Mais um emblema da exploração trabalhista e ambiental chinesa
Após "iPobre" e HiPhone, chineses lançam SpeedPad
Quando a Apple lançou o iPod, eles responderam com o "iPobre". Daí surgiu o iPhone. E eles rebateram com HiPhone. Pois não é agora, com o anúncio do iPad, que os chineses vão deixar a peteca cair. Digam olá ao SpeedPad, tablet genérico que deve infestar pontos de compras populares como a rua Santa Ifigênia (centro de São Paulo) nos próximos meses.
O modelo PWS700HA, da companhia HiVision, foi apresentado na feira alemã de tecnologia Cebit, a maior do mundo. O produto está em exposição no "Golden Mall", área reservada a empreendedores asiáticos. No corredor do SpeedPad, também é possível encontrar pendrives e enfeites para celulares.
Prendam a respiração, porque chegou a hora da descrição técnica.
O tablet chinês tem um magro processador Samsung 6410 (800 MHz), exíguos 2G[b] para armazenamento de arquivos e memória RAM de 256 MB.
Na placa informativa, os anunciantes prometem rodar "Andriod", o que só pode ser o sistema operacional aberto do Google para dispositivos móveis, Android. No tópico "software", a empresa chinesa garante "web browser, e-mail, Google, mapa e clima".
Sua tela tem resolução de 800x480 pixels. É sensível ao toque às custas de uma tecnologia ultrapassada (resistiva). O display é menos preciso e mais barato do que o empregado no iPhone (capacitivo). A bateria dura 6 horas, mas o tempo de vida do aparelho não é informado. Em todo caso, é melhor não se apegar.
Já podem soltar o ar. O trunfo deste portátil, afinal, não é sua configuração, mas o custo. O SpeedPad deve ser lançado com preço semelhante ao do laptop da Xuxa --entre US$ 90 e US$ 100, segundo os expositores que vieram à feira. O difícil vai ser decidir com qual ficar.
Mais uma máquina precária, malfeita e barateira, provavelmente composta de produtos tóxicos, vinda das mãos de operári@s mal-pag@s e recursos naturais extraídos de forma predatória. De trabalhadoræs sob exploração intensa e descarada e empresas que desconhecem termos como ISO9001 e gestão ambiental, jamais espere máquinas de qualidade.
E, pelo visto, o regime totalitário chinês adora isso (sem ironia), uma vez que é sua indústria nacional que, às custas de ferrenha exploração trabalhista e ambiental, se propaga ao mundo, atraindo consumidoræs alienad@s que, sem querer saber da procedência, dão preferência total àquilo que custa pouco e mandam às favas os direitos humanos e trabalhistas, o meio ambiente e qualquer exigência de qualidade.
Uma coisa é verdade: se você comprar máquinas fuleiras como esse HiVision PWS700HA, estará, em prol de preço baixo, mancomunando-se com tudo o que não presta em termos de exploração trabalhista, opressão, totalitarismo e destruição ambiental.
Se e impossível boicotar a China nos dias de hoje, pelo menos é possível evitar comprar esse tipo de quinquilharia que vem a preços baratos demais. Já sabemos que foram mãos exploradas e oprimidas e produtos tóxicos e poluentes que fabricaram esse tipo de máquina barateira e sem qualidade.
Ambientalismo e Direitos Animais: uma simbiose fraternal
Artigo escrito em junho de 2009
Presenciamos anualmente muitas ações de organismos ambientalistas estatais (IBAMA, Ministério do Meio Ambiente, secretarias estaduais ambientais etc.) e não-governamentais (Greenpeace, WWF, Sea Shepherd etc.) direcionadas ao combate de crimes ambientais que envolvem opressão de animais não-humanos. Tais atuações vêm comprovando e apontando uma verdade essencial que se aproxima cada vez mais do óbvio dia após dia: ambientalismo e Direitos Animais são movimentos irmãos, possuem uma associação perfeita e inquebrantável, e tentar vê-los ou praticá-los de forma separada será uma encaração sempre incompleta e limitada.
