vários êxitos se comparado aos mandatos de Jarbas. Mas não estou vendo essa quase-maravilha na parte de meio ambiente. Pelo contrário, o que estou vendo é descaso atrás de descaso para com o ambiente em Pernambuco.

Bons(?) exemplos disso são:
- a ameaça de destruição de um bom pedaço de vegetação litorânea em Maracaípe e Porto de Galinhas para construção de resorts;
- a ameaça de destruir parte do mangue do Rio Jaboatão em prol da ponte que vai ligar Barra de Jangada ao Paiva;
- a destruição de uma significativa área de mata atlântica na beira da BR-408;
- a conivência com o desmatamento em Aldeia e em vários outros pontos de Pernambuco;
- a falta (ou subdivulgação) de providências para salvar a Caatinga dos fornos da indústria gesseira;
- a falta (ou subdivulgação) de uma política ambiental direcionada a fomentar a produção de energia limpa, a redução de gases-estufa e a educação ambiental dos pernambucanos;
- a total ausência de compromisso em se criar uma legislação voltada para animais.

O que vossa senhoria tem a dizer sobre esses pontos?

Abs

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24jan/100

Safra recorde da soja, eu não comemoro

Brasil terá supersafra de soja em 2010

O Brasil vai ter uma super-safra de soja este ano. No Mato Grosso[, onde grande parte da área de plantio do grão se originou de desmatamento ilegal segundo o Greenpeace], a colheita já começou. As máquinas fazem fila nas lavouras. As colheitadeiras avançam pela noite.

“Às vezes, no apuro para aproveitar o sol que deu hoje, a gente entra um pouquinho pela noite”, conta o gerente da fazenda João Zanetti.

Trabalho para garantir uma safra recorde. Em Mato Grosso, os agricultores reduziram a área plantada de algodão e arroz para aumentar a de soja.

"Este ano, esperamos produtividade de 17 a 18 milhões de toneladas, um incremento na produção de 6%“, explica o diretor da Associação dos Produtores de Soja, Neri Geller.

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10jan/101

Resenha do documentário Meat the Truth/Uma Verdade Mais Que Inconveniente

O vídeo Meat the Truth – traduzido no Brasil como “Uma verdade mais que inconveniente” –, um misto de documentário e apresentação stand-up, apresentado pela bonita deputada e ativista holandesa Marianne Thieme, foi bem-sucedido ao preencher a enorme lacuna que Al Gore deixou no seu Uma Verdade Inconveniente: a participação mais que relevante da pecuária nas mudanças climáticas que estão castigando o mundo. Vale apontar onde o vídeo acertou e onde errou – erros que, embora poucos, deram séria imperfeição ao vídeo.

Para dar comprovação aos dados mostrados, Marianne citou o estudo da FAO – Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação – que mostravam a pecuária como maior vilã do clima global. Com o devido embasamento, muitos pontos muito interessantes foram abordados com competência, tais como: Como é esse impacto tão grande da pecuária sobre o clima? Tornar-se vegetariano/a, ou deixar de comer carne um ou mais dias por semana, faz alguma diferença? Por que Al Gore convenientemente omitiu a pecuária na sua “verdade inconveniente”? Por que os governos são coniventes com o impacto ambiental dessa atividade?

Os principais pontos que a deputada holandesa mostrou em relação ao impacto ambiental pecuário foram a produção de metano, um gás-estufa muito mais poderoso que o gás carbônico, e o desmatamento de florestas como a Amazônia.

Como todo bom documentário apresentador da alternativa vegetariana de alimentação, mostrou diversos fatores relativos à crueldade nas fazendas-fábrica, principalmente a debicagem de aves e o confinamento intensivo dos animais. Fez também o favor de reexibir o The Meatrix, aquela paródia de Matrix em que os personagens são bichos de espécies exploradas pela indústria de alimentos de origem animal.

Também deu a oportunidade de participação ao PETA e à Humane Society, além de mostrar a história do “Mad Cowboy”, um ex-pecuarista que, depois de décadas na indústria da exploração animal, aprendeu a respeitar os animais e tornou-se vegetariano completo e militante pelos Direitos Animais.

Num dado momento, Marianne imitou propositalmente Al Gore e subiu numa plataforma para mostrar um gráfico que mostrava quanto a indústria da carne ameaça crescer nos próximos 40 anos se o consumo continuar aumentando como hoje.

O vídeo fez muito bem seu papel de completar o que Al Gore havia deixado pendente, mas cometeu falhas significativas:
- Enfocou menos que devia as questões de saúde. Mostrou pouco os males da carne vermelha ao organismo humano e deixou totalmente de mostrar por que o vegetarianismo é sustentável e confiável como alternativa alimentar ao onivorismo, o que deixa quem lhe assistiu com um sentimento de estar entre a cruz da carne e a espada de uma alimentação cuja confiabilidade não foi atestada no documentário;
- O vídeo de Johan Renck, que mostra o ânus de uma vaca expelindo fezes, certamente “convidou” e “convidará” muitas pessoas a fecharem o vídeo e acharem que estavam diante de “mais um filme vegetariano sem noção que não deveria ser levado a sério”. O aspecto nojento desse trecho afasta muitos/as espectadores/as e prejudica a transmissão da mensagem de conscientização vegetariana;
- Pouco mostrou dos efeitos das carnes brancas – de aves e peixes – no meio ambiente. O esvaziamento da fauna oceânica, que possui efeitos ainda pouco conhecidos no clima global, também é uma verdade extremamente inconveniente, mas o filme, num notável vacilo, omitiu. Deixou-se de evitar que a população que assistisse ao vídeo migrasse seus hábitos de consumo para o peixe, algo que também tem severíssimo impacto na natureza.

