Artigo
29

abr 2016

Contradições e hipocrisias: os reacionários dizem defender determinadas bandeiras, mas são eles mesmos os maiores opositores delas

Contradições e hipocrisias: os reacionários dizem defender determinadas bandeiras, mas são eles mesmos os maiores opositores delas

Editado em 05/01/2017 às 15h57

A direita conservadora atribui a si mesma uma miríade de bandeiras e reivindicações.

Entre elas, estão a “defesa” da vida, da propriedade privada e da ordem e o “combate” à corrupção e à “decadência dos valores morais”.

Só que, se analisarmos o discurso que fundamenta cada uma dessas alegadas causas, encontraremos algo bem interessante.

Pensemos nesses cinco exemplos, em como os conservadores, dos assumidos aos que se mascaram de “liberais”, os “defendem”, e descubramos: o conservadorismo realmente é coerente com suas bandeiras?

Ou, na verdade, ela mesma viola e depreda aquilo que diz defender?

 

Analisando alguns exemplos de bandeiras conservadoras que o próprio conservadorismo atenta contra

De antemão, é preciso avisar que não estou falando aqui de casos de falso moralismo, como quando o “pró-família” trai a esposa ou o “pró-vida” força suas ex-namoradas a abortarem clandestinamente.

Minha análise, ao invés, é em cima da contradição inerente aos discursos dos conservadores assumidos – inclusos aqueles que se dizem “liberais”, mas não defendem nenhum valor social e político do liberalismo contemporâneo.

Vejamos então os cinco exemplos que mencionei na introdução. O que a direita conservadora discursa? E o que ela realmente faz?

 

A “defesa da vida humana”

Os conservadores, em especial religiosos fundamentalistas, costumam se colocar “em defesa da vida”, quando fazem suas declarações contrárias aos direitos reprodutivos das mulheres.

Porém, todo esse discurso mascara um verdadeiro ódio e desejo de destruição a milhões de vidas humanas e também o mais insensível desprezo a vidas de animais tão sencientes quanto os seres humanos.

Por exemplo, quando um conservador diz “defender a vida” ao se colocar contra o direito da mulher de optar ou não pelo aborto, ele não está defendendo nenhuma vida senciente, interessada em continuar existindo – já que embriões e fetos de até 24 semanas não sentem dor nem têm consciência formada.

O que ele está fazendo, ao invés, é proporcionar uma realidade em que morram:

  • Tanto as mulheres e meninas, por complicações no aborto clandestino, suicídio, gravidez de alto risco mantida ou algum outro fator ligado a ela estar grávida contra a vontade;
  • Como os próprios nascituros “salvos” do aborto, que, crescendo sem condições afetivas, psicológicas e/ou econômicas na família e não recebendo nenhum amparo dos contrários ao direito ao aborto, têm chances elevadas de recorrem à criminalidade e serem mortos ou pela polícia, ou pelo narcotráfico, ou por outros criminosos.

Ou seja, os “pró-vidas” são na verdade defensores e possibilitadores de milhares de mortes por ano, principalmente de mulheres, contra quem eles dedicam uma notável misoginia por serem contra os direitos reprodutivos delas.

Além disso, percebamos que a imensa maioria dos opositores do direito feminino à escolha entre continuar e interromper a gravidez é de não veganos. Ou seja, de pessoas que não se importam em pagar pela morte violenta de incontáveis animais: bovinos, porcos, coelhos, cabras e bodes, ovinos, búfalos, galinhas e frangos, perus, codornas, peixes, moluscos, crustáceos etc.

Esses são seres tão sencientes quanto os humanos, conforme atestam estudos como a Declaração de Cambridge sobre a Consciência Animal Humana e Não Humana. Ou seja, possuem emoções, sofrem e sentem dor tanto quanto nós. Mas a imensa maioria dos conservadores contrários aos direitos das mulheres não ligam nem um pouco para eles.

Em resumo, os conservadores que tanto se dizem “defensores da vida” e “escandalizados” com o “assassinato de crianças” são indiferentes à vida de seres realmente sencientes. E têm um ódio latente às mulheres e meninas já nascidas e crescidas. Sua “defesa da vida” mata, e com muito sofrimento.

 

A “defesa” da propriedade privada

Um outro exemplo clássico da contradição do discurso conservador é o apego à propriedade privada.

Por um lado, defendem-na como um direito incondicional, absoluto, supremo. Como o mais fundamental direito que o ser humano tem ou deveria ter – superior, algumas vezes, até à vida alheia.

