Reportagem de um ano atrás: touros tratados como máquinas nos rodeios
A reportagem abaixo foi publicada há exatamente um ano no UOL Notícias, e não perdeu nem um pouco de sua atualidade.
Foi uma das únicas vozes de protesto contra o Inferno de Barretos no ano passado, e, neste cenário de "tolerância" das entidades de defesa animal em relação ao evento, lembrá-la é uma das poucas investidas de conscientização que vêm sendo feitas para a população nessa época de rodeio em Barretos.
Boi é visto como máquina nos rodeios e "aditivos" aos animais causam polêmica
As carretas chegam e desembarcam as "máquinas". Socos e choques ajudam a manobrá-las para os boxes... quer dizer: os currais do lado de fora da arena. Isso acontece quatro horas antes de eles começarem a apresentação de oito segundos de salto e rodopios tentando ejetar seu piloto.
Antes da performance, é amarrado um sedém em sua virilha. E é essa tira de lã de cordeiro que gera a maior polêmica do rodeio. Os organizadores falam que o utensílio dá apenas cócegas no bovino para que ele salte em círculos. Para os defensores dos animais, o sedém machuca e é o "aditivo" para tantos saltos na arena. Como boi não dá depoimento, a indústria do peão de boiadeiro segue movimentando milhões (o cálculo oficial fica em R$ 200 milhões).
Um dos que mais faturam nesse nicho são os tropeiros, denominação para os donos das manadas. Paulo Emílio é um deles. Tem 200 touros e quatro carretas para transportá-los. Em sua fazenda, os bovinos contam com exercícios de hidroginástica em um açude que devem atravessar para perder barriga, além de uma pista de areia para fortalecerem as patas.
Ele projetou sua empresa junto com a fama de seu touro Bandido, que até virou ator-personagem na novela "América", da TV Globo. Morto no início do ano, Bandido foi enterrado, com direito a cerimônia, na área do parque onde se ergueu uma estátua dele. O mítico boi, que um único homem conseguiu montar, deixou quatro clones, 70 filhos e 3.000 doses de sêmem como herdeiros.
Certa feita, ele derrubou o rival e do chão o lançou seis metros para cima, deixando o peão no estaleiro um ano. Muitos boiadeiros passaram a recusar a montaria em Bandido quando era sorteado como rival, aceitando a derrota por W.O. simplesmente. Estes são alguns feitos contados na biografia lançada na abertura da festa de Barretos: "Bandido, Touro com Alma".
"Como ele não existiu nenhum. Espero que 90% dos 70 filhos dele puxem o pai. Em dois anos, vários estarão competindo", conta Paulo Emílio, cuja companhia monta rodeios completos, com som, luz, telões, bretes e animais, além de comandar a festa de São José do Rio Preto.
Ele "faz bois", misturando a raça Nelore, mais agressiva, com raças europeias, que são mais troncudas. O resultado é o nervosismo indiano com a musculatura europeia. Ele diz que não há doping em seu time, que ele chama de "Real Madrid da boiada".
11 perguntas de um eleitor relutante para Marina Silva

Excelentíssima senadora e candidata Marina Silva,
Declarações recentes da senhora deixaram muita gente apreensiva. Nelas a sra. deixou a entender que suas crenças religiosas estão, de alguma forma, interferindo em sua posição relativa a assuntos sensíveis, relativos a direitos humanos – legalização do casamento homossexual e do aborto – e à questão do consumo de maconha, cuja liberação muitos defendem como forma de enfraquecer os traficantes e por não ser pesada e viciante como as drogas ilegais.
Até muito recentemente, eu tinha total certeza de que meu voto já era seu. Mas, depois de eu ter tomado conhecimento desse discurso considerado conservador e contraditório com o Estado laico, passei a ter receio de lhe dedicar meu voto. É um temor de que mulheres e homossexuais passem mais quatro ou oito anos com direitos muito importantes em suspensão por causa da interferência da crença religiosa alheia.
