Arauto da Consciência
9mar/100

Experiência da “senciência vegetal” refutada

É abundante em sites pseudocientíficos e nos argumentos onívoros a tal "experiência de Backster" em que plantas reagiriam de forma senciente e sentimental a estímulos humanos e ambientais. Por outro lado, pouco é divulgado que os "sentimentos vegetais" já foram refutados. A refutação veio no site The Skeptics Dictionary e está disponível em português.

Reproduzo o texto abaixo e saiba por que a ética pela vida senciente do vegetarianismo e do veganismo não abrange a vida vegetal -- considerando uma moral de respeito ao ser como fim em si mesmo e dotado de interesse de continuar vivendo.

Percepção vegetal (também conhecida como percepção primária ou Efeito Backster)
por Robert Todd Carroll, retirado do site The Skeptics Dictionary

As plantas são seres vivos que possuem paredes celulares de celulose, desprovidos de órgãos nervosos ou sensoriais. Os animais não têm células com paredes de celulose, mas possuem os referidos órgãos.

Jamais ocorreria a um fisiologista de animais ou plantas testar se estas possuem consciência ou ESP, pois seu conhecimento seria suficiente para descartar a possibilidade de que elas tivessem percepções ou sentimentos semelhantes aos humanos. Em termos leigos, plantas não têm cérebro, nem nada semelhante a um cérebro.

No entanto, uma pessoa completamente ignorante a respeito de ciências vegetais e animais não só pesquisou percepções e sentimentos em plantas, como afirma ter provas científicas de que elas experimentam uma ampla gama de emoções e pensamentos. Chama-se Cleve Backster e publicou suas pesquisas em 1968 no International Journal of Parapsychology ("Evidence of a Primary Perception in Plant Life" [Indícios de uma Percepção Primária em Vida Vegetal] 10, 1968).

As alegações de Backster foram refutadas por Horowitz, Lewis e Gasteiger (1975) e Kmetz (1977). Este resumiu os argumentos contra Backster em um artigo para a Skeptical Inquirer em 1978. Backster não tinha utilizado controles adequados em seu estudo. Quando foram aplicados controles, não se detectou nenhuma reação a pensamentos ou ameaças. Esses pesquisadores descobriram que os contornos registrados no polígrafo poderiam ter sido causados por numerosos fatores, entre os quais a eletricidade estática, movimentos na sala, alterações na umidade, etc.

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7mar/102

Crer em Deus é mais complicado do que parece

É o que mostra o vídeo de Fernando Thomazi, intitulado "Você acredita em deus?"

Veja e reflita, se sua fé deixar.

Uma pequena observação de erro: Hércules não era um deus.

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7mar/100

O que Jesus não fez

Criado pelo NonStampCollector, um genial canal de desenhos esclarecedores no YouTube, o vídeo "O que Jesus não faria", dublado por Alessandro Magno e postado no blog Bule Voador, mostra o que Jesus deixou de fazer, coisas que poderiam confirmar a existência do deus cristão para toda a humanidade e, de quebra, melhorar ao extremo a vida da humanidade.

Se você tiver cerca de 9 minutos livres, assista e reflita. O desenho é muito inteligente.

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6mar/100

Saiba isto sobre a Bíblia!

A partir de hoje, como parte do esforço de conscientizar, esclarecer e abrir os olhos, levando a luz da Razão e do livre-pensamento à escuridão da credulidade e submissão religiosa, vou de vez em quando trazer o conteúdo de alguns tópicos da comunidade Contradições da Bíblia no Orkut. Como faço com qualquer assunto que trago de outros sites, vou dizer as devidas referências.

Aposto que você não sabia isso sobre a Bìblia dita sagrada:

Saiba isto sobre a Bíblia
por Sky Kunde, da comunidade Contradições da Bìblia no Orkut

É comum em debates alguém dizer algo como "Mas no original da bíblia blábláblá... " Porém, não existem originais da bíblia, e sim cópias de cópias. Quando alguém diz "original" na verdade está se referindo aos manuscritos mais antigos disponíveis e não aos que foram escritos pelo punho do autor.

Diz na Sociedade Bíblica do Brasil:

"Todos os autógrafos, isto é, os livros originais, como foram escritos pelos seus autores, se perderam.

O mais antigo fragmento do Novo Testamento hoje conhecido é um pequeno pedaço de papiro escrito no início do Século II d.C. Nele estão contidas algumas palavras de João 18.31-33, além de outras referentes aos versículos 37 e 38.

O pergaminho de Isaías é o mais remoto trecho do Antigo Testamento em hebraico. Estima-se que foi escrito durante o Século II a.C."

