Minha teoria ambiental: o que penso hoje sobre o meio ambiente

Minha teoria ambiental: o que penso hoje sobre o meio ambiente

Mata atlântica no município de Bonito/PE

Índice

– Introdução: a necessidade pessoal de um norte teórico
– O que é meio ambiente?
– O que é sustentabilidade?
– O que são recursos naturais?
– Até onde é eticamente válido tratar a Natureza como uma fonte de recursos?
– O meio ambiente é de alguém? (é da humanidade?)
– Qual a importância da Educação Ambiental? E como ela deveria agir?
– Ambientalismo: como deveria ser o enfoque das ONGs defensoras do meio ambiente?
– O que eu acho da gestão ambiental?
– Por que eu não me identifiquei com a gestão ambiental?
– Direitos Animais e meio ambiente
– Veg(etari)anismo e meio ambiente
– Medidas individuais de hábito e coletivas de mobilização: quais as mais importantes?
– Sobre o desenvolvimentismo dos governos centristas contemporâneos em Pernambuco e no Brasil
– Considerações finais
– Notas

 

Introdução: a necessidade pessoal de um norte teórico

Ter um norte teórico é essencial para quem quer opinar e conscientizar sobre determinado tema. Portanto, se quero falar de meio ambiente e atuar no ambientalismo, preciso ter uma teoria sistemática que fundamente meu ponto de vista e meus esforços de mostrá-lo e até convencer e influenciar as pessoas.

Elaboro aqui minha teoria, minhas opiniões sobre o meio ambiente em seus conceitos e temas, sendo elas passíveis de discussão e discordâncias assim como qualquer esquema teórico. Portanto, serei grato a quem contribuir para alargar e aprimorar a visão que se desenhou no texto abaixo.

Vale dizer também que trabalho com conceitos e questões que, longe de terem qualquer consenso, dependem não só de fatos objetivos, como também visões subjetivas que potencializam (ou minimizam) nossa preocupação com a dimensão ambiental e impelem pessoas como eu a preferir trabalhar com meio ambiente a outras áreas de conhecimento. Portanto, minha definição pessoal de meio ambiente, sustentabilidade e outras abstrações conceituais pode diferir daquelas pensadas pela maioria das pessoas, e está aberta ao debate.

 

O que é meio ambiente?

Na minha monografia de Gestão Ambiental [1], eu defini meio ambiente, a partir da leitura de autores como Marcos Reigota, Isabel Carvalho e Carlos Loureiro, como:

um todo constituído a partir da interação constante de fatores bióticos, abióticos e antrópicos e de elementos naturais, geográficos e sociais, abrangendo tanto ecossistemas pouco alterados pela ação humana como espaços intensivamente modificados, explorados e influenciados pela mesma.

Quando me refiro a “fatores antrópicos”, quero dizer que o ser humano também é parte integrante do meio ambiente, a despeito de quem manifesta visões ecológicas misantropicamente radicais e é pego às vezes desejando a extinção da humanidade. É certo que a espécie humana, desde a Era do Gelo, vem causando ou influenciando a extinção de milhares de espécies de animais não humanos, desde os mamutes e megatérios até os dodôs e ararinhas-azuis, e causando uma degradação de ecossistemas jamais vista nos últimos milhões de anos. Mas nem por isso deve ser excluída em suas necessidades e anseios das discussões e políticas ambientais.

Minha concepção de meio ambiente é globalizante, se considerarmos que, segundo Reigota [2], há três tipos de concepções ambientais: antropocêntrica (que privilegia a utilidade dos recursos naturais para a sobrevivência do ser humano), naturalista (que evidencia somente os aspectos naturais do meio ambiente, podendo às vezes excluir os seres humanos das sociedades modernas como se fossem seres extra-ambientais) e globalizante (que evidencia as relações recíprocas entre natureza e sociedade).

 

O que é sustentabilidade?

De acordo com as definições mais reconhecidas de sustentabilidade, posso defini-la como um estado de coisas em que o ambiental, o social e o econômico são fundamentalmente interligados, interdependentes e harmônicos entre si, promovendo permanentemente boas condições de vida para os seres humanos e a integridade do meio ambiente não humano.

Por ambiental, compreenda-se como a coexistência simbiótica entre a humanidade, com seu potencial tecnológico íntegro, e o meio ambiente não humano. Por social, leia-se um mínimo de igualdade social que permita a todos atender suas necessidades básicas – ter boa renda financeira, lazer, habitação decente, mobilidade, acesso a tecnologias essenciais para a vida moderna, educação e saúde de bom nível, justiça confiável etc. Por econômico, entenda-se um sistema econômico que promova a igualdade, a moderação e o atendimento das necessidades materiais de toda a sociedade e faça a economia crescer de forma racionalizada e condicionada a limites socioambientais.

Assim sendo, são sustentáveis apenas aquelas sociedades que tenham simultaneamente boas condições ambientais, sociais e econômicas. Um país que bate recordes de crescimento econômico e provê conforto social para seus habitantes mas o faz às custas de degradação ambiental não é sustentável. Da mesma forma, não podemos considerar sustentável uma sociedade que atende a bons parâmetros de preservação ambiental mas não consegue utilizar sua confortável condição ecológica para promover justiça social e prosperidade econômica.

Considerando o que está dito acima sobre o prerrequisito de um sistema econômico ser pró-sustentável, o capitalismo é claramente insustentável, visto que tem entre seus fundamentos:

a) a desigualdade social – torna necessário haver gente muito rica para, por exemplo, comandar grandes empresas e gente pobre e carente, guardada em exércitos industriais de reserva e disposta a trabalhar por baixos salários sob o comando desses muito ricos;
b) o consumismo – é “preciso” comprar e comprar e consumir e consumir, mesmo que sejam produtos desnecessários, porque a compra e consumo compulsivos são as meninas-dos-olhos da prosperidade de uma economia capitalista;
c) o crescimento econômico ilimitado.