Além disso, algumas perguntas estão em aberto, sendo questões tão relevantes que são decisivas para os votos meu e de muitos outros eleitores, se eles realmente serão dedicados ao vosso sucesso eleitoral. Inclusive uma delas eu lhe dirigi quando a sra. veio ao Recife – sobre o que achas do desmatamento que está prestes a destruir quase 700 hectares de vegetação estuarina em torno do Porto de Suape – e até hoje não fui respondido.
Assim sendo, eu, como eleitor que ainda vê na senhora uma alternativa promissora para o Brasil, que vem se mostrando melhor que Dilma Rousseff e José Serra na argumentação e na forma de lidar com os debates e entrevistas, que vem conquistando o voto e o carinho de cada vez mais brasileiros esperançosos, me vejo impelido a lançar onze perguntas, para que possas responder com carinho. Respondê-las, espero, vai aliviar ou sanar essa insegurança que eu e muitos outros eleitores estamos tendo em relação a lhe dedicar nossos votos.
***
Guia explicativo sobre os ateus

Símbolo da ONG euamericana American Atheists, visto por muitos como o símbolo do próprio ateísmo
Artigo escrito em setembro de 2008, trazido do Consciência Efervescente. Este momento é propício para a conscientização da população sobre quem são e o que pensam os ateus.
Os ateus são uma das minorias mais discriminadas no Brasil e no mundo, rejeitados por não acreditarem nos deuses que bilhões de pessoas consideram como indiscutivelmente reais. Ateísmo é visto em muitos países até como crime punível com a morte.
No Brasil, felizmente a lei os protege, mas não impede as freqüentes demonstrações de preconceito por parte da maioria da população adepta de religiões. Uma revista de circulação nacional – cujo nome não merece ser revelado por certos motivos – publicou há não muito tempo uma pesquisa que denunciava que apenas 13% dos brasileiros votariam em um ateu para presidente.
Tendo essa marginalização cultural em vista, conveio elaborar um guia explicativo esclarecendo as verdades esclarecidas sobre o ateu e seus verdadeiros pensamentos. Por que um ateu é ateu? É verdade que ateus são imorais e não enxergam sentido na vida? É qualquer um que tem o poder de abolir sua crença em deuses? Por que pensam de forma tão crítica sobre religião? Perguntas como estas são respondidas abaixo.
***
ÍNDICE
Os porquês de ser ateu
Derrubando dez mitos sobre os ateus
Virar ateu faz bem?
Por que a maioria dos ateus critica tanto religiões como o cristianismo
Opinião ateísta sobre liberdade religiosa e abusos da mesma
Tópicos complementares:
- Ateus contra a tirania
- Pseudo-ateus
- Ateus fanáticos
***
Preconceito na TV e luta pelo respeito aos ateus: a hora é essa

Assim Datena e muitas outras pessoas veem os ateus. Precisamos começar a nos mobilizar para exigirmos respeito.
As ofensas proferidas pelo apresentador José Luiz Datena contra nós ateus no último dia 27 foram um capítulo mais na triste história da intolerância religiosa no Brasil. Mas, pensando melhor, esse mal pode, quem sabe, ter vindo para um bem maior. Me refiro à oportunidade de ouro que estamos tendo agora para nos mostrarmos à sociedade e derrubarmos o preconceito que, latente ou explícito, grassa na altamente teísta população brasileira.
Seu Datena acabou fazendo o favor de tirar do underground e trazer à tona a intolerância existente contra pessoas desprovidas de fé religiosa, mostrando ao Brasil inteiro que ela é forte, tanto quanto a homofobia, e faz parte da mentalidade de muitos cristãos. Até esse auge da ira preconceituosa dele, a ateofobia quase não era comentada na sociedade, o discurso do respeito às diferenças praticamente ignorava os ateus enquanto minoria discriminada, enquanto os debates sobre a homofobia e o racismo se mantinham em alta.
A atitude dele “ensinou” em rede nacional que não existe no Brasil uma verdadeira “democracia interreligiosa” a abraçar com igualdade e harmonia todos os credos e não-credos, assim como a “democracia racial”, por sua vez de forma racional, também foi sendo relegada a mito pelos sociólogos desde meados do século 20.
“Fazendinhas” de shopping: o que estão ensinando aos nossos pequenos?

