“Fazendinhas” de shopping: o que estão ensinando aos nossos pequenos?

Alguns shoppings brasileiros, diante da realidade ultraurbana das crianças das grandes cidades, muitas das quais crescem acreditando que carne, leite e ovos são fabricados do nada no supermercado, tomaram a iniciativa de montar “fazendinhas” em parte de seu interior, no intuito de diverti-las, “ensiná-las” de onde vem os produtos de origem animal da mesa onívora brasileira e pô-las em contato com o mundo rural – ainda que de forma bem limitada.
Nesses pedaços de ruralidade incrustados nas urbes, estão expostos os mais diversos animais das fazendas de verdade: bovinos, porcos, coelhos, galinhas, perus, cavalos (ou pôneis)... Pode-se andar de charrete, montar equinos, participar de pescaria, e até levar animais típicos do campo para casa. Parece muito bom e saudável mostrar à meninada acostumada com a selva de concreto um pouco da vida da fazenda...
Eu disse “parece”. Porque, na ótica da ética animal, não o é nem um pouco. Em vez de apreciação, reservo a essas “fazendinhas” de shopping uma indagação preocupada: o que estão ensinando aos nossos pequenos?
A verdade é que estão lhes naturalizando o que há de pior na relação entre seres humanos e bichos: o regime de escravidão que norteia a pecuária, as fazendas de criação de animais, a mercantilização da vida. Aprende-se, com ou sem “educadores” presentes, que os animais rurais existem para nos servir, seja como comida, seja como meio de transporte, seja como bichinhos de estimação – mesmo sendo criados em pequenas gaiolas.
Essas instalações temporárias são na verdade um complexo de exploração animal, em três sentidos: propriamente exploram os animais, trazidos de fazendas de verdade para os shoppings, obrigados a cavalgar com crianças no lombo ou na charrete e expostos a todo o barulho estressante do local; engaiolam e comercializam diversos deles e, o mais preocupante, promovem a antipedagogia ética, pautada no utilitarismo servil, induzindo as crianças a crerem que cada espécie daqueles bichos de fato “servem”, vivos ou mortos, para determinados fins – e que isso é natural, é normal, é assim que a vida funciona e deve funcionar.
Visitei recentemente uma dessas “fazendinhas”, em um shopping movimentado de uma cidade metropolitana nordestina que não revelo aqui – pode ter sido em Natal, em Salvador, em Fortaleza, em Campina Grande, em qualquer uma grande cidade do Nordeste, ou até no Recife mesmo. Abaixo descrevo minha experiência nesse tipo de lugar. Nota importante: fui justamente para observar tudo e poder descrever aqui a realidade vislumbrada, não foi por outro motivo.
Resenha do livro “Virei vegetariano, e agora?”
Um guia compacto para os vegetarianos marinheiros de primeira viagem. Esse é o livro Virei vegetariano, e agora?, do nutricionista Eric Slywitch, um dos dois mais conhecidos e renomados profissionais da nutrição vegetariana no Brasil (o outro é George Guimarães). É uma obra de que o Brasil necessitava, em tempos de ascensão do vegetarianismo.
O leitor vegetariano, que passa por desventuras frequentes numa sociedade que costuma não respeitar o não-consumo de carne e de outros derivados animais, pode encontrar nele diversas dicas muito importantes de como sobreviver socialmente no país que mais exporta carne bovina no mundo. Também vê à sua disposição um rico leque de informações nutricionais sobre como manter um vegetarianismo saudável.
De cara, no primeiro capítulo do livro, Slywitch expõe os vários motivos que levam uma pessoa a se tornar vegetariana, mas eu reconheço que senti falta de uma descrição mais rica das questões ético-filosóficas – a mais fundamental razão pró-vegetariana –, em contraste com a abundância de dados sobre razões ambientais e de saúde que justificam a adesão à alimentação ética.