Essa associação é muito rica e, mais que uma relação de causa e efeito entre a exploração animal e crimes ambientais, é uma constatação lógica e uma visão ecológica bem mais abrangente e completa. As duas causas completam-se entre si de tal modo que ações de um lado que deem menor importância ao outro serão apenas enxugamento de gelo.
O primeiro ponto principal que torna ambientalismo e Direitos Animais inseparáveis surge na convergência de ambos em zelar pela fauna. O primeiro vê os animais como parte essencial da biosfera ao lado da flora, dos micro-organismos e dos elementos abióticos e o segundo defende que sua integração à natureza como seres livres e íntegros lhes é um direito inalienável, juntando-se numa proteção excelentemente justificada.
O ambientalismo, quando livre das limitações impostas por visões naturalistas e antropocêntricas, inclui todo o Reino Animal em sua esfera de proteção, passando a abranger também os animais domésticos e os humanos, tendo nesse ponto um importantíssimo respaldo dos Direitos Animais e até fundindo-se com este.
O desenvolvimento petrolífero não é nenhum motivo de festa
Artigo escrito em junho de 2009
A descoberta das reservas de petróleo pré-sal e a construção da refinaria de Suape foram eventos largamente comemorados pelos governos federal e pernambucano respectivamente. Foram anunciados como provedores de crescimento econômico e partes de uma tendência de aproximação da sonhada prosperidade econômica do Brasil e de Pernambuco. Muita gente, incluindo brasileiros médios, certamente ficou bastante feliz com ambas. Mas eu não fiquei.
Megaempreendimentos petrolíferos, por mais “imprescindíveis” que a mídia faça parecerem, não me deixam mais animados. Simbolizam a teimosia dos planos desenvolvimentistas em permanecerem dependentes do petróleo, do crescimento econômico sujo, da insustentabilidade, do progresso cancerígeno.
Nossos governantes, quando comemoram tais empreendimentos, dão as costas tanto para quem clama pelo redirecionamento da política energética e ambiental como para o próprio planeta, cuja atmosfera vem sofrendo um aquecimento gradual – e catastrófico – graças às emissões que os poços e refinarias ao redor do mundo sustentam.
Ignoram que cada grande reserva de petróleo encontrada – ainda mais enormes, como afirmam que o pré-sal é – é mais um adiamento significativo da hora em que os governos do mundo admitirão a busca por fontes limpas e renováveis como uma providência inadiável e urgente. Representa mais uma carga de milhares ou milhões de toneladas de gás carbônico, metano e outros gases-estufa sendo lançada na atmosfera. É mais um prolongamento da era da dependência crônica da gasolina, diesel e querosene tão poluentes e do automóvel que impede que a bicicleta e o trem assumam um papel importante no transporte de pessoas.
BR-408 sim, Linha Norte não, e menos mata na Zona da Mata
Artigo escrito em outubro de 2009. Fala de um fato ainda corrente, que não perdeu a atualidade.
Foi lançado há algumas semanas [outubro de 2009] o EIA/Rima da duplicação parcial da rodovia BR-408, uma das principais vias da Zona da Mata Norte de Pernambuco. Com ele, um lamentável anúncio: uma área considerável de mata atlântica de municípios como São Lourenço e Paudalho será derrubada para dar lugar à segunda faixa da estrada e às suas margens.
Esse verdadeiro ecocídio poderia ser evitado se, em vez de mais asfalto, fosse reconstruída a velha ferrovia Linha Norte e/ou uma linha férrea paralela para passageiros, mas, como era de se imaginar, dessa ideia ninguém quis chegar perto.
44,71 hectares* de vegetação frondosa e biodiversa serão postos abaixo com a obra, afirma o EIA/Rima. E é de se considerar que todo governo vê como evidente o fato de que toda rodovia que cruza áreas florestais inevitavelmente causará desmatamento direta e indiretamente ao ser pavimentada ou duplicada. Mas isso não está impedindo o governo de levar adiante o empreendimento.