Alguns shoppings brasileiros, diante da realidade ultraurbana das crianças das grandes cidades, muitas das quais crescem acreditando que carne, leite e ovos são fabricados do nada no supermercado, tomaram a iniciativa de montar “fazendinhas” em parte de seu interior, no intuito de diverti-las, “ensiná-las” de onde vem os produtos de origem animal da mesa onívora brasileira e pô-las em contato com o mundo rural – ainda que de forma bem limitada.
Nesses pedaços de ruralidade incrustados nas urbes, estão expostos os mais diversos animais das fazendas de verdade: bovinos, porcos, coelhos, galinhas, perus, cavalos (ou pôneis)... Pode-se andar de charrete, montar equinos, participar de pescaria, e até levar animais típicos do campo para casa. Parece muito bom e saudável mostrar à meninada acostumada com a selva de concreto um pouco da vida da fazenda...
Eu disse “parece”. Porque, na ótica da ética animal, não o é nem um pouco. Em vez de apreciação, reservo a essas “fazendinhas” de shopping uma indagação preocupada: o que estão ensinando aos nossos pequenos?
A verdade é que estão lhes naturalizando o que há de pior na relação entre seres humanos e bichos: o regime de escravidão que norteia a pecuária, as fazendas de criação de animais, a mercantilização da vida. Aprende-se, com ou sem “educadores” presentes, que os animais rurais existem para nos servir, seja como comida, seja como meio de transporte, seja como bichinhos de estimação – mesmo sendo criados em pequenas gaiolas.
Essas instalações temporárias são na verdade um complexo de exploração animal, em três sentidos: propriamente exploram os animais, trazidos de fazendas de verdade para os shoppings, obrigados a cavalgar com crianças no lombo ou na charrete e expostos a todo o barulho estressante do local; engaiolam e comercializam diversos deles e, o mais preocupante, promovem a antipedagogia ética, pautada no utilitarismo servil, induzindo as crianças a crerem que cada espécie daqueles bichos de fato “servem”, vivos ou mortos, para determinados fins – e que isso é natural, é normal, é assim que a vida funciona e deve funcionar.
Visitei recentemente uma dessas “fazendinhas”, em um shopping movimentado de uma cidade metropolitana nordestina que não revelo aqui – pode ter sido em Natal, em Salvador, em Fortaleza, em Campina Grande, em qualquer uma grande cidade do Nordeste, ou até no Recife mesmo. Abaixo descrevo minha experiência nesse tipo de lugar. Nota importante: fui justamente para observar tudo e poder descrever aqui a realidade vislumbrada, não foi por outro motivo.
Recorde de visitas no Arauto da Consciência: obrigado, ateus!
O post reportando sobre o abjeto sermão de intolerância de José Luiz Datena contra ateus rendeu ao Arauto da Consciência um recorde que eu só esperava para daqui a um ano: 1.196 visitas ontem (28/07) mais 528 anteontem (27/07), num total de 1.724 visitas em dois dias. Um patamar totalmente inesperado numa realidade em que a rotina era oscilar entre 109 e 275 visitas diárias.
E os pageviews somaram 1.570 ontem e 712 anteontem, totalizando 2.282 páginas visualizadas no total.
O Arauto, embora tenha domínio próprio e seja hospedado independente dos principais sistemas de hospedagem de blogs gratuitos (WordPress.com e Blogger), é um blog pequeno ainda, considerando sua enorme distância do patamar de visitas de blogs como o Acerto de Contas, maior e mais importante blog de Pernambuco, e o Cloaca News, que, segundo o anônimo autor, oscila geralmente entre mil e 2 mil visitas e já teve dias que passou das 4 mil.
O post referido sobre os impropérios de Datena chegou a ser mais acessado que a própria página inicial do blog ontem, com 1.388 pageviews contra 1.219.