Sem essas três características, o capitalismo deixa de ser capitalismo e passa a ser um outro sistema econômico.

 

O que são recursos naturais?

Em minha concepção, recursos naturais são matérias-primas que, obviamente originadas na Natureza, podem ser aproveitadas pelo ser humano na satisfação de suas necessidades, desde sua subsistência até suas atividades de sociedade complexa (extrativismo, agricultura, artesanato e manufatura, mineração, indústria, comércio, serviços etc.).

Podem ser recursos naturais, por exemplo, a água potável; a madeira das árvores; os frutos, sementes, flores, folhas, caules e raízes das plantas agricultáveis; as folhas utilizáveis pelo artesanato, pela manufatura e pela indústria; os minerais aproveitáveis pelo ser humano (petróleo, gás natural, ferro, alumínio, aço, ouro, níquel etc.); as substâncias de origem vegetal, mineral, fúngica, algal e microbiana utilizadas na síntese laboratorial de outras substâncias de uso humano.

Animais, eticamente, só podem ser mortos para fins de subsistência e produção humana quando os humanos que lhes fazem algum uso vivem de maneira relativamente análoga aos demais animais de seu ambiente. Ou seja, povos aborígenes, que atuam imprescindivelmente como predadores (caçadores, pescadores e coletores de insetos) e não podem substituir seus nutrientes e objetos extraídos ou produzidos a partir de corpos de animais com alimentos ou matérias-primas de origem não animal.

Ou seja, nas sociedades modernas, plenamente capazes de assimilar a filosofia ética dos Direitos Animais, animais não são fontes válidas de recursos naturais. O que torna a pecuária, a pesca, as culturas de insetos (abelhas, bichos-da-seda, cochonilhas etc.) e a caça não aborígene atividades eticamente questionáveis e interditáveis a longo prazo.

 

Até onde é eticamente válido tratar a Natureza como uma fonte de recursos?

É muito antiga a visão antropocêntrica da Natureza no Ocidente como provedora a serviço da humanidade. Seja como entidade universal viva e sagrada, seja como algo análogo a uma jazida inerte de matérias-primas, acaba-se tendo a impressão de que ela tem algum compromisso conosco.

Isso quando na verdade nós é que precisamos firmar compromissos autênticos com a parcela não humana do meio ambiente. O compromisso de extrair dela apenas aquilo que é essencial à nossa existência, aquilo que não é desnecessário para a nossa integridade; o de garantirmos a continuidade e a integridade de nossa existência sem que ameacemos as da Natureza não humana.

De fato somos obrigados a usufruir da Natureza como fonte de recursos naturais para sobrevivermos, visto que não existe uma “não Natureza”, mas devemos ter em mente que ela não está aí para nos servir, para pôr seu “corpo” a nosso livre serviço de modo que podemos usá-la anômica e perdulariamente. Ela não é submissa a nós; nós é que lhes somos submissos – assim deveríamos ter em mente.

Assim sendo, não há nada intrinsecamente errado em falar que extraímos da Natureza recursos naturais. Mas devemos evitar o vício de pensarmo-na como uma fonte de recursos a nosso serviço – como se fosse uma serva nossa –, ou como nada mais que uma jazida de matéria-prima. Essa visão pode nos ofuscar a responsabilidade de tratar o meio ambiente com o respeito devido e acaba nos levando ideologicamente a uma obtenção de recursos desregrada e libertina – ou seja, à exploração violenta daquela que temos como “escrava”.

 

O meio ambiente é de alguém? (é da humanidade?)

Costuma-se dizer muito frequentemente expressões como “temos que preservar o nosso verde”, “a natureza é de todos nós, não só dos ruralistas”, “precisamos cuidar do que é nosso” etc. Observo que essa visão da Natureza expressa pela palavra “nosso(a)” é muito antropocêntrica e relega-a ao atributo de propriedade da humanidade. Dá a impressão de que o meio ambiente é de alguém – dos seres humanos – e tem funções utilitárias centradas no deleite humano – como fornecimento de matérias-primas e alimentos; atração turística; provisão de ar puro, água e outros elementos etc.

Em suma, dizer que a Natureza é “nossa” é insinuar que ela é nossa propriedade, não nossa mãe, e está meramente a nosso serviço. Quando na verdade nós é que somos da Natureza, pois somos parte dela, seres dependentes e subordinados a ela. Se ela não nos puniu ainda por nossa petulância de tratá-la com abuso e escravismo, é questão de tempo que surja uma punição derradeira a causar o colapso da humanidade ou a fazê-la mudar à força seu jeito de ser e de tratar sua mãe – a punição mais iminente hoje em dia são as mudanças climáticas.

Diz-se que ela é “nossa” porque usufruir de seus elementos e recursos é direito de toda a humanidade, não apenas de determinadas categorias (latifundiários, barões do petróleo, madeireiros etc.) que extraem tanto que acabam suprimindo a oportunidade de outros fazerem-no também. Dizer “A Natureza é nossa!” é um lembrete de que é universal entre a humanidade o direito de acesso aos recursos naturais, incluindo o ar e a água. Mas acaba, como efeito colateral e também como provável reflexão do inconsciente coletivo, reafirmando a visão antropocêntrica que a sociedade ocidental tem acerca do meio ambiente, a secular posição da civilização euro-americana de arrogar propriedade sobre ele.

