Artigo
17

jul 2015

Os protestos contra Belo Monte em 2011 foram um exemplo de interseção entre o ambientalismo e diversas bandeiras sociais. É essa interseção que eu (também) pretendo estudar e ensinar em minha carreira acadêmica

Os protestos contra Belo Monte em 2011 foram um exemplo de interseção entre o ambientalismo e diversas bandeiras sociais. É essa interseção que eu (também) pretendo estudar e ensinar em minha carreira acadêmica

Tenho a pretensão de me tornar professor universitário nas áreas de Sociedade & Meio Ambiente e Educação Ambiental – além de algum outro ramo muito politizado da Sociologia. Almejando isso, me preocupo em ler bastante teoria socioambiental e desejo frequentar eventos centrados nessa área de conhecimento. Tenho nisso, além de um propósito profissional acadêmico, fortes ideais e desejos para o meio ambiente – incluindo desde as menos tocadas matas virgens até os centros das maiores supercidades.

A utopia do ecófilo

Considero-me um entusiasmado utopista, vislumbrador de um futuro bonito que não sabemos se será de fato viável na história da humanidade. Creio na possibilidade de construirmos um mundo onde a economia humana seja solidária e igualitária, livre de hierarquias, fruto da superação do capitalismo. Nesse mundo, as atividades humanas não terão mais impactos ambientais catastróficos, e tudo será o mais sustentável possível, com pegadas ecológicas mínimas e, se possível, até alguns impactos ecológicos positivos.

Essa utopia, importante dizer, é vegana. Nela a exploração animal não será admitida. Será reconhecido como um absurdo ético tratar seres sencientes como coisas ou escravos sob propriedade humana. Com isso, produtos – incluindo alimentos – de origem animal serão apenas memórias de um passado lamentado, peças de museus.

E não existirá mais a dicotomia “cultura dominante vs. natureza dominada”. Nem ela irá mais ser usada como “justificação” moral para seres autoarrogados “da cultura” oprimirem seres considerados “próximos da natureza”.

Nisso eu tendo a crer que esse futuro não será governado por Estados. Pelo menos ainda, não me considero anarquista, mas creio que, em algum dia talvez distante, as sociedades não precisarão mais condicionar parte de suas condutas ético-morais ao controle violento vindo de uma polícia e aos ditames dos três poderes. Nessa realidade vislumbrada, a democracia será o mais literal “governo pelo/do/para o povo” possível, baseado em valores solidários, éticos, com conciliação entre o coletivo e o indivíduo.

A sustentabilidade ambiental-social-econômica será “reinante” nessa realidade sem Estados, considerando os fortes laços entre os anarquismos pró-coletivos e a harmonização entre os humanos e a Natureza não humana. Mas, nesta época de fortalecimento da direita no Brasil e outros locais do mundo, não faço ideia de como poderá haver uma transição desses pesados reinados conjuntos do Estado e do Mercado para um mundo anarquista.

Levo em conta meus sonhos utópicos quando faço meus trabalhos – blogs, canal de vídeos, colaboração em outros blogs e sites, palestras etc. E os trarei comigo para a(s) universidade(s) onde trabalharei, fazendo do meu utopismo uma das forças motrizes de minha vocação. E isso incluirá especial e carinhosamente esforços meus em prol da socialização e politização da causa ambiental.

As preocupações em minha abordagem ambiental

Algo que já vislumbro hoje é contribuir para a conscientização ambiental politizando-a consistentemente. Quero desconstruir a tradicional crença na consciência ecológica como a soma de partes individualmente preocupadas em usar menos as torneiras, economizar eletricidade, separar lixo reciclável e assinar petições.

Me impulsiono em deixar claro que consciência ambiental é muito mais do que isso. Que é principalmente ação sociopolítica coletiva contra quem lucra com a destruição dos ecossistemas, a exaustão dos recursos naturais e o incentivo ao consumismo.

Preocupo-me também em contribuir para que a tão comum postura do “Ferrou, estamos perdidos!” seja substituída pela atitude punhos-cerrados-ao-alto do “Você pode fazer algo, ou melhor, nós podemos fazer juntos”. Acredito que o alarmismo, que tanto diz que estamos a poucos minutos de um armagedom ambiental global, fracassou em sua tentativa de conscientizar as pessoas em torno da urgência da atenção às questões ambientais.

Ele não alenta as pessoas sobre ações que elas podem tomar para intervir no quadro contemporâneo. Não as reconhece como agentes políticas que possam fazer
mais do que recorrer a práticas individuais, abaixo-assinados e e-mails a parlamentares. E corre o risco de fazer um gol contra olímpico e induzir comportamentos hedonistas e alienados, baseados na crença de que “já que está tudo rumando à perdição, vou então curtir esse ‘fim do mundo’ e fazer o que me der na telha”. Portanto, creio que o melhor a fazer é empoderar sociopoliticamentr as pessoas, ao invés de bancar o “arauto do apocalipse”.

Além do mais, percebo que, apesar de ter havido muitos avanços e amadurecimentos na teoria da Educação Ambiental nessas décadas de ascensão do ambientalismo, muito se insiste ainda em tradições antiquadas de “educação ambiental minúscula”. Ainda é comum, por exemplo, a EA de uma escola ser concentrada nas disciplinas de Biologia e Geografia, enquanto matérias potenciais aliadas do meio ambiente, como Filosofia e Sociologia, ignoram sua existência. E isso começa mesmo nos cursos de licenciatura.

Por exemplo, meu atual curso de graduação, a licenciatura em Ciências Sociais na UFPE, até hoje (em minna estadia) não dedicou sequer uma página de texto, uma meia-dúzia de minutos de aula em anos, para a importância da incorporação da Educação Ambiental no ensino de Sociologia nas escolas e nas instituições de ensino superior.

Pretendo, no futuro, ajudar a mudar esse quadro. Adorarei contribuir para que o curso de Ciências Sociais na(s) universidade(s) onde ensinarei valorize a Educação Ambiental, e que ela seja devidamente conectada às bandeiras sociais e à ação política dos cidadãos.

Meus princípios éticos e sonhos me fazem vislumbrar esses objetivos em minha futura vida profissional acadêmica. Trabalharei como for preciso por uma universidade e sociedade “ambientalizadas” e pelo avanço da politização do ambientalismo. Mesmo que eu não viva o suficiente para viver na utopia com a qual sonho, ficarei feliz em saber que terei feito minha parte, a saber, induzir outras pessoas a fazerem as suas.

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