Ao longo da obra, vemos diversas orientações, em especial aquelas relacionadas a comportamentos – até “foras” são sugeridos quando a pessoa perde a paciência com indivíduos que a chateiam com insistência por causa de sua opção alimentar –, formas de os próprios onívoros lidarem respeitosamente com os vegetarianos, questões nutricionais – o foco principal da profissão do autor –, desmascaramento de mitos sociais, biológicos, ambientais etc. e cartas de aconselhamento ao novo vegetariano e aos nutricionistas que ainda conhecem menos do que deveriam sobre alimentação sem carne.
Comprimidos, mitos e desinformação

Em tempos de ascensão do vegetarianismo e do veganismo entre a população brasileira e mundial, ainda temos que lidar com pessoas que, manifestando implícita ou explicitamente sua oposição a esse hábito alimentar e/ou de consumo, tentam desinformar as pessoas e atrapalhar a conscientização relacionada à exploração animal e seus impactos ambientais. Já não bastassem os polemistas e “alfacistas”, ainda hoje persistem os jornalistas que tentam pôr em xeque a sustentabilidade nutricional da alimentação sem carne, laticínios, ovos e outros derivados de animais.
Houve casos desse tipo várias vezes no jornalismo nos últimos anos, sendo a mais recente investida a do site feminino Delas, do portal IG, datada do último 10 de julho. A reportagem em questão, que critico abaixo, é intitulada “Frutas, verduras e... comprimidos?”. Buscou-se “alertar”, com mitos, argumentos mal embasados e vícios jornalísticos, para o falso perigo de subnutrição que a alimentação vegetariana poderia causar.
A princípio percebem-se várias falhas no texto: ouviu-se apenas uma especialista, ignorando-se o mandamento de ouvir uma segunda opinião em se tratando de orientação médico-nutricional; não foram procurados especialistas em nutrição vegetariana – como os muito conhecidos George Guimarães e Eric Slywitch, maiores nomes desse ramo da Nutrição no Brasil –; ao entrevistar um tatuador, procurou-se explorar implicitamente o estereótipo do “vegano underground”, que gosta de tatuagem e outros elementos culturais alternativos, reforçando a imagem inconsciente do “vegano radical e esquisitão” existente no senso comum; divulgou-se uma informação equivocada, longe de qualquer especialização científica, vinda do mesmo tatuador – ele dizendo que “dá pra viver só de legumes” –; não se mostrou nenhum dado científico ou estatístico que corroborasse as diversas acusações caluniosas levantadas.
“Hoje brasileiros podem comer bife e Danone”. Não, Dilma, isso não é nada bom
Agora brasileiros têm acesso a bife e danone, diz Dilma ao elogiar o governo Lula
Ao elogiar o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, a pré-candidata Dilma Rousseff (PT) disse nesta quinta-feira que os brasileiros reconhecem os avanços proporcionados pelos programas sociais. Em entrevista à Rádio Capital, de São Paulo, Dilma afirmou que a vida da população melhorou e, agora, as famílias podem ter à mesa alimentos que antes não teriam, como bife e danone.
- Eu recebo um retorno muito importante do que o presidente e nós todos no governo fizemos. Há por parte da população brasileira uma consciência muito grande dos avanços, porque eles tiveram um efeito direto desses programas. Melhorou a vida (...) Hoje, melhora a mesa das pessoas. Elas têm acesso a possuir alimentos que antes não tinham. É o bife... É, por exemplo, o danone - disse ela, referindo-se à marca de iogurte.
A declaração de Dilma lembra à do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, quando o govern exaltava o consumo de determinado produto, empenhando-se para fazer, por exemplo, o "ano do frango" e o "ano do iogurte".
O ganho de poder aquisitivo é bom, mas o acesso ao bife e ao iogurte não é nada agradável. O panorama de destruição ambiental causada pela dona pecuária (alô, campanhas "Carne Legal" do MPF e "Farra do Boi" do Greenpeace?) e o regime implacável de exploração animal (lembrem-se do post sobre a exploração na indústria de laticínios) não me deixam mentir.
