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abr 2011

Pouco mais de um ano e dois meses depois do assassinato de Alcides do Nascimento, foi a vez de Fernanda Mateus. Em ambas as vezes, os grandes jornais de Pernambuco expuseram, de forma amplificada, toda a dor não só de família e amigos das duas vítimas da violência urbana que castiga a população. Inflamaram a indignação da sociedade. Fizeram-na se revoltar ainda mais com o constante clima de insegurança e a incerteza se vai voltar para casa são e salvo. Mas isso tem um outro lado.

Quando o povo, ou pelo menos uma pequena fração dele, vai às ruas para externalizar sua insatisfação com o estado de coisas, o qual inclui o “mando” dos bandidos e a perspectiva de se perder mais outros Alcides e Nandas, parte dos mesmos jornais que o incitaram à revolta passam a criticar a ação dos próprios revoltados.

Em outras palavras, os mesmos jornais que incham o povo com notícias ardentes e revoltantes não o deixam estourar. Incitam a revolta com um motivo, mas não deixam que as pessoas se revoltem nas ruas com essa mesma causa. E isso talvez se aplique a qualquer situação, desde os jovens que a bandidagem mata até a passagem de ônibus que aumenta. O que, afinal, querem de nós?

Megafonam nos nossos ouvidos que é inadmissível deixar mais jovens morrerem por força das armas, que a exclusão social é uma doença da sociedade ou que o aumento das passagens não é algo tolerável. Mas se voltam contra nós quando protestamos nas ruas a gritar que não toleramos aumentos de preços e assassinatos, que não queremos mais atos estatais pró-exclusão – vide a expulsão dos ambulantes do Centro do Recife – ou que queremos segurança pública com mais poder de ação.

Ainda não tivemos manifestações nas ruas contra o fim que levam Nanda, Alcides e centenas de outros que deixaram de ter uma vida toda pela frente, mas nos exemplos que existiram – o aumento das passagens de ônibus e a limpeza social anticamelô de diversas ruas do centro recifense –, o Diario de Pernambuco, exemplo mais nítido dessa atitude contraditória, reprimiu ideologicamente os protestos causados pelas notícias que ele próprio veiculou (não exclusivamente).

Alusões enormes aos engarrafamentos e à insatisfação de parte da população pela interrupção do trânsito. Atenção ínfima e com muita má vontade às razões dos estudantes e trabalhadores que foram às ruas contra o reajuste e a expulsão. Só faltou chamar os manifestantes de “baderneiros” e “vagabundos” e incitar a polícia à repressão deliberada em prol da “ordem”.

Diante desse comportamento manipulador, anticidadão e até antidemocrático, me pergunto se o DP vai usar esse mesmo comportamento contra, digamos, os estudantes de universidades que hipoteticamente forem à Avenida Conde da Boa Vista exigir segurança e punição máxima contra os assaltantes e assassinos de universitários como os dois citados acima.

É aí que me pergunto: se formos às ruas para reagir contra o destino dos assassinados com que essa imprensa escrita nos faz compadecer, será que ela vai se voltar contra nós de novo? Será que esse inchaço jornalístico dos crimes que chocam a sociedade é para mobilizar somente as autoridades, não também a população?

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