Mas por outro, não dão a mínima para casos em que a propriedade de pessoas pobres é subtraída ou destruída ou pelo próprio Estado, por meio da polícia, da guarda municipal e das forças armadas, ou por ladrões que aderiram à criminalidade por causa da pouca atenção dada pelo governo às desigualdades sociais.

Em resumo, a direita defende a “propriedade privada” apenas em algumas situações, como quando defende os ricos – mesmo quando estes obtêm parte de seus bens de maneira ilegal – e reivindica ações violentas contra quem “rouba os cidadãos de bem”. Em muitas outras, se omite ou até mesmo apoia a subtração de propriedade.

 

A “defesa” da ordem

Um terceiro exemplo de como os conservadores violam suas próprias bandeiras é a alegada posição de defesa da ordem, seja no sentido de status quo social ou no de segurança pública.

Muitos conservadores exigem que o Estado mantenha a ordem protegida de eventuais distúrbios, como manifestações violentas, arrastões e ondas de saques, e traga segurança à sociedade contra o crime.

Mas defesas como a radicalização da violência policial, a não humanização das penitenciárias e a oficialização do extermínio de criminosos civis como política securitária tendem a não resolver o problema da violência urbana.

Pelo contrário, tornam a própria polícia uma instituição recheada de violações à lei e atentados à própria vida de pessoas inocentes, por meio do cometimento de crimes como homicídio multiplamente qualificado, racismo, tortura, constrangimento ilegal, corrupção e participação ativa no tráfico de drogas pesadas e armamentos.

Além disso, a defesa ativa de uma ordem social baseada na desigualdade e na hierarquização, sem a interferência de políticas sociais de Estado, tende a condenar a sociedade a uma situação de desordem crescente. Protestos não pacíficos, aumento da violência e perda do senso de coletividade tendem a ocorrer com força numa sociedade excessivamente desigual e individualista, inviabilizando a possibilidade de o sistema social vigente encontrar um caminho de ordem e paz.

O que se tem, no final das contas, é que a “ordem” defendida pela direita conservadora é absurdamente insustentável, e tende a se degenerar na mais caótica e violenta desordem em pouquíssimo tempo.

 

O “combate” à corrupção

A quarta bandeira conservadora a ser enfatizada aqui é o “combate” à corrupção. O caso da política brasileira é emblemático, no que se refere a usar manipuladamente a reivindicação da honestidade política para fortalecer a própria cultura de corrupção.

Uma intensa campanha de políticos conservadores e grupos militantes adeptos do neoliberalismo, entre 2014 e 2016, dizia “denunciar a corrupção” nos governos do PT, principalmente no de Dilma Rousseff. E defendeu o impeachment dela como um passo “essencial” no “combate” a esse tipo de crime.

Mas depois da aprovação do impeachment na Câmara dos Deputados, o que se viu foi o encerramento de todas aquelas grandes “manifestações contra a corrupção”. Somente em 4 de dezembro de 2016 é que a direita voltou a ocupar as ruas, mas em números muito menores do que em 13 de março daquele ano.

Viu-se muito também o silêncio ou mesmo cumplicidade de alguns movimentos de militância de direita contra políticos denunciados por corrupção (como Eduardo Cunha) ou irresponsabilidade fiscal (como Michel Temer, apontado como autor de pedaladas fiscais num passado recente). O pretexto de que se passaria a lutar contra Temer e Cunha após a derrubada de Dilma foi praticamente abandonado pela direita militante depois da derrota da presidenta na Câmara.

Ou seja, a direita usou a bandeira “anticorrupção” apenas por interesses privados, como o de instaurar um governo conservador do zero após o encerramento prematuro do mandato de Dilma.

E por meio do uso dessa causa, está não combatendo esse tipo de crime, mas sim fortalecendo a cultura de negociatas, desvios de verba e abusos de poder, perante a qual os conservadores assumidos ou se omitem, ou mesmo apoiam veladamente.

 

A “oposição à decadência moral”

A quinta e última causa reivindicada pelo conservadorismo a ser usada como exemplo é a oposição ao que se referem como “decadência moral” da sociedade. Há décadas os conservadores falam que está havendo no Brasil uma “degeneração dos valores”.

Mas quando vamos ver quais valores vemos sendo defendido por eles, encontramos pesadas intolerâncias contra múltiplas minorias políticas – mulheres, negros, pessoas pobres, LGBTs, religiosos não cristãos, ateus, pessoas de esquerda etc. – e reação com ódio a políticas de inclusão social e valorização dos Direitos Humanos.