A intolerância do apresentador sensacionalista e preconceituoso terminou tornando o Arauto bem mais conhecido entre os ateus e ateias brasileir@s. Mesmo não criticando mais as religiões com a frequência de antes, eu como ateu e cidadão tenho o dever de usar o blog para denunciar a discriminação que acomete as minorias brasileiras -- negr@s, mulheres, ateus e ateias, homossexuais e outras --, como parte da sua missão de desafiar o atual zeitgeist ético-moral brasileiro, repleto de valores violentos e discriminatórios, e preparar a sociedade para um novo paradigma pautado na paz, no respeito aos seres sencientes (humanos ou não) e ao meio ambiente, na igualdade moral entre os seres humanos e entre os humanos e os animais não-humanos, e no exercício ativo da cidadania em todos os âmbitos (político, socioambiental, cultural, ético etc.).
Aproveitando meu discurso, dou boas vindas a tod@s @s nov@s leitoræs que ganhei nas últimas 48 horas, e convido-@s para conhecerem os demais posts deste blog, que se pautam em quatro grandes assuntos, ligados ou não entre si: direitos animais, vegetarianismo/veganismo, meio ambiente e humanidades.
Há dois tipos de ateus, que classifico pela facilidade em questionar e/ou assimilar ideias e paradigmas não-religiosos: os ateus questionadores e progressistas, mais suscetíveis a compreender a lógica ética dos direitos animais, do veg(etari)anismo e do ambientalismo - e subsequentemente aderir à filosofia de respeito aos seres não-humanos -, e os relutantes e conservadores, que, de tão resistentes a assimilar a filosofia e ética não antropocêntrica, praticamente repudiam as ideias de parar de comer pelo menos carne e se opor à experimentação científica em animais - podendo manifestar uma resistência e reação comparáveis às de religios@s que não querem abandonar sua fé mesmo perante fortíssimos argumentos racionalistas e céticos.
Conto com aquelæs que se incluem na primeira categoria, para que possam voltar sempre para visitar o Arauto, debater saudavelmente comigo e com outr@s comentaristas e, quem sabe, ajudar a divulgar este blog e as ideias que por ele defendo.
A saber, eu, o autor do blog, publico artigos de opinião e/ou conscientização também na ANDA - Agência de Notícias de Direitos Animais (seja por notícias, seja pela coluna Zeitgeist Moral), no blog Acerto de Contas e no site-rede vegetariano Vista-se, além de diversos outros sites especializados em publicar artigos, como o Artigos.com.
Obrigado a tod@s os ateus e ateias que vieram ao Arauto da Consciência e continuarão vindo! Visitem outros posts - recomendo os Posts em destaque - e/ou voltem sempre.
P.S: as arrobas e os "æ" pertencem ao chamado Português com Inclusão de Gênero, que procura tornar o português menos androcêntrico. O feminismo também está incluído no tema humanidades do blog.
P.S.2: aguardem para hoje um artigo incitando os ateus brasileiros a aproveitarem o momento para se mostrarem, como categoria possuidora de direitos e dignidade, à sociedade brasileira. Será uma incitação à cidadania, em prol do respeito à minoria ateísta.
Crítica ao atual paradigma de jornalismo ambiental
Do Observatório da Imprensa, um artigo que importa muito para o Arauto, já que trata de como o jornalismo ambiental ainda não atende às necessidades da conscientização - tivemos um exemplo agora sobre Suape, no qual a mídia fez uma cobertura para lá de desprezível - em certo caso, um jornalismo antiambiental - sobre o progresso do ecocídio liderado pelo governo Eduardo Campos.
Falta diálogo com a sociedade
Por Washington Araújo, para o Observatório da Imprensa
Em junho de 1992, o Brasil sediou a Cúpula da Terra, o mais importante evento promovido pelas Nações Unidas para tratar do meio ambiente no planeta. Durante quase um mês, centenas de organismos não-governamentais foram ao Rio de Janeiro e nos dias mesmo da Cúpula tivemos cerca de 180 chefes de Estado presentes.
O Aterro do Flamengo celebrou a força do movimento ecológico. Ainda não se falava do superaquecimento com o fervor com que hoje se fala; buraco na camada de ozônio aterrorizava mais pelo desconhecimento que por suas consequências práticas; derretimento das calotas polares era tema restrito aos círculos de cientistas. Enfim, éramos muito mais idealistas e muito menos práticos. E não existia ainda de maneira consolidada o jornalismo ambiental. Quem cobria catástrofes naturais, cobria meio ambiente; quem cobria a cena internacional, cobria a ação.