Por isso digo que afirmar que o meio ambiente é “nosso” é um vício de linguagem que o reduz à qualidade de posse da humanidade. Deveríamos preferir dizer que o direito à Natureza é nosso, de todos nós, não que “a Natureza é nossa”.

 

Qual a importância da Educação Ambiental? E como ela deveria agir?

A Educação Ambiental (EA) tem literalmente o potencial de salvar o mundo do ecocídio, poluição e desperdício causados pela humanidade. Se/quando aplicado das formas “adequadas” [3], poderá transformar a ética das sociedades modernas, transformando o atual sistema antropocêntrico que escraviza a Natureza em um paradigma a reconhecer a humanidade como parte integrante dela, como entidade a ela subordinada e dependente, e lhe amarrar um compromisso perpétuo de respeito e simbiose.

A EA, desde que adotando metodologias e paradigmas que vençam as limitações e vícios dos métodos tradicionais conservacionistas, naturalistas, antropocêntricos e “bancários” [4], poderá influenciar pessoas de todas as idades a repensar desde seus hábitos individuais [como o manuseio (regrado ou anômico) do lixo, (não) compra de objetos industrializados praticamente desnecessários, (evitação do) desperdício de alimentos e (não) consumo de alimentos de impacto ambiental pesado] a seu comportamento como partes integrantes de uma coletividade atriz social [o (não) exercício ativo da cidadania, a (não) participação de movimentos socioambientais, o voto (in)consciente etc.].

É algo que os métodos convencionais, infrequentes e baseados em visões conservacionistas e antropocêntrico-naturalistas, foram/são incapazes de fazer: transformar os atores sociais de dentro e fora da escola em sujeitos ecológicos [5].

Para mim, a EA ideal é aquela que atenda a todos os pontos abaixo:

a) propague uma visão ecológica globalizante, incluindo a humanidade no conceito de meio ambiente;
b) mescle social e ambiental num só sistema, ligando pobreza, desigualdades sociais, interesses de classe, política pública, mobilidade, habitação etc. a desmatamento, poluição, desperdício de recursos naturais, supressão de biodiversidade etc.;
c) transforme educadores e educandos em, respectivamente, educadores-educandos e educandos-educadores – ou seja, permita a todos aprender e ensinar ao mesmo tempo e substitua o ensino hierarquizado vertical pela educação horizontalizada;
d) traga ao ambiente de ensino (que pode ser a escola ou qualquer outro lugar onde esteja sendo ensinada a EA) a problemática socioambiental local e mostre como trabalhar o local é importante para se alcançar os problemas globais;
e) permita também a discussão ontológica de conceitos como meio ambiente, Natureza, sustentabilidade, desenvolvimento sustentável, sujeito ecológico, política ambiental etc., visto que eles, estando longe de qualquer consenso absoluto, podem ser aprimorados com o embate de ideias e pontos de vista;
f) use visões de mundo holísticas, sejam elas religiosas ou seculares, que superem as dicotomias humanidade-ambiente natural, humano-não humano e científico-transdisciplinar;
g) lance mão da inter e transdisciplinaridade, de modo a tornar a EA uma rede a ligar todas as disciplinas mais o conhecimento extraescolar e extra-acadêmico;
h) trabalhe adequadamente com quem tem dificuldades de adotar comportamentos ecológicos individuais e coletivos.

 

Ambientalismo: como deveria ser o enfoque das ONGs defensoras do meio ambiente?

Entre a população não aderente às ONGs ambientalistas, há várias queixas – cuja maioria posso considerar como minhas também – ao modus operandi delas, como as seguintes:
– Grande parte das ONGs parecem querer mais aparecer para as câmeras do que efetivamente defender o meio ambiente. Isso é percebido quando certos grupos relevam muito mais as ações de notoriedade midiática, como pendurar cartazes gigantes em monumentos e defender causas carismáticas como a preservação da Amazônia e o salvamento dos micos-leões, em detrimento de métodos mais “escondidos” como a promoção local de oficinas de Educação Ambiental, o estabelecimento de fóruns populares e a defesa de biomas patinhos-feios como Caatinga, Cerrado e Araucárias;
– Parece-se evitar o diálogo amplo com a sociedade em geral. Muitos protestos ecologistas reúnem uma maioria de pessoas que já militam na causa (socio)ambiental e apenas uma minoria de cidadãos comuns. São escassos e limitados os canais de interação entre ONGs e sociedade – muitas vezes as organizações não disponibilizam a público telefones, e-mails funcionais, newsletters ou perfis de redes sociais, muito menos grupos de discussão regularmente fomentados;
– Usa-se uma visão naturalista, que separa o ambiental do social, o verde florestal das necessidades das populações urbanas e rurais. O que se reflete quando percebemos que poucas ONGs estabelecem canais de diálogo largos entre temáticas como desmatamento e poluição e problemas como a pobreza e os conflitos de interesses;
– Pouco se faz para tornar próximos de nós problemas que acontecem a dezenas, centenas ou milhares de quilômetros de nossos lares. Isso acaba inibindo a empatia e solidariedade da maioria das pessoas, que pensam: “Isso está acontecendo a 1500km da minha cidade, como é que isso pode afetar diretamente a minha vida e me interessar de verdade?”. Reflete-se, por exemplo, na apatia dos citadinos em relação a questões da ruralidade como o desmonte do Código Florestal (ainda que este também tenha implicações urbanas, pouco discutidas);
– A Educação Ambiental provida pela maioria das ONGs é muito limitada, às vezes restringindo-se a eventos pontuais – como exposições fotográficas e audiovisuais que duram poucos dias –, atos de panfletagem e breves exposições na mídia. O que limita muito a eficácia e popularidade das ações dessas entidades.

