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15

mar 2011

Para o Diario de Pernambuco, o que importa nos protestos são as consequências no trânsito e no comércio, nunca realmente as causas da revolta popular a movê-los. A implicação do jornal é mais uma vez vista na edição de 15 de março de 2011, na qual se queixa dos engarrafamentos, das demoras dos ônibus e dos transtornos no funcionamento do comércio do Centro do Recife e deixa-se em segundo plano o que motivou a manifestação do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto.

O Diario mantém sua tradição de deixar a cidadania e a democracia de lado em nome da ordem social tão aclamada pela direita conservadora e pelos brasileiros despolitizados em detrimento do direito à manifestação popular da insatisfação do povo com os problemas e opressões a que é submetido. Torna o tráfego de veículos muito mais importante do que a situação vulnerável dos sem-teto, desprovidos da garantia do direito à moradia e obrigados a ocupar prédios ociosos por não terem um lar que possam habitar e chamar de seu.

Cerca de dois terços da notícia foram reservados para falar das consequências negativas do protesto dos sem-teto à ordem do comércio e trânsito locais, repetindo a imagem, vista na época dos protestos contra o aumento das passagens de ônibus, de que as passeatas de rua são o lado inconveniente e intolerável da democracia brasileira. E novamente omitiu-se quem apoiou o protesto dos necessitados de moradia, dando-se destaque total a quem se queixou da temporária e parcial antiordem estabelecida.

Curiosamente essa preocupação enorme com a tal da ordem não foi vista no Carnaval. Nesse, a cobertura da festa foi exaltante ao máximo nas várias edições do jornal no feriadão, e comparativamente muito pouco se falou dos transtornos da festança à vida dos não-foliões e de muitos dos próprios foliões, ambos os quais precisaram usar as delegacias, hospitais, ônibus etc., serviços lotados ou mesmo danificados (no caso dos ônibus) pela quantidade de gente que brincava o carnaval e tornados ainda mais precários, quase indisponíveis, para quem preferiu ficar em casa, de fora da festa. Ou seja, quando é uma festa que faz o povão esquecer seus problemas e opressões, a postura é exaltar o evento. Quando é um protesto em prol de direitos e de justiça, a atitude é cascavilhar e repudiar tudo o que é ruim nele, ignorando a nobreza da sua causa.

Diz-se que o jornal tem o direito a manifestar sua opinião, mas seria decente se fosse apenas isso – uma opinião particular, não um esforço de manipular e influenciar os leitores a adotar a visão de mundo dos proprietários do jornal, conservadora e adepta de uma democracia apenas parcial. Bom seria se essa imprensa opinasse à sua maneira, mas sem fazê-lo em forma de tendenciosidade, parcialidade descarada e desprezo ao outro lado do fato (no caso, a legítima necessidade dos sem-teto e a solidariedade dos trabalhadores possuidores de lar para com eles).

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