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	<title>Arauto da Consciência &#187; Questionando a Religião</title>
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	<description>Divulgando uma nova visão de mundo, em prol de um novo mundo</description>
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		<title>Reformulação e rebaixamento do tema &#8220;crítica à religião&#8221;</title>
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		<pubDate>Sat, 19 Jun 2010 06:17:30 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Robson Fernando</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Mais uma mudança na temática do Arauto da Consciência: a partir de hoje o tema crítica à religião será rebaixado a integrante do tema humanidades. E criticarei, em termos de religião, apenas aquelas religiões organizadas que factualmente promovam alguma forma de opressão e injustiça -- leia-se cristianismo e, em escala bem menor, islamismo, judaísmo e [...]


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<p style="text-align: justify;">Mais uma mudança na temática do<strong> Arauto da Consciência</strong>: a partir de hoje o tema <em>crítica à religião</em> será rebaixado a integrante do tema <em>humanidades</em>. E criticarei, em termos de religião, apenas aquelas religiões organizadas que factualmente promovam alguma forma de opressão e injustiça -- leia-se cristianismo e, em escala bem menor, islamismo, judaísmo e outras religiões de abordagem moral duvidosa.</p>
<p style="text-align: justify;">Percebi que criticar e desmitificar qualquer religião, mesmo sendo religiões não tão perniciosas socialmente, estava mais para um polemismo neoateísta infrutífero do que necessariamente uma conscientização a visar a reforma do <em>zeitgeist</em> ético-moral. Além do mais eu ainda não tenho fluência literária e intelectual em humanismo secular, para poder divulgá-lo (ou seria <em>pregá-lo</em>?) como uma forma de pensamento mais sóbria e não-alienada do que a crença religiosa.</p>
<p style="text-align: justify;">Este post também é um reconhecimento de que diversas religiões e espiritualidades, desafiando os dogmas e valores morais mais perniciosos das grandes religiões monoteístas, trazem uma filosofia de vida mais apegada à natureza, ao não-antropocentrismo, à defesa dos animais não-humanos, à não-violência, ao veg(etari)anismo, à tolerância religiosa e sexual, ao feminismo, entre outras virtudes, até ao ato de pensar ou crer sem o apego abraâmico* ao sistema eclesiástico-dogmático condutor de "rebanhos". Incluo nessas religiões-filosofias a espiritualidade Nova Era, o espiritismo, o budismo, o jainismo, o neopaganismo e outras religiões não-abraâmicas. Essas religiões pretendo não mais criticar por aqui -- se bem que a única que critiquer aqui foi o espiritismo.</p>
<p style="text-align: justify;">Também pesa o fato de que já existem diversos sites e blogs especializados em criticar a religião genericamente falando e desmascarar mitos, dogmas e pulhas religiosas. E esses sites e blogs fazem isso muito melhor do que o <strong>Arauto</strong> fazia até hoje.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas aviso que não farei propaganda religiosa aqui. No máximo poderei falar de como uma ou mais religiões/espiritualidades não-abraâmicas estão de acordo com diversos pontos do <em>zeitgeist</em> ético que aqui divulgo -- o que pode significar que tais opções de crença serão razoáveis para quem foge da opressão islamo-judaico-cristã.</p>
<p style="text-align: justify;">Aviso também que, se alguma religião não-abraâmica pregar algo que ofenda a nova ética, como dizer que animais não-humanos pertencem a um plano de existência inferior ao plano humano e fazer pregações inconvenientes, será criticada por aqui.</p>
<p style="text-align: justify;">Quanto às religiões abraâmicas, farei assim: o cristianismo será criticado, desde os fundamentos bíblicos, sempre que incitar uma conduta reprovável -- mas apenas nesse caso --; o islamismo e o judaísmo também serão criticados caso façam o mesmo, mas de forma superficial, já que não tenho conhecimento sobre as escrituras sagradas dessas duas religiões (Corão, Suna, Torá, Talmud etc.). Isso significa o fim da sequência <em>ACORDA!</em>, já que não vou mais lançar mão do ceticismo derrubador de religiões<em>.</em></p>
<p style="text-align: justify;">As mudanças que descrevi acima significam uma coisa: que <em>crítica à religião</em> não será mais um tema majoritário no <strong>Arauto da Consciência</strong>, mas um tema secundário contido na categoria de Humanidades -- mas que pode entrar em contato interdisciplinar com os temas de direitos animais, meio ambiente e veg(etari)anismo.</p>
<p style="text-align: justify;">Quanto aos posts existentes que critiquem a religião sem motivos éticos específicos, penso em apagá-los ou escondê-los em breve.</p>
<p style="text-align: justify;">
<p style="text-align: justify;">*Abraâmico: referente às religiões monoteístas que creem no profeta Abraão/Ibrahim -- cristianismo, judaísmo e islamismo</p>
<p style="text-align: justify;">P.S.: Essa é uma ótima notícia para <small>@</small>s espíritas e outr<small>@</small>s crentes em espíritos e vida pós-morte que vinham se incomodando com os textos aqui presentes sobre sua crença-doutrina.</p>
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		<title>Resenha: Deus, um delírio</title>
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		<pubDate>Fri, 07 May 2010 07:04:14 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Robson Fernando</dc:creator>
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		<description><![CDATA[O livro Deus, um delírio, de Richard Dawkins, é um guia muito bom para aquelas pessoas que estão com suas crenças religiosas na corda-bamba, em dúvida sobre a existência de um deus pessoal. As explicações científicas expostas pelo “Rottweiler de Darwin”, também chamado pelas más línguas de “aiatolá dos ateus”, são a iluminação, no sentido [...]


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<p style="text-align: justify;"><a href="http://peladin.files.wordpress.com/2008/01/deus-um-delirio.jpg"><img class="aligncenter" title="Deus, um delírio" src="http://peladin.files.wordpress.com/2008/01/deus-um-delirio.jpg" alt="" width="212" height="324" /></a></p>
<p style="text-align: justify;">O livro <em>Deus, um delírio</em>, de Richard Dawkins, é um guia muito bom para aquelas pessoas que estão com suas crenças religiosas na corda-bamba, em dúvida sobre a existência de um deus pessoal. As explicações científicas expostas pelo “Rottweiler de Darwin”, também chamado pelas más línguas de “aiatolá dos ateus”, são a iluminação, no sentido mais iluminista possível, que lhes faltava para que chegassem logo à conclusão de que não faz sentido acreditar em Deus, seja lá por qual nome ele seja chamado.</p>
<p style="text-align: justify;">Também é um compêndio de motivos que levam os chamados “neoateus” a afirmar que o mundo seria melhor sem religiões – pelo menos sem a tríade abraâmica, composta por cristianismo, islamismo e judaísmo. Muitas das explicações conscientizantes do livro, no entanto, devem ser lidas e analisadas com ponderação, uma vez que nelas podem estar sendo utilizados critérios cientificamente questionáveis para explicar alguns fenômenos relacionados a criações socioculturais, como a própria religião e a moral.</p>
<p style="text-align: justify;">O próprio Dawkins afirma que religiosos convictos ou fanáticos sequer refletirão sobre qualquer ideia trazida por seu livro. Assim sendo, ele deixa claro que seu público-alvo é gente que teve, ao longo de sua vida ou nos últimos tempos, sua fé enfraquecida e fragilizada por desilusões e/ou eventos incitadores da Razão. Ateus convictos que querem fortalecer seus argumentos e adquirir ainda mais certeza de sua descrença, no entanto, também são seus mais potenciais leitores.</p>
<p style="text-align: justify;">Todos estão bem servidos de informações abundantes sobre a debilidade dos argumentos de quem tenta defender filosófica e “cientificamente” a crença num deus. Diversos fatores são desmascarados, no capítulo 2, como as “provas” de Tomás de Aquino, alegações de experiências pessoais e o fato de existirem e terem existido cientistas religiosos.<span id="more-3843"></span></p>
<p style="text-align: justify;">No capítulo anterior, ele explora dois casos interessantes: o “deus” de Albert Einstein, interpretado como uma espécie de metáfora panteísta, e o caso das charges de Maomé, que efervesceu em 2005 e 2006 na Europa e nos países dominados pelo islamismo.</p>
<p style="text-align: justify;">No capítulo 3, ele exibe diversos argumentos que corroboram como a ciência, pelo menos segundo as conclusões dele, pode tornar improvável a existência de Deus tal como os monoteístas creem. O capítulo em questão é um ataque direto às alegações dos fundamentalistas cristãos que fomentam o ensino do “design inteligente”.</p>
<p style="text-align: justify;">No capítulo 4, em que sugere hipóteses para a origem da religião, Dawkins lança mão de análises naturalistas, tentando estabelecer uma origem biológica para crenças sobrenaturais, o que deve ter deixado antropólogos fulos da vida. De fato, quem leu pelo menos a introdução do livro de Émile Durkheim <em>As formas elementares da vida religiosa</em> já passa a ver a explicação de Dawkins com um pé atrás, até porque este deixa de comentar, não lhe fazendo qualquer alusão, o ensinamento do sociólogo francês de que a religião, mesmo em sua gênese, é um fenômeno que, condensando aspectos como sentimentos coletivos e valores socioculturais, deve ser explicado pelas ciências sociais, não pelas naturais.</p>
<p style="text-align: justify;">Os dois capítulos seguintes são dedicados a refutar outro pilar da argumentação dos defensores da religião como algo fundamental: a moral. Neles Dawkins escancara dois pontos maiores: como a Bíblia, em vez de ser um arauto da moralidade e uma inspiração divina ao bom comportamento, é na verdade um livro repleto de sangue e comportamentos violentos que a ética de hoje repudia completamente; e como a religião nada tem a ver com o progresso do <em>zeitgeist</em> moral ocidental, banindo dentre os valores aceitáveis a escravidão, o racismo e outras injustiças – religiões fundamentalistas, pelo contrário, mostram-se como tentativas de justamente causar retrocessos nessa evolução ética.</p>
<p style="text-align: justify;">Dentre esses dois capítulos, o 6 também utiliza uma metodologia biológica darwinista para explicar o fenômeno humano da moral. E, assim como o capítulo 4, também é de deixar antropólogos e sociólogos enfezados. Uma professora de sociologia da UFPE comentou que a posição naturalista de Dawkins para explicar fenômenos humanos é “uma ignorância filosófica/antropológica/sociológica digna de pena”. E todos aqueles entendedores de ciências sociais infelizmente tenderão a concordar com ela, com razão.</p>