Proponho a mudança dessas práticas, com a adoção de novos enfoques e métodos:

– promoção permanente de Educação Ambiental globalizante, horizontal e devidamente localizada;
– promoção de uma EA que aproxime, por exemplo, a Amazônia dos centro-sulistas e dos nordestinos e os manguezais dos sertanejos, indicando-se a influência direta e indireta a curto, médio e longo prazo da degradação desses locais na vida de quem mora longe;
– reconhecimento da inclusão da humanidade no conjunto da Natureza e abraçamento de causas urbanas – exceto se, por exemplo, a vegetação silvestre for o foco único da entidade –, começando-se a juntar, por exemplo, o ativismo antipoluição e antidesmatamento e a militância contra a miséria;
– abertura de canais largos de diálogo entre terceiro setor ambientalista e sociedade, através da criação de telefones, e-mails e newsletters funcionais, perfis e grupos ativos em redes sociais e fóruns permanentes de discussão online e offline, podendo-se discutir, entre outros assuntos, a revisão e ampliação das causas, objetivos e métodos das entidades;
– cooperação entre ONGs ambientalistas, escolas, universidades, movimentos sociais e associações de moradores;
– regionalização de focos e objetivos, no caso das entidades nacionais e internacionais – por exemplo, o Greenpeace poderia, através de sua filial pernambucana, incluir a defesa da caatinga, dos manguezais, da mata atlântica, da agricultura sustentável, da coleta seletiva e da universalização do saneamento básico, em adição às metas internacionais já estabelecidas.

Com essas mudanças, seria muito provável a população começar a aprovar e apoiar mais os movimentos ambientalistas e inibir-se as más impressões que se tem dos mesmos em sua atuação.

 

O que eu acho da gestão ambiental?

A gestão ambiental (GA), cujo curso tecnológico eu concluí em 2008-2009, é uma faca de dois gumes. Ao mesmo tempo em que é uma forma de tornar o capitalismo menos perigoso ao meio ambiente, diminuindo consideravelmente a poluição, destruição e desperdício que ele causa, planta em muitas pessoas pouco esclarecidas a ilusão de ser uma panaceia ecológica para o sistema atual, aquilo que faltava para tornar a sociedade pós-industrial realmente sustentável.

No curso que eu fiz, dava-se às vezes a impressão de que a GA teria o potencial de livrar as sociedades modernas da necessidade de repensar e mudar profundamente seu modelo civilizatório. Poder-se-ia pensar: se a GA pode disciplinar nosso sistema industrial capitalista, otimizando o consumo de energia e combustíveis fósseis, diminuindo a níveis aceitáveis a emissão de gases-estufa, controlando permanentemente a poluição, fiscalizando cada empresa para que não se volte mais a degradar o ambiente, reaproveitando o lixo, reusando a água, dando destinação segura aos efluentes líquidos, ajudando fazendeiros a manter sua reserva legal etc., que necessidade haverá de destronarmos o capitalismo industrial-financeiro se ele estará sob estrito controle?

Ofusca-se o fato de o capitalismo ter o desperdício consumista, a falta de limites para o crescimento econômico e as desigualdades sociais como princípios intrínsecos. Se deixa de exaltar a ganância por lucros mais e mais altos, o gasto imponderado de dinheiro pelos consumidores – para o fomento desses mesmos lucros –, o crescimento ilimitado da economia nacional e global e a desigualdade social que leva, por exemplo, à construção de favelas e à especulação imobiliária, já não é mais capitalismo, pelo menos tal como o conhecemos hoje.

Posso dizer que a GA está para o sistema capitalista industrial assim como o bem-estarismo está para a exploração animal. Ambos são soluções paliativas que diminuem as crueldades óbvias desses sistemas e tornam-nos aceitáveis ao senso comum, mas mascaram a essência destrutiva deles.

Não quero, no entanto, dizer que a GA é dispensável ou nociva, que não deveríamos ter sistemas de GA nas empresas. Isso seria completamente sem noção. Mas preciso relevar que ela não é a solução permanente para a historicamente destrutiva relação dos seres humanos com o restante da Natureza, mas sim uma medida paliativa, que impede um avanço ainda pior da destruição sobre a biosfera. Ela é necessária enquanto não se revê o modelo civilizatório das sociedades modernas, mas deve-se encarar que não é nem será o bastante para tornar aceitável o sistema atual.

 

Por que eu não me identifiquei com a gestão ambiental?

Em primeiro lugar, porque sou adepto da porção da dimensão ambiental reservada às ciências humanas, e no meu curso essa área foi muito pouco valorizada. Deu-se prioridade máxima aos aspectos técnicos (biologia, química, gestão de resíduos, controle da poluição, auditorias, certificações, instrumentos de gestão, sistemas de informações geográficas, sensoriamento remoto etc.) e político-administrativos (política, administração, marketing, economia, legislação, planejamento etc. ambientais; gestão urbana; gestão de unidades de conservação etc.).

Paralelamente, deu-se pouca ênfase à Educação Ambiental, em cujo módulo (2º período) sequer houve aulas realmente práticas que nos fizesse experimentar momentos de educadores ambientais, e à teoria da sustentabilidade.

Descobri minha vocação para a sociologia e a EA em 2008, meu último ano no então Cefet-PE (hoje IFPE), e percebi que ela se distanciava dos acima descritos nortes prioritários do curso. Na verdade, até então eu não sabia de verdade o que queria da vida, havia entrado ali como uma aventura, mantendo a ingenuidade da adolescência de me imaginar em trabalhos “fantasiosos”, que não condiziam com minhas habilidades reais nem com a realidade vigente.