É esse o desenvolvimento que Dilma quer? Um desenvolvimento em que a população tenha acesso relativamente livre ao consumo desenfreado de elementos que causam muita destruição e exploração assassina? Carne adoidada para tod@s às custas de milhares e milhares de hectares de floresta e milhões de vidas ceifadas de animais? Iogurte para todo mundo às custas do sofrimento de tantas mães que perdem seus filhotes forçadamente ainda em época de mama e têm seu leite usurpado pela indústria do leite?
Não, não quero esse desenvolvimento perverso, um país crescendo sobre um alicerce cheio de ossos e sangue.
Notícias que não deveriam ser divulgadas
Gordura do leite integral de vaca protege o coração contra infarto (fonte: Folha.com*)
Um tipo de gordura presente no leite de vacas alimentadas com pasto pode diminuir o risco de infartos, segundo pesquisa publicada no "American Journal of Clinical Nutrition".
A versão integral do leite contém uma gordura insaturada chamada ácido linoléico conjugado (CLA, na sigla em inglês) que, além de proteger o coração, ajuda a emagrecer.
Quando temos o real conhecimento do regime exploratório que é a pecuária leiteira e de todas as objeções éticas ao ato dispensável de se usar animais como "fontes" de alimentos, passamos a entender por que esse tipo de notícia não deveria ser divulgado.
Se você ainda não vê tanto mal assim em a pecuária usar vacas, cabras, ovelhas etc. como fontes de leite, pense direitinho: você tomaria leite humano que não fosse de sua própria mãe?
Imagine um sistema agroindustrial que forçasse mulheres a engravidar de 1 em 1 ano (vacas são inseminadas a cada 2 anos em criações mais tradicionais, mas alguns pecuaristas diminuem esse intervalo para 18 meses e desejariam diminuir para apenas 1 ano), tendo seus/suas filh@s bebês roubad@s de si -- ou em casos mais "humanitários", sendo obrigadas a dividir seu leite entre @ bebê e a ordenha, ainda assim perdendo-@s para a indústria da carne depois de algum tempo --, tendo que fornecer leite várias horas por dia.
Imagine também que diversos sistemas desse tipo, partindo para a pecuária intensiva ou semiextensiva, aprisionam essas mulheres em celas, roubam-lhes @s filh@s pequenininh@s e lhes inserem tubos de ordenha mecânica nos seios com os quais terão que viver todo o tempo, tendo essas desafortunadas mulheres que viver prisioneiras, com suas vidas fundamentalmente atreladas ao interesse da indústria -- só vivendo porque a pecuária assim quis, que elas nascessem e vivessem para lhe servir --, até a morte, que viria ainda em idade jovial, quando a agroindústria perdesse o interesse em mantê-las vivas por sua capacidade mamária e uterina ter-se exaurido e as encaminhasse para o abate.
Você tomaria leite humano, vindo dessas condições, por mais maravilhoso para a saúde que fosse segundo os anúncios da mídia?
Se responder que não, estará começando a entender por que digo que a notícia acima não deveria ter sido divulgada.
E o último parágrafo da notícia diz isso:
"Leite integral e laticínios em geral ficaram com uma reputação muito ruim nos últimos anos, por causa da gordura saturada e do colesterol, e agora descobrimos que o CLA pode ser ótimo para a saúde", disse Michelle MacGuire, da American Society for Nutrition, que publicou o estudo. "O leite integral não é o vilão."
Essa reputação ruim não é só em relação à saúde, mas também em relação a toda a exploração animal que descrevi acima (adaptada para uma imaginada pecuária leiteira humana). Infelizmente o leite ainda não vem sendo tão repudiado e abandonado como a carne, visto que a maioria da própria população vegetariana é lacto ou ovolactovegetariana, mas felizmente está crescendo bastante a população que abre os olhos também para as questões éticas do leite e se torna vegetariana completa e vegana.