Faltas do vídeo à parte, a bela deputada fez bonito no esforço da conscientização. Meat the Truth é mais um documentário digno de ser exibido e distribuído para o máximo possível de pessoas, juntando-se aos brasileiros A Carne É Fraca e Não Matarás e ao tão falado Earthlings (Terráqueos). Para uma melhor eficácia na propagação da verdade inconveniente do impacto ambiental pecuário, será muito bom se alguma equipe tomar a iniciativa de dublar o documentário. Será um favor imprescindível para muita gente.

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10jan/102

Resenha do documentário The Corporation

The Corporation (2003) cumpriu bem seu papel de alertar os olhos dos telespectadores quanto ao papel vilânico exercido por grande parte das maiores empresas multinacionais do mundo. Desmascarou os monstros – ou melhor, as entidades psicopatas, como o documentário “diagnostica” – escondidos atrás dos(as) simpáticos(as) garotos(as)-propaganda. Entretanto, tropeçou ao limitar a abordagem de certos assuntos críticos, ao deixar de abordar mais profundamente esperanças e soluções e ao direcionar os sentimentos da audiência com uma habilidade limitada e falha.

Para quem não assistiu ainda ou quer se lembrar “do que é que falava mesmo”, o filme se divide em vários blocos que contam tópicos como:
- a história do poder abusivo das corporações, quando aproveitou a 14ª emenda da Constituição norteamericana para adquirir direitos de pessoa física;
- a imoralidade ou amoralidade do exercício do poder empresarial, a falta de ética;
- os baixíssimos salários oferecidos a empregados em países pobres;
- as indenizações que foram obrigadas a pagar e o fato de as mesmas serem tratadas como custos adicionais que podem ser arcados;
- o uso de substâncias tóxicas na pecuária;
- os danos ambientais de muitos empreendimentos;
- as tentativas – muitas bem-sucedidas – de apoderamento do “direito” de obter patente em cima de espécies de seres vivos transgênicos;
- o mau-caratismo das estratégias de incremento da preferência consumista infantil;
- a hipocrisia da (suposta) responsabilidade social;
- o poder sedutor da propaganda;
- a venda de valores sociais e de desejos;
- o poder de manipulação política, incluindo a superação do poder aos próprios políticos;
- as intimidações aos meios de comunicação e a quem quer denunciar os abusos corporativos;
- a aliança empresarial com governos totalitários;
- a tentativa de golpe de Estado contra Franklin Roosevelt;
- as tentativas de privatizar recursos naturais e o direito ao usufruto dos mesmos em outros países.

The Corporation mexe muito, muito mesmo, com os sentimentos de quem assiste, desde os iniciantes no pensamento consciente, que querem deixar a alienação que marcava suas vidas até pouco tempo atrás, até os mais ativistas. As reações são variadas: embora em alguns poucos momentos lance mão de cenas que fazem rir por uns segundos, o caráter alarmista provoca desde a desilusão com muitas marcas muito consumidas até o mórbido desejo de que os CEOs e diretores das gigaempresas fossem todos mortos.

Como denunciante do inferno que existe atrás da fachada “celestial” da publicidade, como flagrante das inúmeras atrocidades cometidas em nome do lucro alto, o filme cumpre bem a função. Abre os olhos de muitas pessoas que até certo momento nutriam sonhos capitalistas, sonhos de consumo, sonhos de um futuro como gigaempresário(a). Revela que produtos de muitas marcas têm crime, morte e destruição entre seus ingredientes.

Cumpre seu objetivo, mas a strictu sensu. Exerce mal a segunda parte do processo de conscientização anticorporativa: mostrar soluções e como cada pessoa pode proceder, individual ou coletivamente, para derrubar os superpoderes malignos das corporações.

Restringe-se a mostrar de forma vaga que “um mundo melhor, sem o mal corporativo, é possível”, num discurso que lembra mais os sonhos de um adolescente de 17 anos que tenta uma vaga numa faculdade de jornalismo do que o levantamento de possibilidades claras e estratégias consistentes de como, por exemplo, consumir eticamente e contribuir para que o megaempresariado passe a pensar duas vezes antes de agir como demônios.