<p style="text-align: justify;">No final do capítulo 7, os leitores são mergulhados num poço de tenebroso mal-estar ao entrar em contato com uma explicação sobre o suposto ateísmo de Hitler e o comportamento imoral do convictamente ateu Stalin. Esse mal-estar, deixe-se claro, deve-se ao contato com as trevas da história de homens terrivelmente cruéis e assassinos, cuja existência foi algo que a humanidade desejaria que jamais tivesse acontecido.</p>
<p style="text-align: justify;">Dawkins tenta deixar dúvidas sobre se Hitler realmente acreditava no deus cristão, ao contrário dos tantos autores seculares que afirmam com força que o nazista era cristão dos mais fervorosos dadas as tantas evidências historiográficas escritas e fotográficas da religiosidade cristã do <em>führer</em> e da forte aliança dele com o cristianismo alemão. Já Stalin é uma ilustração de como o ateísmo não leva sozinho uma pessoa a ser ética, embora também não faça o contrário.</p>
<p style="text-align: justify;">Nos capítulos 8 e 9, os abusos das religiões monoteístas são escancarados, com fortíssimo destaque ao fundamentalismo cristão estadunidense – aquela parcela de religiosos que dá mais motivos “por que ser tão hostil” com a religião. Destacam-se no 8 a questão da homofobia religiosa, a incoerência e contradição da “defesa” cristã da vida (no caso a vida humana embrionária) e a medula espinhal da antirreligiosidade “neoateísta” – como a “moderação” na fé alimenta o fanatismo religioso. Já no 9, as crianças são defendidas dos abusos físicos e psicológicos causados pelas religiões e da “deseducação” provida por certas escolas religiosas inglesas e estadunidenses.</p>
<p style="text-align: justify;">No capítulo 10, encerrando o livro, Dawkins ora mostra como Deus atua exatamente como um amiguinho imaginário infantil, ora dá uma de Carl Sagan, introduzindo o leitor a uma viagem ao inacreditavelmente fascinante mundo da ciência. Uma de suas explicações sobre a física quântica mostra como tudo o que existe em nosso corpo e ao nosso redor é composto por 99,999...% de espaço vazio – a impressão de solidez e tenacidade da matéria é causada, segundo ele mostra, por campos de força subatômicos. A ciência é revelada como o bem libertário que rasga a burca que representa a nossa limitação sensorial de enxergar o que é realmente tudo ao nosso redor e no universo.</p>
<p style="text-align: justify;">À parte o muito criticado defeito de dar um tom biológico-naturalista à gênese dos fenômenos sociais da religião e da moral, <em>Deus, um delírio</em> é um bom livro de introdução ao ateísmo, com o qual pessoas de fé menos convicta podem se libertar das correntes com que a religião prendia sua capacidade de pensar livremente.</p>
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		<pubDate>Mon, 19 Apr 2010 05:52:06 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Robson Fernando</dc:creator>
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			</a>
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<p style="text-align: center;">
<div class="wp-caption aligncenter" style="width: 530px"><a href="http://jc3.uol.com.br/blogs/blogcma/canais/agenda/2010/04/12/assembleia_realiza_audiencia_publica_sobre_desmatamento_recorde_em_suape_68064.php"><img title="Mangue de Suape" src="http://jc3.uol.com.br/blogs/repositorio/suapemangue.jpg" alt="" width="520" height="317" /></a><p class="wp-caption-text">Abaixo um texto de reflexão sobre o ecocídio de Suape, baseada no conto bíblico de Jó. Foto: Blog Ciência e Meio Ambiente do JC Online</p></div>
<p style="text-align: justify;">O desmatamento histórico que o Governo de Pernambuco quer causar nas cercanias do Porto de Suape já é conhecido por grande parte da opinião pública. Vem sendo tanto defendido por quem quer progresso incondicional para Pernambuco como repudiado por quem quer a continuidade do verde e uma economia sustentável para o estado. Um ponto, no entanto, a que poucos se atentaram é a previsão de compensação ambiental nos Artigos 2º e 3º e no Anexo II do projeto de lei 1496/2010 (o PL do desmatamento). Mas será que vale deixar a destruição rolar contando-se com a promessa de plantar uma área de extensão igual ou maior?</p>
<p style="text-align: justify;">Pensando – criticamente – no conto bíblico de Jó, no qual a atitude de Deus foi muito semelhante à atual do governo Eduardo Campos, podemos concluir que a tal compensação, mesmo com boas intenções e pretendendo replantar talvez o dobro de vegetação, não é mais preferível do que deixar os 1076 hectares de ecossistemas intactos, preservados.</p>
<p style="text-align: justify;">A tal história de Jó, contada no livro bíblico homônimo, escreve que Jó era um homem muito rico, senhor de muitos servos e rebanhos (a Bíblia não hesita em tratar animais e escravos como propriedade humana) e pai de sete filhos e três filhas, sendo “maior do que todos os do oriente”. Era também “íntegro, reto e temente a Deus e desviava-se do mal”.</p>
<p style="text-align: justify;">Então um dia Deus, na intenção de provar, perante Satanás, que a fidelidade de Jó a ele era incondicional e irredutível, permitiu que o Coisa-Ruim matasse todos os filhos e servos do inocente homem e desse um fim aos rebanhos dele através de hordas militares de outros povos e catástrofes naturais, além de lhe causar “úlceras malignas, desde a planta do pé até ao alto da cabeça”.</p>
<p style="text-align: justify;">Jó manteve a fé em Deus mesmo em situação miserável, e no final o Divino “acrescentou, em dobro, a tudo quanto Jó antes possuía (sic)” e teve mais dez filhos (três meninas e sete meninos), além de, presumivelmente, ter curado as úlceras da pele.<span id="more-3604"></span></p>
<p style="text-align: justify;">Refletindo sobre o conto de Jó para a ética de nossa época – considerando que muitos cristãos utilizam a Bíblia como referência moral atemporal –, notamos que, mesmo tendo Deus ressarcido Jó com o dobro de suas “propriedades” e mais dez crianças, essa restituição nem de longe sanou a massiva perda que foi causada. Não foi uma ressurreição em massa, apenas a substituição das vidas perdidas, como se fossem de fato coisas substituíveis.</p>
<p style="text-align: justify;">As vidas dos muitos servos, das sete mil ovelhas (única espécie que foi chacinada; os animais de outras espécies foram levados embora pelas hordas) e dos dez primeiros filhos foram ceifadas para sempre, irremediavelmente, sem volta. Todos esses seres (humanos e bichos) sofreram muito em suas mortes, pelas armas das hordas assaltantes, pelo fogo que caiu do céu e pelo vento do deserto. E isso, tantas mortes precedidas de sofrimento tormentoso, Deus não remediou no ressarcimento de Jó.</p>
<p style="text-align: justify;">Em suma, o sofrimento e a perda de tantas vidas causados por Satanás – com autorização de Deus – não foram sanados, mas sim tratados com um tapa-buraco que consistiu na restituição com novos filhos e o dobro de novos escravos humanos e não-humanos.</p>
<p style="text-align: justify;">Fechando a Bíblia e olhando para a vegetação de Suape, vemos que a proposta do governo estadual é muito semelhante à atitude do Deus bíblico: mandar seus comandados destruírem 1076 hectares de ecossistemas de mangue, restinga e mata atlântica e em seguida plantarem cerca de 3 mil hectares de mata atlântica e 61 de restinga (a área de mangue prevista na compensação consta como a ser <em>preservada</em>, não a ser reposta).</p>
<p style="text-align: justify;">Vislumbrando o cenário da destruição, pensamos: e a biodiversidade da enorme área com três ecossistemas diferentes que será derrubada? E as vidas dos milhões ou bilhões de seres vivos que habitam esses 1076 hectares? E o berçário local da vida marinha? A verdade é que, se o governo triunfar, tudo isso será ceifado, destruído. E a compensação ambiental não irá trazer de volta as incontáveis vidas e biodiversidades que serão abatidas, nem o berçário estuarino que será perdido.</p>
<p style="text-align: justify;">Da mesma forma que Satanás respaldado por Deus, o governo quer causar morte e destruição em massa. E, assim como Javé acalmou Jó, tenta ludibriar os órgãos ambientais e o povo com uma proposta de compensação ecológica que, longe de trazer de volta a vida e a biodiversidade que serão exterminadas, pretende tentar substituir a riqueza do ambiente do mangue que será suprimido por um punhado de floresta atlântica cujas fauna e flora, além de não serem as mesmas que as do manguezal, irão demorar bastante para adquirir a exuberância de uma mata primária.</p>
<p style="text-align: justify;">Para Javé e Eduardo Campos, os seres vivos abatidos com suas autorizações não têm um fim em si mesmos, nem um valor intrínseco, nem o direito à vida.* Não lhes são uma parcela da biosfera que deve ser respeitada e preservada, mas apenas coisas substituíveis, que podem ser repostas por outras novas – mesmo não sendo das mesmas espécies e não tendo as mesmas personalidades.</p>
<p style="text-align: justify;">Devemos encarar o ecocídio de Suape com a mesma cara feia – leia-se reprovação ético-moral – com que podemos encarar a história do livro de Jó. Nem o Deus bíblico nem seu “É” Motosserra podem trazer de volta as vidas perdidas e a biodiversidade ceifada por suas atitudes. E, ao contrário das pessoas e animais do mito de Jó, a fauna e flora do mangue, mata atlântica e restinga do entorno do Porto de Suape nós ainda podemos – e, sob um olhar ético, devemos – defender e salvar.</p>
<p style="text-align: justify;">
<p style="text-align: justify;">*Reitero que os motivos pelos quais defendo a preservação da vegetação de Suape, tais como subentendidos neste texto, são os motivos próprios da natureza. Defendo-a pela ética, pelo respeito à biosfera, ao meio ambiente como fim em si mesmo, não apenas porque os seres humanos, incluindo pescadores, irão sofrer com as consequências da possível destruição daquele grande conjunto local de seres vivos.</p>
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		<title>Quando a religião prega a crueldade contra animais</title>
		<link>http://consciencia.blog.br/2010/03/quando-a-religiao-prega-a-crueldade-contra-animais.html</link>
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		<pubDate>Fri, 19 Mar 2010 21:54:24 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Robson Fernando</dc:creator>
				<category><![CDATA[Assassinato e Matança de Animais]]></category>
		<category><![CDATA[Barbárie]]></category>
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		<description><![CDATA[(Continuação da sequência Quando a religião cria um deus inimigo dos animais) Nenhum suspeito foi preso durante os três últimos casos de farra do boi em SC A Polícia Militar registrou, na última semana, três casos de farra do boi no litoral norte de Santa Catarina. Os farristas agiram nas cidades de Balneário Camboriú, Bombinhas [...]