Qual a relevância disso? Bom, o ponto em questão são as supostas profecias. Se não temos os originais anteriores aos eventos supostamente profetizados então não há como comprovar que realmente previram alguma coisa. Ou seja, as "profecias" podem ter sido inseridas após os fatos!

Exemplo: Jesus, em Mateus 24, diz que o templo seria destruído; o que realmente aconteceu. Mas não temos nenhum trecho de Mateus (ou de qualquer outro evangelho) anterior ao evento contendo tal "profecia".

O mesmo ocorre com outros livros onde são "preditas" várias desgraças contra Israel e os reinos próximos; como o Egito e a Babilônia. Um bom exemplo disso é o livro de Daniel, considerado uma obra do séc. VI a.C. Contudo, evidências internas demonstram tratar-se de uma fraude produzida séculos mais tarde; por volta do ano 165 a.C.!

Desse modo podemos considerar seriamente a ponderação do filósofo David Hume:

"Nenhum testemunho é suficiente para comprovar algo extraordinário a menos que o testemunho seja de um tipo tal que a sua falsidade (ou engano) fosse ainda mais extraordinária que o fato que tenta estabelecer." (citação adaptada)

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3mar/100

Frase da semana (28/02-06/03), e algumas surpreendentes passagens bíblicas

É uma frase minha mesmo.

"Se Deus é contra os midianitas, amalequitas, jebuzeus, amorreus etc., quem será por eles?" Eu no Twitter agora há pouco

É "fato" que o deus bíblico foi um senhor de guerra de dar inveja a muitos generais e autocratas genocidas e imperialistas da Idade do Ferro. Veja alguns exemplos bíblicos de como o mesmo Deus que @s cristã/o/s adoram hoje como senhor absoluto do amor e da bondade foi um dia (supondo que a mitologia bíblica fosse uma coletânea de fatos históricos comprovados) foi um lorde de derramamento de sangue, vingança, destruição e matança (o macabrismo divino rimou até):

Josué 10: 28-42

28 E naquele mesmo dia tomou Josué a Maquedá, e feriu-a a fio de espada, bem como ao seu rei; totalmente a destruiu com todos que nela havia, sem nada deixar; e fez ao rei de Maquedá como fizera ao rei de Jericó.
29 Então Josué e todo o Israel com ele, passou de Maquedá a Libna e pelejou contra ela.
30 E também o SENHOR a deu na mão de Israel, a ela e a seu rei, e a feriu a fio de espada, a ela e a todos que nela estavam; sem nada deixar; e fez ao seu rei como fizera ao rei de Jericó.
31 Então Josué, e todo o Israel com ele, passou de Libna a Laquis; e a sitiou, e pelejou contra ela;
32 E o SENHOR deu a Laquis nas mãos de Israel, e tomou-a no dia seguinte e a feriu a fio de espada, a ela e a todos os que nela estavam, conforme a tudo o que fizera a Libna.
33 Então Horão, rei de Gezer, subiu a ajudar a Laquis, porém Josué o feriu, a ele e ao seu povo, até não lhe deixar nem sequer um.
34 E Josué, e todo o Israel com ele, passou de Laquis a Eglom, e a sitiaram, e pelejaram contra ela.
35 E no mesmo dia a tomaram, e a feriram a fio de espada; e a todos os que nela estavam, destruiu totalmente no mesmo dia, conforme a tudo o que fizera a Laquis.
36 Depois Josué, e todo o Israel com ele, subiu de Eglom a Hebrom, e pelejaram contra ela.
37 E a tomaram, e a feriram ao fio de espada, assim ao seu rei como a todas as suas cidades; e a todos os que nelas estavam, a ninguém deixou com vida, conforme a tudo o que fizera a Eglom; e a destruiu totalmente, a ela e a todos os que nela estavam.
38 Então Josué, e todo o Israel com ele, tornou a Debir, e pelejou contra ela.
39 E tomou-a com o seu rei, e a todas as suas cidades e as feriu a fio de espada, e a todos os que nelas estavam destruiu totalmente; nada deixou; como fizera a Hebrom, assim fez a Debir e ao seu rei, e como fizera a Libna e ao seu rei.
40 Assim feriu Josué toda aquela terra, as montanhas, o sul, e as campinas, e as descidas das águas, e a todos os seus reis; nada deixou; mas tudo o que tinha fôlego destruiu, como ordenara o SENHOR Deus de Israel.
41 E Josué os feriu desde Cades-Barnéia, até Gaza, como também toda a terra de Gósen, e até Gibeom.
42 E de uma vez tomou Josué todos estes reis, e as suas terras; porquanto o SENHOR Deus de Israel pelejava por Israel.