Havia a alternativa de, ou fazer uma Parceria Público-Privada com a Transnordestina S/A para criar na ferrovia Linha Norte uma linha de trens de passageiros – caso fosse possível a empresa trabalhar com passageiros –, ou construir uma ferrovia estatal paralela com o fim de transporte de pessoas. Para o transporte de cargas, a Transnordestina S/A poderia construir estações modernas na velha linha – depois da devida restauração dos trilhos – para se abastecer as indústrias da região.
A estrada-de-ferro, mesmo que tenha trechos construídos dentro de florestas, possui um impacto ambiental muitíssimo menor do que rodovias. Não fomenta a ocupação humana à beira dela e concentra toda a pressão urbana em torno das estações. Os trens, mesmo se passam de meia em meia hora numa linha de longa distância, poluem muito menos do que o enorme fluxo de carros, ônibus e caminhões de uma estrada de asfalto.
Mas como ferrovia é palavrão e tabu para nossos governos, essa opção, ao que parece, nunca foi vislumbrada como alternativa à desmatadora duplicação rodoviária. É preferível destruir um pedaço grande da já escassa mata atlântica a recorrer à solução ferroviária.
A duplicação da BR-408, julgo eu, está na mesma categoria de obras ambientalmente polêmicas em que se inclui a Via Mangue no Recife, por exaltar o uso do carro numa realidade de aquecimento global e exaustão de recursos naturais, causar impactos fortes e muito relevantes na vegetação ao redor, reafirmar a falta de preferência pelo transporte sobre trilhos (trens e VLTs) e favorecer os interesses de indústrias petrolíferas, automotivas e de pneus e empresas de ônibus – no caso da rodovia, de média e longa distância.
Está sendo dado um mau exemplo de como lidar com o meio ambiente ao se optar pelo desmatamento em vez de se estudar alternativas de transporte. A verdade é que, enquanto nossos governos continuarem desprezando os trilhos como modal de grande eficiência e ambientalmente amigável – mais ainda para passageiros –, o Brasil permanecerá sendo um país que não sabe conciliar seus meios de transporte e o meio ambiente.
BR-408, BR-101 nordestina, BR-319 na Amazônia... O governo sabe como estradas são vetores de desmatamento e que a opção ferroviária existe como alternativa, mas insiste em glorificar as primeiras e ignorar a última. Continuaremos lamentando a perda de muitos pedaços de florestas, cerrado, caatinga e outros biomas graças à atitude de valorizar apenas as rodovias.
*”A Área de Influência Direta do empreendimento comporta atualmente 157,34 ha de Mata Atlântica, sendo que os fragmentos contidos na área compreendida pela faixa de servidão do empreendimento (40m de largura) ocupam 39,20ha e na área compreendida pelas faixas de rolamento e de segurança do empreendimento (12,20m de largura) comporta 5,51ha do bioma.” (total de 44,71ha) Fonte: http://www.slideshare.net/vfalcao/rima-br-408-2184416
Pequeno explicativo sobre o veganismo
Está circulando na internet (extraí de http://tweetphoto.com/11415975). Me parece uma camiseta estampada. Seja lá o que for, é um bom resumo sobre o que o veganismo é.
- Alimente @s famint@s.
- Salve os povos indígenas.
- Manifeste-se pelos direitos trabalhistas.
- Seja gentil com os animais.
- Pare as fazendas-fábrica.
- Salve 100 animais todos os anos.
- Acabe com o desmatamento por pastagem.
- Salve um acre (4047m²) de árvores
- Acabe com a pastagem em terras públicas.
- Diga à divisão de "serviços de vida selvagem" da USDA (Departamento de Agricultura dos Estados Unidos)...
- ...para parar de matar a vida selvagem em prol...
- ...dos lucros das corporações latifundiárias.
- Pare as guerras por recursos.
- Ajude a acabar com a dominação pelas corporações.
- Viva sua consciência.
- Salve nossos oceanos.
- Pare o poluidor número 1 das águas.
- Apoie um planeta sustentável.
- Pense no que há fora de si.
- Viva com compaixão.
- Pare a violência.
