
Originalmente postado no Dia Internacional da Mulher de 2011, no link http://consciencia.blog.br/2011/03/uso-generico-da-palavra-homem-por-e-uma-polemica.html. Atualizado em 22/05/2013
Nos livros e discursos engajados no combate à opressão contra parcelas minoritárias ou majoritárias da humanidade (e contra os animais não-humanos também), vemos uma outra opressão triunfando despercebida e impune. Algo hoje em dia mais simbólico do que prático, é verdade, mas emblemático a ponto de não poder ter sua relevância reduzida a zero. Esse símbolo de dominação e exclusão tem cinco letras e as feições masculinas de um homem.
Mesmo sem perceber, até aquelas personalidades – muitíssimas delas mulheres – muito engajadas em buscar a igualdade entre todos os sujeitos morais acabam consentindo e aceitando tacitamente – e inconscientemente? –, mesmo que numa perspectiva simbólica, o dogma de que os homens são os seres humanos por excelência, o centro da humanidade, os únicos dignos de nomear a espécie humana. Desde a Idade Média, existe o vício de chamar a humanidade pelos seus representantes masculinos.
História da palavra “homem”
Até a origem desse costume, o macho não necessariamente nomeava a humanidade na sociedade ocidental, embora já arrogasse superioridade social sobre as mulheres. A palavra homem de fato tem raízes em cognatos antigos que significavam não especificamente o masculino, mas o todo humano – homo e mann, exemplos mais importantes, significavam “ser humano” mesmo. O que quer dizer que o cada vez mais polêmico vocábulo foi corrompido, não deliberadamente promovido, pela androcracia europeia e judaico-cristã.
O cristianismo e o pensamento grego, deduz-se, foram críticos em influenciar a masculinização dessa representação social da espécie humana, já que a Bíblia (especialmente em Gênesis) e filósofos como Platão e Aristóteles consideravam a mulher, respectivamente, apêndice e versão degenerada do macho.
Na Bíblia, Adão, o Homem (adm = homem em hebraico), o masculino, imagem e semelhança do Deus Pai, teve seu nome promovido a denominador de toda a espécie humana – dali em diante, o masculino nomearia o conjunto que englobava humanos machos e fêmeas [1]. Mesmo antes dessa nomeação “oficial”, o macho (Adão) era o primeiro ser humano, e precisava de um(a) ajudante. Como nenhum animal se adequava como braço-direito dele, veio a mulher, sua mulher – assim nomeada “porque foi tomada do homem” –, a partir da costela masculina. [2]
Na sociedade grega clássica, o homem era o ser humano padrão desde a mitologia pagã local, segundo a qual os primeiros humanos eram homens e a primeira mulher, Pandora, veio como castigo de Zeus e era uma desgraça personificada. Platão “confirmou”, na obra Timeu, que os homens eram os primeiros seres humanos e as mulheres teriam surgido depois como uma “mutação degenerativa” em cujos corpos os homens covardes reencarnavam [3]. Aristóteles radicalizou e teorizou que que “a inferioridade [da mulher] é sistemática em todos os planos – anatomia, fisiologia, ética –, corolário de uma passividade metafísica” [4].
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