Arauto da Consciência
15fev/100

Os limites da coerção policial numa sociedade sem tratamento

Artigo escrito em janeiro de 2009

Com a Lei Seca, que pune com rigor motoristas que misturam álcool e direção, levantou-se um debate notável sobre o choque entre coerção e cultura, quando uma lei rigorosa se choca com os costumes viciados da sociedade. Duas perguntas oportunas são lançadas nessa discussão. A primeira é: uma norma que passe por cima de um vício cultural sem que este tenha sido devidamente remediado pela conscientização coletiva consegue cumprir o seu objetivo? E a segunda reflete uma outra preocupação de enorme importância, com muito em comum com a outra questão: até que ponto o poder policial consegue forçar a inibição da delinquência e da violência sem que as raízes sociais delas sejam devidamente tratadas?

Gerou-se o aperto do costume alcoólico com a proibição total do álcool no sangue do motorista. Enquanto há fiscalização nas estradas, todos estão pensando duas vezes antes de “abastecer” o corpo com etanol. Mas bastou um relaxamento no rigor fiscal que os acidentes causados pela embriaguez no volante voltaram a crescer significativamente. A verdade escancarada é que, por não ter sido antecedida por um esforço de conscientização cultural de longo prazo, a Lei Seca só vem funcionando quando os corpos de polícia de trânsito apertam. É o mesmo efeito de uma seringa entupida contendo ar: o aperto, equivalente à coerção, só reduz o objeto a ser tratado por compressão forçada, nunca por diminuição do conteúdo. A mentalidade da sociedade não muda, só é forçada a se comportar dentro do limite. O combate policial à ebriedade dos motoristas pode continuar e até tornar-se mais eficiente com a investida de mais policiais, viaturas e delegacias móveis, mas será sempre limitado a forçar a compressão dos hábitos viciados, nunca sua redução consciente.

Assim a primeira pergunta encontra sua resposta: o objetivo da norma coerciva não antecipada pelo trabalho da consciência coletiva é atingido sim, mas só enquanto há fiscalização rígida. Não conseguirá nunca converter o costume popular viciado em responsabilidade autocultivada, mas só lhe impor volume menor.

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9fev/102

Poesia: Vasto mar de álcool

Socorro!
Estou me afogando
Neste vasto mar de álcool
Que me cerca!
Este mar implacável de etanol
Da cerveja, da cachaça, do vinho, do whisky
Cheio de barcos, de pessoas amantes do mar
Não tem ninguém para me ouvir
Para me ver sofrer
Estou sem fôlego
Sem forças
Sem ânimo
Sem esperança
Sem vida!
Não aguento mais viver
Cercado de álcool!

Estou cansado de nadar
Exausto
Já nadei por quilômetros ao meu redor
Por anos e anos
Por entre os tantos barcos de gente que gosta desse mar
(e eu não gosto, nunca gostei)
E não encontrei sequer um chão onde pisar
E descansar
Neste mar alcoólico.

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