Por que o etanol não é a salvação
Artigo escrito em novembro de 2008
O álcool combustível nos últimos dois anos passou a ser tratado no Brasil como a grande panacéia da questão ambiental da energia. Quem ainda não viu Lula anunciando feito místico ascenso, ao largo do planeta, algo parecido com “ajoelhai-vos, países desenvolvidos, eu tenho vossa salvaçãããooo!” quando falava maravilhas do etanol por aí? É notável que há uma orientação muito passional nas enormes expectativas de “um mundo melhor por ser movido a um combustível limpo e renovável”, uma força de esperança pessoal bastante parecida com aquela que anima a vida de religiosos e crentes em curas pela fé, por também ser desprovida de ceticismo e encaração crítica. A verdade é que, embora a poluição vinda do cano de escape seja realmente bem menor, há uma contrapartida, um lado de porém, nociva o suficiente para levantar no mínimo questionamentos ríspidos ao caráter messiânico do álcool nos carros.
Falo de alguns problemas, dois ambientais e dois sociais, por sinal muito sérios e que devem ser encarados com muita sobriedade, pé no chão e atenção. Todos envolvem os lugares de onde saem a “promessa”, os imensos latifúndios de cana-de-açúcar e sua expansão, e denunciam a extrema fragilidade, ou mesmo a quebra, do triângulo da sustentabilidade – Ambiental/Econômico/Social.
O primeiro fator ambiental é o nosso “amigo” desmatamento. Lembrem-se, o Nordeste só tem sua economia sustentada pela cana desde a época colonial porque a Mata Atlântica foi quase totalmente varrida da região pelos latifundiários, foi reduzida a frágeis pinguinhos onde árvores frondosas ainda se aglomeram. O mesmo serve para São Paulo, atual maior estado canavieiro do país, onde os canaviais tomaram muito do lugar dos cafezais da República Velha. Dali o cerrado foi banido e a floresta tropical foi dizimada a menos de 8% da área original. Analisando com seriedade, percebemos que só foram possíveis a criação do Proálcool nos anos 70, a proliferação dos carros flex na década atual e os discursos encantados de Lula porque nossos ecossistemas foram mutilados sem piedade e sobrepostos por “desertos verdes” que se perdem no horizonte.
O apodrecido centro do Recife
Artigo publicado em julho de 2009
Recife tem muitas bonitas e elogiáveis atrações turísticas, como a praia de Boa Viagem, o Recife Antigo, o Carnaval e tantas outras. Mas seu centro, ao contrário, é definitivamente uma repulsão tanto para turistas como para habitantes da cidade. Juntamente com as inúmeras favelas, aquele lugar é uma das maiores vergonhas urbanas e sociais recifenses.
É basicamente nessas duas categorias de aspectos – urbanismo e questão social – que se dividem os inúmeros problemas do apodrecido velho centro. Em ambos os quesitos, os bairros da área padecem lamentavelmente e causam a vergonha dos(as) cidadã(o)s.
Andando pelas avenidas Dantas Barreto, Guararapes e Conde da Boa Vista e ruas adjacentes, vias mais importantes, é perceptível o estado de decadência física e social daquele ambiente.
Se chegamos à Avenida Dantas Barreto pela Avenida Sul, somos recebidos por construções sem manutenção, mal conservadas, consumidas pelo tempo. Muitas delas são antigas, dignas de se tornar parte do patrimônio histórico tombado, e nunca são revitalizadas. Também são marcantes a extrema desorganização do comércio ambulante, que o Camelódromo não conseguiu disciplinar. Também marcam aquela via a mendicância intensa e a enorme chance de aparecerem marginais, desde trombadinhas até gente armada, e beneficiados pela ausência da polícia e prontos para roubar dinheiro e objetos de valor dos(as) transeuntes.
Consumo ético não é só selo verde
Artigo escrito em fevereiro de 2009
Vem-se falando muito, cada vez mais, de “consumo ético”, “consumo responsável”. Entretanto, pode-se notar que a compra de produtos ecologicamente corretos vem sendo tratada como a quase totalidade dessa abordagem ética, como se para consumir com responsabilidade fosse necessário apenas e simplesmente começar a comprar “itens verdes”. A verdade é que a ética do consumo vai muito além, transcende enormemente essa visão limitada e engloba assuntos bem menos tratados nas discussões.