Para ter uma ideia daquela imaturidade vocacional, aos 16 anos, tentei Ciência da Computação no vestibular (e felizmente não passei) porque me imaginava ajudando a construir uma “Matrix”, e aos 18 fiz GA imaginando trabalhar como gestor de coleta seletiva, sem nunca ter tido qualquer noção desse emprego, ou como um reflorestador que heroicamente expandiria a mata atlântica sobre áreas de latifúndio, carecendo de qualquer interesse em Biologia ou Engenharia Florestal e desconhecendo que a maioria dos latifundiários nutrem uma grande repulsa pela ideia de, num futuro provável, ter que ceder uma porcentagem de suas terras ao reflorestamento, à restauração de antigas áreas de ecossistema desmatadas – aliás, hoje em dia o que os latifundiários querem é diminuir ainda mais as reservas legais que são obrigados por lei a conservar, vide o fatídico projeto ruralista do novo Código Florestal.

Ou seja, tinha tudo para sair daquele curso sem nenhum preparo ou mesmo interesse profissional legítimo. Foi o que aconteceu, exceto pela influência permanente do segundo módulo da grade curricular (reservado à EA). EA à parte, terminei o IFPE despreparado e desinteressado para qualquer emprego que requeresse formação em GA. Em outras palavras, o diploma que eu vou receber (eu o requisitei apenas em setembro de 2010) valerá apenas como um título genérico que me permitirá inscrever nos difíceis concursos públicos de nível superior que pedem qualquer graduação – nem para me inscrever em pós-graduações em áreas de meu interesse (Sociologia, Educação etc.) o diploma de GA me serviu.

Em qualquer concurso público ou emprego privado que peça especificamente graduação em tecnologia em GA, não terei a mínima condição de ser selecionado. Teria que estudar e aprender tudo de novo (aliás, praticamente nada fora do básico aprendi ali, porque não me interessei) sobre os já citados aspectos técnicos e político-administrativos dessa multidisciplina.

Como prova material da minha não vocação para a GA, em 2010 inventei de fazer a prova de seleção do mestrado em Desenvolvimento e Meio Ambiente, no PRODEMA da UFPE. É um mestrado que, soube eu depois de ter me inscrito, se centra em GA e política ambiental. A primeira etapa, que foi a prova eliminatória, centrou a maioria de suas questões justamente na GA voltada para a realidade nordestina. Resultado: minha nota foi 1,8, a segunda pior dentre todos os candidatos. Confirmando assim que GA definitivamente não é minha praia, ou seja, cursei o curso “errado” – se bem que, na época, não havia curso certo para mim -, embora os colegas, amigos e professores que conheci tivessem sido tudo menos “errados”.

Com o passar do tempo, descobri que quero mesmo trabalhar em meio ambiente. Mas não como gestor ambiental. E sim nas áreas de EA e teoria socioambiental.

 

Direitos Animais e meio ambiente

No passado, já tentei teorizar uma relação simbiótica entre Direitos Animais e a dimensão ambiental. Foi no artigo chamado Ambientalismo e Direitos Animais: uma simbiose fraternal. E continuo parcialmente pensando como na época em que o escrevi: o reconhecimento legal dos Direitos Animais terá uma implicação muito positiva para o meio ambiente.

Porque parte quali e quantitativamente importantíssima das atividades de exploração animal, como pecuária, pesca, caça e captura de animais silvestres, possui um impacto ambiental extremamente pesado, causando desmatamentos em massa, poluição, emissão de gases-estufa, ecocídios nos mares, ameaça de extinção para milhares de espécies de animais etc. O vegetarianismo e o veganismo, que boicotam essas práticas, terão efeitos muito acalentadores para a biosfera, conforme falo mais abaixo.

Mas não podemos dizer que há uma relação perfeita entre essas duas dimensões. O primeiro pomo da discórdia é a questão das espécies invasoras: enquanto os ambientalistas em grande parte defendem o massacre de animais exóticos para salvar o ecossistema nativo – como camelos e coelhos na Austrália –, os defensores dos bichos clamam para que não haja essas matanças e enfatizam que a culpa das invasões de espécies exóticas é do ser humano, que as introduziu nos lugares errados com o fim de explorá-los e matá-los comercialmente.

Outro ponto polêmico são os desmatamentos compensáveis, como na construção ou alargamento de rodovias. Os ambientalistas, com exceção dos mais radicais, permitem que se desmatem pequenas áreas desde que uma extensão igual ou maior do mesmo bioma seja reflorestada em área próxima. Mas os defensores dos Direitos Animais podem, nesses casos, alegar que o desmatamento causará morte massiva e sofrida à fauna local.

É fato que nenhum Estado hoje em dia, quando quer desapropriar uma determinada área para alguma grande obra, massacra os moradores das casas a serem desocupadas e demolidas, mas sim os indeniza, de modo que poderão encontrar um novo lar. Isso não acontece nos desmatamentos – a fauna local acaba sofrendo um número incontável de mortes, uma vez que é impossível capturar e realocar populações inteiras de animais. Assim sendo, o desmatamento acaba tendo um fundo interpretavelmente especista.

Porém, fora esses dois pontos, os Direitos Animais ajudarão a salvar a biosfera, quando começarem a vedar sistematicamente a exploração animal, parando assim atividades de gravíssimo impacto ambiental. Populações de animais selvagens irão se recompor, desmatamentos darão lugar a reflorestamentos em massa – ou no mínimo à estabilização permanente das fronteiras agrícolas –, os ecossistemas fluviais, lacustres e marinhos recuperarão sua integridade…

Abaixo, resumo as boas consequências ambientais do vegetarianismo e do veganismo.