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<p style="text-align: justify;">(Continuação da sequência <a href="http://consciencia.blog.br/2009/11/quando-a-religiao-cria-um-deus-inimigo-dos-animais-parte-6.html" target="_blank">Quando a religião cria um deus inimigo dos animais</a>)</p>
<blockquote style="text-align: justify;">
<p style="text-align: justify;"><em><strong><a href="http://www.anda.jor.br/?p=53013" target="_blank">Nenhum suspeito foi preso durante os três últimos casos de farra do boi em SC</a><br />
</strong><br />
A Polícia Militar registrou, na última semana, três casos de farra do boi no litoral norte de Santa Catarina. Os farristas agiram nas cidades de Balneário Camboriú, Bombinhas e também em Navegantes. <span style="color: #8b0000;">Os animais encontrados foram sacrificados após constatação de que estes não sobreviveriam após os maus-tratos.</span></em></p>
<p><em>O problema da farra do boi existe há 200 anos. Trata-se de uma tradição cruel açoriana que acontece durante o período da quaresma. A prática é condenada pelos defensores de animais. O Superior Tribunal Federal proibiu a prática da farra do boi em 1997, alegando crime qualquer tipo de maus-tratos aos animais. Os farristas, no entanto, desrespeitam a proibição e continuam mantendo a mórbida tradição. <strong>Alguns dizem que é um ritual simbólico, uma encenação da Paixão de Cristo, onde o boi representaria a figura de Judas. Outros acreditam que o animal representa Satanás e, torturando o Diabo, as pessoas estariam se livrando dos pecados. </strong>As colônias de pescadores são as que mais praticam a farra. Enfim: acaba valendo todo gênero de pretextos para praticar a violência.</em></p>
<p><em>No último sábado (13), um boi foi encontrado nas imediações do bairro da Barra, em Balneário Camboriú. O animal estava com diversos ferimentos causados pelos farristas. <span style="color: #8b0000;">A polícia não prendeu nenhum suspeito</span>, já que estes fugiram ao perceber a aproximação da viatura.<span id="more-3322"></span></em></p>
<p><em>Na mesma madrugada, a Polícia Militar de Navegantes recebeu um telefone denunciando a ação de farristas na região próxima ao molhe. Os policiais chegaram ao local e foram recebidos com pedaços de pau e pedradas. Os suspeitos fugiram e também não foram detidos. A polícia iniciou uma ronda para procurar o animal, que foi encontrado durante a madrugada, em uma casa abandonada. <span style="color: #8b0000;">O boi estava muito machucado e foi sacrificado logo em seguida.</span></em></p>
<p><em>Este ano, o número de registros da farra quase ultrapassam as do ano passado. O gerente da Cidasc de Itajaí, João Carlos Batista dos Santos, revela preocupação. “Durante o ano passado atendemos, no total, quatro casos da farra. Este ano, na metade da quaresma, já registramos três”, explica.</em></p>
<p><em>Os locais que mais praticam a farra do boi são: Tijucas, Bombinhas, Porto Belo, Itapema, Balneário Camboriú, Navegantes, Penha e Piçarras. As denúncias podem ser feitas através do telefone 190. Não é necessário se identificar.</em></p></blockquote>
<p style="text-align: justify;">Essa é para quem diz que a religião é importante por moralizar as pessoas. Nesse caso, é exatamente o contrário que acontece: a religião <strong>brutaliza</strong> as pessoas ao induzi-las a crenças intolerantes -- especismo, antropocentrismo, homofobia, intolerância religiosa etc. -- e simbolizações perversas -- animais são simbolizados como "o diabo" ou qualquer personagem/ser mitológico maligno e são brutalizados com esse motivo, ou são considerados "depósitos de pecado" que precisam ser eliminados para que a pessoa se "purifique", ou são assassinados para serem oferecidos junto a oferendas inanimadas.</p>
<p style="text-align: justify;">E ainda vem gente ao <strong>Arauto da Consciência</strong> me condenar porque estou criticando as religiões, ou então dizer que vai me dar unfollow no Twitter porque eu estou "atacando" sua religião -- quando nada mais estou do que fazendo afirmações céticas.</p>
<p style="text-align: justify;">Religiões são os melhores aparatos de controle social artificial existentes na história, mas também podem ser utilizados para fins exatamente contrários ao de ordenar e trazer retidão moral: são meios de legitimação de comportamentos violentos, bestiais e bárbaros.</p>
<p style="text-align: justify;">
<p style="text-align: justify;"><em>“Religião (…) é um insulto à dignidade humana. Com ou sem ela(s) teríamos  pessoas boas fazendo o bem e pessoas más fazendo o mal. Mas para pessoas  boas fazerem coisas más é necessária a religião.” Steven Weinberg</em></p>
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		<title>Ética e ateísmo, por Bruno Müller</title>
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		<pubDate>Wed, 24 Feb 2010 21:00:34 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Robson Fernando</dc:creator>
				<category><![CDATA[Ateísmo]]></category>
		<category><![CDATA[Contradições Humanas]]></category>
		<category><![CDATA[Filosofia]]></category>
		<category><![CDATA[História]]></category>
		<category><![CDATA[Posts e Atos de Conscientização]]></category>
		<category><![CDATA[Questionando a Religião]]></category>
		<category><![CDATA[Razão e Ceticismo]]></category>
		<category><![CDATA[Religião]]></category>
		<category><![CDATA[Texto de Outros/as Autores/as]]></category>
		<category><![CDATA[Ética e Moral]]></category>

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		<description><![CDATA[Sou fã dos artigos de Bruno Müller, dono do hoje abandonado blog Seres Livres e colunista da ANDA. Como já falei um tempo atrás, ele foi uma das pessoas que me inspiraram a escrever artigos e a criar o Consciência Efervescente. Concordo em muita coisa com ele, a não ser sobre anarquismo, sobre o qual [...]