Me refiro a questões como direitos trabalhistas, direitos animais e empresas inimigas do meio ambiente. Nessa visão liberta do reducionismo “só consumo verde”, uma empresa que, por exemplo, explora e desrespeita seus empregados não passará a ser ética se começar a vender produtos ambientalmente amigáveis mas continuar maltratando seus subordinados. E uma companhia tal, por mais princípios “verdes” que adote, não passará ao lado ético se não deixar de testar seus produtos em animais.
Releva-se também, para esse entendimento ético mais abrangente, a opção do boicote. Muito além de priorizar certos produtos, o consumidor consciente evita outros que, opostamente à proambientalidade ou à neutralidade ecológica, tenham sido fabricados por empresas comprovadamente envolvidas com a destruição ambiental.
Para melhor entendimento, vale descrever essas “novas” frentes éticas, exemplificando as três citadas e indicando outras não menos relevantes.
Perguntas indiscretas (Parte 12)
Essa notícia, sobre rendimento do álcool X rendimento da gasolina, me fez pensar na seguinte pergunta-que-não-quer-calar:
- Qual polui menos? 1 litro de gasolina ou ~1,4 litro de álcool, que tem o mesmo rendimento em quilômetros rodados?
Resenha do documentário Meat the Truth/Uma Verdade Mais Que Inconveniente
Para dar comprovação aos dados mostrados, Marianne citou o estudo da FAO – Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação – que mostravam a pecuária como maior vilã do clima global. Com o devido embasamento, muitos pontos muito interessantes foram abordados com competência, tais como: Como é esse impacto tão grande da pecuária sobre o clima? Tornar-se vegetariano/a, ou deixar de comer carne um ou mais dias por semana, faz alguma diferença? Por que Al Gore convenientemente omitiu a pecuária na sua “verdade inconveniente”? Por que os governos são coniventes com o impacto ambiental dessa atividade?
Os principais pontos que a deputada holandesa mostrou em relação ao impacto ambiental pecuário foram a produção de metano, um gás-estufa muito mais poderoso que o gás carbônico, e o desmatamento de florestas como a Amazônia.
Como todo bom documentário apresentador da alternativa vegetariana de alimentação, mostrou diversos fatores relativos à crueldade nas fazendas-fábrica, principalmente a debicagem de aves e o confinamento intensivo dos animais. Fez também o favor de reexibir o The Meatrix, aquela paródia de Matrix em que os personagens são bichos de espécies exploradas pela indústria de alimentos de origem animal.
Também deu a oportunidade de participação ao PETA e à Humane Society, além de mostrar a história do “Mad Cowboy”, um ex-pecuarista que, depois de décadas na indústria da exploração animal, aprendeu a respeitar os animais e tornou-se vegetariano completo e militante pelos Direitos Animais.
Num dado momento, Marianne imitou propositalmente Al Gore e subiu numa plataforma para mostrar um gráfico que mostrava quanto a indústria da carne ameaça crescer nos próximos 40 anos se o consumo continuar aumentando como hoje.
O vídeo fez muito bem seu papel de completar o que Al Gore havia deixado pendente, mas cometeu falhas significativas:
- Enfocou menos que devia as questões de saúde. Mostrou pouco os males da carne vermelha ao organismo humano e deixou totalmente de mostrar por que o vegetarianismo é sustentável e confiável como alternativa alimentar ao onivorismo, o que deixa quem lhe assistiu com um sentimento de estar entre a cruz da carne e a espada de uma alimentação cuja confiabilidade não foi atestada no documentário;
- O vídeo de Johan Renck, que mostra o ânus de uma vaca expelindo fezes, certamente “convidou” e “convidará” muitas pessoas a fecharem o vídeo e acharem que estavam diante de “mais um filme vegetariano sem noção que não deveria ser levado a sério”. O aspecto nojento desse trecho afasta muitos/as espectadores/as e prejudica a transmissão da mensagem de conscientização vegetariana;
- Pouco mostrou dos efeitos das carnes brancas – de aves e peixes – no meio ambiente. O esvaziamento da fauna oceânica, que possui efeitos ainda pouco conhecidos no clima global, também é uma verdade extremamente inconveniente, mas o filme, num notável vacilo, omitiu. Deixou-se de evitar que a população que assistisse ao vídeo migrasse seus hábitos de consumo para o peixe, algo que também tem severíssimo impacto na natureza.