 

Veg(etari)anismo e meio ambiente

Se o mundo um dia se tornar majoritariamente vegetariano, as onerosidades e impactos ambientais abaixo serão apenas coisas do passado:

- A pesca em grande escala está ameaçando nada menos que 75% da população de peixes do mundo, segundo estudo da WWF de 2008

- Na faixa territorial oceânica brasileira, 80% das espécies mais procuradas por pescadores estão ameaçadas de extinção por causa da sobrepesca e da pesca por redes de arrasto

- 80% dos bancos de pesca mundiais estão em declínio ou esgotados

- A pesca hoje está num ritmo duas a três vezes superior à capacidade de regeneração das populações aquáticas das águas do planeta. Em tal ritmo, todas as espécies “pescáveis” terão desaparecido em 2050

- A população de peixes está diminuindo consideravelmente em diversos locais do mundo onde é pescada. A população de atum-azul diminuiu 10% em relação a meados do século 20 no Oceano Atlântico e no Mar Mediterrâneo. Na costa da Escandinávia, já foi extinta. Nas fazendas de aquicultura da Europa, caiu 25% em apenas um ano

- Pesca e pecuária estão interligadas: rações preparadas a partir de peixes representam 37% do total de peixes retirados anualmente dos oceanos; 90% dessa porcentagem são trans-formados em óleo e farinha de peixe. Dessa farinha e óleo, 46% são utilizados como alimento na aquicultura de peixes e outros 46% são destinados para ração da pecuária suína e aviária

- Das 30 espécies de tubarões pelágicos, que vivem em alto-mar, 11 correm em risco de extinção por causa da pesca que captura ora tubarões inteiros, ora suas barbatanas (nesse caso os tubarões são abandonados à morte depois de mutilados)

- A pesca profunda com redes de arrasto é capaz de levar embora, junto com os animais “pescáveis”, até 4 toneladas de corais, o que vem contribuindo para a ameaça mundial que os recifes de coral estão sofrendo

A pecuária é vista como uma das principais ameaças a 306 de 825 territórios terrestres de atenção ecológica e a 23 dos 35 hotspots de biodiversidade (áreas de alta biodiversidade que vêm sofrendo com altos níveis de degradação e desmatamento).

- Os pastos e as plantações de alimentos para ração animal – soja e milho – são os maiores vetores de desmatamento na América Latina.

- Apenas a pecuária extensiva ocupa 27% de todas as terras emersas. A América do Sul, o que inclui óbvia e principalmente o Brasil, é uma das únicas regiões onde os pastos ainda estão se expandindo. Essa expansão é fomentada, entre outros fatores, pelo crescimento da demanda da população por alimentos de origem animal.

- Entre 1994 e 2004, a área dedicada à plantação de soja mais que dobrou na América Latina, alcançando 39 milhões de hectares. Segundo a FAO/ONU, o principal responsável por essa explosão da sojicultura latino-americana foi o aumento da demanda das criações pecuárias de grande porte no leste asiático, especialmente na China.

- Um quilo de carne bovina pode requerer até 13 quilos de grãos. Um quilo de carne de cordeiro gasta 21 quilos de grãos. Um quilo de ovos de galinha, por sua vez, demanda o consumo de 11 quilos de grãos.

– A pecuária extensiva produz mais ou menos 114 quilos (Somando-se a carne vinda de duas meias-carcaças, excluindo-se a gordura) de carne aproveitável por hectare por ano, considerando-se que um boi, que normalmente ocupa um hectare de pasto, é morto com 467 quilos aos 20 meses de vida. Enquanto isso, vegetais em culturas otimizadas rendem quase sempre toneladas por hectare por ano: o trigo pode render 1.900 kg/ha·ano; a soja, 2300kg/ha·ano; o milho, 5200 kg/ha·ano.

Apenas a pecuária gasta 8% de todo o consumo humano global de água, principalmente para a irrigação de plantações destinadas a alimentar criações animais.

Em Botsuana, os animais de criação bebem 23% de toda a água consumida nacionalmente.

Produzir um quilo de proteína animal requer até 100 vezes mais água do que um quilo de proteína de grãos, podendo em alguns países e sistemas específicos requerer até absurdos 200 mil litros, considerando-se todo o gasto em irrigação de plantações para alimentação animal e a ingestão de água pelos animais.

Um quilo de carne costuma requerer cerca de 20 mil litros de água para ser produzido, enquanto um quilo de arroz ou soja requer cerca de 2 mil litros.

Cada litro de leite produzido por uma indústria tradicional de laticínios representa o despejo de um litro de efluentes (resíduos líquidos) despejados na natureza.

Em 1998, um surto de infestação de algas matou, por esgotamento do oxigênio aquático, mais de 80% dos peixes que viviam em uma área marítima de 100 quilômetros quadrados no litoral de Hong Kong e redondezas. Foi identificado que as algas se propagaram a partir da poluição orgânica lançada de criações animais de grande porte situadas naquela área do sul da China, as quais confinavam principalmente porcos e galináceos.

No mesmo ano, um estudo de 1600 poços localizados próximos a fazendas-fábrica nos Estados Unidos descobriu que 34% daqueles poços estavam contaminados por nitratos, um dos principais poluentes emitidos de resíduos da pecuária, e, dentro dessa quantidade, 10% do total de poços tinham níveis de nitratos acima dos níveis de tolerância para água potável.