O jornalismo ambiental – mesmo que ainda, a meu ver, incipiente no Brasil – precisa mudar por várias razões. Em primeiro lugar, não se pode praticar o jornalismo ambiental sem compromisso, apostando numa pretensa neutralidade, objetividade etc. Em segundo lugar, o jornalismo ambiental não se pode focar apenas no aspecto técnico porque o importante, se quisermos efetivamente trabalhar para a solução dos problemas, é perceber as conexões entre o meio ambiente, a economia, a cultura, a política, a saúde e a sociedade.
Esta perspectiva fragmentada, que vem a reboque da cobertura de grandes catástrofes, não contribui para fortalecer o jornalismo ambiental, apenas o coloca na agenda, sem se comprometer com um debate sério, abrangente, como deve ser. Finalmente, o jornalismo ambiental deve atentar para os grandes interesses que rondam essa área e ter em mente que existe na prática a chamada praga do marketing verde.
FAQ da campanha pró-vivissecção X coerência e direitos animais (Links)
Aqui os links das quatro partes do artigo FAQ da campanha pró-vivissecção X coerência e direitos animais:
Parte 1 - Parte 2 - Parte 3 - Parte 4
Pode a ciência que se utiliza de animais ser considerada ética? (por Sérgio Greif)
O biólogo Sérgio Greif contribuiu para a reação da categoria defensora dos direitos animais à campanha do governo e de organizações científicas de "conscientização" em prol da experimentação animal com esse simples e bem explicativo artigo.
Pode a ciência que se utiliza de animais ser considerada ética?
por Sérgio Greif, biólogo
Em sua tentativa de tornar a experimentação animal algo mais aceitável pelo público os defensores da vivissecção frequentemente recorrem a argumentos de ordem ética. Informam, por meio de sua propaganda, o quanto a ciência dos animais de laboratórios evoluiu nos últimos tempos, a ponto dos laboratórios de hoje em nada lembrarem as câmaras de tortura de outrora, que tanto proporcionaram em termos de material fotográfico para as campanhas anti-vivissecção.
A alegação, em verdade uma agressão à inteligência do público, quer fazer as pessoas crerem que os ratos de laboratório levam, atualmente, vida de reis. Cientistas graduados precisam usar de subterfúgios para convencer o público de que aquilo que eles fazem não é errado. E os argumentos são os mais pobres possíveis “Ratos de laboratório recebem ração balanceada e água limpa à vontade. É muito mais do que ratos em vida livre recebem; Ratos de laboratório vivem vidas confortáveis, em ambientes limpos, forrados com serragem e em condições de temperatura controlada.” Há ainda o argumento emotivo pseudo-racional “Se não forem usados animais serão usados o que? Você preferiria que se utilizassem crianças?”
A verdade é que a experimentação animal não é nem pode ser uma ciência com ética. Primeiramente porque, embora a experimentação animal seja praticada no contexto acadêmico, ela não pode ser defendida em termos científicos. Em segundo lugar, não há nenhuma racionalidade em argumentar que, porque animais experimentais são melhor tratados hoje do que eram 10, 20, 30 anos atrás, hoje eles recebem tratamento ético.
Diferente da ética envolvendo a experimentação com seres humanos, animais vivos jamais se oferecem para participar de experimentos. Animais não podem se candidatar a participar de experimentos, eles não podem ser informados em relação aos riscos envolvidos nem podem desistir de participar da pesquisa a qualquer tempo. Pelo contrário, sua participação é forçada e invariavelmente resulta em prejuízos para o animal, senão durante os procedimentos, ao fim, com sua morte.
Em uma comparação com seres humanos, animais de laboratório são tão vitimas quanto o foram as vitimas dos experimentos nazistas, ou das pesquisas sobre sífilis envolvendo negros americanos, ou qualquer outro experimento que utilizou seres humanos sem considerar seus interesses individuais.
FAQ da campanha pró-vivissecção X coerência e direitos animais (Parte 4 e final)
Esta parte é o final do artigo que visa comentar o FAQ do site “eticanapesquisa.org.br”, parte da campanha de “conscientização”, promovida pelo Governo Federal e por organizações científicas brasileiras, relativa ao uso de animais em pesquisas.