Faltas do vídeo à parte, a bela deputada fez bonito no esforço da conscientização. Meat the Truth é mais um documentário digno de ser exibido e distribuído para o máximo possível de pessoas, juntando-se aos brasileiros A Carne É Fraca e Não Matarás e ao tão falado Earthlings (Terráqueos). Para uma melhor eficácia na propagação da verdade inconveniente do impacto ambiental pecuário, será muito bom se alguma equipe tomar a iniciativa de dublar o documentário. Será um favor imprescindível para muita gente.
Resenha do documentário The Corporation
The Corporation (2003) cumpriu bem seu papel de alertar os olhos dos telespectadores quanto ao papel vilânico exercido por grande parte das maiores empresas multinacionais do mundo. Desmascarou os monstros – ou melhor, as entidades psicopatas, como o documentário “diagnostica” – escondidos atrás dos(as) simpáticos(as) garotos(as)-propaganda. Entretanto, tropeçou ao limitar a abordagem de certos assuntos críticos, ao deixar de abordar mais profundamente esperanças e soluções e ao direcionar os sentimentos da audiência com uma habilidade limitada e falha.
Para quem não assistiu ainda ou quer se lembrar “do que é que falava mesmo”, o filme se divide em vários blocos que contam tópicos como:
- a história do poder abusivo das corporações, quando aproveitou a 14ª emenda da Constituição norteamericana para adquirir direitos de pessoa física;
- a imoralidade ou amoralidade do exercício do poder empresarial, a falta de ética;
- os baixíssimos salários oferecidos a empregados em países pobres;
- as indenizações que foram obrigadas a pagar e o fato de as mesmas serem tratadas como custos adicionais que podem ser arcados;
- o uso de substâncias tóxicas na pecuária;
- os danos ambientais de muitos empreendimentos;
- as tentativas – muitas bem-sucedidas – de apoderamento do “direito” de obter patente em cima de espécies de seres vivos transgênicos;
- o mau-caratismo das estratégias de incremento da preferência consumista infantil;
- a hipocrisia da (suposta) responsabilidade social;
- o poder sedutor da propaganda;
- a venda de valores sociais e de desejos;
- o poder de manipulação política, incluindo a superação do poder aos próprios políticos;
- as intimidações aos meios de comunicação e a quem quer denunciar os abusos corporativos;
- a aliança empresarial com governos totalitários;
- a tentativa de golpe de Estado contra Franklin Roosevelt;
- as tentativas de privatizar recursos naturais e o direito ao usufruto dos mesmos em outros países.
The Corporation mexe muito, muito mesmo, com os sentimentos de quem assiste, desde os iniciantes no pensamento consciente, que querem deixar a alienação que marcava suas vidas até pouco tempo atrás, até os mais ativistas. As reações são variadas: embora em alguns poucos momentos lance mão de cenas que fazem rir por uns segundos, o caráter alarmista provoca desde a desilusão com muitas marcas muito consumidas até o mórbido desejo de que os CEOs e diretores das gigaempresas fossem todos mortos.
Como denunciante do inferno que existe atrás da fachada “celestial” da publicidade, como flagrante das inúmeras atrocidades cometidas em nome do lucro alto, o filme cumpre bem a função. Abre os olhos de muitas pessoas que até certo momento nutriam sonhos capitalistas, sonhos de consumo, sonhos de um futuro como gigaempresário(a). Revela que produtos de muitas marcas têm crime, morte e destruição entre seus ingredientes.