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			</a>
		</div>
<p>Sou fã dos artigos de Bruno Müller, dono do hoje  abandonado <a href="http://sereslivres.blogspot.com/">blog Seres Livres</a> e <a href="http://www.anda.jor.br/?cat=46">colunista da ANDA</a>. Como já  falei um tempo atrás, ele foi uma das pessoas que me inspiraram a  escrever artigos e a criar o Consciência Efervescente.</p>
<p>Concordo em muita coisa com ele, a não ser sobre anarquismo, sobre o  qual ainda não sei muito e nada li.</p>
<p>Com vocês, um ótimo artigo sobre ateísmo, religiões e ética.</p>
<p style="text-align: justify;"><big><a href="http://www.anda.jor.br/?p=33042"><strong>Ética e ateísmo</strong></a></big><br />
<em>por  Bruno Müller</em></p>
<p style="text-align: justify;">Certa vez conheci uma pessoa que me disse que, ao saber que eu era  ateu, sentiu-se receosa, mas que, com o tempo, percebeu que apesar disso  eu era uma boa pessoa – como se o ateísmo fosse um entrave para o  desenvolvimento ético de um ser humano. No entanto, essa mesma pessoa  era perversa, manipuladora, mentirosa, arrogante – para resumir, uma  hipócrita.</p>
<p style="text-align: justify;">Com o tempo, entendi que não havia uma contradição em sua  personalidade. Não que pessoas religiosas sejam necessariamente  hipócritas, mas aquelas mais fanáticas e que se consideram ungidas de  uma missão divina, como era o caso dela, frequentemente o são, mesmo sem  se dar conta. Isso porque é necessária uma boa dose de arrogância para  acreditar conhecer os segredos do universo, ter “linha direta” com um  deus e sentir-se apto a revelar – ou impor – esses segredos aos demais.</p>
<p style="text-align: justify;">Ainda jovem, quando a curiosidade me levou a frequentar alguns  cultos, entendi que o pecado que mais se observa nas igrejas e templos é  o do orgulho, da vaidade. O que há na fé que faz as pessoas se sentirem  melhores que as outras que não têm fé ou não têm a supracitada “linha  direta”? Não tenho resposta pronta para essa pergunta, mas esta leva a  uma outra questão, mais fácil de abordar: o sentimento de superioridade  lhes leva a supor que não há bondade fora da religião, que quem não tem  religião não possui estatura moral ou capacidade de praticar o bem e o  respeito ao próximo.<span id="more-2924"></span></p>
<p style="text-align: justify;">Diversas vezes ouvi, de forma direta ou velada, a opinião de que um  ateu não pode ser uma boa pessoa. Em 2007, uma pesquisa feita no Brasil  mostrou que os ateus são o grupo que seria mais amplamente rejeitado  pelos eleitores numa eleição presidencial: 84%  admitiriam votar num  negro, 57% numa mulher, 32% em um homossexual, e 13% num ateu; 57%  disseram que não votariam em um ateu em hipótese nenhuma [1]. Pesquisas  nos Estados Unidos têm resultados muito semelhantes.</p>
<p style="text-align: justify;">Frequentemente, quando se debate a diversidade e a tolerância  religiosa, é comum se ouvir a seguinte frase: “o que importa é que cada  um, a seu modo, está em busca de deus”. Se você não busca, então você  não conta, está aquém do resto da humanidade. Há também os que dizem que  o ateísmo é rebeldia adolescente e que, cedo ou tarde, o ser humano  aceita a ideia de um deus.</p>
<p style="text-align: justify;">Existe também batida máxima de que os ateus são pessoas amargas e  infelizes que adorariam acreditar em um deus ou apenas ainda não foram  “despertas”. O cronista Reinaldo Azevedo certa vez escreveu: “Tendo a  achar que, se dependesse da vontade, todo mundo acreditaria em Deus. Mas  há quem não consiga, ainda que queira.” [2]</p>
<p style="text-align: justify;">Deixei de acreditar em um deus aos 16 anos. Hoje, com 30, tenho cada  vez mais convicção da inexistência de um deus e cada vez mais antipatia  pelas religiões instituídas. Sou hoje, sendo adulto, mais ateu que há 14  anos. E sei que crer em um deus não me faria mais feliz nem mais  completo. Não é uma vontade mal-suprida, algo que “não consigo, ainda  que queira”.</p>
<p style="text-align: justify;">Pelo contrário: a ideia de um deus me gera angústia e tristeza, pois  simboliza hierarquia, superioridade, poder, enquanto eu acredito na  radicalidade da liberdade e da igualdade, e que somente pela consciência  damos valor aos nossos atos. Fazer o bem obrigado por deus é como fazer  o bem obrigado pelos pais ou pela lei: é uma ação moralmente neutra.</p>
<p style="text-align: justify;">Não tem valor intrínseco, pois não partiu da consciência, e sim de  uma coação externa. Podemos nos conformar à lei por conveniência ou  medo, mas apenas quando fazemos o que é certo por livre escolha somos  pessoas verdadeiramente conscientes – mesmo que isso vá contra a  conveniência, o benefício pessoal e a própria lei (pois, como sabemos, o  direito e a ética frequentemente não coincidem).</p>
<p style="text-align: justify;">Daí, na minha opinião, o elevado valor de optar por um estilo de vida  vegano. Não quer dizer que os veganos sejam automaticamente pessoas  boas, melhores ou superiores. A ética humana não é linear: pode-se ter  uma grande consciência ética num campo e uma grave falha de caráter  noutro.</p>
<p style="text-align: justify;">Eu bem sei que conheço alguns veganos completamente desprovidos de  caráter, da mesma forma que há onívoros com elevada consciência ética em  relação aos humanos, embora sejam todos deficientes éticos perante os  animais. Como disse Milan Kundera numa passagem que já citei, o  verdadeiro teste da bondade humana está perante aqueles que não podem  nos fazer nenhum mal, nem reagir ao mal que lhes infligimos, e contra  quem as injustiças praticadas não levam a algum tipo de punição. Estes  são os animais. E neste teste fundamental da bondade, a maioria dos  seres humanos falha miseravelmente.</p>
<p style="text-align: justify;">Outro caso: certa vez ouvi de uma católica fervorosa que não se  poderia afirmar com certeza que Gandhi teria sido aceito no paraíso.  Afinal, ele não professava a religião “correta”.</p>
<p style="text-align: justify;">Vindo daqueles que professam os pretensos altos valores morais de sua  fé, isso revela, ao contrário, o completo desprezo por eles: não  importa seu caráter ou a contribuição dada em vida para a paz, a  justiça, a liberdade. Importa apenas se você se curva diante do  “verdadeiro” deus. Não é apenas uma ideia como essa que é detestável.  Todo o sistema de crenças que lhe dá origem não pode ser senão um  completo equívoco.</p>
<p style="text-align: justify;">Alguns dos maiores crimes cometidos pela humanidade tiveram na  religião sua justificativa, senão seu motor principal. Dentre elas, as  religiões monoteístas abraâmicas – judaísmo, cristianismo e islamismo –  se mostraram particularmente sanguinolentas [3].</p>
<p style="text-align: justify;">O maior genocídio perpetrado em toda a história – o extermínio dos  povos nativos da América pelos conquistadores europeus – foi justificado  em nome do cristianismo, tanto católico quanto protestante. Cerca de  90% dos habitantes da América em 1492 foram exterminados num espaço de  poucas décadas [4].</p>
<p style="text-align: justify;">Também a maior migração forçada da história – de africanos para a  América – e o maior, mais recente e mais complexo sistema escravista que  a motivou vicejou e prosperou, em vez de minguar, sob os olhos  complacentes do cristianismo – de novo, tanto protestante quanto  católico.</p>
<p style="text-align: justify;">Cultuando a obediência e a hierarquia, defendendo o dever da expansão  da “verdadeira” palavra divina e inteligentemente utilizado pelos  conquistadores europeus, o cristianismo se revelou a ideologia perfeita  para o colonialismo. Você poderia matar, torturar, escravizar, explorar,  oprimir, e ainda alegar que estava promovendo e difundindo o bem.</p>
<p style="text-align: justify;">É absolutamente ocioso discutir se isso foi só uma  “instrumentalização” ou “distorção” da fé religiosa, por dois motivos:  primeiro, os colonizadores, em sua maioria, ainda que em grau maior ou  menor de fervor, eram sinceramente crédulos nas palavras da Bíblia;  segundo, as autoridades eclesiásticas, responsáveis pela salvaguarda da  doutrina, eram elas próprias coniventes com tais atrocidades e  corrompidas pela sede de poder e riqueza.</p>
<p style="text-align: justify;">Algumas das guerras mais sangrentas da história foram guerras  religiosas. Muito antes das Revoluções Francesa e Russa, antes do  nazismo e de sequer se imaginar a possibilidade de guerras mundiais ou  hecatombes nucleares, os indivíduos se matavam em nome de deus. O mais  prolongado conflito anterior ao século XX, a Guerra dos 30 Anos  (1618-1648), foi uma guerra religiosa.</p>
<p style="text-align: justify;">Em apenas um episódio, a Noite de São Bartolomeu, em 1572, milhares  de protestantes franceses foram massacrados pelos católicos. Proferir a  religião errada na Europa das Idades Medieval e Moderna era, se não um  terrível risco, como no caso da Inquisição, pelo menos um grande  inconveniente – que o digam os judeus, vítimas de leis discriminatórias e  violências sazonais (os chamados pogroms).</p>
<p style="text-align: justify;">Havia que se professar sua fé em silêncio e às escondidas para não  ser alvo de perseguição e violência. Quantos massacres não caíram no  esquecimento para que hoje a Igreja Católica possa projetar uma  autoridade moral da qual carece num mundo tão moralmente corrompido como  é o nosso?</p>
<p style="text-align: justify;">Isso para não mencionar os conflitos religiosos contemporâneos.  Fala-se muito de fundamentalismo islâmico hoje em dia, mas se esquece  que existe também um fundamentalismo cristão, sediado nos Estados Unidos  e que encontrou seu ápice no governo de George W. Bush, marcado por um  profundo desprezo pelo que não é judaico-cristão, um senso missionário  de exportação dos valores “americanos”, uma desconfiança e até  hostilidade à ciência e um forte conservadorismo de costumes.</p>