O leite pode não ser tanto assim um vilão da saúde -- muito embora venham sendo omitidas pela mídia questões de resposta pendente como a suscetibilidade de quem consome leite a problemas como alergias, acúmulo de catarro e constipação intestinal crônica --, mas é, com riqueza de provas, um vilão da ética, uma poderosa causa que estimula a exploração animal -- inclusive muitas pessoas dizem que a exploração leiteira é ainda mais cruel que a exploração pecuária pela carne.
*Justamente por essa sequência de posts ser de notícias que não deveriam ser divulgadas, não vou publicar o link de origem nem a íntegra delas. Caso queira lê-las na íntegra, procure no Google Notícias ou no site cujo nome eu disser como fonte.
ONU recomenda vegetarianismo completo pela preservação ambiental
ONU recomenda dieta vegana para compater mudança climática
Uma mudança global para uma dieta vegana é vital para salvar o mundo da fome, pobreza de combustíveis e os piores impactos da mudança climática, diz um novo relatório da ONU. A previsão é de que a populção mundial chegue a 9.1 bilhões de pessoas em 2050 e o apeite por carne e laticínios é insustentável, diz o relatório do programa ambiental da ONU (UNEP).
A agricultura, particularmente produtos de carne e laticínios, é responsável pelo consumo de cerca de 70% da água doce do mundo, 38% do uso de terra e 19% das emissões de gases estufa, diz o relatório que foi lançado para coincidir com o dia do meio ambiente no próximo sábado (05 de junho).
Diz o relatório: “Espera-se que os impactos da agricultura cresçam sustancialmente devido ao crescimento da população e o crescimento do consumo de produtos animais. Ao contrário dos combustíveis fósseis, é difícil produzir alternativas: as pessoas têm que comer. Uma redução substancial de impactos somente seria possível com uma mudança de dieta, eliminando produtos animais.”
O painel de especialistas categorizou produtos, recursos e atividades econômicas e de transporte de acordo com seus impactos ambientais. A agricultura se equiparou com o consumo de combustível fóssil porque ambos crescem rapidamente com mais crescimento econômico, eles disseram.
Professor Edgar Hertwich, o principal autor do relatório, disse: “Produtos animais causam mais dano que produzir minerais de construção como areia e cimento, plásticos e metais. Biomassa e plantações para animais causam tanto dano quanto queimar combustíveis fósseis.”
Ernst von Weizsaecker, um dos cientistas que lideraram o painel, disse: “Crescente afluência está levando a um maior consumo de carne e laticínios – os rebanhos agora consomem boa parte das colheitas do mundo e, por inferência, uma grande quantidade de água doce, fertilizantes e pesticidas.”
A notícia já fala por si só.
Não sabe bem ainda o que é veganismo? Veja este vídeo
Vídeo encontrado no YouTube que fala sobre veganismo. Desejo a você boa reflexão.
Obs.: é um vídeo explicativo, não tem cenas fortes.
Conscientização veg(etari)ana e feijoada vegana na Band
A Band, há alguns meses, divulgou uma reportagem sobre o veganismo, dando as noções básicas sobre esse estilo de vida ético. Agora (hoje ou ontem) ela trouxe algo que vai mais além: um pouco sobre veganismo e explicações de George Guimarães sobre a pecuária e o consumo de carne (e outros derivados animais).
Só que George Guimarães cai na falha de dizer que para ser vegan@ basta retirar os animais apenas da alimentação.
Expoagro: Delos é aqui
Expoagro deve movimentar R$ 4 milhões em negócios
Mil animais, entre cavalos, bois e vacas estarão em exposição desta quarta-feira (14) até o próximo domingo (18), no Parque do Cordeiro, no Recife. É a Exposição de Animais e Produtos Derivados (Expoagro). Os portões abrem as 9h e a entrada é gratuita.
A expectativa é de que a feira movimente cerca de R$ 4 milhões, entre venda de animais, produtos, shows e realização de quatro leilões. O público esperado é de 30 mil pessoas.
A feira é promovida pela Associação dos Criado[re]s de Pernambuco (ACP), juntamente com o Governo do Estado, por meio da Secretaria de Agricultura e Reforma Agrária (Sara). Além da parte de negócios, este evento contará com uma tenda de shows, com apresentações de grupos de forró pé-de-serra. Pela primeira vez, no domingo (18), haverá a participação da Orquestra Sinfônica do Recife. A entrada é gratuita.