Cumpre seu objetivo, mas a strictu sensu. Exerce mal a segunda parte do processo de conscientização anticorporativa: mostrar soluções e como cada pessoa pode proceder, individual ou coletivamente, para derrubar os superpoderes malignos das corporações.
Restringe-se a mostrar de forma vaga que “um mundo melhor, sem o mal corporativo, é possível”, num discurso que lembra mais os sonhos de um adolescente de 17 anos que tenta uma vaga numa faculdade de jornalismo do que o levantamento de possibilidades claras e estratégias consistentes de como, por exemplo, consumir eticamente e contribuir para que o megaempresariado passe a pensar duas vezes antes de agir como demônios.
Embora tivesse feito (breves) referências a questões como defesa da democracia, manifestações, boicotes, união popular e prestação de contas, várias perguntas ficaram em aberto para quem, após o filme, passou a interessar-se mais pela luta por um mundo livre de corporações “demoníacas”: Como organizar campanhas de boicote? Como acordar uma parte significativa da população urbana regional ou nacional de modo que haja possibilidade de haver ativismo anticorporativo em massa? Como impedir uma decisão política que, por exemplo, determine uma privatização absurda? Como impedir que uma empresa nacional em ascensão, prestes a alcançar a multinacionalidade, saia da linha e se torne mais uma “corporação do mal”? Como se opor a abusos éticos como o patenteamento sobre seres vivos ou códigos genéticos? Como contribuir individualmente para ajudar a derrubar a crueldade capitalista?
Exemplos como a oposição dos agricultores indianos à patente imposta ao arroz basmati ainda foram dados, mas no geral faltou uma maior ênfase em casos bem-sucedidos das mais variadas formas de oposição aos abusos capitalistas – faltando inclusive exemplificar campanhas de boicote que alcançaram sucesso.
E, acima de tudo, faltou a proposição de um debate global sobre como suplantar a estrutura capitalista-corporativa atual e lançar um sistema econômico sustentável, ético, respeitável e socialmente conveniente. Nos mais marxistas, essa falta de alternativa sistemática acirra o desejo de promover um estouro revolucionário socialista, proposta que a História já comprovou ser um fracasso.
Essa limitação no apontamento de soluções terminou causando um atropelo nos sentimentos das pessoas que guardavam esperanças de que o filme apontasse soluções de forma pragmática e desse o pontapé para que se começassem articulações de militância.
Considerando que em certo momento, antes dessa fraca exposição de saídas, foi dada a impressão de que as corporações venceram definitivamente, que não há mais soluções para salvar o planeta, que tentativas de ativismo serão vãs e que o mundo está perto de entrar em colapso irreversível, houve uma condução um tanto atrapalhada das emoções dos telespectadores. O mais provável foi que esse fortíssimo toque passional não havia sido previsto pelos produtores do documentário.
Essa falha na canalização emocional, ao ver de alguns, tem potencial de despertar em algumas pessoas de pensamento ideológico mais passional uma explosão psicológica de revolta, desespero por encaração de um problema sem soluções definitivas à vista e até ímpetos coléricos de revolucionismo para quem ainda vê o ideal comunista como única “alternativa” à crueldade capitalista.
Outra falha importante foi a exclusão de alguns assuntos fundamentais, no mínimo dois: os Direitos Animais e o poder da educação. A questão animal ficou limitada à exposição do problema dos hormônios e drogas aplicados em vacas e na intoxicação do leite, aliás, uma abordagem muito bem-estarista, restrita à denúncia dos danos bioquímicos ao organismo daqueles animais. A vivissecção ficou como promessa descumprida.
Não houve debates sobre as muitas outras crueldades praticadas pela pecuária ou pela prática de testes de produtos em bichos, nem uma abordagem ética da coisificação e comercialização de animais não-humanos. O veganismo, visto e compreendido por um número crescente de cidadã(o)s como uma das atitudes mais praticáveis e eficientes de oposição a abusos corporativos no que tange à ética animal e ao meio ambiente, sequer foi mencionado no filme.