<p style="text-align: justify;">A repulsa pelo pensamento dissonante é tão profundo no cristianismo  que o maior pecado que pode cometer um cristão não é o assassinato, nem  mesmo o suicídio, mas o pecado da “heresia”. Séculos de discurso  religioso vendem ao termo “heresia” um sentido terrível. Na verdade,  porém, “heresia” é tão somente uma “distorção da fé”, isto é, uma  discordância e interpretação distinta da doutrina e do dogma religioso. É  precisamente isso que era o heliocentrismo: um pecado mortal contra a  doutrina religiosa, por afirmar que a Terra não era o centro do  universo.</p>
<p style="text-align: justify;">Por isso Galileu teve de se haver com a Inquisição. Se a verdade está  contra deus – pior para a verdade. Aliás, um axioma típico do  pensamento religioso. No filme Crimes e Pecados, de Woody Allen, um  personagem diz, a certa altura: “Se for necessário, eu sempre vou  escolher deus à verdade”.</p>
<p style="text-align: justify;">Não deveríamos temer a verdade. Mesmo a mais dolorosa verdade pode  nos libertar: conhecer a realidade é ter o poder de transformá-la. Em  outra passagem do filme, outro personagem diz: “o universo é um lugar  muito frio; somos nós que o investimos com nossos sentimentos”. Tal  passagem, aparentemente desoladora, de fato nos concede a autonomia  moral de optar o que vamos fazer de nossas vidas.</p>
<p style="text-align: justify;">Cabe somente a nós tomar as decisões corretas, optar se vamos  contribuir para o bem ou o sofrimento alheios. “Somos nós, em nossa  capacidade de amar, que atribuímos sentido ao universo indiferente”, por  fim, diz o mesmo personagem numa das últimas frases do filme.</p>
<p style="text-align: justify;">As chamadas religiões da “nova era” gostam de afirmar que deus está  em todas as coisas – o que nada mais é que uma versão pós-moderna do  deus onipotente, onipresente e onisciente. Porém, para acreditarmos que  existe uma conexão entre as consciências ou na energia que o corpo  humano emite, não precisamos chamar isso de deus nem muito menos crer em  deus.</p>
<p style="text-align: justify;">A energia é um fato físico cientificamente comprovado. Se não podemos  testar, reproduzir ou comprovar a existência de algum tipo de conexão  mental promovida pelo vínculo afetivo ou afinidade de ideias, isso não  significa que esse fato seja sobrenatural e não possa ser explicado um  dia – nem tampouco que existe uma inteligência superior que a tudo dá  sentido.</p>
<p style="text-align: justify;">Nossos pensamentos são ondas cerebrais. Como as ondas do rádio, é  possível que possamos “sintonizá-las” com outras mentes que operam na  mesma frequência. Se quisermos chamar essa sintonia de “deus”, isso se  deve tão somente à incapacidade de escapar da tradição judaico-cristã, e  não porque ela realmente manifeste a existência de um ser criador do  universo.</p>
<p style="text-align: justify;">De fato, creio que nem mesmo a possibilidade de vida após a morte  depende de um deus para ser válida. Por sinal, o budismo, que muitos  veem mais como uma filosofia que uma religião, aponta nesse sentido: um  universo que prescinde de deus, cujo objetivo é a evolução interior.  Afinal, se o universo depende de um criador, caímos num paradoxo: se há  um criador do universo, qual a origem do criador? Mistério insolúvel.</p>
<p style="text-align: justify;">Alegar que nossa limitação terrena impede a resposta, como afirmam os  religiosos, não soluciona o problema: se não podemos encontrar a  resposta para este dilema, então a hipótese de que não há criador em  absoluto é tão válida quanto a hipótese de que há – e esta os religiosos  não admitem.</p>
<p style="text-align: justify;">Por fim, quando me perguntam, então, por que não me mantenho aberto à  ideia da existência de um deus, me vejo forçado a afirmar: porque devo  estar disposto a aceitar o dogma judaico-cristão, e não o dogma hindu ou  das muitas outras religiões existentes no mundo?</p>
<p style="text-align: justify;">O agnosticismo assume uma postura subalterna diante do monoteísmo  abraâmico. Ou você já conheceu algum agnóstico que está aberto à ideia  da existência de Brahma, Vishnu e Shiva? Se estamos dispostos a admitir a  existência do deus abraâmico, por coerência, devemos admitir a  possibilidade de existência de outros deuses, pois não há nenhum fato  que demonstre que as religiões abraâmicas são as únicas que podem ser  “verdadeiras”.</p>
<p style="text-align: justify;">Adotar essa postura é por si só curvar-se ao monoteísmo abraâmico e  adotar uma postura etnocêntrica, ocidentalista e arrogante. Diversas  religiões já foram abandonadas e perdidas, seja voluntariamente ou por  imposição externa. Como não supor que issso também não possa ocorrer com  as religiões contemporâneas, inclusive as abraâmicas?</p>
<p style="text-align: justify;">Vejamos o caso do suicídio, que aludimos mais acima. Por que o  suicídio é particularmente condenado por todas as religiões? Os sinos da  Igreja não tocam por um suicida. Se ele for judeu, não pode ser  enterrado no cemitério judaico. Não há perdão ou compaixão para o  suicida – que deve ser justamente o ser humano mais necessitado de  ambos, devido ao estado de sofrimento que lhe faz abrir mão da própria  vida.</p>
<p style="text-align: justify;">Ora, os religiosos veem o suicídio (com razão, do seu ponto de vista)  como uma afronta a deus. Toda religião é baseada no medo da morte e na  necessidade de acreditar numa vida após a morte. Se o ser humano não  temer mais a morte, significa que não teme mais a deus. Por isso os  suicidas são os maiores inimigos das religiões: um exército de  “desgarrados” para quem deus não oferece mais nenhuma resposta.</p>
<p style="text-align: justify;">O que nos leva à própria relação inseparável entre religião e poder. O  antropólogo Pierre Clastres, em seu clássico A Sociedade contra o  Estado, levanta uma interessante hipótese: a de que o Estado surge não  pela propriedade, como afirmavam Rousseau e os marxistas, mas pela  autoridade religiosa.</p>
<p style="text-align: justify;">Nas sociedades tribais, bem como nas sociedades mais antigas de modo  geral, em que o conhecimento objetivo do universo não estava disponível  pelas limitações técnicas e científicas de suas épocas, e a  vulnerabilidade diante das intempéries da natureza era enorme, aqueles  indivíduos capazes de “interpretar” os sinais da natureza e  “intermediar” a relação do ser humano com o sobrenatural (o “divino”)  eram investidos de grande poder.</p>
<p style="text-align: justify;">Por isso, em todas as sociedades pré-modernas – incluída a Europa até  fins do século XVIII – as autoridades religiosas eram, senão as mais  poderosas, extremamente poderosas. Os soberanos políticos, não raro,  eram tidos como ungidos pela autoridade divina – como os reis da Europa –  ou divindades eles mesmos – como os faraós e o imperador azteca.</p>
<p style="text-align: justify;">E por que afinal os crentes supõem que um ateu não pode ser uma  pessoa boa? O que significa essa suposição? Significa dizer que o ser  humano é essencialmente mau e precisa de uma força externa para  comandá-lo a praticar o bem. Nesse caso, o bem não é praticado por  consciência, mas pelo medo da punição – o inferno, o karma ou coisa  parecida – ou, na melhor das hipóteses como “moeda” em troca de alguma  recompensa, uma “graça divina”. Existiria de fato alguma ética e bondade  no ser que age apenas movido pelo medo ou o interesse pessoal?</p>
<p style="text-align: justify;">Pelo contrário, a religião não nos ensina de fato sobre o bem e a  moral. A maioria dos seres humanos pode conjugar os dois fatores, mas na  verdade a ética é completamente autônoma da religião. Como afirmei no  último texto, o ser humano tem uma capacidade inata de distinguir entre o  certo e o errado.</p>
<p style="text-align: justify;">Essa capacidade pode ser estimulada e desenvolvida pela educação e a  vida social ou, ao contrário, distorcida e silenciada pela mesma, mas  está latente no ser humano por meio não só da razão vulgar, como dizia  Kant, mas também do sentimento de compaixão, como destacou Rousseau.</p>
<p style="text-align: justify;">Algumas questões complexas podem requerer o debate e a ajuda de um  especialista (diga-se, um estudioso da ética, e não uma autoridade  religiosa como costuma ser o caso), mas essas são as questões auxiliares  ou marginais, não as básicas. Todo ser humano SABE que é errado matar,  mentir, praticar agressão física, verbal ou moral, e assim por diante.</p>
<p style="text-align: justify;">Por tudo isso, tendo a concordar com Marx quando este disse, em A  Questão Judaica, que a verdadeira liberdade religiosa consiste em  libertar-se da religião. A religião não nos ensina sobre o bem não  apenas por conta da autonomia da ética, mas também porque frequentemente  males são praticados e justificados em nome da religião, como nos  inúmeros exemplos que dei ao longo do texto.</p>
<p style="text-align: justify;">Entretanto, não defendo, por isso, o ateísmo oficial ou a perseguição  religiosa como se viu nos regimes socialistas, dos quais sou  extremamente crítico, como sabe quem lê os meus textos. A busca da  espiritualidade responde a uma inclinação legítima do ser humano em  questionar-se sobre o sentido da vida e sua continuidade.</p>