***
10. Que doenças evoluíram seu tratamento, em razão das pesquisas?
São várias, podemos citar duas: o câncer e a fibrose cística. No caso do câncer, por exemplo, pode ser realizado atualmente a terapia gênica, onde são retiradas células do tumor, inserido um gene que reage contra o câncer e reinjetado as células no paciente. Desse modo, as células geneticamente modificadas irão “ensinar” ao sistema imunológico do paciente a reconhecer as peculiaridades de suas células cancerígenas e destruir o tumor. Atualmente, esse tipo de pesquisa vem alcançado avanços significativos em ratos e camundongos e, certamente, poderão salvar várias vidas, inclusive as dos seres humanos.
No tratamento da fibrose cística, foi desenvolvido um modelo animal que reproduz a doença humana. Essa tecnologia permitiu que novos testes fossem realizados no combate a essa terrível doença genética, que acomete principalmente o pulmão de crianças em todo o mundo. Contra essa doença, está sendo realizada também a “terapia gênica”, onde as pesquisas com animais são extremamente relevantes.
Devemos lembrar também dos coqueteis anti-aids, um conjunto de medicamentos que já salvou e ajuda a prolongar a vida de milhões de pessoas em todo o mundo.
Nessa resposta, revela-se que a experimentação animal, cujos autores dizem prezar pela “responsabilidade, ética e respeito aos animais”, causou sofrimento crônico em animais que foram submetidos ao mais diversos tipos de câncer e à fibrose cística, descrito pelos próprios autores do FAQ como uma “terrível doença genética”.
Se a fibrose cística é terrível como dizem esses cientistas, imaginemos como seria estar na pele dos animais que foram induzidos a nascer com essa doença e passaram toda a sua vida sofrendo com ela. Essa questão 10 mostra como falta o mínimo de senso de alteridade e empatia interespecíficas nas pessoas que exploram animais em suas experiências e defendem a continuidade desse tipo de método de pesquisa. É uma demonstração de que esses indivíduos são incapazes de se pôr imaginariamente na pele dos animais que exploram.
É isso que os idealizadores da campanha de “conscientização” vivisseccionista querem? Que “terríveis doenças” continuem sendo induzidas em animais não-humanos para que seres humanos sejam salvos – e não possam optar por viver sem depender de remédios resultantes desse tipo de violência?
***
FAQ da campanha pró-vivissecção X coerência e direitos animais (Parte 3)

Gaiolas de camundongos transgênicos, segundo o site de origem (natalneuro.org.br)
Esta parte é a continuidade do artigo que visa comentar o FAQ do site “eticanapesquisa.org.br”, parte da campanha de “conscientização”, promovida pelo Governo Federal e por organizações científicas brasileiras, relativa ao uso de animais em pesquisas.
***
7. De onde vêm os animais utilizados em experimentos?
Todos são produzidos [sic] e criados em biotérios (ambiente de criação de animais destinados exclusivamente para pesquisa). Os pesquisadores podem comprar [sic] os animais, desde que tenham projetos aceitos por Comissões de Ética, criados nesses biotérios licenciados ou criá-los em biotérios próprios.
Se considerar que os interessados pela vivissecção estão praticamente em pé de guerra contra a defesa dos direitos animais, na “batalha” de argumentos eles perdem feio. Nesta questão eles deixam claro que tratam os animais como coisas, como objetos industrializados que podem ser produzidos numa fábrica (biotério), tal como um microscópio ou um computador, e vendidos como mercadorias para o primeiro cientista disposto a explorá-los de forma violenta numa experiência.
Trata-se, nessa atitude, de alhear os animais não-humanos de sua dignidade como seres sencientes, dotados do interesse de viver bem e livres, nascidos como fins em si mesmos – em vez de como meios para fins de outrem. E transformá-los em objetos passíveis de ser fabricados, comercializados e usados, tal como qualquer produto industrializado cuja existência é condicionada a interesses humanos.