A educação também quase não entrou na história. Aliás, foi ainda menos perceptível do que os animais. Ficamos sem saber se as “corporações do mal” também estão interferindo na educação escolar ao redor do mundo e se/como as escolas estão lidando com a perversão consumista induzida nas crianças. Uma das grandes esperanças de salvação para as sociedades mundiais, a formação estudantil de pessoas conscientes e resistentes à tentação publicitária, terminou esquecida.
Passando da época do The Corporation, primeira metade da década de 2000, a hoje, final da década, nos vemos no desejo necessitado de assistir a um “The Corporation 2”. O mesmo poderia abranger questões como o agronegócio e suas implicações catastróficas no meio ambiente, a situação da China e do Sudeste Asiático, onde uma versão ainda mais monstruosa do capitalismo encontrou moradia, e enfim a ética animal, além de observar o impacto da crise econômica global de 2008-2009, que aconteceu como uma explosão no sistema capitalista-corporativo mundial, analisar se houve algo de bom nesse quase-quebra-quebra.
E também, a sugerida continuação poderia abordar muitíssimo melhor as soluções possíveis para derrubar o poder megalomaníaco e cruel das corporações. Que venha falando de boicotes que deram certo, do movimento vegano, de manifestações que proporcionaram a expulsão de uma ou mais megaempresas de determinado(s) país(es), etc. Que analise se a ascensão de governos como o de Evo Morales – eleito na mesma Bolívia onde outrora tentaram privatizar a água – é algo positivo para a humanidade, para as esperanças de reação contra os poderes abusivos das multinacionais.
Se eu desse uma nota ao documentário, daria 6 – passaria de ano ainda, ainda que “na agulha” –, vistas as limitações e ausências descritas mais acima e a consequente incompletude do trabalho de conscientização. Não adianta gritar: “Ei! As corporações são monstruosas e o capitalismo é cruel! Abram os olhos!” e não dar soluções claras ou ao menos uma convocação geral a um debate global. O filme cumpriu o objetivo principal, mas de forma muito limitada. Que venha um “The Corporation 2” para terminar o serviço, que, convenhamos, foi muito nobre e bem-intencionado apesar das faltas.
VLT não, ônibus sim: projeto futurista, política antiquada

"VLT? Não, joga fora. Vamos botar um corredorzão de ônibus mesmo." Assim disse o poder público no Grande Recife (a metrópole). É a perpetuação da vergonha do ódio político ao transporte metro-ferroviário.
O projeto do Corredor Norte-Sul, uma espécie de freeway sofisticada para ônibus que vai ligar Jaboatão até Igarassu, está encantando muita gente. É muito bonito de se ver, dado o futurismo planejado para a obra e os ônibus biarticulados, e seria uma proposta admirável se não fosse uma triste verdade.
Em parte de tal via estava-se pretendido construir uma linha de VLT (Veículo Leve sobre Trilhos), e os ônibus terminaram prevalecendo e afundando a proposta ferroviária no canal da avenida Agamenon Magalhães, reiterando a cinquentenária política brasileira de exaltação da locomoção rodoviária em detrimento do trem como meio de transporte coletivo.
Das pessoas que veem hoje com olhos brilhando a moderna via passando cerca de dez metros acima do fedorento canal citado, poucas se lembram das velhas propostas do VLT, que o Diario de Pernambuco divulgou em maio e junho de 2008, quando queriam construir um estádio em Olinda. Pensava-se em ligar a estação de metrô Joana Bezerra ao bairro olindense de Peixinhos, passando pela hoje descartada Arena de Salgadinho, ou à PE-22 em Paulista.
Em ambas as opções então propostas, a linha de trem passaria acima do canal da Agamenon. Já hoje, quando o estádio da Copa de 2014 está confirmado para São Lourenço da Mata, contentaram-se em uma mixaria de VLT e metrô em São Lourenço e coincidentemente sepultaram o trem do canal sem vela, caixão nem velório.
Para nossa infelicidade, não vai mais ter trem ali. Mas sim um trecho do Corredor Norte-Sul, por onde ônibus vão ligar Cajueiro Seco (Jaboatão) até Igarassu.