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24fev/100

Ética e ateísmo, por Bruno Müller

Sou fã dos artigos de Bruno Müller, dono do hoje abandonado blog Seres Livres e colunista da ANDA. Como já falei um tempo atrás, ele foi uma das pessoas que me inspiraram a escrever artigos e a criar o Consciência Efervescente.

Concordo em muita coisa com ele, a não ser sobre anarquismo, sobre o qual ainda não sei muito e nada li.

Com vocês, um ótimo artigo sobre ateísmo, religiões e ética.

Ética e ateísmo
por Bruno Müller

Certa vez conheci uma pessoa que me disse que, ao saber que eu era ateu, sentiu-se receosa, mas que, com o tempo, percebeu que apesar disso eu era uma boa pessoa – como se o ateísmo fosse um entrave para o desenvolvimento ético de um ser humano. No entanto, essa mesma pessoa era perversa, manipuladora, mentirosa, arrogante – para resumir, uma hipócrita.

Com o tempo, entendi que não havia uma contradição em sua personalidade. Não que pessoas religiosas sejam necessariamente hipócritas, mas aquelas mais fanáticas e que se consideram ungidas de uma missão divina, como era o caso dela, frequentemente o são, mesmo sem se dar conta. Isso porque é necessária uma boa dose de arrogância para acreditar conhecer os segredos do universo, ter “linha direta” com um deus e sentir-se apto a revelar – ou impor – esses segredos aos demais.

Ainda jovem, quando a curiosidade me levou a frequentar alguns cultos, entendi que o pecado que mais se observa nas igrejas e templos é o do orgulho, da vaidade. O que há na fé que faz as pessoas se sentirem melhores que as outras que não têm fé ou não têm a supracitada “linha direta”? Não tenho resposta pronta para essa pergunta, mas esta leva a uma outra questão, mais fácil de abordar: o sentimento de superioridade lhes leva a supor que não há bondade fora da religião, que quem não tem religião não possui estatura moral ou capacidade de praticar o bem e o respeito ao próximo.

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19fev/100

Poesia: Involução não é opção

Poesia escrita em março de 2009

Não adianta.
De nada adianta me pedirem para voltar a ser o que eu era antigamente
Onívoro, consumidor de refrigerante, religioso e conformado com a realidade
Garanto que isso não acontece por mais que me insistam

Não vou ser feliz tentando ser tudo aquilo de novo
Ser o contrário do que sou hoje
Pelo contrário, eu preferiria morrer a me degenerar
Sofrer tentando involuir por causa da argumentação tronxa
De quem tenta me convencer com emoção
De que estou errado

Digo isso porque sinto como é ser ocasionalmente pressionado
Por quem não entende esta consciência
Por quem acha que ser o que sou hoje
[é tolice, frescura e não adianta nada para o mundo

Já me sugeriram, em sessões de “aconselhamentos” passionais e tolos
Com argumentações sem argumentos
Que eu deixasse de ser vegano e amante de sucos
Que eu abandonasse a vontade de interferir
[nas injustiças que os antiéticos poderosos promovem contra nós
Que eu voltasse a crer num deus pessoal
[forjado por minhas necessidades psicológicas
Que eu voltasse a acreditar na mitologia de Jesus como se fosse fato real

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8fev/100

ACORDA! (revival de post: adeus a Aline Coelho)

O evento deste post aconteceu em novembro de 2009. Refere-se a um evento passado, cuja reflexão e discussão são atemporais.

Diario de Pernambuco anuncia a morte de Aline Coelho: a fé cristã de milhares de pessoas fracassou.

"Deus meu, Deus meu, por que nos desamparaste?!" -- É o que muita gente poderia estar dizendo agora.

Depois de mais de um ano de luta contra a leucemia, Aline Coelho faleceu. Essa triste notícia caiu como um enorme asteroide para tod@s que foram fazer o teste de compatibilidade de medula óssea nos últimos meses, incluindo para mim. Eu sinceramente jamais desejei postar este post "ACORDA!". Posto-o com tristeza.

O momento é de luto para tod@s nós. Presto toda minha solidariedade para @s amig@s e familiares dela e a tod@s que tentaram fazer sua parte.

Nesse momento, aproveito para uma reflexão. Aviso: se você, de tão abalad@, não se dispuser no momento a ler uma reflexão cética sobre o que "Deus" fez ou não fez ou se ele existe ou não, se não quer se sentir "ofendid@" em sua fé, não leia o restante deste post.