Isso ser feito com pessoas – transformar em produtos industrializados comerciáveis e usáveis por exploração violenta – seria considerado a pior e mais diabólica das agressões aos direitos humanos, mas, como quem é coisificado e explorado são “apenas animais”, isso é livre, é permitido pela lei, é incentivado pelos governos, tal como a campanha de “conscientização” deixa escancarado.
Está visível a violência moral promovida, mesmo sem perceber, por quem deseja a perpetuação da experimentação animal.
***
FAQ da campanha pró-vivissecção X coerência e direitos animais (Parte 2)
Esta parte é a continuidade do artigo que visa comentar o FAQ do site “eticanapesquisa.org.br”, parte da campanha de “conscientização”, promovida pelo Governo Federal e por organizações científicas brasileiras, relativa ao uso de animais em pesquisas.
***
4. Quais as alternativas ao uso de animais em pesquisa científica e por que os animais não podem ser inteiramente substituídos por modelos alternativos?
Para os cientistas, ainda não existem hoje métodos que substituam inteiramente o uso de animais nas pesquisas na área biológica. Em algum momento das pesquisas, os testes com animais são necessários. ?Em alguns procedimentos, os pesquisadores podem usar culturas de células e tecidos bem como modelos computacionais. Porém, tais métodos, não substituem totalmente o uso de animais. Há pesquisas na área da fisiologia, comportamento, biomedicina e da nutrição que exigem o organismo vivo para segurança da pesquisa que está sendo realizada.
Os modelos alternativos têm por objetivo reduzir o número de animais utilizados e isso é um grande avanço. São métodos eficientes para serem usados na fase inicial da pesquisa. O teste final, no entanto, tem de ser feito em animais, pois os efeitos de um novo procedimento, medicamento ou vacina podem ser completamente diferentes e até arriscados quando testados em um organismo completo vivo. Mesmo a tecnologia mais sofisticada não pode imitar as interações complexas entre as células, tecidos e órgãos que ocorrem nos seres humanos e animais. Os cientistas precisam entender essas interações antes de introduzir um novo tratamento ou uma substância em animais, sejam eles humanos ou não.
Às vezes, os estudos dos seres vivos mais simples, tais como bactérias, leveduras, vermes e moscas de fruta podem fornecer uma boa visão nos processos biológicos. Estudos com estes seres têm fornecido conhecimentos específicos sobre como alguns genes funcionam, por exemplo. Estas informações podem ser muito úteis, uma vez que muitos genes similares também estão presentes nos seres humanos e em outros mamíferos.
Mas os órgãos de nosso corpo e dos nossos sistemas biológicos interagem de forma sofisticada. Esses processos não podem ser plenamente compreendidos em organismos simples, em moléculas isoladas ou células e, em algum momento deverão ser testados em mamíferos.
É por isso que é importante estudar os processos em animais e isso também incluem os testes em seres humanos.?Devido às muitas e variadas interações entre os órgãos do corpo humano e sistemas, não só doenças, mas também novos medicamentos, vacinas e técnicas cirúrgicas devem ser estudados em animais para garantir sua segurança e eficácia.
Alguns cientistas não consideram, no entanto, a cultura de células de tecido como um método alternativo, mas um possesso de refinamento da pesquisa, evitando que um número desnecessário de animais seja utilizado. Mesmo as pesquisas com células exigem o uso de animais para a produção e extração dessas células.
Bota-se areia em todas as alternativas de pesquisa citadas, ignora-se o fato de que muitas descobertas da medicina – a exemplo da penicilina, da aspirina e de cirurgias diversas – não precisaram de cobaias. Faz-se isso na tentativa de superestimar a dependência da ciência biomédica das pesquisas com cobaias. E em momento nenhum fala-se de qualquer perspectiva de se substituir os animais nas pesquisas no futuro, mesmo daqui a décadas.
FAQ da campanha pró-vivissecção X coerência e direitos animais (Parte 1)

A campanha do governo para “conscientizar” a população sobre a alegada importância de se promover a pesquisa com cobaias está aí. Não há apenas os comerciais televisivos, mas também um site (www.eticanapesquisa.org.br) feito exclusivamente para “esclarecer” os fundamentos do uso de animais em pesquisas. Nesse site, há depoimentos, vídeos e um FAQ (frequently asked questions – perguntas frequentes) sobre o tema.