Nesse contexto, é comum ver conservadores defendendo, por exemplo:

  • A conservação da liberdade de contar piadas preconceituosas, independentemente das consequências destrutivas delas para o outro;
  • A desvalorização do meio ambiente;
  • A consolidação do ódio como valor social e político;
  • A valorização do desrespeito e da hipocrisia como costumes morais;
  • A superioridade da intolerância sobre o respeito;
  • A supremacia do egoísmo e da compaixão seletiva sobre a ética;
  • A discriminação e subjugação das minorias políticas;
  • O desprezo à democracia;
  • O repúdio aos direitos fundamentais dos seres humanos etc.

Esses são alguns dos tais “valores não decadentes” dessa parcela da direita brasileira, pelo que parece.

Nesse contexto, os argumentadores de que a sociedade brasileira está vivenciando uma “decadência moral” estão eles mesmos defendendo valores profundamente antiéticos e cada vez mais reconhecidos como imorais.

Em outras palavras, a “degeneração da moralidade” está nos próprios conservadores, que têm promovido o agravamento da violência, da incivilidade, do autoritarismo e da intolerância no Brasil e consentido a degeneração da qualidade de vida da grande maioria dos brasileiros com o encolhimento das políticas sociais e dos investimentos públicos.

 

Considerações finais

Esses são apenas cinco exemplos, dentre um universo de literalmente dezenas, de como a própria direita conservadora erode os valores e causas que diz defender.

Afinal, não é de se esperar que algo realmente edificador e modificador da realidade surja de uma ideologia que, desde o século 18, tem em sua essência a reação violenta, a negação exacerbada, contra o desenvolvimento social da maioria da população e a conservação da ordem vigente.

Se naquela época os conservadores se sentavam à direita do rei para impedir os avanços políticos e sociais defendidos no Iluminismo, hoje ocupam as redes sociais para declarar seu ódio ao progresso social e a qualquer política pública que vise diminuir as desigualdades de classe, raça e gênero e combater a discriminação.

Nessa ordem de coisas, o conservador, quando diz “defender” algo, promove na verdade uma oposição, uma negação, uma tentativa de reprimir um progresso que se opõe ao que esse ideário pensa e crê.

Portanto, não esperemos que os conservadores tentem construir uma sociedade nova. Sua proposta, no fundo, consiste em reverter avanços e devolver a sociedade ao estado de coisas anterior, nem que seja por meio de violência e destruição e quebrando aquilo que dizem estar defendendo.

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10

mar 2016

projecao

Existe na direita brasileira um costume muito enraizado de atribuir aos adversários político-ideológicos desqualidades e problemas que na verdade são dela mesma. Autoritarismo, cumplicidade com a corrupção, defesa de que os trabalhadores deem seu dinheiro para quem supostamente não trabalha… São incontáveis os exemplos da chamada projeção psicológica, que evidenciam como brasileiros de direita são adeptos aficionados desse tipo de atitude. (mais…)

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31

dez 2015

Em cruzamentos com semáforos quebrados ou desligados, muitos "amantes da educação japonesa" partem para o "cada um por si" e mostram que não estão interessados em ver o Brasil abraçar o senso de respeito ao próximo como tradição moral-cultural

Em cruzamentos com semáforos quebrados ou desligados, muitos “amantes da educação japonesa” partem para o “cada um por si” e mostram que não estão interessados em ver o Brasil abraçar o senso de respeito ao próximo como tradição moral-cultural

Às vezes, nas redes sociais, compartilhamos imagens e vídeos que se rasgam de elogios ao povo japonês, por ter uma tradição moral de disciplina e bons modos muito forte. O problema é que, ao mesmo tempo em que tanto admiramos os japoneses, nós mesmos promovemos no Brasil os mais bizarros atos de má educação e falta de respeito. (mais…)

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04

dez 2015

ocupacoes-e-protestos-estudantis-coxinha-dormindo

Atualizado em 05/12/2015 às 00h19, com adição do Instituto Liberal e do IL de São Paulo

De vez em quando a direita brasileira, por meio de algumas páginas, usa discursos do tipo “Queremos mais educação”, “A educação vai transformar o Brasil” e outras supostas defesas do ensino básico e universitário. Mas dezembro de 2015 tem sido um mês em que o pessoal formador de opinião desse lado do espectro político no Brasil mostrou que na verdade não está nem aí para a situação dos alunos de escolas públicas brasileiras. (mais…)

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24

nov 2015

Imagem reacionária "critica" Cuba, onde há um dos regimes não direitistas mais odiados pela direita no Brasil, com possível imagem falsa