Embora tivesse feito (breves) referências a questões como defesa da democracia, manifestações, boicotes, união popular e prestação de contas, várias perguntas ficaram em aberto para quem, após o filme, passou a interessar-se mais pela luta por um mundo livre de corporações “demoníacas”: Como organizar campanhas de boicote? Como acordar uma parte significativa da população urbana regional ou nacional de modo que haja possibilidade de haver ativismo anticorporativo em massa? Como impedir uma decisão política que, por exemplo, determine uma privatização absurda? Como impedir que uma empresa nacional em ascensão, prestes a alcançar a multinacionalidade, saia da linha e se torne mais uma “corporação do mal”? Como se opor a abusos éticos como o patenteamento sobre seres vivos ou códigos genéticos? Como contribuir individualmente para ajudar a derrubar a crueldade capitalista?

Exemplos como a oposição dos agricultores indianos à patente imposta ao arroz basmati ainda foram dados, mas no geral faltou uma maior ênfase em casos bem-sucedidos das mais variadas formas de oposição aos abusos capitalistas – faltando inclusive exemplificar campanhas de boicote que alcançaram sucesso.

E, acima de tudo, faltou a proposição de um debate global sobre como suplantar a estrutura capitalista-corporativa atual e lançar um sistema econômico sustentável, ético, respeitável e socialmente conveniente. Nos mais marxistas, essa falta de alternativa sistemática acirra o desejo de promover um estouro revolucionário socialista, proposta que a História já comprovou ser um fracasso.

Essa limitação no apontamento de soluções terminou causando um atropelo nos sentimentos das pessoas que guardavam esperanças de que o filme apontasse soluções de forma pragmática e desse o pontapé para que se começassem articulações de militância.

Considerando que em certo momento, antes dessa fraca exposição de saídas, foi dada a impressão de que as corporações venceram definitivamente, que não há mais soluções para salvar o planeta, que tentativas de ativismo serão vãs e que o mundo está perto de entrar em colapso irreversível, houve uma condução um tanto atrapalhada das emoções dos telespectadores. O mais provável foi que esse fortíssimo toque passional não havia sido previsto pelos produtores do documentário.

Essa falha na canalização emocional, ao ver de alguns, tem potencial de despertar em algumas pessoas de pensamento ideológico mais passional uma explosão psicológica de revolta, desespero por encaração de um problema sem soluções definitivas à vista e até ímpetos coléricos de revolucionismo para quem ainda vê o ideal comunista como única “alternativa” à crueldade capitalista.

Outra falha importante foi a exclusão de alguns assuntos fundamentais, no mínimo dois: os Direitos Animais e o poder da educação. A questão animal ficou limitada à exposição do problema dos hormônios e drogas aplicados em vacas e na intoxicação do leite, aliás, uma abordagem muito bem-estarista, restrita à denúncia dos danos bioquímicos ao organismo daqueles animais. A vivissecção ficou como promessa descumprida.

Não houve debates sobre as muitas outras crueldades praticadas pela pecuária ou pela prática de testes de produtos em bichos, nem uma abordagem ética da coisificação e comercialização de animais não-humanos. O veganismo, visto e compreendido por um número crescente de cidadã(o)s como uma das atitudes mais praticáveis e eficientes de oposição a abusos corporativos no que tange à ética animal e ao meio ambiente, sequer foi mencionado no filme.

A educação também quase não entrou na história. Aliás, foi ainda menos perceptível do que os animais. Ficamos sem saber se as “corporações do mal” também estão interferindo na educação escolar ao redor do mundo e se/como as escolas estão lidando com a perversão consumista induzida nas crianças. Uma das grandes esperanças de salvação para as sociedades mundiais, a formação estudantil de pessoas conscientes e resistentes à tentação publicitária, terminou esquecida.

Passando da época do The Corporation, primeira metade da década de 2000, a hoje, final da década, nos vemos no desejo necessitado de assistir a um “The Corporation 2”. O mesmo poderia abranger questões como o agronegócio e suas implicações catastróficas no meio ambiente, a situação da China e do Sudeste Asiático, onde uma versão ainda mais monstruosa do capitalismo encontrou moradia, e enfim a ética animal, além de observar o impacto da crise econômica global de 2008-2009, que aconteceu como uma explosão no sistema capitalista-corporativo mundial, analisar se houve algo de bom nesse quase-quebra-quebra.

E também, a sugerida continuação poderia abordar muitíssimo melhor as soluções possíveis para derrubar o poder megalomaníaco e cruel das corporações. Que venha falando de boicotes que deram certo, do movimento vegano, de manifestações que proporcionaram a expulsão de uma ou mais megaempresas de determinado(s) país(es), etc. Que analise se a ascensão de governos como o de Evo Morales – eleito na mesma Bolívia onde outrora tentaram privatizar a água – é algo positivo para a humanidade, para as esperanças de reação contra os poderes abusivos das multinacionais.

Se eu desse uma nota ao documentário, daria 6 – passaria de ano ainda, ainda que “na agulha” –, vistas as limitações e ausências descritas mais acima e a consequente incompletude do trabalho de conscientização. Não adianta gritar: “Ei! As corporações são monstruosas e o capitalismo é cruel! Abram os olhos!” e não dar soluções claras ou ao menos uma convocação geral a um debate global. O filme cumpriu o objetivo principal, mas de forma muito limitada. Que venha um “The Corporation 2” para terminar o serviço, que, convenhamos, foi muito nobre e bem-intencionado apesar das faltas.

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