Em diversos países da Ásia, 25% de toda a área agriculturável sofre contaminação com a descarga de quantidades excessivas de nutrientes, sendo a pecuária um dos principais responsáveis por essa descarga. A pecuária emite cerca de metade do fósforo excessivo que contamina essas terras.

A pecuária em 2005 já era responsável direta pela emissão de grande parte de diversos gases poluentes e alimentadores do efeito-estufa: 15% do metano, 17% do óxido nitroso e 44% da amônia globalmente emitidos pelas atividades humanas. Esses 15% de metano correspondia a nada menos que 90 milhões de toneladas anuais.

Uma epidemia de gastroenterite ocorreu na cidade de Walkerton, na província canadense de Ontario, em maio de 2000. 1300 casos, incluindo seis mortes, foram contabilizados por ingestão de água contaminada. As autoridades de saúde pública confirmaram como fonte mais evidente o despejo de estrume bovino na água.

Pelo menos 50% das emissões brasileiras de gases-estufa vêm sendo causadas pela pecuária.

Entre 2003 e 2008, a pecuária foi responsável em média por 75% do desmate na Amazônia e 56% no Cerrado.

Em 2008, a emissão total de gases-estufa pela pecuária no Brasil foi equivalente a 813 milhões de toneladas de CO2. Em 2003, ano em que o desmatamento havia sido ainda maior, foi de 1,1 bilhão.

Depois desses fatos, sequer é preciso dizer muita coisa mais sobre os benefícios do vegetarianismo e do veganismo ao meio ambiente. Não é à toa que um relatório da UNEP de 2010 enfatiza que “uma redução substancial de impactos [ambientais da produção de alimentos] só será possível com uma mudança substancial e mundial na dieta, afastando-se de produtos de origem animal” (tradução livre).

Pode-se pensar, porém, no seguinte mito: “se o vegetarianismo crescer muito nos próximos anos, não vai haver mais terra suficiente para plantar o que vegetarianos comem”, ao qual assim respondo:

A realidade é exatamente o contrário ao que o mito preconiza: se a pecuária crescer mais ainda nas próximas décadas como está previsto, haverá risco de escassez de terras. É fato que a exploração animal para fins alimentares promove um enorme desperdício de terras, alimentos vegetais e água. Se (ou melhor, quando) a pecuária entrar em declínio por causa do crescimento do vegetarianismo, cada vez menos terras serão necessárias para criar animais de forma extensiva e fornecer forragem para criações intensivas ou semiextensivas.

A terra ociosa poderá ser utilizada para fins de reflorestamento e/ou, mais provavelmente, começar a fornecer alimentos vegetais, com rendimento muito maior, para a humanidade.

A verdade é que o vegetarianismo tende a diminuir ou estabilizar a demanda global por terras aráveis, em vez de aumentá-la, já que aproveitará plantações e terras que antes a pecuária ocupava e desperdiçava.

 

Medidas individuais de hábito e coletivas de mobilização: quais as mais importantes?

Às vezes debate-se quais são as medidas mais importantes para o meio ambiente: as medidas individuais de hábito – economizar água, ser veg(etari)ano, usar lâmpadas econômicas, usar mais bicicleta quando pode dispensar o carro e o ônibus etc. – ou as coletivas de mobilização – promover Educação Ambiental, atuar em ONGs e grupos de pressão, escrever blogs ambientalistas etc.

É inegável que ambos os tipos de medidas ambientais são muito importantes, e são muitas vezes interdependentes. Mas em termos de profundidade de objetivos, quem ganha é a atitude coletiva mobilizatória. Pois essa é que é capaz de questionar a essência do capitalismo, do consumismo, da valorização do ter em detrimento do ser, do desenvolvimentismo. Essa é que tem o potencial de, praticada por um número suficiente de pessoas, revolucionar toda a sociedade, ao invés de modificar a vida de apenas alguns indivíduos.

Eu posso ser um ciclista assíduo, ser vegano, adotar em casa um sistema elétrico otimizado, entre muitos outros costumes pró-sustentabilidade, mas essas medidas, se tomadas à parte das medidas mobilizatórias, não têm sozinhas o poder de transformar a sociedade, impeli-la a abandonar o consumismo e o desejo do crescimento ilimitado, desencadear o que alguns autores idealizam como a futura Quarta Revolução Industrial – revolução tecnoindustrial que proporcionará o abandono de tecnologias e fontes de energia poluentes e a adoção generalizada de contrapartes ambientalmente amigáveis (energia renovável, limpa e segura e tecnologia de consumo otimizado e reciclante de recursos naturais).

Deixe-se claro, porém: medidas coletivas tomadas isoladamente, sem uma contrapartida individual, também são insuficientes para que o indivíduo alcance o atributo de sujeito ecológico. Acabam sendo medidas “sem moral”, incoerentes, até hipócritas, pois não adianta a pessoa reivindicar uma sociedade sustentável e transformada se suas próprias ações domésticas não dizem respeito a esse objetivo. Que moral eu teria em pregar o fim do consumismo e o repensamento ou substituição do capitalismo se fosse um creófilo inveterado que usasse o carro até para ir comprar pão?

 

Sobre o desenvolvimentismo dos governos centristas contemporâneos em Pernambuco e no Brasil

Repudio o modelo aqui adotado de “desenvolvimento”, que trata o econômico e talvez o social a pão-de-ló mas despreza e sacrifica o ambiental em suas práticas. O que adianta alcançarmos no futuro o sonhado atributo de país desenvolvido se não teremos qualquer condição de desfrutar das novas condições com integridade? Se nossos rios estarão assoreados e mortos, se os mangues terão dado lugar a portos muito poluentes, se as florestas terão sido substituídas por enormes latifúndios que enchem a balança comercial nacional com exportações? Se na prática não teremos mais direito a um ar limpo, a uma água potável saudável, a uma saúde estável, a uma qualidade de vida decente, à segurança de não sofrermos com a erosão marinha e catástrofes de origem antropoclimática?