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8fev/103

“Com Deus não se brinca” ou “Pessoas que desafiaram Deus”: pulha virtual para coagir pelo medo

André e Abbadon, fundadores do blog Ceticismo.net, mostram por que o texto que circula na internet chamado "Com Deus não se brinca" ou "Pessoas que desafiaram Deus", contendo a "história" de pessoas que teriam brincado ou desafiado o deus cristão e foram punidas com morte ou infortúnio, é nada mais que uma mentira, hoax, pulha preparada com o fim de coagir pessoas pelo medo, passar-lhes a imagem de um deus autoritário que pune quem desafia sua autoridade.

Como a versão original do esclarecimento deles não é amigável para cristã/o/s lerem, pela linguagem relativamente agressiva, fiz algumas edições que facilitará que crentes entendam por que esse conto do deus autoritário que mata quem o desafia é nada mais que uma pulha virtual.


Deus punindo quem blasfema
por André e Abbadon do Ceticismo.net

Vem circulando há anos pela internet (e-mails, fóruns, orkut, páginas de sites religiosos, etc.) uma corrente do tipo pulha virtual que atribui mortes de algumas personalidades que supostamente blasfemaram contra o deus judaico-cristão, ao sofrimento da “ira divina” com fatalidades violentas e horríveis. É uma tática usada por muitos religiosos para infundir o medo nas pessoas que o recebem, para que estas não blasfemem contra o deus deles, sob pena de sofrerem mortes dolorosas, cruéis e prematuras.

Aliás, poderíamos argumentar: que deus é esse que precisa recorrer a expedientes diabólicos e malévolos para punir as pessoas que, supostamente, possuem o “livre-arbítrio” tão alardeado pelos religiosos? Se tivessem realmente esse “livre-arbítrio”, as opiniões dessas pessoas seriam RESPEITADAS e não seriam punidas por isso.

Mas se sofrem punição pela liberdade de opinião e de expressão, então em que exatamente esse deus difere dos ditadores de governos autoritários, repressivos, fascistas, nazistas, chavistas, teocráticos, totalitários? Esses tipos de regime punem pessoas, com penas de morte e encarceramento, só por causa da ousadia em criticá-los, em se expressarem, em apontar os defeitos, em não aceitarem o estado de coisas.

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10jan/102

Resenha: O Mundo Assombrado pelos Demônios: a ciência vista como uma vela no escuro

Bem que Carl Sagan, n’O Mundo Assombrado pelos Demônios, podia ter investido ainda mais contra a pseudociência, a superstição, a crendice e a religiosidade bitolada, mas seus esforços pela promoção da ciência e do ceticismo são enormemente bem vindos. Ele fez um ótimo trabalho na tentativa de promover esses dois perante a humanidade que ainda se deixa levar pela tendência a cair em crendices emocionadas, embora eu ache que ele poderia ter ido mais longe no combate frontal ao que não deveria ser acreditado e que reservou espaço demais para a crença em ETs seqüestradores.

O primeiro capítulo anuncia bem o que Carl pretendeu defender e combater: as conseqüências da não-valorização da ciência, alguns benefícios desta para a humanidade os episódios em que a mesma foi e é usada para o mal e as peripécias desvairadas da pseudociência (e as tragédias proporcionadas por ela). O segundo faz uma intensa propaganda da ciência, algo do tipo “como é gostoso viver a ciência”, inclusive mostrando-a como niveladora de egos – pela refutação de idéias não-comprovadas de seja lá quem for. Nada mal para introduzir o leitor ao gosto pelo pensamento científico, algo que é retomado muitos capítulos depois.

O terceiro já muda o foco, para a pareidolia, embora esse vocábulo não esteja presente ao menos na edição que li. Explora questões como o monte chamado de “A Face em Marte”, a “cratera da carinha sorridente” na Lua e aparições da Maria bíblica. Foi uma boa abordagem para começar o desmonte de crendices.

A partir do quarto, até o capítulo 11, 127 páginas de ETs atrás de ETs. O leitor tem a impressão de que os “demônios” do título do livro são na verdade uma metáfora para os alienígenas, que Carl mostra serem parte apenas do imaginário folclórico. As questões mais detalhadamente abordadas foram as (falsas) memórias das pessoas que dizem ter sido raptadas por ETs, levadas para discos voadores e vitimadas por vivissecção, as “provas” da presença de áliens vigiando a Terra e o suposto trabalho dos governos em esconder a “verdade” de que “eles” estão nos olhando, fazendo experimentos tecnologicamente rudimentares com humanos e cavando “sinais” em plantações. Questões de ceticismo religioso como os “julgamentos” da Inquisição e as visões alucinadas medievais de demônios ou santos aparecem, mas com pouca expressividade. Foi uma pena que o ET de Varginha e a febre das supostas aparições extraterrestres no Brasil não entraram no livro, até porque aconteceram na mesma época do lançamento do mesmo, leia-se 1996.