<p style="text-align: justify;">Essa busca interior deve ser respeitada como parte da liberdade  individual de crença e de pensamento. Porém, embora muito frequentemente  os crentes acusem os ateus de querer impor a não-fé, são as religiões  institucionalizadas as que promovem perseguições e cruzadas religiosas,  recorrem à violência, à exclusão e ao autoritarismo para preservar seu  poder. Pois o controle que detêm da linguagem simbólica ainda hoje é  fonte de grande poder, justamente por esta inclinação natural do ser  humano à busca do sentido da sua existência.</p>
<p style="text-align: justify;">É por esta razão que sou, antes de tudo, opositor das religiões  institucionalizadas, que são forças opressoras e disciplinadoras do ser  humano. O pensamento religioso é deficiente para responder à questão dos  direitos fundamentais do ser humano, pois é todo fundado em dogmas. Ou  os aceitamos, ou somos excluídos. Nós, como indivíduos, é que não  deveríamos dar importância às opiniões das igrejas. Espero que um dia a  humanidade possa libertar-se dessas amarras.</p>
<p style="text-align: justify;">De qualquer modo, não vejo sentido, por exemplo, nesses movimentos  para que a Igreja Católica mude suas posições sobre celibato,  homossexuais, camisinha, aborto… Ainda que seja questionável o direito  da Igreja Católica de condenar o divórcio, o sexo com camisinha ou a  homossexualidade, pelo que essas opiniões absurdas podem acarretar em  termos de preconceito e violação de direitos, as igrejas, como qualquer  organização da sociedade civil, têm o direito de escolher seus membros e  opinar sobre as questões da sociedade.</p>
<p style="text-align: justify;">Diante da epidemia de AIDS, por exemplo, a condenação da camisinha  não é apenas um equívoco, é moralmente duvidoso. Quanto à questão do  aborto, deveria ser debatida sobre bases éticas, racionais e  científicas, jamais religiosas [5]. Ainda assim, se você não concorda,  tanto melhor sair da Igreja, ora! Para que frequentar um espaço que não  aceita sua personalidade ou suas opiniões? Em vez disso, escolha-se a  liberdade! Parafraseando Groucho Marx: eu não gostaria de entrar (ou  permanecer) num clube que não me aceitasse como sócio [6].</p>
<p style="text-align: justify;">Sempre que escrevo sobre religião sou criticado por intolerância e  perseguição. Os mais benevolentes sugerem que aceite deus em meu  coração. Pois bem… como disse acima, não tenho nada contra pessoas  religiosas. Tenho amigos religiosos e respeito suas opiniões.</p>
<p style="text-align: justify;">Ao escrever sobre ateísmo exerço tão somente minhas liberdades:  liberdade de pensamento, liberdade de expressão e… liberdade religiosa!  Pois tanto quanto um religioso tem o direito de ser respeitado pela sua  fé, praticá-la e expor suas opiniões, nós, ateus, temos o direito de  sermos respeitados pela nossa ausência de fé na religião e em um deus, e  também de expressarmos nossas opiniões.</p>
<p style="text-align: justify;">O ateísmo não representa, como muitos desejam, a ausência de  moralidade. Um ateu pode ser imoral, antiético e sem caráter como  qualquer outro indivíduo, mas isso nada tem a ver com o ateísmo em si. A  maioria da humanidade é religiosa, de modo que, se ética e religião  fossem realmente irmãs siamesas, já viveríamos no “paraíso”. Por outro  lado, não existe ética mais elevada do que aquela originada tão somente  da consciência individual, motivada pelo senso desinteressado do dever e  do respeito, e não pelo medo da punição ou desejo de recompensa.</p>
<p style="text-align: justify;">Por isso, a verdadeira ética não existe em ninguém apesar do ateísmo.  Pelo contrário, a ética pura, embora possa conviver e coabitar com a fé  religiosa, prescinde em si mesma, e por completo, de qualquer deus ou  religião, e só pode estar baseada na autonomia e consciência morais do  indivíduo.</p>
<p style="text-align: justify;">
<p style="text-align: justify;">[1] Fonte: Revista Veja. “Como a Fé Resiste à Descrença”. 26 de  dezembro de 2006, edição 2040, pp. 70-7. Os dados da pesquisa estão na  página 72.</p>
<p style="text-align: justify;">[2] Fonte:  http://veja.abril.com.br/blog/reinaldo/geral/veja-5-so-13-dos-brasileiros-votariam-num-ateu-para-presidente/</p>
<p style="text-align: justify;">[3] Adota-se essa terminologia porque as três grandes religiões  monoteístas têm a origem comum no patriarca Abraão.</p>
<p style="text-align: justify;">[4] Cf. TODOROV, Tzvetan. A Conquista da América. A Questão do Outro.  São Paulo: Martins Fontes, 1996, especialmente p. 123 e ss. Os dados  sobre o genocídio dos nativos americanos encontram-se na página 129.</p>
<p style="text-align: justify;">[5] Pessoalmente tenho objeções éticas ao aborto na maioria dos  casos, pelo direito à vida que o feto tem a partir do momento em que é  senciente.</p>
<p style="text-align: justify;">[6] A frase original do comediante, para quem não sabe, é: “eu não  entraria num clube que me aceitasse como sócio”.</p>
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		<title>Essas pessoas são néscias, insensatas ou tolas e só fazem o abominável, segundo a Bíblia</title>
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		<pubDate>Mon, 22 Feb 2010 12:59:47 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Robson Fernando</dc:creator>
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<p style="text-align: justify;">Diz Salmos 14:1 (13:1 na bíblia católica):<br />
"Disse o néscio no seu coração: Não há Deus. Têm-se corrompido, fazem-se abomináveis em suas obras, não há ninguém que faça o bem." Bìblia Online (protestante)<br />
"Diz o insensato em seu coração: Não há Deus. Corromperam-se os homens (sic), sua conduta é abominável, não há um só que faça o bem." Bíblia Ave Maria (católica)</p>
<p style="text-align: justify;">Será mesmo que não prestamos e não somos capazes de fazer o bem? Veja o vídeo.</p>
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		<title>Em defesa de Yu-Gi-Oh!: por que os ataques cristãos ao desenho e ao jogo são absurdos</title>
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		<pubDate>Tue, 09 Feb 2010 00:57:16 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Robson Fernando</dc:creator>
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		<category><![CDATA[Ética e Moral]]></category>

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		<description><![CDATA[Artigo escrito em setembro de 2008. Hoje a época é de Yu-Gi-Oh GX e 5D's, mas o texto não perde a atualidade pelo fato de ainda existirem ataques a jogos e animes de temáticas que afrontam o etnocentrismo cristão. Em 2008, numa nostalgia de lembrar a adolescência, resolvi rever episódios do anime Yu-Gi-Oh!, que tem [...]


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<p style="text-align: justify;"><em>Artigo escrito em setembro de 2008. Hoje a época é de Yu-Gi-Oh GX e 5D's, mas o texto não perde a atualidade pelo fato de ainda existirem ataques a jogos e animes de temáticas que afrontam o etnocentrismo cristão.</em></p>
<p style="text-align: justify;">Em 2008, numa nostalgia de lembrar a adolescência, resolvi rever episódios do anime Yu-Gi-Oh!, que tem o menino Yugi Moto (escrito ao redor do mundo como Yugi Muto ou Mutou) e o espírito do Faraó Yami/Atem que incorpora o primeiro como protagonistas. Como era de se esperar, me lembrei das inúmeras “críticas” (eufemismo de condenações) vindas de denominações cristãs ora contra o desenho ora contra o jogo de cartas que deu origem a ele.</p>
<p style="text-align: justify;">Algo muito esperado vindo de uma religião intolerante e antipagã “por excelência” – ainda que ironicamente recheada de muitos aspectos assimilados de várias culturas pagãs situadas pelos domínios do antigo Império Romano e suas vizinhanças – que, para tentar desqualificar as religiões não-monoteístas, tacham as entidades divinas delas de “demônios” e os rituais sagrados delas de “satânicos”, passando pela obtusidade de falar de forma caluniosa que os espíritos malignos contra os quais essas crenças alheias sempre se posicionaram são seus aliados também.</p>
<p style="text-align: justify;">Nessa nostalgia pessoal e me aproveitando de minha posição de defesa à harmonia e respeito mútuo entre as crenças e descrenças – o que, a saber, não exclui o direito de levantar críticas baseadas em argumentação racional, objetiva e honesta –, entro em defesa a Yu-Gi-Oh!, incluindo eu o jogo de cartas e o anime que se baseia nele. Manejo minha argumentação ao melhor estilo “Monstros de Duelo”, com conhecimento de causa, cabeça fria e senso de saber onde me defender e (contra-)atacar. Então, é hora do duelo, cristãos.<span id="more-2695"></span></p>
<p style="text-align: justify;">Começo pelo ponto maior presente em todos os sites referidos: a malignização do jogo Monstros de Duelo (também conhecido como Magic and Wizards) pela presença de demônios, magias e entidades relacionadas à(s) mitologia(s) ocultista(s). Entro logo falando do jogo em si, o anime será defendido numa abordagem bem maior e já sem o ônus dos “demônios das cartas”.</p>
<p style="text-align: justify;">Primeiro, deve ser reconhecido que o conceito de divisão entre entidades do bem e do mal como os cristãos conhecem não existe no jogo. O conflito dualista característico do cristianismo – e de religiões anteriores como o zoroastrismo – dá lugar ao equilíbrio Yin-Yang, em que “bem” e “mal” se completam. O jogo não diz que umas entidades são benignas e outras são malignas, bem pelo contrário. Feiticeiros, demônios, dragões, animais, guerreiros de armadura, máquinas de guerra, fadas e até santos (como a Santa Joana usada por Serenity no episódio 107 do anime) e deuses (os três “deuses egípcios”, exclusivos do anime) fazem parte de um só conjunto onde a dualidade diametral “bem X mal” não existe.</p>