Os leilões acontecem de acordo um calendário. O Leilão Mangalarga Marchador acontece na quinta-feira (15), às 20h. O Leilão Haras Preto e Branco, na sexta (16). Neste, serão apresentados animais da raça Campolina. Já no sábado (17), é a vez do Leilão de Caprinos e Ovinos. Os lances são abertos.
“Nós vamos apresentar animais geneticamente melhorados, com ótimo aproveitamento. Os animais custam, em média, R$ 20 mil”, disse o presidente da Associação dos Criadores de Pernambuco, Manassés Rodrigues.
No sábado (17), às 13h, será realizado o 6º Leilão Recife Show, que apresenta caprinos e ovinos selecionados. Também no sábado, a partir do meio-dia, será realizado o 12º Remate e Quarto Top Baby da Coqueiral.
Para quem não sabe, o que é (ou era) Delos, foi uma cidade insular da Grécia Antiga, que mantinha um rico comércio de escrav@s human@s. Segundo um livro que li (As Grandes Civilizações Desaparecidas, Readers' Digest, 1981), @s escrav@s tinham penduradas em seu pescoço placas que falavam de suas qualidades e defeitos e indicava o valor da pessoa em dinheiro.
Pois bem, enquanto em Delos escrav@s human@s eram expost@s e comercializad@s, Recife sediará de hoje até domingo um mercado e exposição de escrav@s animais. Bichos rurais bovinos, caprinos, ovinos e equinos serão expostos e vendidos como mercadorias, tratados como coisas cujas vidas nada mais seriam que um mero funcionamento mecânico controlado pelos interesses d@s seus/suas "proprietári@s". Há também a venda de seus "derivados", que se tratam de pedaços de seus corpos (carne e couro), secreções (leite e provavelmente ovos) roubadas de mães -- que provavelmente tiveram seus bezerrinhos roubados para que os pecuaristas pudessem extrair o leite que originalmente servia para alimentar filhotes -- e lã de ovinos cujos corpos servem tanto quanto plantações de algodão para fornecer "tecido".
Hoje esse mercado que explora, escraviza, mercantiliza e "mecaniza" animais acontece por aqui impune, livre da interferência de quem zela pelos direitos animais. Mas é de se esperar que, em algum dos próximos anos, começaremos a entrar nessa exposição, em todas as suas edições futuras, protestando contra essa versão animal não-humana dos mercados de Delos, tal como lá no Sudeste protestam todos os anos no "McDia Feliz" contra a sustentação da McDonald's na indústria frigorífica.
Animais não-humanos não podem falar, não podem se organizar e rebelar contra quem os têm como propriedade, como escravos. Sua defesa só pode vir de fora -- no caso, de nós defensoræs de seus direitos.
Enquanto isso, leia o artigo que preparei numa "homenagem" às anuais Expoagro e Exposição Nordestina de Animais e Produtos Derivados:
E leia esse também, que também trata do duplipensar daquelas pessoas cuja alimentação depende desse sistema de exploração, escravidão e mercantilização:
Reflexão sobre o duplipensar moral onívoro
Delos é aqui!
Publicado originalmente em novembro de 2008, pela Exposição de Animais do Recife daquele ano. Adaptei o texto para a Expoagro 2010.
Esta semana, a versão recifense, moderna e incrementada do antigo mercado grego de Delos tem sua temporada 2010. Trata-se da famigerada Expoagro (Exposição de Animais e Produtos Derivados) no bairro do Cordeiro, em Recife, onde os atuais escravos dos humanos são expostos, tratados e vendidos como objetos de valor monetário e troféus. Só que, ao contrário do mercado original, da Grécia Antiga, os servos não são mais humanos, mas sim das mais diversas espécies de animais domesticados.