A partir do capítulo “A arte refinada de detectar mentiras”, o ceticismo e a pseudociência são abordados com vigor. É quando o leitor pensa – e com razão – “poxa, finalmente o livro começou a mostrar para que veio!” Tem destaque meu o “caso Carlos”, que foi a forja da incorporação de um jovem de descendência latina por um espírito, esquema montado pelo “mago do ceticismo” James Randi, e o breve desmascaramento de picaretagens como cirurgias mediúnicas e curas de doenças pela força da fé. Porém, eu acho que Carl Sagan ainda pegou muito leve com a pseudociência e a superstição. Poderia ter ido muito mais longe e abordado mais casos específicos de quando a picaretagem hipnotiza as mentes crédulas.

Mais adiante, a propaganda da ciência é retomada com muita força. Carl tem todo o meu apoio nessa parte. As mais variadas questões da ciência são abordadas, incluindo um pouco de antropologia – quando fala da tribo africana !Kung San e cita as semelhanças entre povos humanos pré-letrados ou da Pré-História, como a crença em deuses e/ou espíritos e o uso de tecnologia – e o alerta para o perigo do uso maligno da ciência, tendo destaque a história de Edward Teller, o pai da bomba H e defensor visceral das armas de destruição em massa. Entretanto, faltou totalmente uma importante denúncia do mau uso da ciência: as torturas da vivissecção animal.

Em seguida, a educação científica dos Estados Unidos é diagnosticada como tendo sérios problemas. Foi obviamente uma análise bem mais comportada do que aquele dossiê educacional também americano que Michael Moore levantaria no livro Stupid White Men, lançado cerca de cinco anos depois d’O Mundo Assombrado Pelos Demônios. As deficiências apontadas são denunciadas como causas da decadência da dedicação científica naquele país e sua retração na corrida dos países desenvolvidos pela excelência do tratamento acadêmico da pesquisa científica. Reconheço muita nobreza na postura de Carl Sagan em defender melhorias na educação americana e a valorização da heterodoxia pedagógica, aquela(s) forma(s) de ensinar que apaixonam os estudantes. E quanto ao “nerdismo” dos cientistas e pretendentes a cientistas, ele entrou na apaixonada defesa daqueles que são taxados de “nerds” por sua preferência às ciências exatas e naturais, citando o exemplo de James Clerk Maxwell, o pioneiro do eletromagnetismo.

Nos dois capítulos finais, a ciência e a atitude cético-científica é transformada em cetro da democracia, da liberdade e dos direitos humanos. Foi uma abordagem muito digna e inspiradora, ainda mais por ter enfrentado o comportamento de alienação social. Segundo Carl, o verdadeiro patriota tem um comportamento que questiona e não aceita qualquer porcaria política, servindo o último capítulo idealmente para os brasileiros, embora ele não tenha falado diretamente ao Brasil.

Ao longo da obra, houve questionamentos muito comportados e limitados à religião. Aliás, Carl demonstra um respeito um tanto medroso pela mesma, evitando lançar ataques condenatórios e críticas pesadas do tipo daqueles que Richard Dawkins direciona quando pratica o que chamam de pensamento neo-ateísta. Creio que ele tinha muitos amigos religiosos fervorosos e o medo de machucar a fé deles inibiu O Mundo Assombrado pelos Demônios de atacar a religião explicitamente. Pelo contrário, em alguns momentos Carl defende a “religião honesta” que estimula o pensamento filosófico e questionador, embora comprovemos no dia-a-dia que tal atitude comportamental é bastante rara na população se vinda de crentes comuns não engajados em profissões requerentes do exercício do pensamento. Também não podemos contar com o livro como priorizador da Razão sobre a emoção humana, embora a ciência tão defendida esteja diretamente ligada àquela, até porque falta uma apologia consolidada à racionalidade na obra.

O Mundo Assombrado pelos Demônios é uma obra nobre porque enobrece a ciência e o ato de pensar cientificamente. E, como Carl Sagan, todos devemos perceber que é esse o pensamento que pode proporcionar um mundo melhor, em vez da imaginação crédula e inocente e da alienação educacional.

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