Vislumbra-se no outrora chamado Primeiro Mundo, e até na ditatorial e poluentíssima China a passos relativamente lentos, o nascimento de um paradigma que necessariamente atrela o desenvolvimento à harmonia tecnológica e socioeconômica da população humana com o meio ambiente não humano. Vemos o Brasil, por sua vez, porém, andar no sentido oposto: aqui “desenvolvimento” ainda significa espalhar pelo país indústrias poluentes, destruir ecossistemas para expandir negócios mi ou bilionários, inflar cidades com exércitos industriais de reserva… enfim, sacrificar o ambiental para se obter ganhos econômicos e (questionáveis) benefícios sociais.

Aqui o socioambiental ainda é visto como “social X ambiental”. É o que vemos quando olhamos para Brasília, onde se aprovam retrocessos na legislação ambiental alegando-se causas “sociais” e econômicas; para Suape, onde um grande estuário está sendo paulatinamente destruído por um complexo industrial-portuário em franca expansão; para a Amazônia Legal, onde latifúndios esmagam a floresta e o Cerrado resguardados pela desculpa de que “o agronegócio é a menina-dos-olhos da balança comercial brasileira”.

E também quando observamos a nossa própria sociedade, cuja grande parte ainda acha que exigir o repensamento do modelo tradicional de desenvolvimento socioeconômico é coisa de “verdinhos ecochatos”, “paus-mandados” dos “estrangeiros interessados nos nossos (sic) recursos naturais”, que supostamente querem “na verdade” “sabotar o progresso nacional” e nos devolver ao modo de vida silvícola.

O Brasil pode até conseguir pôr os pés na categoria de país desenvolvido, mas isso, caso o paradigma público atual de destruir para crescer persista nas próximas décadas, não irá refletir de forma alguma em melhoria da qualidade de vida. Não adianta uma sociedade não ter mais pobreza econômica se sua população endinheirada não terá condição de viver com saúde e integridade, estando ao invés cercada de ameaças como o ar poluído, a água fedorenta de rios e canais e as catástrofes causadas pelas mudanças climáticas, necessitada de tecnologias dispendiosas de convivência com a poluição – como máscaras contra poluição atmosférica e medicamentos contra doenças ambientais –, privada de antigos ambientes como praias, campos naturais e trilhas florestais.

Ou pior: quando o Brasil subir de nível econômico, descobrirá à nova época que os critérios de desenvolvimento terão mudado – tendo-se passado a adotar parâmetros pró-sustentabilidade – e se verá novamente atrás dos países mais avançados. Em outras palavras, descobrirá em 2050 que a concepção de desenvolvimento vigente no século 20 – seguida pelo Brasil hoje e nesse amanhã hipotético – já foi totalmente abandonada e superada por um novo modelo.

 

Considerações finais

Este texto-teoria vai fundamentar, de hoje em diante, minhas futuras opiniões e ações relativas ao tema meio ambiente, visto que solidifica minhas convicções acerca do mesmo. Porém, não é uma bíblia pessoal, uma teoria definitiva e absoluta – não existem verdades definitivas e absolutas nas ciências humanas e na Filosofia –, estando aberta a alterações futuras, quando minhas ideias sofrerem atualizações. Ele também é aberto a discussões, críticas construtivas e contestações, visto que o embate de ideias enriquece o ideário ambiental.

Com isso, Pernambuco ganha um novo ambientalista engajado, pelo menos teoricamente. Deixo de me restringir a temas pontuais como Suape e passo a ter fundamentos precisos que me permitem opinar e atuar em muito mais assuntos de cunho ambiental – ainda que, obviamente, não sejam todos os assuntos em que eu possa deixar uma opinião formada.

Se, apesar da relativa pessoalidade deste texto, você tiver concordado e até se inspirado nele, encontrado sentido na minha teoria, seja livre para usá-la como uma das fontes de seu fundamento teórico ambientalista.

 

Notas:

[1] SOUZA, Robson Fernando Barbosa Monteiro de. Educação Ambiental: a formação do sujeito ecológico no ensino médio. Trabalho de Conclusão de Curso – Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de Pernambuco – 2009.
[2] REIGOTA, Marcos. O meio ambiente e suas representações no ensino em São Paulo, Brasil. Uniambiente, Brasília; n. 1, p. 27-30, 1991.
[3] É impróprio falar objetivamente de métodos educacionais “certos” e “errados” ou “adequados” e “inadequados”. Mas subjetivamente pode-se afirmar que há métodos de educação uns mais ou menos adequados que outros, perante critérios pessoais de juízo de valor. Lembrando que este texto é a expressão de concepções pessoais, não a tentativa de estabelecer valores objetivos ou absolutos.
[4] Sobre educação bancária, ver o livro de Paulo Freire Pedagogia do oprimido.
[5] Considere-se, ao falar de sujeito ecológico – um termo fundamental para esta pesquisa –, a definição de [Isabel] Carvalho […]: “é um ideal de ser que condensa a utopia de uma existência ecológica plena, o que também implica uma sociedade ecológica” , a descrição de seu perfil dita por Marco Antônio de Souza […] sobre postura ética de contestação da ordem social vigente  e as características sumarizadas por [Daniela Bertolucci de] Campos […], que são motivação e envolvimento pessoal, persistência, paixão/amor pela causa ambiental e superação de dificuldades. Conforme minha monografia (referência acima)