Imagem reacionária “critica” Cuba, onde há um dos regimes não direitistas mais odiados pela direita no Brasil, com possível imagem falsa

É extremamente comum pessoas de direita, em especial conservadores e livre-mercadistas, declararem seu horror e aversão a regimes ditos “comunistas”, como os que governam ou governavam Cuba, Venezuela, Bolívia, Coreia do Norte, a China antes de Deng Xiaoping e a antiga União Soviética. Argumentam que não toleram tais governos por serem autoritários e avessos às liberdades individuais. Mas se observarmos bem, isso nada mais é do que um pretexto de fachada e não implica que essas pessoas realmente sejam opositoras incondicionais do autoritarismo, da não liberdade e da perseguição política. (mais…)

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03

out 2015

fhc-crise-desemprego

Que o estado de coisas atual na política brasileira é vomitoso, isso todo mundo já sabe, da esquerda mais revolucionária à direita mais fanática. Mas de vez em quando, apesar de situação tão desesperançosa, ainda é possível espremer suco de uva da pedra e dar boas risadas em alguns momentos do cenário político. O talvez melhor exemplo atual é o programa partidário do PSDB, que foi veiculado na TV aberta no final de setembro e pode ser visto novamente no YouTube. (mais…)

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03

ago 2015

Seu desejo pelo fim da corrupção no Brasil é abrangente e imparcial? Ou é apenas uma fachada para tentar justificar a remoção forçada do PT do poder em Brasília?

Seu desejo pelo fim da corrupção no Brasil é abrangente e imparcial? Ou é apenas uma fachada para tentar justificar a remoção forçada do PT do poder em Brasília?

Editado em 03/08/15 às 22h33

É corriqueiro hoje vermos pessoas, ou percebermos nós mesmos, argumentando que o Brasil – com destaque para o Congresso e o governo federal – está “afundado na corrupção” e que o povo precisa voltar às ruas o quanto antes para exigir moralidade na política. Mas é de se perguntar: será que todas as pessoas que dizem isso realmente querem o fim da corrupção no Brasil? (mais…)

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27

mar 2015

Quem se

“Quem se cala é omisso e cúmplice.” Isso se aplica muito mais à direita antipetista do que ao próprio PT.

A Operação Lava Jato tem sido cada vez mais vista como uma oportunidade, nunca antes vista, de passar a limpo o funcionamento da política representativa no Brasil. E a direita, em especial conservadores e neoliberais, partidários ou não, tem sacudido muito, verbalmente falando, a bandeira do “combate à corrupção” e da “moralidade”. Mas uma observação crítica da realidade nos mostra que essa “direita anticorrupção” está arruinando, e não fazendo valer, essa chance do país de rever os fundamentos de seu sistema político. (mais…)

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22

fev 2015

coxinha-revoltado

Caso não queira ler o texto de introdução, clique aqui para ir direto às pérolas

Editado e atualizado em 24/02/15 às 14h45

TW (aviso): Algumas pérolas contêm capacitismo, incitação à perseguição política contra petistas, racismo velado, “legitimação” da perseguição política promovida pela ditadura militar, menção apoiadora à tortura de perseguidos políticos da época e incitação política ao medo

Obs.: Este post não defende o PT, nem o isenta das acusações de corrupção e mau governo. Há vida além da (falsa) dicotomia PT X PSDB.

Desde novembro do ano passado, está em evidência no Brasil uma outra página facebookiana de “politização contra corrupção”: os Revoltados Online (não divulgo links de páginas reacionárias, mas é fácil de encontrar essa página na barra de pesquisa do Facebook). Seu maior, senão único, propósito é expulsar o PT do governo federal, (às vezes) tentar cassar também o vice-presidente Michel Temer e abrir as portas a novas eleições presidenciais, que na prática seriam o terceiro turno das eleições de 2014 vencidas por Dilma Rousseff. Tudo sob o pretexto de “estar lutando contra a corrupção”. (mais…)

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25

ago 2014

bandido

É recorrente uma situação estrelada por muita gente que demanda soluções conservadoraspara problemas como violência urbana e corrupção política. Quando sofrem ou tomam conhecimento de um crime como um assalto à mão armada ou um flagra de corrupção vindo de um político do PT, vociferam pelo enrijecimento radical da lei penal vigente. Pedem por mais força policial, penas prisionais mais compridas, pena de morte, prerrogativa para policiais de matar criminosos pegos em flagrante. Mas na primeira oportunidade que aparece de mandarem a própria lei às favas para fins como vingança e descarrego de ódio, o fazem, seja promovendo, demandando, apoiando ou consentindo a violação legal. (mais…)

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