<p style="text-align: justify;">O mesmo se aplica a cartas de rituais de magia branca ou negra, usadas em grande parte das vezes para invocação de monstros mais poderosos ou ressuscitados. Em suma, não é um jogo voltado à malignidade, mas sim a uma visão diferente de Mitologia, consistida no equilíbrio entre elementos opostos. Mas, como é de se esperar, sacerdotes cristãos têm horror e até ódio a visões de Filosofia Mitológica diferentes da sua e incumbem-se incansavelmente a crucificá-las na lógica “se não condiz com minha religião, é logo automaticamente maligno”, muito similar às lógicas etnocêntricas da xenofobia e do nazismo.</p>
<p style="text-align: justify;">E, já que há uma categoria de demônios dentro de um acervo dezenas de vezes maior de entidades e uma classe de cartas de magia escura dentro de uma variedade também muito grande de cartas mágicas, o fogo cristão é mais intensificado ainda contra o jogo de Yugi Moto. Esta contra-argumentação também serve para defesa da presença de cartas com elementos da mitologia egípcia, até porque há cartas que lembram tantas mitologias quanto você se lembrar agora, incluindo um pouco da cristã.</p>
<p style="text-align: justify;">Agora a parte que me anima mais a escrever este artigo: o anime. Posto no mesmo saco de desenhos e jogos violentos, Yu-Gi-Oh! é igualmente crucificado de maneira impiedosa pelos sites cristãos. Uma das páginas que visitei (<a href="http://igrejadegraus.com.br/ebooks/paraquemcriamosmossosfilhos.pdf">http://igrejadegraus.com.br/ebooks/paraquemcriamosmossosfilhos.pdf</a>) dá uma singela lista de supostas perversidades trazidas pelo desenho, como se ele fosse um propagador de:</p>
<p style="text-align: justify;">1) reencarnação ou possessão de espíritos<br />
2) dupla personalidade<br />
3) evocação de mortos ou espíritos malignos<br />
4) a magia presente na forma de busca do além ou de almas do outro mundo para conseguir o seu objetivo<br />
5) a ligação do vocabulário espiritual<br />
6) ligação com personagens violentos que geralmente são ligados a espíritos malignos ou demônios<br />
7) convite para que seres espirituais malignos entrem em seu lar<br />
8) desrespeito ao próximo<br />
9) banalização da violência</p>
<p style="text-align: justify;">Vamos desmascarar um por um, pela ordem.</p>
<p style="text-align: justify;">1) Primeiro, a “reencarnação ou possessão” refere-se a Yugi Moto como receptáculo do faraó Yami/Atem, sendo portador do Enigma do Milênio, e a personagens antagonistas como Bakura e Marik. Devo relevar ao máximo duas questões:</p>
<p style="text-align: justify;">a) Atem/Yami Yugi, a “versão faraó” de Yugi, é um personagem benigno, que sempre lutou pelo bem da humanidade. Vendo o desenho e a atuação do faraó, que mal podemos identificar nele? Posso falar de duas analogias no próprio cristianismo a respeito desse tipo de incorporação: cristãos podem crer que estão se deparando com a orientação mental ou espiritual de um anjo ou mesmo incorporando o Espírito Santo, que é parte do próprio Deus. Atem não é um deus (não é no desenho, uma vez que Atem, na mitologia do Egito real, era o nome alternativo de um deus egípcio chamado Atum) nem um anjo, mas está extremamente longe de ser um “espírito possessor do mal”.</p>
<p style="text-align: justify;">Fica o dilema: se a pessoa sentir um anjo ou o ES incorporando é algo bom, por que não o é a incorporação de um rei que é o herói da história? E ainda há outro detalhe que oblitera qualquer crítica demonizante contra Yugi: o aprendizado mútuo entre as duas personalidades, algo inexistente nas possessões “denunciadas” ao largo do mundo cristão. Yugi e Yami, com uma admirável freqüência, demonstram que aprenderam inúmeros valores e virtudes um com o outro. Ainda não entendo o que há de tão desgraçado e condenável no “Yugi 2 em 1”.</p>
<p style="text-align: justify;">b) Bakura e Marik: são os malignamente possessos da história. Note que o enredo de Yu-Gi-Oh! não faz de suas versões do mal pessoas adoradas, muito pelo contrário. Yugi e seus amigos combatem essas entidades, até que, ao melhor estilo de exorcismo e luta do bem contra o mal, os expulsam e os banem do corpo dos vitimados. Inclusive Marik consegue, com a ajuda dos recém-amigos, expulsar de seu corpo a personalidade perversa. Se as aventuras de Yugi, Atem e cia. consistem em grande parte na luta contra males possessos, por que insistir em dizer exatamente o contrário, que o anime está exaltando a possessão ruim como algo bom?</p>
<p style="text-align: justify;">2) Repito os argumentos que falei agora sobre Yugi e Yami e adiciono um detalhe que termina invalidando o temor cristão pela dupla personalidade do corpo de Yugi Moto: a ausência de dualidade entre o(s) protagonista(s). A dupla é o bem somado ao bem! Se o desenho mostrasse um Yugi de estilo “Smeagol &amp; Gollum”, com um lado bom e um ruim, em vez do herói duplo, e exaltasse isso como sendo “o máximo”, aí sim haveria um motivo válido de os adultos se preocuparem com a influência exercida pelo desenho nas crianças. Poderia ser uma situação delicada ver o filho criança dizer que tem uma personalidade boa e uma ruim e que aprendeu isso no “desenho das cartas”.</p>
<p style="text-align: justify;">3) Para este argumento, reitero tudo o que disse na defesa ao jogo Monstros de Duelo, isso já é o suficiente. Em outras palavras, na “mitologia yugiana” não existe monstro intrinsecamente benigno ou maligno. Apenas os personagens que os utilizam nos duelos o são.</p>
<p style="text-align: justify;">4 e 5) A rixa cristã contra essa parte é justificada mais pelo asco dessa religião a rituais, liturgias e cerimônias presentes em outras religiões do que pelo caráter supostamente maligno das invocações nas partidas.</p>
<p style="text-align: justify;">6) Esta o caluniador de Yu-Gi-Oh! tem que especificar melhor, porque a informação está muito vaga. Caso seja uma referência aos monstros-mascote de cada personagem, notamos ao ver o desenho que isso não é verdade, uma vez que harpias (as Harpias de Mai Valentine), feiticeiros (o Mago Negro de Yugi e a Maga da Fé de Téa) e dragões (os dragões de Joey e Seto Kaiba) estão longe de poderem ser considerados demônios, a não ser na obtusa visão cristã de malignizar todos aqueles que não pertencem ao lado celestial da mitologia bíblica. Reitero também o contra-argumento de neutralidade e equilíbrio do parágrafo que defendeu o jogo Monstros de Duelo.</p>
<p style="text-align: justify;">7) Ao vermos o anime, percebemos facilmente que, no lado dos protagonistas, simplesmente não existe nenhum “convite para a entrada de seres malignos”. É verdade que não há nenhuma alusão ao deus cristão no desenho, mas isso não torna o contrário verdadeiro. Um conhecimento de causa faria muito bem, não é, senhor(a) caluniador(a) de Yu-Gi-Oh! e de animes afins?</p>
<p style="text-align: justify;">8) Esse ponto eu faço questão de explicar mais abaixo, depois dessa lista de contra-argumentos.</p>
<p style="text-align: justify;">9) A 4Kids Entertainment teve todo o cuidado de suprimir referências consideradas violentas quando adaptou Yu-Gi-Oh! para a televisão infantil americana – e brasileira, por tabela. Cenas com presença de sangue e agressões foram cortadas e a imagem de monstros com alusões a armas de fogo foi alterada de modo a suprimir estas. Pode-se dizer muita coisa de Yu-Gi-Oh!, mas nunca que é um desenho baseado na violência e pancadaria.</p>
<p style="text-align: justify;">Ainda mais considerando que na trama tudo, tudo mesmo, é disputado nas partidas de duelo, até mesmo o destino da humanidade. A versão japonesa, feita para adolescentes, contém algumas cenas violentas, mas na versão transmitida para o Brasil elas quase não existem.</p>
<p style="text-align: justify;">Enquanto igrejas espalham aos quatro ventos que Yu-Gi-Oh! tem mil e uma características que influenciam perversamente as crianças, venho me posicionar na corrente exatamente contrária. Posso dizer que esse anime é em certos momentos um verdadeiro veículo de educação para os jovens sobre Relações Humanas, contendo valiosíssimos ensinamentos sobre:</p>
<p style="text-align: justify;">- o valor da amizade e do amor;<br />
- o despertar de sentimentos de apego total aos amigos;<br />
- a superação de medos;<br />
- o triunfo das virtudes sobre o modo revoltado de viver;<br />
- a determinação e persistência;<br />
- o desejo de proteger o mundo;<br />
- a forma certa de se lidar com a vitória e com a derrota;<br />
- a valorização das lições do passado, por mais repulsivo que este tenha parecido ser;<br />
- o amor entre irmãos;<br />
- a conversão de personalidades corruptas para uma vida virtuosa e em contínua evolução;<br />
- a fé (isso mesmo, a fé, religiosa ou não!);<br />
- a não-compensação de sentimentos negativos;<br />
- a não-compensação do ceticismo quando adotado por mera rebeldia e sem fundamentos;<br />
- a firmeza dos sentimentos e virtudes perante as piores provações da vida;<br />
- e muitos outros.</p>
<p style="text-align: justify;">Relevemos o andamento da trama. Joey e Tristan eram no início de tudo mal-encarados, verdadeiras “almas sebosas”, até que Yugi os salvou de um rapaz brigão. Aquilo já mudaria permanentemente a relação dos dois com o personagem principal do anime. Ao longo do tempo, todos aprenderam mais e mais na vida que levavam juntos. Joey chegou ao ponto de pular do navio para resgatar algumas cartas de duelo de Yugi que um vilão jogou no mar. Conheceram Mai, que também se tornou uma ótima amiga.</p>
<p style="text-align: justify;">Quase todos os duelos eram marcados por lições de amizade, honra, honestidade, amor, cooperação e trabalho em equipe. Sem falar no exaustivamente pregado “coração das cartas”, que é uma espécie de fé secular que exerce um papel muito semelhante ao da fé cristã, o de não entregar totalmente a vida aos ditames do acaso. Até ex-inimigos, como Duke Devlin, Noah Kaiba e Marik Ishtar, terminaram entrando para o lado do bem.</p>