Os escravos são separados e distinguidos de acordo com as raças, com a qualidade de cada uma destas exaltada ou criticada. É como se fossem objetos de marca. Uma geladeira Brastemp tem como características vantajosas em relação às outras marcas isso, isso, aquilo e aquele outro negocinho. Já um cavalo da raça mangalarga, deixe-me ver... tem como vantagens em relação às demais raças isso, isso, aquilo e esse outro negocinho. Qual a diferença para os pecuaristas entre o objeto inanimado e o “objeto vivo”?
Eles são expostos – afinal, é uma exposição, né? “Vejam que animal bonito, forte e eficiente!”, é o que muitos dizem na exposição sobre certos bichos, como se estes fossem aparelhos utilitários cujos inventores capricharam no design. Uma vaca é tratada como nobre, não por ser considerada dotada de alma, consciência, psique ou sentimento, mas porque gera muito leite, porque é geneticamente bem desenvolvida, ou porque sua carne é das melhores. Suas vidas, seu valor intrínseco como seres vivos sentimentais, não são nada, para o expositor eles são apenas máquinas, autômatos, robôs que não têm valor nenhum quando não estão sob o jugo humano.
São postos em concursos e desfiles. Não são modelos que entraram por vontade própria numa carreira consolidada pela beleza física, mas sim postos ali como se fossem esculturas animadas a serviço e benefício do seu... como é que o seu senhor diz mesmo ser?... Ah, sim, do seu “dono”. O animal mais bonito, musculoso, bem tratado, etc. é o vencedor, do mesmíssimo jeito que uma obra de arte. Bem que poderiam dizer que aqueles animais são “esculturas de Deus”, mas nem assim é. É que para os pecuaristas da exposição só os humanos têm “alma”, “espírito” ou qualquer coisa etérea imaginada como motriz de uma vida sensível. Aqueles bichos são apenas autômatos, ao melhor estilo do teórico econazista René Descartes. São servos cujos atributos servem aos “donos” deles como elementos premiáveis.
Como virei vegetariano: uma história pessoal
Como anunciado no post sobre os meus 2 anos de blogueiro, conto a vocês a história de minha vegetarianização, cuja data de marco foi 24 de agosto de 2007. Embora eu tenha parado de comer carne literalmente da noite pro dia, minha visão dos animais já vinha amolecendo desde dois anos antes.
Relato pessoal: como e por que eu me tornei vegetariano
Cada pessoa tem sua experiência única de vida que a leva ao vegetarianismo e, em seguida, ao veganismo, embora possa haver pontos em comum entre as histórias de várias, como ter assistido ao documentário A Carne É Fraca ou visitado um matadouro, e a trajetória de alguém possa inspirar outras pessoas. Para você entender melhor o vegetarianismo, para compreender a visão de quem não põe mais alimentos de origem animal na boca, vale a pena começar a ouvir ou ler os depoimentos de vegetarianos sobre como passaram a adotar uma alimentação ética, ou pelo menos como venceram o desafio de acabar com a carne nas refeições. Assim sendo, trago o meu relato pessoal sobre como virei vegetariano – tornei-me vegano não muito tempo depois.
A data da minha mudança de atitude alimentar foi 24 de agosto de 2007, depois de uma noite e madrugada de séria reflexão que mudaria para sempre meu prato e minha vida. Mas vale contar a partir de quando tive o primeiro contato na internet com grupos de defesa dos animais para entender como a ideia de me tornar vegetariano progrediu. Foi em março de 2005, no Orkut, em comunidades como “PEA - Projeto Esperança Animal” e “Eu Odeio Rodeio” (hoje “Somos Contra Rodeio”).
Tal contato se deu durante a campanha conjunta de diversas entidades de defesa animal contra a novela América, que estava perto de estrear na TV Globo e faria apologia aos rodeios. Compreendi e absorvi rapidamente as informações que passavam às comunidades antirrodeio do site, tais como a tortura a que o animal era submetido pelos instrumentos do rodeio (sedém, esporas, aparelhos de choque elétrico ilegais etc.).