No entanto, o próprio FAQ mostra como são frágeis e incoerentes os argumentos dos vivisseccionistas (cientistas que realizam a vivissecção, a pesquisa com cobaias vivas) perante a verdadeira ética dos direitos animais. É fácil derrubá-los, bastando comentar as respostas dadas às perguntas listadas pelos criadores do site.
Abaixo, e nas próximas partes deste artigo, comento a resposta dada a cada pergunta, desmontando a argumentação usada por quem está interessado em continuar explorando e matando animais em laboratórios.
****
1. O ser humano tem direito de usar o animal em experimentações que beneficiarão o próprio homem [sic]? E como ficam os direitos dos animais?
Deve ficar claro que uso de animais em pesquisas não só beneficia o ser humano, mas também outros animais. Quase todos os grandes avanços na área da saúde durante o século XX utilizaram animais em suas pesquisas.
Sobre o que se convencionou chamar de “direito animal”, entendemos que é obrigação da sociedade assegurar o bem-estar animal através de Leis claras que regulamentem a prática. Sem essa segurança respaldada na Lei, os animais estarão desprotegidos. O Brasil está fazendo sua parte e, desde 2008, tem uma Lei que regulamente a utilização de animais para propósito científico e didático em todo Território Nacional. Aos que infringirem a Lei, punições estão asseguradas.
Em primeiro lugar, a pergunta “O ser humano tem direito de usar o animal em experimentações...?” não foi respondida. Preferiu-se enrolar o “questionador” recorrendo aos alegados benefícios científicos rendidos pela vivissecção ao ser humano e, através da medicina veterinária, aos animais domésticos. Hoje ainda é preferido, mesmo recorrendo-se à hipocrisia, omitir a multicentenária visão antropocêntrica e utilitarista dada pela comunidade científica à vida animal – de que a humanidade é moralmente a espécie superior e, por isso, pode determinar que certos animais não-humanos nasçam para servir perpetuamente aos interesses humanos e não tenham valor algum fora essa utilidade servil.
Não desista do Brasil
Esta mensagem é para você que, vendo tantos problemas sociais e políticos no Brasil e sem saber se há solução para eles, afirma que gostaria muito de ir embora e morar num país menos problemático. Para você que afirma algo como “O Brasil não tem mais jeito. Não dá para viver direito aqui. Quero fugir pra um outro país e viver mais dignamente.”
Diante de um cenário de violência em alta, distribuição indecente de renda, corrupção, promessas eleitorais descumpridas, ensino público caindo aos pedaços etc., realmente é sedutora a imagem de morar no Canadá, ou na Inglaterra, ou na Austrália, ou na Alemanha... longe do caos sociopolítico que nos tem como cativos. Mas pergunto: será que isso realmente é o melhor a se fazer?
Penso que o que faria uma pessoa voltar atrás de sua vontade emigratória seria que o Brasil se tornasse uma nação livre de tantos problemas, ou pelo menos com esses defeitos em um grau muito menor. Creio que você esteja concordando comigo. Mas como você espera que isso aconteça, se um número insuficiente de pessoas se engaja em tentar consertar nosso país?
De fato vemos, de um lado, governos que não cumprem o papel de trabalhar pelo povo, de assegurar o cumprimento e respeito dos direitos sociais que temos. Governos ocupados por pessoas que buscam interesses próprios, não o bem comum, e para isso promovem atos de negligência social, corrupção e atendimento de lobbies escusos.
Do outro, há um povo dormindo em berço esplêndido, esquecendo o que nossa Constituição diz sobre a cidadania ser fundamento da República brasileira e todo o poder emanar do povo. Uma população que não tem como costume exigir justiça social dos governantes, ou protestar contra quem lhe faz mal, preferindo aceitar o estado de coisas enquanto ele não se torna absolutamente insuportável. Há exceções, gente que faz valer seu atributo de cidadãos, mas ainda assim é muito pouca para melhorar substancialmente o Brasil.