<p style="text-align: justify;">Até Seto Kaiba, depois de muitas lições, entrou para o lado dos protagonistas, ainda que não deixando totalmente seu lado rebelde. Pergunto depois de tudo isso aos sites que insistem em caluniar o desenho e o jogo e pô-los nos piores poços de lixo cultural: por que Yu-Gi-Oh! não presta, mesmo quando relevamos seu caráter profundamente benigno e até educativo?</p>
<p style="text-align: justify;">Como forma de negar influências perversas dos meios de comunicação, os cristãos lançam mão da recomendação bíblica de Provérbios 22:6 – “Educa a criança no caminho em que deve andar; e até quando envelhecer não se desviará dele” – e às vezes pregam a Bíblia como um instrumento educativo completo.</p>
<p style="text-align: justify;">Sinto em desapontá-los, mas um livro que contém passagens como I Samuel 15¹, Deuteronômio 28² e um Apocalipse repleto de demônios, monstros e bestas mitológicas que deixam os do jogo Monstros de Duelo “no chinelo” não parece ser uma influência realmente positiva para crianças. Menos ainda quando sabemos que esse mesmo livro prega a homofobia, a intolerância religiosa e a subjugação despótica dos animais e da Natureza perante o ser humano como comportamentos essencialmente corretos.</p>
<p style="text-align: justify;">Seria prudente para os religiosos que, antes de levantarem uma polvorosa nas suas igrejas sobre os supostos malefícios comportamentais de um desenho animado, jogo ou filme, tomassem conhecimento de causa sobre o que criticam, analisando aos olhos da Filosofia aquilo que consideram perverso e condenável e verificando os verdadeiros valores que são transmitidos.</p>
<p style="text-align: justify;">Rebaixar desenhos como Yu-Gi-Oh! à classe pária da cultura juvenil só por causa da presença de elementos mitológicos sem malignidade intrínseca ou objetivamente atribuída, ignorando totalmente tudo aquilo de bom que é provido por eles, é uma atitude obtusa, desonesta e desrespeitosa. Do mesmo jeito que o é chamar uma entidade benigna da mitologia alheia de demônio ou tachar um ritual pagão de maligno.</p>
<p style="text-align: justify;">¹ Uma brutal narrativa sobre a destruição de Amaleque e de seu rei Agague.<br />
² Este capítulo contém, em contraste com 12 versículos de bênçãos para pessoas obedientes a Deus, nada menos que 49 versículos com maldições para quem “não der ouvidos à voz do Senhor”.</p>
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		<title>Resenha: O Mundo Assombrado pelos Demônios: a ciência vista como uma vela no escuro</title>
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		<pubDate>Thu, 21 Jan 2010 09:30:00 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Robson Fernando</dc:creator>
				<category><![CDATA[Burrice e Malignidade]]></category>
		<category><![CDATA[Ciência]]></category>
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<p align="justify">Bem que Carl Sagan, n’O Mundo Assombrado pelos Demônios, podia ter investido ainda mais contra a pseudociência, a superstição, a crendice e a religiosidade bitolada, mas seus esforços pela promoção da ciência e do ceticismo são enormemente bem vindos. Ele fez um ótimo trabalho na tentativa de promover esses dois perante a humanidade que ainda se deixa levar pela tendência a cair em crendices emocionadas, embora eu ache que ele poderia ter ido mais longe no combate frontal ao que não deveria ser acreditado e que reservou espaço demais para a crença em ETs seqüestradores.</p>
<p>O primeiro capítulo anuncia bem o que Carl pretendeu defender e combater: as conseqüências da não-valorização da ciência, alguns benefícios desta para a humanidade os episódios em que a mesma foi e é usada para o mal e as peripécias desvairadas da pseudociência (e as tragédias proporcionadas por ela). O segundo faz uma intensa propaganda da ciência, algo do tipo “como é gostoso viver a ciência”, inclusive mostrando-a como niveladora de egos – pela refutação de idéias não-comprovadas de seja lá quem for. Nada mal para introduzir o leitor ao gosto pelo pensamento científico, algo que é retomado muitos capítulos depois.</p>
<p>O terceiro já muda o foco, para a pareidolia, embora esse vocábulo não esteja presente ao menos na edição que li. Explora questões como o monte chamado de “A Face em Marte”, a “cratera da carinha sorridente” na Lua e aparições da Maria bíblica. Foi uma boa abordagem para começar o desmonte de crendices.</p>
<p>A partir do quarto, até o capítulo 11, 127 páginas de ETs atrás de ETs. O leitor tem a impressão de que os “demônios” do título do livro são na verdade uma metáfora para os alienígenas, que Carl mostra serem parte apenas do imaginário folclórico. As questões mais detalhadamente abordadas foram as (falsas) memórias das pessoas que dizem ter sido raptadas por ETs, levadas para discos voadores e vitimadas por vivissecção, as “provas” da presença de áliens vigiando a Terra e o suposto trabalho dos governos em esconder a “verdade” de que “eles” estão nos olhando, fazendo experimentos tecnologicamente rudimentares com humanos e cavando “sinais” em plantações. Questões de ceticismo religioso como os “julgamentos” da Inquisição e as visões alucinadas medievais de demônios ou santos aparecem, mas com pouca expressividade. Foi uma pena que o ET de Varginha e a febre das supostas aparições extraterrestres no Brasil não entraram no livro, até porque aconteceram na mesma época do lançamento do mesmo, leia-se 1996.</p>
<p>A partir do capítulo “A arte refinada de detectar mentiras”, o ceticismo e a pseudociência são abordados com vigor. É quando o leitor pensa – e com razão – “poxa, finalmente o livro começou a mostrar para que veio!” Tem destaque meu o “caso Carlos”, que foi a forja da incorporação de um jovem de descendência latina por um espírito, esquema montado pelo “mago do ceticismo” James Randi, e o breve desmascaramento de picaretagens como cirurgias mediúnicas e curas de doenças pela força da fé. Porém, eu acho que Carl Sagan ainda pegou muito leve com a pseudociência e a superstição. Poderia ter ido muito mais longe e abordado mais casos específicos de quando a picaretagem hipnotiza as mentes crédulas.</p>
<p>Mais adiante, a propaganda da ciência é retomada com muita força. Carl tem todo o meu apoio nessa parte. As mais variadas questões da ciência são abordadas, incluindo um pouco de antropologia – quando fala da tribo africana !Kung San e cita as semelhanças entre povos humanos pré-letrados ou da Pré-História, como a crença em deuses e/ou espíritos e o uso de tecnologia – e o alerta para o perigo do uso maligno da ciência, tendo destaque a história de Edward Teller, o pai da bomba H e defensor visceral das armas de destruição em massa. Entretanto, faltou totalmente uma importante denúncia do mau uso da ciência: as torturas da vivissecção animal.</p>
<p>Em seguida, a educação científica dos Estados Unidos é diagnosticada como tendo sérios problemas. Foi obviamente uma análise bem mais comportada do que aquele dossiê educacional também americano que Michael Moore levantaria no livro Stupid White Men, lançado cerca de cinco anos depois d’O Mundo Assombrado Pelos Demônios. As deficiências apontadas são denunciadas como causas da decadência da dedicação científica naquele país e sua retração na corrida dos países desenvolvidos pela excelência do tratamento acadêmico da pesquisa científica. Reconheço muita nobreza na postura de Carl Sagan em defender melhorias na educação americana e a valorização da heterodoxia pedagógica, aquela(s) forma(s) de ensinar que apaixonam os estudantes. E quanto ao “nerdismo” dos cientistas e pretendentes a cientistas, ele entrou na apaixonada defesa daqueles que são taxados de “nerds” por sua preferência às ciências exatas e naturais, citando o exemplo de James Clerk Maxwell, o pioneiro do eletromagnetismo.</p>
<p>Nos dois capítulos finais, a ciência e a atitude cético-científica é transformada em cetro da democracia, da liberdade e dos direitos humanos. Foi uma abordagem muito digna e inspiradora, ainda mais por ter enfrentado o comportamento de alienação social. Segundo Carl, o verdadeiro patriota tem um comportamento que questiona e não aceita qualquer porcaria política, servindo o último capítulo idealmente para os brasileiros, embora ele não tenha falado diretamente ao Brasil.</p>
<p>Ao longo da obra, houve questionamentos muito comportados e limitados à religião. Aliás, Carl demonstra um respeito um tanto medroso pela mesma, evitando lançar ataques condenatórios e críticas pesadas do tipo daqueles que Richard Dawkins direciona quando pratica o que chamam de pensamento neo-ateísta. Creio que ele tinha muitos amigos religiosos fervorosos e o medo de machucar a fé deles inibiu O Mundo Assombrado pelos Demônios de atacar a religião explicitamente. Pelo contrário, em alguns momentos Carl defende a “religião honesta” que estimula o pensamento filosófico e questionador, embora comprovemos no dia-a-dia que tal atitude comportamental é bastante rara na população se vinda de crentes comuns não engajados em profissões requerentes do exercício do pensamento. Também não podemos contar com o livro como priorizador da Razão sobre a emoção humana, embora a ciência tão defendida esteja diretamente ligada àquela, até porque falta uma apologia consolidada à racionalidade na obra.</p>
<p>O Mundo Assombrado pelos Demônios é uma obra nobre porque enobrece a ciência e o ato de pensar cientificamente. E, como Carl Sagan, todos devemos perceber que é esse o pensamento que pode proporcionar um mundo melhor, em vez da imaginação crédula e inocente e da alienação educacional.</p>
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